{"id":606,"date":"2024-03-04T20:37:27","date_gmt":"2024-03-04T20:37:27","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=606"},"modified":"2025-11-12T18:02:10","modified_gmt":"2025-11-12T21:02:10","slug":"606","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=606","title":{"rendered":"A espera do nunca mais: uma saga amaz\u00f4nica"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#d9d9d9\">SENA, Nicodemos. <em>A espera do nunca mais<\/em>: uma saga amaz\u00f4nica. Bel\u00e9m: Cejup, 1999.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Nath\u00e1lia Melo de Oliveira<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Cl\u00e1udio Rodrigues<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A espera do nunca mais: uma saga amaz\u00f4nica<\/em> foi escrita por Nicodemos Sena (Santar\u00e9m, PR, 1958), jornalista e bacharel em Direito, nascido e criado no Par\u00e1, pr\u00f3ximo da divisa com o Amazonas. O autor, que passou grande parte de sua inf\u00e2ncia e juventude convivendo com ind\u00edgenas e caboclos, privilegia esses povos em seu romance, trazendo-os como personagens centrais da narrativa. O livro foi publicado pela primeira vez em 1999 e ganhou uma reedi\u00e7\u00e3o em 2002, depois de receber o Pr\u00eamio Lima Barreto\/Brasil 500 anos, da Uni\u00e3o Brasileira de Escritores. Em 2020, foi republicado em um momento muito oportuno da hist\u00f3ria do Brasil, j\u00e1 que, assim como na narrativa, os povos ind\u00edgenas e o direito \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o de suas terras voltavam a ser tema de grande debate.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A edi\u00e7\u00e3o de 2020 traz um texto escrito em uma tonalidade marrom, o que d\u00e1 a impress\u00e3o de que as palavras levam o leitor para o meio da terra da floresta amaz\u00f4nica. As mais de mil p\u00e1ginas de hist\u00f3rias trazem uma narrativa fluida, curiosa e necess\u00e1ria para a literatura brasileira, pois \u00e9 um registro da hist\u00f3ria de povos ind\u00edgenas e do povo nortista. Ademais, a narrativa coloca um holofote na revolta dos cabanos, que aconteceu no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX na prov\u00edncia do Gr\u00e3o-Par\u00e1 \u2013 regi\u00e3o que hoje compreende o estado do Par\u00e1. O autoritarismo dos governantes regentes, a revolta armada e a exig\u00eancia de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida por parte dos cabanos se assemelham muito ao cen\u00e1rio do pa\u00eds durante a ditadura militar, e Nicodemos Sena conecta as caracter\u00edsticas desses dois momentos da hist\u00f3ria brasileira durante toda a narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O romance \u00e9 dividido em tr\u00eas partes e cada uma \u00e9 subdividida em cap\u00edtulos curtos. Todas as partes s\u00e3o contadas por um narrador em terceira pessoa, que por vezes conversa com o leitor. Contudo, cada parte do livro d\u00e1 enfoque para espa\u00e7os e personagens diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira parte destina-se a contar a hist\u00f3ria de Gede\u00e3o, Diana e sua tribo, que vivem \u00e0s margens do rio Mar\u00f3. Gede\u00e3o \u00e9 um tapuio que tem como genitores dois ind\u00edgenas que viviam na regi\u00e3o do Nambu, na vila dos Batistas \u2013 vila ao norte do rio Mar\u00f3. Quando era muito pequeno, o pai de Gede\u00e3o foi morto por Estefano Barbosa (homem que, posteriormente, tornaria-se padrinho do tapuio) e a m\u00e3e, Lazinha, foi arrancada de sua terra e abusada sexualmente, at\u00e9 a morte, por Estefano. A m\u00e3e de Gede\u00e3o era tamb\u00e9m m\u00e3e de Diana e Mica (estes dois eram filhos de Estefano com Lazinha). Por muito tempo, Gede\u00e3o acreditou que os pais tinham morrido de interfer\u00eancias da natureza em suas vidas (a m\u00e3e teria morrido no parto e o pai picado por cobra) e n\u00e3o por interm\u00e9dio das a\u00e7\u00f5es de seu padrinho. Gede\u00e3o e Diana cresceram na regi\u00e3o do rio Mar\u00f3 e demoraram a descobrir que eram irm\u00e3os. Antes de saberem disso, tinham uma rela\u00e7\u00e3o de irmandade que beirava um romance. Nessa parte do livro, as hist\u00f3rias de como Estefano chegou na comunidade e come\u00e7ou as primeiras conversas com os tapuios de l\u00e1 \u00e9 revelada: o homem chegou em um barco oferecendo cacha\u00e7a em troca da farinha produzida pelos tapuios. Com a intensa troca, a abstin\u00eancia de sabedoria sobre o sistema monet\u00e1rio e a explora\u00e7\u00e3o de Estefano, a depend\u00eancia alco\u00f3lica dos ind\u00edgenas se estabeleceu. Estefano os controlava em um sistema de trabalho muito parecido com o da escravid\u00e3o vivida pelos ind\u00edgenas brasileiros na chegada dos portugueses em suas terras. Gede\u00e3o, afilhado de Estefano, \u00e9 tomado como homem de confian\u00e7a do branco e, por vezes, \u00e9 poupado de suas grosserias e atos violentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira parte do livro tamb\u00e9m se dedica a contar v\u00e1rias hist\u00f3rias dos povos ind\u00edgenas (como a da Iara, Curupira, Tup\u00e3 etc.) e a import\u00e2ncia dos elementos da natureza para seus povos.&nbsp;A relev\u00e2ncia dos registros dessas hist\u00f3rias \u00e9 imensa, visto que elas podem se perder no tempo por serem majoritariamente orais. Al\u00e9m disso, \u00e9 poss\u00edvel conhecer um pouco sobre o cotidiano, as cren\u00e7as e as percep\u00e7\u00f5es da vida de um povo ind\u00edgena. Inclusive, as situa\u00e7\u00f5es vividas pelos ind\u00edgenas mostram a periculosidade da inser\u00e7\u00e3o da cultura branca nessas comunidades ind\u00edgenas, bem como das cren\u00e7as e dos valores crist\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante uma boa extens\u00e3o da leitura da primeira parte, \u00e9 praticamente imposs\u00edvel estabelecer exatamente o tempo da narrativa \u2013 exceto pela diferen\u00e7a entre o dia e a noite. Essa escolha do autor leva o leitor a acreditar que a hist\u00f3ria se passa no in\u00edcio do s\u00e9culo XVI, pela semelhan\u00e7a entre a chegada e as intera\u00e7\u00f5es do homem branco com os tapuios e a chegada das primeiras navega\u00e7\u00f5es portuguesas em terras brasileiras. Contudo, no final dessa parte, um aparelho de r\u00e1dio \u00e9 trazido para a comunidade ind\u00edgena e \u00e9 poss\u00edvel entender que a hist\u00f3ria se passa durante a Ditadura Militar no Brasil. A presen\u00e7a de Eduardo, estudante que fugia da repress\u00e3o do regime militar, confirma o tempo em que a hist\u00f3ria se d\u00e1. Al\u00e9m disso, para explicar como chegou at\u00e9 a comunidade ind\u00edgena que vivia \u00e0s margens do Mar\u00f3, Eduardo teve de explicar aos tapuios um pouco sobre como o regime funcionava, como a viol\u00eancia era a arma utilizada para disseminar pensamentos contr\u00e1rios ao governo e quais eram as problem\u00e1ticas do sistema trabalhista do momento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A segunda parte inicia com a chegada de Dora, filha de Estefano, em Bel\u00e9m. A mo\u00e7a est\u00e1 nos primeiros anos do curso superior e conhece o estudante de Direito, Juli\u00e3o. Ele \u00e9 um caboclo da ilha de Maraj\u00f3 que vive na casa dos Alarico e trabalha no armaz\u00e9m do sr. Alarico. Quando ainda estava na escola, Juli\u00e3o j\u00e1 se interessava por pol\u00edtica e filosofia, participava de um gr\u00eamio estudantil e de um grupo secreto que discutia a\u00e7\u00f5es e organizava protestos pela democracia. Por trabalhar no armaz\u00e9m de seu anfitri\u00e3o, as rela\u00e7\u00f5es trabalhistas entre Juli\u00e3o e o sr. Alarico s\u00e3o t\u00e3o injustas quanto a dos tapuios e Estefano \u2013 narradas na primeira parte do livro. A intensa atividade do gr\u00eamio e do grupo de que Juli\u00e3o participava estendeu-se para a universidade e acabou chamando a aten\u00e7\u00e3o de Dora, que tamb\u00e9m come\u00e7ou a fazer parte da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A segunda parte do livro dedica-se quase que exclusivamente a contar sobre as viv\u00eancias de Juli\u00e3o, tendo como cen\u00e1rio a ditadura militar, o uso da viol\u00eancia e a resist\u00eancia nortista. Desse modo, Nicodemos Sena tira a aten\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do centro-sul do pa\u00eds durante os anos de repress\u00e3o e mostra seu percurso e desdobramentos no Norte do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A terceira e \u00faltima parte do livro entrela\u00e7a os espa\u00e7os e personagens das partes anteriores. Dora, j\u00e1 professora, vai at\u00e9 a Vila dos Batistas \u2013 onde Gede\u00e3o e seus amigos moram agora \u2013 para ensinar os ind\u00edgenas a ler e a escrever, al\u00e9m de formar resist\u00eancia contra as a\u00e7\u00f5es violentas de seu pr\u00f3prio pai. Dora est\u00e1 casada com Juli\u00e3o, que agora \u00e9 um advogado burgu\u00eas, e vai at\u00e9 a comunidade a pedido de padre Alfredo. Durante essa terceira se\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma amea\u00e7a de que Estefano invada as terras da Vila dos Batistas e mate e\/ou force os ind\u00edgenas a voltar para as margens do rio Mar\u00f3 para trabalhar na constru\u00e7\u00e3o e no funcionamento da usina que ele instalara na regi\u00e3o. Essa parte da narrativa remonta a discuss\u00f5es j\u00e1 mencionadas nas partes anteriores como: o uso de armas, a viol\u00eancia, a interfer\u00eancia dos brancos em comunidades ind\u00edgenas, as hist\u00f3rias ind\u00edgenas e o saudosismo \u00e0 revolta da Cabanagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, h\u00e1 um gloss\u00e1rio com termos ind\u00edgenas e locais que est\u00e3o presentes ao longo do texto, al\u00e9m de alguns artigos sobre a hist\u00f3ria do livro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SOUZA, Luiz Eduardo Correia de (2022). <em>A subvers\u00e3o cabocla no romance <\/em>A espera do Nunca mais: uma saga amaz\u00f4nica<em>, de Nicodemos Sena. <\/em>Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Estudos Liter\u00e1rios) \u2013 Universidade Federal de Rond\u00f4nia, Porto Velho. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/ri.unir.br\/jspui\/bitstream\/123456789\/3845\/1\/Disserta%c3%a7%c3%a3o.pdf\">https:\/\/ri.unir.br\/jspui\/bitstream\/123456789\/3845\/1\/Disserta%c3%a7%c3%a3o.pdf<\/a>. Acesso em: 8 fev. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ORTIZ, Iza Reis Gomes; ALBUQUERQUE, Gabriel Arcano Santos de (2016). Sistemas e subsistemas interdisciplinares na obra <em>A espera do nunca mais: uma saga amaz\u00f4nica<\/em>, do escritor Nicodemos Sena: uma proposta de an\u00e1lise. <em>Revista de Estudos de Literatura, Cultura e Alteridade \u2013 Igarap\u00e9<\/em>, Porto Velho, v. 1, n. 2, p. 150-164. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.unir.br\/index.php\/igarape\/article\/view\/2220\/1826\">https:\/\/periodicos.unir.br\/index.php\/igarape\/article\/view\/2220\/1826<\/a>. Acesso em: 8 fev. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-3076.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-3076\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Kotter-Editorial-2020-3.webp\" data-caption-title=\"Kotter Editorial, 2020\" data-attachment-id=\"1898\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Kotter Editorial, 2020\" width=\"250\" height=\"375\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2024\/03\/Kotter-Editorial-2020-3\/3032266783.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22375%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20375%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Kotter Editorial, 2020<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SENA, Nicodemos. 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