{"id":4813,"date":"2025-04-14T09:59:24","date_gmt":"2025-04-14T12:59:24","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4813"},"modified":"2025-11-12T18:02:30","modified_gmt":"2025-11-12T21:02:30","slug":"tocaia-grande","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4813","title":{"rendered":"Tocaia Grande"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">AMADO, Jorge.<em> Tocaia Grande: a face obscura. <\/em>Rio de Janeiro: Record, 1984.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Rita Olivieri-Godet<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: M\u00e1rcio Vaccari<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A obra de Jorge Amado (Itabuna, BA, 1912 \u2013 Salvador, BA, 2001) reavalia as ra\u00edzes hist\u00f3ricas da na\u00e7\u00e3o, denunciando o uso manipulador que as elites hegem\u00f4nicas fazem da superposi\u00e7\u00e3o entre territ\u00f3rio geogr\u00e1fico e espa\u00e7o de identidade constru\u00eddo segundo a ideologia nacionalista e os valores que sustentam seus interesses de classe. Nela est\u00e3o registradas as marcas do autoritarismo, especialmente nos per\u00edodos da Era Vargas (1930-1945) e da Ditadura Militar (1964-1985), per\u00edodos de crise nos quais se observa facilmente a recrudesc\u00eancia da ideologia nacionalista. As facetas rural e urbana da fic\u00e7\u00e3o amadiana, a primeira voltada para uma cartografia cultural do sul da Bahia, retra\u00e7ando as complexas rela\u00e7\u00f5es entre a hist\u00f3ria humana e as transforma\u00e7\u00f5es ambientais, a segunda sondando as consequ\u00eancias desastrosas de uma modernidade urbana excludente, desmistificam as bases da ideologia nacionalista que projeta a imagem de uma na\u00e7\u00e3o pacificada e integrada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00daltimo romance da saga do cacau iniciada com <em>Cacau<\/em> (1933) \u2013 \u00e0 qual se seguiram <em>Terras do sem fim<\/em> (1943) e <em>S\u00e3o Jorge dos Ilh\u00e9us<\/em> (1944) \u2013, <em>Tocaia Grande<\/em> (1984) encena a viol\u00eancia sist\u00eamica que perpassa a forma\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o brasileira, destacando o processo de migra\u00e7\u00e3o e os conflitos agr\u00e1rios relacionados com a transforma\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o rural em espa\u00e7o urbano. A saga romanesca toma como refer\u00eancia espacial o sul da Bahia e a sua realidade sociocultural vivenciada por um autor que reivindica um v\u00ednculo indissoci\u00e1vel entre o homem, a obra e o contexto hist\u00f3rico no qual est\u00e3o inseridos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Tocaia Grande<\/em> explora a tem\u00e1tica da luta pela posse da terra e dos deslocamentos migrat\u00f3rios no Brasil, situando o enredo no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Num primeiro n\u00edvel de leitura, a narrativa designa, antes de tudo, \u201ca grande emboscada\u201d para liquidar politicamente o rival do coronel Andrade, importante propriet\u00e1rio da regi\u00e3o das grandes planta\u00e7\u00f5es de cacau. A emboscada \u00e9 montada por Nat\u00e1rio da Fonseca, ex-jagun\u00e7o que se torna o homem de confian\u00e7a do coronel Andrade. Assim, sob o signo da viol\u00eancia, nasce \u201co lugar\u201d Tocaia Grande, que pouco a pouco se transforma em \u201cponto de pernoite\u201d de mercadores ambulantes que circulam nas fazendas e come\u00e7a a atrair a aten\u00e7\u00e3o de toda esp\u00e9cie de proscritos sociais, prostitutas, bandidos, ciganos, retirantes nordestinos, descendentes de escravos. Essa comunidade de marginalizados consegue se organizar segundo suas pr\u00f3prias leis. Tocaia Grande prospera e se torna um lugarejo, depois um povoado cada vez mais importante. Despertar\u00e1 assim a avareza das elites da regi\u00e3o do sul da Bahia, estabelecidas nos centros urbanos, que n\u00e3o hesitam em massacr\u00e1-la, em nome da lei, para domin\u00e1-la. Renasce ent\u00e3o sob o nome de Iris\u00f3polis, mas Jorge Amado nos conta as origens humildes, populares e fraternas, a hist\u00f3ria dos vencidos, a face obscura, escondida, de Iris\u00f3polis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O narrador-cronista constr\u00f3i sua narrativa com o objetivo de afirmar e reavaliar de maneira positiva a origem marginal e popular de uma coletividade que o poder hegem\u00f4nico quer relegar ao esquecimento. Por conseguinte, seu discurso procurar\u00e1 revelar a face frequentemente escondida e esquecida da hist\u00f3ria, inaugurando uma \u201cpalavra transgressiva\u201d que pretende se contrapor ao projeto que legitima a \u201cpalavra exclusiva\u201d da vers\u00e3o oficial. Assumindo-se como uma cr\u00f4nica das origens, a narrativa de <em>Tocaia<\/em><em> <\/em><em>Grande<\/em> se contrap\u00f5e ao mito fundador que dissimula a opress\u00e3o e a discrimina\u00e7\u00e3o. O tema da viol\u00eancia parindo a hist\u00f3ria est\u00e1 no centro do romance e a dimens\u00e3o simb\u00f3lica do termo faz alus\u00e3o \u00e0 grande emboscada que a hist\u00f3ria arma contra a utopia: a morte de Tocaia Grande para que Iris\u00f3polis possa surgir sem, no entanto, nascer para a vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tocaia Grande, descrita como um lugar excepcional pela sua beleza ser\u00e1 tamb\u00e9m pela viol\u00eancia que marca sua entrada no tempo hist\u00f3rico. O romancista dedica-se a contar o nascimento dessa comunidade e sua evolu\u00e7\u00e3o, sublinhando o abismo existente entre uma forma de organiza\u00e7\u00e3o social local, baseada nas experi\u00eancias e trocas do quotidiano, e uma ordem nacional exclusiva, assentada nos paradigmas do progresso e da modernidade. Assim procedendo, favorece uma reflex\u00e3o sobre \u201ca condi\u00e7\u00e3o temporal da rela\u00e7\u00e3o das culturas\u201d, express\u00e3o empregada por \u00c9douard Glissant. Ao abrigo da domina\u00e7\u00e3o do poder central, uma popula\u00e7\u00e3o de exclu\u00eddos e de migrantes termina conseguindo fundar um territ\u00f3rio e criar formas de sociabilidade novas. A comunidade transforma as terras virgens em terras cultivadas, vive segundo suas cren\u00e7as e seus valores culturais e se autogoverna. Tocaia Grande acolhe todos os que desejam reconstruir sua vida e faz surgir uma nova e imprevis\u00edvel organiza\u00e7\u00e3o social. Paralelamente \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o do lugarejo, homens e mulheres se convertem a uma nova vida, suas rela\u00e7\u00f5es tornam-se cada vez mais solid\u00e1rias e respeitosas das diferen\u00e7as. Os personagens como o filho de escravos forros Castor Abduim, apelidado Ti\u00e7\u00e3o, juntamente com o jagun\u00e7o sergipano Nat\u00e1rio da Fonseca, com o \u201cturco\u201d imigrante Fadul Abdala e com Coroca, prostituta e aparadeira de meninos, constituem os principais atores da funda\u00e7\u00e3o da comunidade. Culturalmente diversos, eles t\u00eam um objetivo em comum, o de construir uma coletividade solid\u00e1ria e livre. Na obra de Amado, a ideia de mesti\u00e7agem como processo mediador de um novo espa\u00e7o culturalmente heterog\u00eaneo, solid\u00e1rio e inclusivo n\u00e3o mitiga os conflitos e as mudan\u00e7as que decorrem dessa intera\u00e7\u00e3o permanente, nem omite a mem\u00f3ria traum\u00e1tica, apontando para a propens\u00e3o de imprevisibilidade das rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00faltima parte do romance desenvolve a cr\u00f4nica da prepara\u00e7\u00e3o do evento final da comunidade de Tocaia Grande a partir da confronta\u00e7\u00e3o de discursos que testemunham as diferentes vis\u00f5es sobre este lugar. A \u00f3tica do romance destaca a continuidade do processo de coloniza\u00e7\u00e3o no interior da sociedade brasileira, a cumplicidade dos representantes religiosos com o projeto legitimante do Estado brasileiro. A palavra precede as armas no processo de legitima\u00e7\u00e3o dos massacres cometidos pelo poder institucional. Palavra ideol\u00f3gica, exclusiva, imperialista que s\u00f3 visa \u00e0 assimila\u00e7\u00e3o do Outro e que n\u00e3o hesita em recorrer \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o f\u00edsica quando o Outro n\u00e3o se deixa assimilar. <em>Tocaia<\/em><em> <\/em><em>Grande<\/em> denuncia a ironia sinistra, o cinismo de um Estado que assassina em nome do restabelecimento da ordem, da paz ou de um verdadeiro deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A narrativa romanesca de <em>Tocaia Grande<\/em> coloca-se a servi\u00e7o do que n\u00e3o deve ser esquecido, revela a face obscura da hist\u00f3ria e se transforma, desse modo, em lugar de resist\u00eancia e em suporte da mem\u00f3ria coletiva. Romance que condensa, magistralmente, o olhar arguto do escritor sobre a realidade e a faceta ut\u00f3pica alimentada pelo pensamento heterot\u00f3pico, cujo imagin\u00e1rio produz <em>espa\u00e7os outros<\/em>, espa\u00e7os libert\u00e1rios. Em entrevista a Giovanni Ricciardi, em mar\u00e7o de 1989, Amado proclama o car\u00e1ter insurgente de sua obra: <em>\u201cTocaia Grande<\/em> \u00e9 um livro onde se define bastante o meu pensamento: afirmo ali que eu digo \u2018n\u00e3o\u2019, quando os outros dizem \u2018sim\u2019. Acho que \u00e9 esse o meu \u00fanico compromisso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CHAUI, Marilena (2000). <em>Brasil<\/em>: mito fundador e sociedade autorit\u00e1ria. S\u00e3o Paulo: Editora Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">OLIVIERI-GODET, Rita (2014). Identidade, territ\u00f3rio e utopia em\u00a0<em>Tocaia Grande<\/em>.\u00a0In: <em>Jorge Amado em letras e cores.<\/em>\u00a0Desenhos de Juraci D\u00f3rea.\u00a0Feira de Santana: Editora da UEFS<strong>.<\/strong> p. 107-124.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">OLIVIERI-GODET, Rita (2009). Castor (Ti\u00e7\u00e3o) Abduim. <em>In<\/em>: SOUZA, L\u00edcia Soares (Org.). <em>Dicion\u00e1rio de personagens afro-brasileiros<\/em>. Salvador: FAPESB; Quarteto, p. 76-82.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PEREIRA, Elvya Shirley Ribeiro (2004). Os lugares da utopia: uma leitura de\u00a0<em>Tocaia Grande<\/em>.\u00a0In: OLIVIERI-GODET, Rita; PENJON, Jacqueline (Orgs.).\u00a0<em>Jorge Amado<\/em>: leituras e di\u00e1logos em torno de uma obra. Salvador: Funda\u00e7\u00e3o Casa de Jorge Amado<strong>. <\/strong>p. 145-164.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-4816.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-4816\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" 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data-caption-title=\"Record, 1984\" data-attachment-id=\"4829\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Record, 1984\" width=\"250\" height=\"361\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/04\/Record-1984\/974021102.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22361%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20361%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Record, 1984<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a 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Tocaia Grande: a face obscura. Rio de Janeiro: Record, 1984. 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