{"id":4782,"date":"2025-04-17T18:46:54","date_gmt":"2025-04-17T21:46:54","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4782"},"modified":"2025-11-12T18:02:29","modified_gmt":"2025-11-12T21:02:29","slug":"porco-de-raca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4782","title":{"rendered":"Porco de ra\u00e7a"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">RIBEIRO, Bruno. <em>Porco de ra\u00e7a<\/em>. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Caroline Barbosa<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Th\u00e9o Cris\u00f3stomo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Porco de ra\u00e7a <\/em>(2021), quarto livro de Bruno Ribeiro (Pouso Alegre, MG, 1989), d\u00e1 continuidade ao tom visceral que o escritor utiliza em suas obras, permeadas por abordagens cr\u00edticas da sociedade em que vivemos. Narrado em primeira pessoa por um professor paraibano sem nome, essa trama n\u00e3o linear flerta com o horror e o absurdo para tratar de temas como desigualdade social, racismo, negritude, capitalismo e espetaculariza\u00e7\u00e3o da dor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A obra \u00e9 dividida em quatro partes:<em> <\/em>&#8220;Invicto no fracasso&#8221;, &#8220;Como sangrar um porco&#8221;, &#8220;Tioglicolato de am\u00f4nio&#8221; e &#8220;Descarrego no umbral&#8221;. Elas s\u00e3o catalogadas como partes do porco: sobrecoxa, costela, barriga e cox\u00e3o. Essas divis\u00f5es podem fazer refer\u00eancia \u00e0s situa\u00e7\u00f5es narrativas que exp\u00f5em o personagem principal a um desmembramento metaf\u00f3rico. As ilustra\u00e7\u00f5es de Wagner Willian atravessam a trama e se relacionam com o teor cinematogr\u00e1fico e com o ritmo acelerado do texto, por meio de tra\u00e7os que se assemelham aos respingos violentos das in\u00fameras perip\u00e9cias vividas pelo personagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A narrativa come\u00e7a capturando a fuga do professor ap\u00f3s uma confus\u00e3o com um cafet\u00e3o. O ritmo narrativo emula a velocidade com que as a\u00e7\u00f5es s\u00e3o descritas, levando o leitor a seguir os passos do personagem at\u00e9 a casa do irm\u00e3o, sua tentativa de voltar \u00e0 cidade natal e seu sequestro por uma seita religiosa, da qual consegue escapar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, o personagem principal se v\u00ea sem sa\u00edda quando \u00e9 sequestrado pela segunda vez, desta vez por uma organiza\u00e7\u00e3o que se apropria dos corpos de pessoas exclu\u00eddas da sociedade para obrig\u00e1-las a lutar em um ringue clandestino localizado em Buenos Aires. Nesse cen\u00e1rio, os homens precisam arriscar suas vidas usando m\u00e1scaras de animais para o prazer de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pela primeira vez na obra, o personagem \u00e9 nomeado, mas de forma animalesca e contra sua vontade. Ele se torna o Porco Sucio. A escolha desse apelido n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3ria na narrativa, pois cria um contraponto com sua vida anterior: um desempregado, um p\u00e1ria social, tratado apenas como \u201cParaib\u00e3o\u201d. Contradit\u00f3ria e ironicamente, \u00e9 quando gritam seu novo apelido no ringue que ele se sente importante e finalmente notado: \u201cFinalmente, tenho um nome. Finalmente, sou relevante. Eles gritam por mim. Por mim. Algu\u00e9m\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele sempre se viu como o completo oposto do que sua fam\u00edlia almejava. Seus pais e seu irm\u00e3o se associaram ao que a sociedade esperava deles: sujeitos negros que lutaram para se inserir na classe m\u00e9dia e, diante disso, tentavam se aproximar o m\u00e1ximo poss\u00edvel dos padr\u00f5es da branquitude. No entanto, o personagem sempre resistiu a isso, por ser &#8220;um jovem negro que sabia e se assumia como negro&#8221;. Por\u00e9m, quando \u00e9 levado para o ringue, come\u00e7a a perceber a multid\u00e3o aplaudindo e clamando seu nome, e acaba cedendo a outro lugar reservado pela sociedade aos afro-brasileiros: o do espet\u00e1culo bestial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tematizando quest\u00f5es que est\u00e3o na pauta das discuss\u00f5es sociais na esfera p\u00fablica contempor\u00e2nea, a narrativa apresenta a complexidade da subjetividade dos sujeitos negros, sem, no entanto, essencializ\u00e1-la. Enquanto o personagem principal acredita estar certo durante a maior parte da narrativa, na terceira parte s\u00e3o reveladas suas hipocrisias. Nesse momento, a narrativa explora outras facetas de sua identidade, destacando seu relacionamento com sua ex-mulher, W\u00eania, de quem se aproveita financeiramente; sua condi\u00e7\u00e3o de desempregado, que desafia seus limites morais ao aceitar ajuda do irm\u00e3o corrupto, e, principalmente, sua pouca maleabilidade para compreender que o que ele percebia como condescend\u00eancia dos pais aos valores da branquitude era, na verdade, a estrat\u00e9gia encontrada por eles para driblar os obst\u00e1culos no acesso a boas escolas e \u00e0 ascens\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como alegoria do presente, a narrativa se destaca por abordar um cen\u00e1rio pol\u00edtico ca\u00f3tico em que mundo real e devaneio se confundem. Por meio das viv\u00eancias do narrador em primeira pessoa, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel discernir o que de fato aconteceu com ele e o que \u00e9 fruto de sua imagina\u00e7\u00e3o, fundada em uma s\u00e9rie de traumas causados pela desumaniza\u00e7\u00e3o desse sujeito negro. Al\u00e9m disso, a obra convoca o leitor a pensar sobre a capitaliza\u00e7\u00e3o da dor e a din\u00e2mica de <em>reality show<\/em> que fazem parte da cultura contempor\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bruno Ribeiro elabora uma narrativa dist\u00f3pica que se assemelha a cl\u00e1ssicos como <em>1984<\/em>, de George Orwell, <em>Admir\u00e1vel mundo novo<\/em>, de Aldous Huxley, flertando tamb\u00e9m com certa forma do absurdo presente em <em>A metamorfose<\/em>, de Franz Kafka. Assim, <em>Porco de ra\u00e7a<\/em> \u00e9 um livro que se insere na contemporaneidade de modo singular por apresentar a discuss\u00e3o racial e social brasileira dentro desse g\u00eanero textual. \u00c0 vista disso, \u00e9 curioso observar que embora se afaste de autores como Jeferson Ten\u00f3rio e Geovani Martins, que abordam a tem\u00e1tica da negritude e sua subjetividade de forma mais realista, Ribeiro aproxima-se deles por questionar o absurdo das situa\u00e7\u00f5es reais, provocando a reflex\u00e3o sobre a maneira como as situa\u00e7\u00f5es de racismo e viol\u00eancia contra sujeitos negros s\u00e3o veiculadas de modo espetacularizado em jornais, sites de entretenimento e grupos formados nas redes sociais: \u201cE quem h\u00e1 de dizer que, neste ringue ou fora dele, h\u00e1 diferen\u00e7a? Quem h\u00e1 de dizer que minha vida n\u00e3o era a mesma coisa que estou vivendo aqui?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, por meio da fic\u00e7\u00e3o especulativa, Ribeiro constr\u00f3i um romance que se assemelha a filmes como <em>Corra <\/em>(2017) e <em>N\u00f3s <\/em>(2019), ao utilizar o horror como den\u00fancia social e questionar os limites entre factualidade e fic\u00e7\u00e3o. Surge, assim, uma narrativa com abund\u00e2ncia de verbos de a\u00e7\u00e3o e cenas de viol\u00eancia, que se utiliza desses recursos para modular um personagem extremamente humano, com erros e acertos, atravessado pelos traumas do racismo e da exclus\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CORRA (2017). Dire\u00e7\u00e3o: Jordan Peele. Los Angeles: Monkeypaw Productions.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">HUXLEY, Aldous (2014). <em>Admir\u00e1vel mundo novo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Biblioteca Azul.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">KAFKA, Franz (1997). <em>A metamorfose.<\/em> S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MARTINS, Bella Beatriz; RAMOS, Wellington Furtado (2023). Uma m\u00e1quina para porcos: entre figuras animalescas, horror e viol\u00eancia nas narrativas contempor\u00e2neas Amnesia e Porco de Ra\u00e7a. <em>Palimpsesto \u2013 Revista do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Letras da UERJ<\/em>, v. 22, n. 42, p. 92-113. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.12957\/palimpsesto.2023.76076\">https:\/\/doi.org\/10.12957\/palimpsesto.2023.76076<\/a>. Acesso em: 20 jan. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00d3S (2019). Dire\u00e7\u00e3o: Jordan Peele. Los Angeles: Monkeypaw Productions.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ORWELL, George (2009). <em>1984<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-4785.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-4785\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Darkside-2021.webp\" data-caption-title=\"Darkside, 2021\" data-attachment-id=\"4786\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Darkside, 2021\" width=\"250\" height=\"364\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/04\/Darkside-2021\/3030027676.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22364%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20364%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Darkside, 2021<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RIBEIRO, Bruno. 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