{"id":4768,"date":"2025-04-13T13:20:06","date_gmt":"2025-04-13T16:20:06","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4768"},"modified":"2026-03-23T14:01:41","modified_gmt":"2026-03-23T17:01:41","slug":"o-homem-que-odiava-machado-de-assis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4768","title":{"rendered":"O homem que odiava Machado de Assis"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">ALMEIDA J\u00daNIOR, Jos\u00e9. <em>O homem que odiava Machado de Assis<\/em>. S\u00e3o Paulo: Faro, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Samara Lima<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Daniela Versiani<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O escritor Jos\u00e9 Almeida J\u00fanior (Mossor\u00f3, RN, 1983), atualmente Defensor P\u00fablico do Distrito Federal, tem se destacado no campo liter\u00e1rio com seus romances que buscam fazer da Hist\u00f3ria um cen\u00e1rio para o exerc\u00edcio da fic\u00e7\u00e3o. No seu primeiro livro, <em>\u00daltima hora<\/em> (2017), vencedor do Pr\u00eamio Sesc de Literatura 2017, o autor apresenta o Brasil do in\u00edcio da d\u00e9cada de 1950 para narrar o conflito entre Carlos Lacerda e Samuel Wainer, tendo como protagonista o jornalista Marcos, torturado na ditadura. Esse imbr\u00f3glio \u00e9 revisitado no seu \u00faltimo lan\u00e7amento, <em>Bebida amarga<\/em> (2022), que aborda as diverg\u00eancias pol\u00edticas e conflitos familiares entre pai e filho durante a ditadura militar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O homem que odiava Machado de Assis<\/em> \u00e9 o segundo livro do autor, publicado em 2019 pela Faro Editorial. Ambientado em S\u00e3o Paulo, Portugal e Rio de Janeiro, no s\u00e9culo XIX, \u00e9 narrado em primeira pessoa por Pedro Junqueira. A hist\u00f3ria come\u00e7a com o vel\u00f3rio de Machado de Assis, onde Junqueira, profundamente amargurado, analisa a cerim\u00f4nia da Taverna do Ferreira, localizada a poucos metros de dist\u00e2ncia do local. Ele se surpreende com a consterna\u00e7\u00e3o geral \u2014 M\u00e1rio de Alencar, por exemplo, \u201cestava aos prantos\u201d, enquanto Jos\u00e9 Ver\u00edssimo tentava consol\u00e1-lo \u2014 diante da morte de quem ele considera um sujeito leviano, que construiu sua reputa\u00e7\u00e3o \u201c\u00e0 base de fraude e de bajula\u00e7\u00f5es\u201d (Almeida J\u00fanior, 2019). Outra figura que tamb\u00e9m n\u00e3o entende a rever\u00eancia das pessoas ao intelectual \u00e9 Silvio Romero, que logo se junta ao personagem inflando seus coment\u00e1rios \u00e1cidos sobre o enterro e incentivando-o a escrever um livro de mem\u00f3rias, a fim de revelar a verdade que poucos conhecem sobre o autor brasileiro. O livro que o leitor tem em m\u00e3os \u00e9, ent\u00e3o, uma esp\u00e9cie de autobiografia de Junqueira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No decorrer dos 33 cap\u00edtulos, percebe-se que o protagonista tem muito a dizer sobre Machado. A rivalidade entre os dois personagens come\u00e7a na inf\u00e2ncia, quando Pedro precisa mudar-se de S\u00e3o Paulo, \u00f3rf\u00e3o aos seis anos ap\u00f3s a morte da m\u00e3e. Seu pai, um importante cafeicultor e propriet\u00e1rio de escravizados, um sujeito alienado das obriga\u00e7\u00f5es parentais, resolve envi\u00e1-lo para morar com a tia, Dona Maria Jos\u00e9, no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro. \u00c9 nessa ch\u00e1cara que o garoto conhece Joaquim e Joana, ambos negros e agregados. Conforme a conviv\u00eancia se instala, as intrigas entre eles se intensificam, principalmente quando os dois se apaixonam pela mesma garota.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando Dona Maria Jos\u00e9 morre, Junqueira \u00e9 enviado para estudar em um col\u00e9gio interno. Posteriormente, ele viaja para Portugal para estudar Direito e l\u00e1 se relaciona brevemente com uma mulher chamada Carolina Novais. Ap\u00f3s anos sem ter not\u00edcias de Joana e Joaquim, que, em plena ascens\u00e3o liter\u00e1ria, passa a ser conhecido por seu sobrenome, Machado de Assis, Junqueira retorna ao Brasil e reencontra o antigo conhecido de inf\u00e2ncia, agora casado com Carolina. Esse reencontro reaviva a tens\u00e3o entre ambos e d\u00e1 contornos diferentes ao antigo \u00f3dio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o conflito entre os dois n\u00e3o se encerra no campo amoroso. Em um determinado momento da hist\u00f3ria, o narrador comenta que Machado de Assis plagiou sua \u201cideia de escrever um romance com um autor defunto que narraria sua vida sem pudores\u201d (Almeida J\u00fanior, 2019). Junqueira, que quer publicar um romance e acredita ser superior a Machado, ao mesmo tempo que fracassa na carreira pol\u00edtica, sente-se mais uma vez injusti\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em uma entrevista para o canal Conversa Liter\u00e1ria, Jos\u00e9 Almeida aponta a conson\u00e2ncia do seu livro com as obras, contos e cr\u00f4nicas de Machado de Assis. A personagem sedutora Joana \u00e9 inspirada em Capitu, assim como o tri\u00e2ngulo amoroso entre Carolina, Machado e Pedro evoca o conflito do livro <em>Dom Casmurro<\/em>. Pedro tem uma trajet\u00f3ria pessoal semelhante \u00e0 de Br\u00e1s Cubas, uma vez que pertence \u00e0 aristocracia, estudou em Coimbra, e \u00e9 um fracassado na profiss\u00e3o e em seus relacionamentos amorosos. Quanto \u00e0 descri\u00e7\u00e3o do Morro do Livramento, o autor afirma que foi retirada do romance <em>Casa Velha<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Junto a essas alus\u00f5es, a narrativa incorpora diversos dados biogr\u00e1ficos de Machado de Assis: a morte de sua irm\u00e3 aos 4 anos de idade, devido ao sarampo; a refer\u00eancia a seus trabalhos para os jornais, como <em>A<\/em> <em>Marmota<\/em> e <em>O Di\u00e1rio Oficial<\/em>, como colaborador de poemas, cr\u00f4nicas e cr\u00edticas; a men\u00e7\u00e3o \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de livros do escritor, como <em>Ressurrei\u00e7\u00e3o<\/em>, <em>Mem\u00f3rias p\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas<\/em> e <em>Dom Casmurro<\/em>; sua condi\u00e7\u00e3o de gago e epil\u00e9ptico; seu relacionamento com a portuguesa Carolina Novais; o conflito com o cr\u00edtico S\u00edlvio Romero e seus pares, em especial devido \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o de que \u201cMachado, apesar de mulato, nunca se interessou pela tem\u00e1tica\u201d (Almeida J\u00fanior, 2019) abolicionista, e tantos outros acontecimentos facilmente verific\u00e1veis que comp\u00f5em a biografia do escritor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No que diz respeito \u00e0 quest\u00e3o racial de Machado, o pr\u00f3prio personagem escritor responde \u00e0s queixas afirmando que combate a aboli\u00e7\u00e3o \u00e0 sua maneira: \u201cA mesquinhez da escravid\u00e3o est\u00e1 em meus romances, em meus contos e minhas cr\u00f4nicas. Quem tem o m\u00ednimo de perspic\u00e1cia consegue ver isso\u201d (Almeida J\u00fanior, 2019). Pensando na figura civil de Machado, n\u00e3o se pode esquecer o trabalho de diversos pesquisadores, como Eduardo de Assis Duarte, na tentativa de mostrar como o Bruxo do Cosme Velho, em suas produ\u00e7\u00f5es, dribla os pensamentos consagrados no pa\u00eds, no per\u00edodo em que vivia, para desenhar as mazelas da sociedade oitocentista. Assim, o livro tamb\u00e9m dialoga com a releitura da cr\u00edtica sobre a rela\u00e7\u00e3o de Machado de Assis com sua etnia, n\u00e3o apenas narrativamente, mas tamb\u00e9m a partir da imagem que figura na capa do livro, a mesma utilizada pela campanha \u201cMachado de Assis Real\u201d, que ao restaurar a negritude do autor, combate o processo de embranquecimento de sua imagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jos\u00e9 Almeida aproveita o ressentimento de seu protagonista, que transforma Machado de Assis em um anti-her\u00f3i, para retra\u00e7ar a biografia do escritor. Nesse sentido, um dos valores do livro \u00e9 justamente conseguir transformar o autor real em personagem de fic\u00e7\u00e3o, mesclando dados biogr\u00e1ficos de Machado, caracter\u00edsticas de suas obras e recursos liter\u00e1rios, como o humor e a ironia. Al\u00e9m disso, o livro incorpora eventos e figuras liter\u00e1rias importantes do s\u00e9culo XIX para conduzir o enredo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns anos antes, Silviano Santiago tamb\u00e9m havia explorado a conjun\u00e7\u00e3o entre fic\u00e7\u00e3o e biografia em seu romance <em>Machado<\/em> (2016). Diferentemente do romance de Almeida, Santiago aposta em um embaralhamento maior das fronteiras entre literatura e vida, projetando-se tamb\u00e9m na narrativa e investindo em digress\u00f5es cr\u00edticas sobre a obra do escritor. A compara\u00e7\u00e3o serve para real\u00e7ar a habilidade de Almeida com o manejo dos dados biogr\u00e1ficos e dos fatos hist\u00f3ricos e a maneira como mescla ambos a certos tra\u00e7os da po\u00e9tica machadiana para valorizar a fic\u00e7\u00e3o, constru\u00edda com base nas mem\u00f3rias de Junqueira. Embora Almeida utilize a pesquisa sobre o passado para colher material para suas narrativas, ele tenta dar vida e sentido novos e diferentes a esse mesmo passado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ALMEIDA J\u00daNIOR, Jos\u00e9 (2017). Conversa Liter\u00e1ria. [Entrevista concedida a] Darwin Oliveira. Fortaleza, 17 set 2017. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=klo8u138_EE\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=klo8u138_EE<\/a>. Acesso em: 12 jul. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ALMEIDA J\u00daNIOR, Jos\u00e9 (2019). Entrevista com o romancista hist\u00f3rico Jos\u00e9 Almeida Junior, autor dos romances \u00daltima hora e O homem que odiava Machado de Assis. Encontro na Livraria Cultura &#8211; Casa Shopping &#8211; Bras\u00edlia \u2013 DF, no dia 25 de junho de 2019. Concedida ao pesquisador Cristiano Mello de Oliveira (Doutor em Literatura Brasileira \u2013 UFSC). <em>Rascunhos Culturais<\/em>, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Coxim, v. 1, n. 1, p. 134-146.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ESTEVES, Ant\u00f4nio Roberto (2008). Considera\u00e7\u00f5es sobre o Romance Hist\u00f3rico (no Brasil, no limiar do s\u00e9culo XXI). <em>Revista de Literatura, Hist\u00f3ria e Mem\u00f3ria<\/em>, Narrativas de Extra\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica, Cascavel, v. 4, n. 4, p. 53-66.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SANTIAGO, Silviano (2016). <em>Machado<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-4771.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-4771\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Faro-Editorial-2019.webp\" data-caption-title=\"Faro Editorial, 2019\" data-attachment-id=\"4772\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Faro Editorial, 2019\" width=\"250\" height=\"376\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/04\/Faro-Editorial-2019\/1811604515.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22376%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20376%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Faro Editorial, 2019<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ALMEIDA J\u00daNIOR, Jos\u00e9. 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