{"id":4753,"date":"2025-04-13T14:25:27","date_gmt":"2025-04-13T17:25:27","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4753"},"modified":"2025-11-12T17:57:14","modified_gmt":"2025-11-12T20:57:14","slug":"o-bruxo-do-contestado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4753","title":{"rendered":"O bruxo do Contestado"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">OLIVEIRA NETO, Godofredo de. <em>O bruxo do Contestado<\/em>. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1996.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Mykaelle de Sousa Ferreira<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Dona Dora<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Godofredo de Oliveira Neto (Blumenau, SC, 1951) \u00e9 escritor, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e professor universit\u00e1rio, atuando no Departamento de Letras Vern\u00e1culas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desde 1980. \u00c9 pesquisador na \u00e1rea de Literatura Brasileira, com forma\u00e7\u00e3o em Letras e Altos Estudos Internacionais pela Universit\u00e9 de Paris III \u2013 Sorbonne-Nouvelle (1976).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O bruxo do Contestado<\/em>, publicado em 1996, \u00e9 o livro de estreia do escritor como ficcionista. O romance \u00e9 fruto de pesquisas pessoais do autor acerca da Guerra do Contestado, o violento conflito armado que ocorreu na regi\u00e3o Sul do Brasil entre 1912 e 1916, nas fronteiras entre os Estados do Paran\u00e1 e de Santa Catarina, mesclando disputas pol\u00edticas e territoriais, com a lideran\u00e7a do monge Jos\u00e9 Maria. A regi\u00e3o \u201cviveu as tens\u00f5es da guerra, mas, sobretudo, jamais esqueceu a imagem do messianismo tocado \u00e0 base de paix\u00e3o violenta e sangue abundante que marcou toda aquela \u00e1rea do Brasil\u201d, diz o narrador. O livro de Neto, portanto, ilumina um cap\u00edtulo da hist\u00f3ria brasileira ainda pouco discutido do ponto de vista sociocultural e pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u201cNota aos leitores\u201d no in\u00edcio do livro informa: \u201cesta hist\u00f3ria estava escrita em um caderno encontrado num palacete em demoli\u00e7\u00e3o no centro da cidade de S\u00e3o Paulo, no in\u00edcio dos anos 1980\u201d. O manuscrito pertence \u00e0 personagem Tecla, membro da decadente fam\u00edlia Jonhasky, que decide escrever suas mem\u00f3rias em um di\u00e1rio ap\u00f3s ser diagnosticada com uma doen\u00e7a terminal aos 51 anos. Tecla \u00e9 uma narradora-personagem que passa a integrar uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de esquerda no final da d\u00e9cada de 1960, sofrendo, em seguida, um degradante ex\u00edlio durante a Ditadura Militar (1964-1985). Desloca-se ent\u00e3o pelo mundo e tenta encontrar um pouco do Brasil em cada lugar por que passa. A experi\u00eancia do ex\u00edlio marca permanentemente a personagem, que carregar\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o pertencer ao seu lugar de origem ao mesmo tempo que se aproximar\u00e1 de sujeitos marginalizados em outros pa\u00edses. A personagem fala sobre si mesma como uma \u201cex-militante pol\u00edtica exilada, que sonha com um mundo melhor, que parece sempre existir em algum lugar\u201d. O di\u00e1rio de Tecla funciona, portanto, como um \u00faltimo ato de resist\u00eancia da personagem, um testemunho sobre a sua experi\u00eancia de vida e sobre a hist\u00f3ria da sua fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, ser\u00e3o os R\u00fcnnel \u2013 Juta, Rosa e Gerd \u2013 os verdadeiros protagonistas da hist\u00f3ria. Esses personagens habitam as principais lembran\u00e7as de Tecla desde a juventude, quando conviveram na localidade conhecida como Alto Diamante, perto da regi\u00e3o do Contestado, no oeste de Santa Catarina e do Paran\u00e1. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o t\u00edtulo do manuscrito de Tecla \u2013 o mesmo t\u00edtulo atribu\u00eddo ao romance \u2013 tem uma liga\u00e7\u00e3o direta com os R\u00fcnnel, pois o bruxo do Contestado era justamente o apelido atribu\u00eddo a Gerd, personagem complexo que tem vis\u00f5es messi\u00e2nicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gerd R\u00fcnnel \u00e9 caracterizado como um homem simples, por\u00e9m violento, marcado por traumas do passado. As cenas em torno da fam\u00edlia R\u00fcnnel t\u00eam forte carga dram\u00e1tica e requintes de crueldade cometidos por Gerd contra a esposa Juta e a filha Rosa, despertando rep\u00fadio no leitor: \u201cComo agora, atravessava o rio Diamante e subia o morro \u00edngreme gritando palavr\u00f5es em alem\u00e3o ou em portugu\u00eas com sotaque que exageradamente carregado e exorando o novo Contestado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 preciso lembrar, por\u00e9m, que o que est\u00e1 em jogo \u00e9 o aprofundamento nas a\u00e7\u00f5es causadas pela obsess\u00e3o do messianismo do personagem, pois o \u201c\u00fanico projeto de vida de Gerd era passado e desmoronava\u201d. A ida do primo mais velho para o ex\u00e9rcito de S\u00e3o Sebasti\u00e3o, na regi\u00e3o do Contestado, acendeu uma fagulha em Gerd, em sua inf\u00e2ncia, que jamais se apagou: \u201cA mudan\u00e7a para os campos do Irani, quando adolescente, foi possivelmente o seu \u00fanico projeto de vida. Confiava, agora, que o reino da felicidade, da fartura e da justi\u00e7a viesse at\u00e9 ele\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o tema do messianismo se faz presente no personagem Gerd, defensor na cren\u00e7a de um novo reino de paz no Contestado, por outro lado, temas como fascismo e autoritarismo tamb\u00e9m fazem parte da narrativa, envolvendo as personagens e revelando as consequ\u00eancias do nazifascismo no Sul do pa\u00eds, que se alastrava nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. Al\u00e9m disso, outros temas entremeados pelo autor \u00e0 narrativa s\u00e3o ex\u00edlio, ditadura, Segunda Guerra Mundial, vista a partir do ponto de vista brasileiro, e a coloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A narrativa pode ser dividida em tr\u00eas temporalidades, relacionadas entre si. Esses diferentes tempos nos quais o enredo se desenvolve est\u00e3o entrela\u00e7ados por certo utopismo no posicionamento adotado pelas personagens. N\u00e3o \u00e9 por acaso que a narradora-personagem Tecla diz: \u201csempre sonhei com um Contestado nos meus moldes\u201d. A primeira demarca\u00e7\u00e3o do tempo ocorre durante o per\u00edodo da Guerra do Contestado, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX; a segunda, durante a Era Vargas (1930-1945), e, por fim, o per\u00edodo final da ditadura militar, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980. Ressalta-se, no entanto, que n\u00e3o h\u00e1 uma divis\u00e3o cronol\u00f3gica precisa da narrativa ao longo do texto, uma vez que a hist\u00f3ria \u00e9 contada ora pela perspectiva de Tecla, ora de um narrador-observador que toma a voz narrativa para si e apresenta as cenas e os di\u00e1logos entre as personagens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 o discurso do narrador, ali\u00e1s, que revela a crueza das situa\u00e7\u00f5es e \u00e9 isento de julgamentos morais. Ele n\u00e3o tenta burlar ou enganar o leitor, apenas apresenta os relatos, de modo distanciado, contrapondo-se \u00e0 narra\u00e7\u00e3o pessoal de Tecla que, por sua vez, restringe-se a divaga\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas sobre a pr\u00f3pria vida e sobre o exerc\u00edcio da escrita diante da morte. Da\u00ed tamb\u00e9m surge uma reflex\u00e3o metanarrativa sobre o of\u00edcio da escrita: \u201cO recurso ao meu referencial (ensaios, autores, artistas, conceitos, no\u00e7\u00f5es), comum no meu universo acad\u00eamico, \u00e9 um peso que trago comigo e de que quero me livrar e n\u00e3o consigo. Matar a refer\u00eancia erudita \u2013 pesada, fascista, patrulhadora \u2013 me libertar\u00e1?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como se pode perceber, ler essa obra significa entrar em contato com diferentes recursos formais e estil\u00edsticos. O resultado \u00e9 um romance sofisticado que envolve gradualmente os personagens nos meandros da hist\u00f3ria brasileira. Sem ser panflet\u00e1rio, Neto prop\u00f5e uma narrativa que elucida diferentes processos da constitui\u00e7\u00e3o social do pa\u00eds, dando voz aos personagens que viveram \u00e0 margem desses contextos \u2013 trabalhadores, imigrantes, ind\u00edgenas, negros, pobres, mulheres, entre outros. \u00c9 nesse sentido que o livro nos permite elaborar novos olhares sobre o mundo, contribuindo para certa diversidade de representa\u00e7\u00f5es no universo liter\u00e1rio brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, o autor constr\u00f3i uma reflex\u00e3o sobre o papel da literatura no mundo contempor\u00e2neo. Ao discutir as fronteiras entre fic\u00e7\u00e3o e realidade, \u00e9 mister ver que a literatura n\u00e3o pretende ser entendida como um mero espelho que reflete a realidade social, mas, sim, uma oportunidade de observar outros espa\u00e7os, outras experi\u00eancias humanas. Por isso, quase tr\u00eas d\u00e9cadas ap\u00f3s o seu lan\u00e7amento, <em>O bruxo do Contestado<\/em> permanece uma obra fundamental para leitores de diferentes gera\u00e7\u00f5es que buscam uma experi\u00eancia de leitura cr\u00edtica, trazendo imagens penetrantes e com profunda reflex\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CHIARELLI, Stefania (2016). <em>Que Brasil existe? <\/em>Estrangeiros na literatura brasileira. <em>Intelligere, Revista de Hist\u00f3ria Intelectual<\/em>, S\u00e3o Paulo, v. 2, n 2 [3], p. 40-48. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.revistas.usp.br\/revistaintelligere\/article\/view\/117632\/118475\">https:\/\/www.revistas.usp.br\/revistaintelligere\/article\/view\/117632\/118475<\/a>. Acesso em: 10 jan. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DIAS, \u00c2ngela M. (2019). <em>Fic\u00e7\u00f5es e travessias: <\/em>uma colet\u00e2nea sobre a obra de Godofredo de Oliveira Neto (Org.). \u00c2ngela Maria Dias. Rio de Janeiro: 7 Letras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-4756.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-4756\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Nova-Fronteira-1998.webp\" data-caption-title=\"Nova Fronteira, 1996\" data-attachment-id=\"4757\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Nova Fronteira, 1996\" width=\"250\" height=\"375\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/04\/Nova-Fronteira-1998\/4139820322.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22375%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20375%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Nova Fronteira, 1996<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Record-2012.webp\" data-caption-title=\"Record, 2012\" data-attachment-id=\"4758\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img decoding=\"async\" title=\"Record, 2012\" width=\"250\" height=\"387\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/04\/Record-2012\/309629140.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22387%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20387%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Record, 2012<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>OLIVEIRA NETO, Godofredo de. 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