{"id":4741,"date":"2025-04-16T17:11:02","date_gmt":"2025-04-16T20:11:02","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4741"},"modified":"2025-11-12T18:01:54","modified_gmt":"2025-11-12T21:01:54","slug":"meu-querido-canibal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4741","title":{"rendered":"Meu querido canibal"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">TORRES, Ant\u00f4nio. <em>Meu querido canibal<\/em>. Rio de Janeiro: Record, 2000.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Rita Olivieri-Godet<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o:<\/em> <em>Pamela Ara\u00fajo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Meu querido canibal<\/em>, de Ant\u00f4nio Torres (S\u00e1tiro Dias, BA, 1940), alimenta-se do debate em torno dos conflitos entre europeus e povos origin\u00e1rios que habitavam o territ\u00f3rio atual da Ba\u00eda de Guanabara e de seus arredores no s\u00e9culo XVI. O romance aborda a constru\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria nacional excludente por meio de um di\u00e1logo intenso com os discursos hist\u00f3ricos marcados por uma vis\u00e3o etnoc\u00eantrica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cMeu livro \u00e9 uma canibaliza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e da literatura\u201d (Ant\u00f4nio Torres, <em>Zero Hora<\/em>), afirma o autor, recorrendo a uma f\u00f3rmula concisa para caracterizar a complexa fatura do seu premiado romance, vencedor do pr\u00eamio Passo Fundo Zaffari e Bourbon de Literatura em 2001, canibaliza\u00e7\u00e3o essa no sentido oswaldiano da antropofagia. No entanto, \u00e9 tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de relato-testemunho do tempo presente. A amplitude temporal favorece a discuss\u00e3o das consequ\u00eancias dram\u00e1ticas do etnocentrismo das classes hegem\u00f4nicas e das formas de viol\u00eancia que moldam o passado e o presente da na\u00e7\u00e3o. Centrada na constru\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria do ind\u00edgena como figura do outro, a obra assume escancaradamente um ponto de vista solid\u00e1rio a favor da luta de resist\u00eancia travada pelos povos origin\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A trama de <em>Meu querido canibal<\/em> alimenta-se do embate que se trava entre o modelo hegem\u00f4nico da sociedade ocidental e as formas de organiza\u00e7\u00e3o complexas dos povos ind\u00edgenas, habitantes do territ\u00f3rio antes da chegada dos colonizadores europeus, regi\u00e3o geogr\u00e1fica que \u201cj\u00e1 vinha fazendo hist\u00f3ria\u201d, como observou algures Ailton Krenak. Publicado no ano 2000, que no Brasil se reveste de uma dupla carga simb\u00f3lica junto \u00e0s comemora\u00e7\u00f5es dos 500 anos da \u201cdescoberta\u201d, a obra de Torres participa da ampla reflex\u00e3o que se instaura sobre o percurso hist\u00f3rico da na\u00e7\u00e3o brasileira, ancorada na revisita\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do Rio de Janeiro. A obra alia-se a outros textos e depoimentos que buscam dar visibilidade \u00e0 presen\u00e7a e \u00e0 diversidade das culturas ind\u00edgenas na contemporaneidade, denunciando o fato de o contato entre essas culturas diversas e a sociedade brasileira continuar acontecendo com base no desconhecimento e na incompreens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Meu querido canibal<\/em> j\u00e1 anuncia no pr\u00f3prio t\u00edtulo o envolvimento afetivo e a parcialidade do narrador na constru\u00e7\u00e3o do personagem Cunhambebe. A obra \u00e9 estruturada em tr\u00eas partes, de temporalidades diversas. A primeira parte, \u201cO canibal e os crist\u00e3os\u201d, coloca em cena o l\u00edder ind\u00edgena da na\u00e7\u00e3o Tupinamb\u00e1 que habitava a regi\u00e3o de Angra dos Reis em 1555. Os franceses tinham como objetivo a constru\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a Ant\u00e1rtica sob o comando de Nicolas Durand de Villegagnon. A narrativa retoma acontecimentos comuns \u00e0 hist\u00f3ria francesa e brasileira, chamando a aten\u00e7\u00e3o para os limites da reconstru\u00e7\u00e3o dos fatos hist\u00f3ricos como sublinha o uso recorrente da palavra \u201cpresumivelmente\u201d. Coloca sob suspei\u00e7\u00e3o a veracidade do discurso ocidental hegem\u00f4nico, respons\u00e1vel pelo confisco da hist\u00f3ria dos povos ind\u00edgenas. O modo de narrar resulta a um s\u00f3 tempo do material de que o narrador-autor-historiador-antrop\u00f3logo-soci\u00f3logo disp\u00f5e ap\u00f3s ter realizado um amplo trabalho de pesquisa e da capacidade de criar e imaginar hist\u00f3rias, articulando o real e o inventado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No choque entre concep\u00e7\u00f5es de mundo que lidam com categorias e tradi\u00e7\u00f5es diversas do conhecimento e de sua transmiss\u00e3o, a perspectiva ocidental dominante legitima a sua vers\u00e3o por meio da hist\u00f3ria escrita. Esse tipo de manipula\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria do passado constitui uma das motiva\u00e7\u00f5es que conduzem Ant\u00f4nio Torres a escrever o romance: \u201cquando bati os olhos num verbete que definia o Cunhambebe como \u2018o selvagem na sua express\u00e3o mais repelente\u2019, fiquei tentado a trat\u00e1-lo como um her\u00f3i, porque era assim que o seu povo o via\u201d (Ant\u00f4nio Torres, entrevista). Ao transformar Cunhambebe no her\u00f3i da narrativa, o narrador adota ironicamente a dicotomia do bom e do mal selvagem, invertendo o sentido atribu\u00eddo pelo imagin\u00e1rio europeu. Retoma, portanto, a tradi\u00e7\u00e3o modernista da exalta\u00e7\u00e3o par\u00f3dica do canibal. A dial\u00e9tica do s\u00e9rio-c\u00f4mico, t\u00e3o cara aos modernistas, fundamenta o discurso do narrador antropof\u00e1gico, que instaura um di\u00e1logo pol\u00eamico usando refer\u00eancias textuais historiogr\u00e1ficas e liter\u00e1rias. O romance estabelece um di\u00e1logo intenso com as narrativas de viagem de Andr\u00e9 Thevet, Jean de L\u00e9ry e Hans Staden, entre outros textos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contrapondo-se \u00e0 omiss\u00e3o ou \u00e0 deforma\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria oficial, a obra denuncia o apagamento do lugar dos povos ind\u00edgenas na hist\u00f3ria e na sociedade brasileiras e empreende a constru\u00e7\u00e3o desse her\u00f3i marginal num tom pol\u00eamico e provocador, transformando Cunhambebe no primeiro her\u00f3i nacional. A constru\u00e7\u00e3o do personagem inspira-se numa tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de reaproveitamento dos elementos lend\u00e1rios de her\u00f3is m\u00edticos da tradi\u00e7\u00e3o popular, que faz de Cunhambebe um ascendente de Macuna\u00edma e um contempor\u00e2neo de Garg\u00e2ntua, personagem do franc\u00eas Fran\u00e7ois Rabelais. A narrativa evoca suas aventuras e seus atos de bravura, atribuindo-lhe caracter\u00edsticas excepcionais e at\u00e9 mesmo sobre-humanas, identificando-o com seu povo, que o v\u00ea como l\u00edder e leg\u00edtimo defensor do territ\u00f3rio ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A segunda parte, \u201cNo princ\u00edpio Deus se chamava Monan\u201d, transporta o leitor para o tempo m\u00edtico das narrativas sobre a cria\u00e7\u00e3o do mundo, confrontando o livro do G\u00eanesis e a mitologia dos Tupinamb\u00e1s. Investe nos constantes deslocamentos temporais entre o passado e o presente que avivam a consci\u00eancia de que \u00e9 sobre as ru\u00ednas do povo \u201cmais velho do lugar\u201d que se ergue a Cidade Maravilhosa. Na perspectiva adotada pelo romance, o exterm\u00ednio dos povos origin\u00e1rios atrelado \u00e0 devora\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de sua mem\u00f3ria se imp\u00f4s como estrat\u00e9gia da empresa colonial e da forma\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na terceira parte, \u201cViagem a Angra dos Reis\u201d, o leitor \u00e9 bruscamente deslocado do labirinto dos textos para o da cidade, confrontado com o real imediato que coincide com \u201co limiar do sexto s\u00e9culo do descobrimento do Brasil\u201d. O narrador n\u00e3o tem mais como objeto primeiro de sua aten\u00e7\u00e3o a rede intricada de discursos e contradiscursos na qual ele se perdia escavando o sentido da experi\u00eancia hist\u00f3rica. O esfor\u00e7o se d\u00e1 na leitura dos signos da urbanidade, explorando recursos narrativos inovadores \u201cem busca das trilhas perdidas\u201d de Cunhambebe e de seu povo. O espa\u00e7o \u00e9 ampliado para fora da cidade, em dire\u00e7\u00e3o a Angra dos Reis, onde ainda se l\u00ea alguns top\u00f4nimos ind\u00edgenas, e \u00e9 s\u00f3 isso: \u201cnenhum \u00edndio nas ruas\u201d, constata o narrador-personagem. Finalmente, onde est\u00e3o os ind\u00edgenas? A reitera\u00e7\u00e3o da pergunta alerta para o apagamento da mem\u00f3ria de um povo que fez a hist\u00f3ria dessa regi\u00e3o geogr\u00e1fica e evidencia o seu exterm\u00ednio: \u201co tempo apagou-lhes os rastros\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O romance desmascara o discurso mistificador de forma\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o mesti\u00e7a que encobre a viol\u00eancia e o desequil\u00edbrio do processo de mesti\u00e7agem. O mapeamento dos referentes espaciais retrata a preval\u00eancia do modelo ocidental na constru\u00e7\u00e3o da cidade do Rio de Janeiro e da na\u00e7\u00e3o. O encontro entre narrador-personagem e ind\u00edgenas de origem guarani, confinados a uma reserva miser\u00e1vel de dif\u00edcil acesso torna vis\u00edvel as consequ\u00eancias de uma pol\u00edtica indigenista do Estado, que levou ao exterm\u00ednio e \u00e0 desterritorializa\u00e7\u00e3o desses povos. Os tupinamb\u00e1s da regi\u00e3o foram exterminados; os ind\u00edgenas guaranis que se encontram na reserva foram destitu\u00eddos de seus territ\u00f3rios tradicionais e transplantados para aquela regi\u00e3o. Exterm\u00ednio, desterritorializa\u00e7\u00e3o, assimila\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade nacional em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de isolamento e de deslocamento para a periferia do pa\u00eds: eis o presente dos \u201c\u00edndios restantes\u201d que emerge da narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na perspectiva da obra, a na\u00e7\u00e3o brasileira parece n\u00e3o ter tirado proveito das li\u00e7\u00f5es do passado; o ind\u00edgena permanece sendo o estrangeiro de dentro. <em>Meu querido canibal<\/em> prop\u00f5e uma interpreta\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o por meio de textos, confrontando-os com dados da realidade e deslocando as formas narrativas do romance hist\u00f3rico tradicional. Ao se reapropriar da hist\u00f3ria e suscitar uma revis\u00e3o dos estere\u00f3tipos atribu\u00eddos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, a narrativa inaugura uma nova mem\u00f3ria, trazendo-a para o presente. De sua releitura da na\u00e7\u00e3o resta um sentimento de indigna\u00e7\u00e3o e de frustra\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a um encontro que ainda n\u00e3o se realizou. Assim procedendo, adere, \u00e0 sua maneira, \u00e0 percep\u00e7\u00e3o de Ailton Krenak, escritor e um dos l\u00edderes da causa ind\u00edgena no Brasil, sobre as rela\u00e7\u00f5es interculturais entre os diversos povos ind\u00edgenas e a sociedade brasileira: \u201co encontro e o contato entre as nossas culturas e os nossos povos, ele nem come\u00e7ou ainda e \u00e0s vezes parece que ele j\u00e1 terminou\u201d (Ailton Krenak,1999).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">KRENAK, Ailton (1999). O eterno retorno do encontro. In: NOVAES, Adauto. <em>A outra margem do Ocidente<\/em>. S\u00e3o Paulo: Minc-FUNARTE\/Companhia das Letras, p. 23-31.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">OLIVIERI-GODET, Rita (2010). Entre discursos: literatura e hist\u00f3ria em <em>Meu querido canibal<\/em>. In:&nbsp;NOVAES, Cl\u00e1udio Cledson, SEIDEL, Roberto Henrique. <em>Espa\u00e7o nacional, fronteiras e deslocamentos na obra de Ant\u00f4nio Torres<\/em>. Feira de Santana: UEFS Editora, p. 123-139.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">STOENESCO, Dominique (2022). <em>Meu querido canibal<\/em>, alguns pontos e outros contos. In: FONSECA, Aleilton. <em>Ant\u00f4nio Torres<\/em>: 50 anos de literatura. Itabuna, BA: Mondrongo, p. 278-289.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">TORRES, Ant\u00f4nio.&nbsp;A consagra\u00e7\u00e3o de dois Brasis. <em>Zero Hora<\/em>, Porto Alegre, 29 de agosto de 2001. Segundo Caderno\/Jornada Liter\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-4744.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-4744\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Record-2000.webp\" data-caption-title=\"Record, 2000\" data-attachment-id=\"4745\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Record, 2000\" width=\"250\" height=\"389\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/03\/Record-2000\/1523911434.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22389%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20389%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Record, 2000<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>TORRES, Ant\u00f4nio. 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