{"id":4670,"date":"2025-04-03T17:13:38","date_gmt":"2025-04-03T20:13:38","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4670"},"modified":"2026-07-16T13:44:10","modified_gmt":"2026-07-16T16:44:10","slug":"o-pai-da-menina-morta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4670","title":{"rendered":"O pai da menina morta"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">FERRO, Tiago. <em>O pai da menina morta<\/em>. S\u00e3o Paulo: Todavia, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Samara Lima<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o:<\/em> <em>Manuela Dib<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia seguinte ao falecimento da m\u00e3e, em 27 de outubro de 1977, Roland Barthes escreveu: \u201cPrimeira noite de n\u00fapcias. Mas primeira noite de luto?\u201d. As anota\u00e7\u00f5es de que Barthes lan\u00e7ou m\u00e3o para registrar suas emo\u00e7\u00f5es, escritas mais para si mesmo do que para o olhar de terceiros, s\u00e3o espor\u00e1dicas, err\u00e1ticas, assim como \u00e9 descont\u00ednua a dor de quem se depara com a perda de um ente querido. J\u00e1 os temas das notas, que culminaram postumamente em <em>Di\u00e1rio de luto<\/em> (2009), s\u00e3o diversos: \u00e9 poss\u00edvel encontrar desde o pequeno mal-estar que se instala no cotidiano do autor e o seu desejo de integrar o \u201cdesgosto numa escrita\u201d, at\u00e9 os coment\u00e1rios sobre seu receio de profanar a morte da m\u00e3e ao fazer literatura, \u201cembora de facto a literatura tenha origem nestas verdades\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 justamente partindo de uma verdade mais ou menos semelhante \u00e0 relatada pelo cr\u00edtico franc\u00eas, ou seja, de uma verdade gerada pela experi\u00eancia do luto, que <em>O pai da menina morta<\/em> (2018), romance de estreia do escritor, ensa\u00edsta e editor Tiago Ferro (S\u00e3o Paulo, SP, 1977), foi constru\u00eddo, j\u00e1 que Ferro viveu a morte da pr\u00f3pria filha dois anos antes de publicar o livro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em agosto de 2016, Ferro escreveu um texto n\u00e3o ficcional para a <em>Revista Piau\u00ed<\/em>, \u201cJ\u00e1 n\u00e3o era mais ter\u00e7a-feira, mas tamb\u00e9m n\u00e3o era quarta\u201d, dedicado a suas filhas e \u00e0 m\u00e3e delas. A crian\u00e7a tinha apenas oito anos quando faleceu, em mar\u00e7o de 2016, por miocardite decorrente de uma complica\u00e7\u00e3o causada pelo v\u00edrus Influenza. No texto, Ferro aborda os acontecimentos que se seguiram ap\u00f3s a morte de Manu e o vazio deixado por sua aus\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O pai da menina morta<\/em>, que ganhou o Pr\u00eamio S\u00e3o Paulo de Literatura e o Jabuti, em 2019, \u00e9 escrito em primeira e terceira pessoas do singular por um narrador-personagem que se v\u00ea diante da morte da pr\u00f3pria filha: \u201cA Minha Filha morreu no dia 26 de abril de 2016. Eu ainda fa\u00e7o parte deste mundo?\u201d. \u00c9 ent\u00e3o, mediante a perspectiva desse narrador-personagem, que parece oscilar entre o sonho (ou pesadelo) e a realidade, que o leitor ir\u00e1 acompanhar sua confus\u00e3o mental e a rea\u00e7\u00e3o de todos os atingidos pela trag\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas \u00e9 interessante notar que, apesar de partir da morte da crian\u00e7a, a narrativa n\u00e3o est\u00e1 preocupada em contar \u2013 somente \u2013 o que aconteceu. Na verdade, o que parece estar continuamente em quest\u00e3o \u00e9 a tentativa de fazer uma investiga\u00e7\u00e3o, por meio da subjetividade do narrador-personagem, do que ficou latente ap\u00f3s a morte, e de retra\u00e7ar a sua vida antes mesmo de ter se tornado pai: \u201cEu sou O Pai da Menina Morta? Quem fala aqui afinal? Quem \u00e9 Eu?\u201d. Dessa forma, diversos fios narrativos v\u00e3o aos poucos se conectando, \u00e0 medida que a hist\u00f3ria avan\u00e7a: tem-se acesso \u00e0s mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia do protagonista, \u00e0 sua busca por um estilo de vida alternativo gra\u00e7as \u00e0 pr\u00e1tica da ioga, ao processo do div\u00f3rcio, aos eventos pol\u00edticos ocorridos no pa\u00eds em 2016, \u00e0s lembran\u00e7as das viagens em fam\u00edlia, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesta hist\u00f3ria, a maioria das personagens \u00e9 chamada por suas fun\u00e7\u00f5es \u2013 &#8220;o m\u00e9dico&#8221;, &#8220;a Professora de Yoga\u201d, \u201ca Terapeuta Budista\u201d. J\u00e1 o pai e a filha s\u00e3o identificados apenas como \u201cO Pai da Menina Morta\u201d, \u201cO Pai Leproso\u201d, o \u201cPai Que Se Fodeu\u201d, e \u201cA Minha Filha\u201d ou a \u201cMenina Morta\u201d. Essa decis\u00e3o pode indicar que narrador e autor desejam separar as esferas da fic\u00e7\u00e3o e da realidade para evitar leituras simplistas sobre o modo como ambas est\u00e3o entrela\u00e7adas na narrativa. O embaralhamento dessas esferas se insinua j\u00e1 na pr\u00f3pria capa do romance, em que o nome do autor, situado no canto superior esquerdo, parece apontar vertiginosamente para o t\u00edtulo da obra, centralizado \u00e0 direita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 tamb\u00e9m tr\u00eas imagens fotogr\u00e1ficas em preto e branco reproduzidas ao longo do texto. Uma das fotos, por exemplo, pertence ao arquivo pessoal do autor e est\u00e1 inserida no fragmento [1978]. A imagem mostra um beb\u00ea, vestido com roupas listradas, sobre o que parece ser uma cama. Levando em considera\u00e7\u00e3o que o narrador afirma ter nascido \u201cna cidade de S\u00e3o Paulo no dia 26 de maio de 1976\u201d, podemos supor que a fotografia retrata o protagonista e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, o pr\u00f3prio escritor Tiago Ferro aos dois anos de idade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A foto, que poderia facilmente ser interpretada apenas como uma ilustra\u00e7\u00e3o de um momento da inf\u00e2ncia do narrador\/autor, ap\u00f3s uma leitura mais atenta pode nos levar a pensar na dupla temporalidade que toda imagem carrega; \u201cisso-foi\u201d (o registro de um evento do passado que n\u00e3o se repetir\u00e1) e \u201cisso-ser\u00e1\u201d, conceito utilizado por Barthes para caracterizar as representa\u00e7\u00f5es fotogr\u00e1ficas. Desse modo, \u00e9 como se a pr\u00f3pria fotografia do protagonista ainda beb\u00ea flutuasse entre a inoc\u00eancia de sua primeira inf\u00e2ncia e aquilo que tragicamente o aguarda no futuro: o casamento, o nascimento da filha, a paternidade, a morte da crian\u00e7a e sua nova e eterna condi\u00e7\u00e3o de \u201cO Pai da Menina Morta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em diversos momentos da narrativa, o narrador afirma que cada gesto seu \u00e9 \u201csuperinterpretado num n\u00edvel de paranoia e exegese\u201d, uma vez que o colocam frente a frente com ju\u00edzes do cotidiano que avaliam qualquer passo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 normalidade como um atentado \u00e0 mem\u00f3ria da crian\u00e7a: \u201cComo voc\u00ea ainda tem coragem de exibir a sua cara por a\u00ed? Como voc\u00ea ainda tem a petul\u00e2ncia de comer, dormir, sorrir, trepar, respirar? Como? Responda!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um primeiro momento, o leitor \u00e9 levado a pensar que est\u00e1 diante de uma esp\u00e9cie de di\u00e1rio que lhe permite entrever o dia a dia do narrador ap\u00f3s a morte da crian\u00e7a, pois h\u00e1 uma s\u00e9rie de entradas entre colchetes indicando os dias da semana. O car\u00e1ter fragment\u00e1rio da narrativa \u00e9 apresentado por meio de listas (de supermercado, de verbetes de dicion\u00e1rios, de medos bobos e das melhores m\u00fasicas em l\u00edngua inglesa), por mensagens de WhatsApp e pela reprodu\u00e7\u00e3o de e-mails. Assim, fam\u00edlia, lugares, religi\u00e3o, sexualidade e a pr\u00f3pria morte da filha s\u00e3o tratados em \u201cpar\u00e1grafos curtos e desconexos\u201d e solicitam do leitor uma aten\u00e7\u00e3o redobrada. \u00c9 como se o uso de diferentes elementos servisse como tentativa de conferir coes\u00e3o e significado ao ocorrido e ao relato, mas o fato \u00e9 que eles s\u00f3 deixam mais expl\u00edcita a dificuldade de compreend\u00ea-lo e narr\u00e1-lo. N\u00e3o \u00e0 toa, a conclus\u00e3o do narrador ao final do livro \u00e9 de que a \u201clinguagem \u00e9 uma cilada\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a><\/a>Outro recurso utilizado na narrativa para \u201cdar forma \u00e0 dor\u201d \u00e9 a aposta na alteridade, na busca por um grupo imagin\u00e1rio que \u201cpassou pelo mesmo tipo de sofrimento\u201d. Em diversos momentos, o narrador traz refer\u00eancias de figuras c\u00e9lebres de diferentes \u00e1reas de conhecimento a fim de costurar sua hist\u00f3ria pessoal a uma s\u00e9rie de retratos de pais que tamb\u00e9m ficaram \u00f3rf\u00e3os de seus filhos: Gilberto Gil, que \u201cretirou o filho dos escombros do acidente\u201d; Charles Darwin, que insistiu \u201ccom a sua fic\u00e7\u00e3o do reino animal\u201d ap\u00f3s a morte da filha; Hermann Kafka, que \u201crecebe os manuscritos do filho que havia morrido\u201d; e tantos outros sujeitos que vivenciaram essa mesma \u201cinvers\u00e3o da lei da natureza\u201d. O objetivo, a\u00ed, \u00e9 encontrar sentido a partir da experi\u00eancia do outro com o intuito de tamb\u00e9m encontrar uma sa\u00edda razo\u00e1vel para o luto vivido pela trag\u00e9dia. Por esse motivo, mais do que \u00e0 filha, afinal o livro n\u00e3o ir\u00e1 traz\u00ea-la de volta \u00e0 vida, a narrativa \u00e9 dedicada \u201cAos que restam\u201d, aos que sobreviveram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O pai da menina morta <\/em>dialoga com muitas obras contempor\u00e2neas que fazem da experi\u00eancia do luto mat\u00e9ria textual. Basta lembrar de <em>Lili: novela de um luto<\/em> (2021), de Noemi Jaffe, e <em>As pequenas chances<\/em> (2023), de Natalia Timerman. Contudo, \u00e9 tamb\u00e9m uma obra que est\u00e1 inserida no campo das produ\u00e7\u00f5es que recusam limites r\u00edgidos ao apostar no hibridismo dos g\u00eaneros e da linguagem, deixando nebulosa a pr\u00f3pria categoria \u201cromance\u201d e as fronteiras entre o real e a inven\u00e7\u00e3o. Ao final da leitura, pode-se dizer que o leitor est\u00e1 diante de uma obra que parte, sim, da realidade dos fatos, mas somente para fratur\u00e1-los e produzir um efeito mais pr\u00f3ximo da experi\u00eancia de aus\u00eancia causada pela morte de uma filha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BARTHES, Roland (2009). <em>Di\u00e1rios de luto<\/em>. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CAETANO J\u00daNIOR, Ant\u00f4nio (2019). <em>Luto e escrita de si<\/em>:<em> <\/em>jogos autoficcionais em<em> O pai da menina morta.<\/em> Monografia de Conclus\u00e3o de Curso (Gradua\u00e7\u00e3o em Letras) \u2013 Universidade Federal da Bahia, Salvador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">VELASCO MONTEIRO, Tiago (2021). A inespecificidade em <em>O pai da menina morta<\/em>. <em>Sign\u00f3tica<\/em>, Goi\u00e2nia, v. 33, p. e69126. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/revistas.ufg.br\/sig\/article\/view\/69126\">https:\/\/revistas.ufg.br\/sig\/article\/view\/69126<\/a>. Acesso em: 24 out. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-4672.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-4672\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Todavia-2018.webp\" data-caption-title=\"Todavia, 2018\" data-attachment-id=\"4673\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Todavia, 2018\" width=\"250\" height=\"379\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/03\/Todavia-2018\/2132334573.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22379%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20379%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Todavia, 2018<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FERRO, Tiago. 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