{"id":4650,"date":"2025-03-31T11:35:39","date_gmt":"2025-03-31T14:35:39","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4650"},"modified":"2025-11-12T17:59:04","modified_gmt":"2025-11-12T20:59:04","slug":"dias-de-luto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4650","title":{"rendered":"Dias de luto"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">SILVEIRA, Joel. <em>Dias de luto<\/em>. Rio de Janeiro: Record, 1985.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Luciana Thom\u00e9<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Esp\u00edrito Objeto<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Joel Magno Ribeiro da Silveira, conhecido como Joel Silveira (Lagarto, SE, 1918 \u2013 Rio de Janeiro, RJ, 2007) \u00e9 considerado uma refer\u00eancia para o jornalismo brasileiro. Aos 26 anos, foi o rep\u00f3rter designado para acompanhar, pelo <em>Di\u00e1rios Associados<\/em>, a For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira (FEB) \u00e0 It\u00e1lia e fazer a cobertura jornal\u00edstica da Segunda Guerra Mundial. Ao novato, o empres\u00e1rio e dono do jornal, Assis Chateaubriand, disse: \u201cSeu Silveira, me fa\u00e7a um favor de ordem pessoal. V\u00e1 para a guerra, mas n\u00e3o morra. Rep\u00f3rter n\u00e3o \u00e9 para morrer, \u00e9 para mandar not\u00edcias\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante sua trajet\u00f3ria profissional, Silveira foi contempor\u00e2neo de intelectuais como Nelson Rodrigues, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga, entre outros. Foi Chateaubriand quem lhe deu o apelido de \u201ca v\u00edbora\u201d, por seu estilo textual ferino e impactante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta introdu\u00e7\u00e3o se faz necess\u00e1ria porque Silveira foi pioneiro, no Brasil, do chamado \u201cNovo Jornalismo\u201d, uma vertente inspirada nos textos dos jornalistas estadunidenses Tom Wolfe e Gay Talese, caracterizada pela mescla da objetividade jornal\u00edstica com o lirismo da literatura. Autor de cerca de quarenta livros, Silveira \u00e9 amplamente reconhecido por t\u00edtulos como <em>O inverno da guerra<\/em> (2005) e <em>A feijoada que derrubou o Governo<\/em> (2004), ambos de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o, reunindo cr\u00f4nicas e reportagens. <em>Hist\u00f3rias de pracinha (oito meses com a FEB)<\/em>, lan\u00e7ado pela Cia. Editora Leitura, em 1945, \u00e9 considerada sua obra-prima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de meados da d\u00e9cada de 1980, Silveira investe ainda mais na fic\u00e7\u00e3o, consolidando-se tamb\u00e9m como escritor. Desta vez, inverte a l\u00f3gica: utiliza a realidade como inspira\u00e7\u00e3o para a fic\u00e7\u00e3o. O romance <em>Dias de luto<\/em> \u00e9 um exemplo dessa proposta. Lan\u00e7ada em 1985, a narrativa apresenta a jornada de Jorge Rodrigues Fonseca, dos oito anos de idade at\u00e9 o in\u00edcio da vida adulta, aos dezessete anos. A obra adota a estrutura do romance de forma\u00e7\u00e3o, que explora o amadurecimento do personagem, abordando seu desenvolvimento f\u00edsico, psicol\u00f3gico, moral, social e pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O romance n\u00e3o cita detalhadamente fatos nem indica um per\u00edodo temporal. No entanto, \u00e9 enf\u00e1tico ao situar o espa\u00e7o geogr\u00e1fico onde a trama ocorre. Jorge, um menino franzino e com diversos problemas de sa\u00fade, avista pela janela da casa o Morro do Urubu, local conhecido da cidade de Aracaju (SE).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na primeira parte do livro, intitulada \u201cDesaparecimento de Aurora\u201d, o narrador em terceira pessoa est\u00e1 focalizado em Jorge e traz suas percep\u00e7\u00f5es do mundo e a dificuldade em compreender a vida dos pais e dos outros adultos. \u00c9 natural que o texto n\u00e3o contextualize \u00e9poca hist\u00f3rica ou outras informa\u00e7\u00f5es, porque o menino n\u00e3o compreende esses aspectos. Assim, o leitor acompanha o desenrolar da hist\u00f3ria sob o olhar da crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para se curar dos males cr\u00f4nicos, Jorge e seu irm\u00e3o Gabriel, um ano mais novo, s\u00e3o enviados para Lagarto, um povoado da cidade de Salgado, localizado a 52 quil\u00f4metros de Aracaju. Essas s\u00e3o as primeiras pistas concretas sobre o quanto a hist\u00f3ria traz fatos reais e, mais importante, biogr\u00e1ficos. Silveira nasceu em Lagarto e morou algum tempo por l\u00e1, antes de sua fam\u00edlia se mudar para Aracaju. Jorge parece ter sido o personagem criado para mostrar aspectos da vida do pr\u00f3prio jornalista, que serviu de base para a constru\u00e7\u00e3o de todo o texto ficcional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A narrativa segue a cronologia da vida de Silveira, mas apresenta algumas cenas mais pungentes, como o abuso sexual sofrido por Jorge e a descoberta do impulso sexual a partir da proximidade com uma prima. Cenas que podem ser ficcionais, e \u00e9 isso que precisa ficar evidente: os aspectos reais e ficcionais se misturam, e n\u00e3o \u00e9 objetivo do autor que o leitor consiga distingui-los.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, epis\u00f3dios reais e hist\u00f3ricos est\u00e3o por todo o livro. Nascido em 1918, Silveira tinha oito anos quando ocorreu a segunda Revolta Tenentista em Sergipe, em 1926. O movimento foi inspirado pela passagem da Coluna Prestes no estado do Piau\u00ed. A revolta foi reprimida em apenas quatro horas, mas deixou um rastro de viol\u00eancia que n\u00e3o passou despercebido pelo menino Jorge, embora ele n\u00e3o compreendesse o epis\u00f3dio ou seu impacto na cidade. O personagem tamb\u00e9m nota a movimenta\u00e7\u00e3o de seu pai, como se demonstrasse um poss\u00edvel envolvimento na prote\u00e7\u00e3o de revoltosos contra a retalia\u00e7\u00e3o do governo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O leitor pode se sentir instigado a pesquisar todas as refer\u00eancias e pistas indicadas pelo menino Jorge e fazer uma reflex\u00e3o que ligue os pontos e que desvende em que momento da hist\u00f3ria brasileira ocorreu um conflito em Aracaju que Silveira poderia ter testemunhado. A mesma pesquisa vai mostrar que, em alguns aspectos, o autor propositadamente decidiu por ficcionalizar a narrativa, especialmente no que se refere ao relacionamento entre Jorge e seu pai. No livro, ocorre o oposto do que aconteceu na vida de Silveira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na segunda parte, intitulada \u201cDias de luto\u201d, a narrativa avan\u00e7a e Jorge est\u00e1 com 17 anos. O texto abandona o tom pueril e se aprimora, acompanhando o amadurecimento do personagem. Jorge j\u00e1 manifesta inclina\u00e7\u00e3o para a milit\u00e2ncia de esquerda e come\u00e7a a escrever textos para o jornal <em>A voz do oper\u00e1rio<\/em>, publica\u00e7\u00e3o dirigida e entregue aos trabalhadores da ind\u00fastria t\u00eaxtil de Aracaju \u2013 algo que tamb\u00e9m consta na biografia de Silveira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 poss\u00edvel compreender o livro como uma reuni\u00e3o de duas novelas cuja inspira\u00e7\u00e3o \u00e9 a vida do autor. Na orelha de <em>Dias de luto<\/em>, Luiz Antonio de Assis Brasil \u2013 um dos tantos intelectuais que falam sobre a obra e o autor \u2013 afirma: \u201c[\u2026] Desaparecimento de Aurora \u00e9 uma novela bem realizada, num estilo vigoroso e limpo, um dos poucos bons livros de fic\u00e7\u00e3o que tivemos ultimamente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Silveira demonstra na narrativa o mesmo detalhamento e cuidado de uma reportagem, mas coloca os fatos hist\u00f3ricos a servi\u00e7o da fic\u00e7\u00e3o. E isso o destaca entre os autores brasileiros, especialmente aqueles que usaram a hist\u00f3ria do pa\u00eds e fatos determinantes para os processos sociais e democr\u00e1ticos como inspira\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. O texto do autor contextualiza sua pr\u00f3pria experi\u00eancia, mas tamb\u00e9m desenha epis\u00f3dios marcantes do Brasil e de seus cidad\u00e3os. O \u201cDesaparecimento de Aurora\u201d mostra a perda da inoc\u00eancia de um menino, que quebra uma barreira metaf\u00f3rica no livro e descobre a vida sexual. \u201cDias de luto\u201d anuncia a ideologia que o pr\u00f3prio Silveira adota posteriormente e d\u00e1 sinais de que, assim como ele, o personagem Jorge tamb\u00e9m abandonar\u00e1 a Faculdade de Direito para tentar a vida no Rio de Janeiro. Os dias s\u00e3o de luta \u2013 uma refer\u00eancia \u00e0 busca por justi\u00e7a e igualdade social, focada primeiramente na dif\u00edcil rotina dos oper\u00e1rios da cidade. Mas os dias tamb\u00e9m s\u00e3o de luto, porque Jorge presencia a perda de pessoas queridas e familiares e constata que o tempo aflige a todos, sobretudo os mais vulner\u00e1veis. Esses temas s\u00e3o recorrentes e aparecem em diferentes obras de Silveira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LIMA, Cleverton Barros de (2023). Figura\u00e7\u00f5es do desespero na fic\u00e7\u00e3o de Joel Silveira. <em>Revista Maracanan<\/em>, Rio de Janeiro, n. 34, p. 275-294. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.e-publicacoes.uerj.br\/maracanan\/article\/view\/75338\">https:\/\/www.e-publicacoes.uerj.br\/maracanan\/article\/view\/75338<\/a>. Acesso em: 30 out. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-4652.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-4652\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Record-1985.webp\" data-caption-title=\"Record, 1985\" data-attachment-id=\"4653\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Record, 1985\" width=\"250\" height=\"369\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/03\/Record-1985\/1877288178.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22369%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20369%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Record, 1985<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SILVEIRA, Joel. 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