{"id":4255,"date":"2025-03-24T15:58:19","date_gmt":"2025-03-24T18:58:19","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4255"},"modified":"2025-09-15T09:47:39","modified_gmt":"2025-09-15T12:47:39","slug":"turismo-para-cegos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4255","title":{"rendered":"Turismo para cegos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">MONTENEGRO, T\u00e9rcia. <em>Turismo para cegos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Caroline Barbosa<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Th\u00e9o Cris\u00f3stomo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Turismo para cegos<\/em> (2015) \u00e9 o romance de estreia de T\u00e9rcia Montenegro (Fortaleza, CE, 1976), professora da Universidade Federal do Cear\u00e1 (UFC) e fot\u00f3grafa. Na obra, a cegueira, a discuss\u00e3o entre arte cl\u00e1ssica e contempor\u00e2nea, as rela\u00e7\u00f5es interpessoais e a complexidade do ser humano s\u00e3o os motes principais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pierre, jovem servidor p\u00fablico, \u00e9 aluno de pintura de Laila at\u00e9 o momento em que ela decide encerrar as aulas devido a uma degenera\u00e7\u00e3o progressiva da retina, que compromete sua vis\u00e3o. Ele percebe que gosta da mo\u00e7a, principalmente porque, considerando-se feio, acredita que a doen\u00e7a de Laila facilitaria a rela\u00e7\u00e3o entre ambos. Assim, o leitor logo percebe que a rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o nasce de motiva\u00e7\u00f5es t\u00e3o nobres. Demonstrando uma personalidade submissa e leal, Pierre consegue iniciar um relacionamento com a professora de Artes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Laila \u00e9 uma pintora que acredita que arte contempor\u00e2nea \u00e9 o nome de obras que n\u00e3o representam nada e, por isso, prefere valorizar o cl\u00e1ssico. \u00c9 uma anti-hero\u00edna que parece aceitar Pierre porque um afeto se instala e ele facilita a sa\u00edda dela de casa e das preocupa\u00e7\u00f5es dos pais, mas tamb\u00e9m porque \u201c[&#8230;] ainda conseguia us\u00e1-lo para se distrair de sua revolta\u201d. Quando resolve adotar um c\u00e3o-guia, chama-o de Pierre. Esse gesto deixa claro que Laila exige devo\u00e7\u00e3o e submiss\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o que mant\u00e9m com o ex-aluno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pierre corresponde \u00e0s exig\u00eancias e cuida de Laila. Juntos fazem viagens pelo Brasil e, como Laila n\u00e3o pode ver o mundo, tateia-o atrav\u00e9s das vozes, dos embates com corpos alheios nas ruas. O esfor\u00e7o por redescobrir outra forma de viver com a doen\u00e7a oscila, pois, como pensa Pierre, \u201cdepois da bonan\u00e7a, vem a tempestade e Laila cai numa depress\u00e3o em estilo caramujo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O romance \u00e9 dividido em tr\u00eas partes, que abrigam cap\u00edtulos curtos. Na primeira, s\u00e3o apresentados Pierre e Laila e o in\u00edcio da rela\u00e7\u00e3o entre ambos; na segunda, revelam-se os mist\u00e9rios que cada um guarda; na \u00faltima parte, entra em cena a narradora, personagem fundamental para os desdobramentos da trama. Sem ser nomeada, fica claro que se trata de uma estudante de jornalismo que deseja ser escritora. Ao trabalhar em um <em>pet shop<\/em>, conhece o casal no dia em que buscam um c\u00e3o-guia e logo percebe o car\u00e1ter permissivo de Pierre e a for\u00e7a dominadora de Laila.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois de alguns desentendimentos com Laila, Pierre convida a funcion\u00e1ria do <em>pet shop<\/em> para um caf\u00e9 e conta todos os cap\u00edtulos da rela\u00e7\u00e3o. Enquanto Pierre precisava de um ombro para desabafar, a narradora aceita o encontro para coletar ideias para um personagem. A partir disso, tudo que o leitor sabe sobre Laila vem da narrativa contada pelo namorado e pelas lacunas que a narradora preenche. A metalinguagem se faz presente, pois cada um se aproveita do outro, e a narrativa \u00e9 marcada pela subjetividade inerente a qualquer relato pessoal. Laila, aos olhos deles, \u00e9 essa mulher que sofre, que se desespera, cheia de pequenos atos maldosos, mas tamb\u00e9m uma for\u00e7a temperamental, livre e inspiradora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A narrativa n\u00e3o apresenta Laila com base em estere\u00f3tipos comuns em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pessoa cega: a personagem n\u00e3o \u00e9 vitimizada. Ela \u00e9 o sujeito ativo da pr\u00f3pria vida, que busca dar vaz\u00e3o \u00e0s suas vontades, sejam elas consideradas boas ou ruins. \u00c9 assim que Laila passeia pela cidade, aproveita as viagens, decide seu destino, mas tamb\u00e9m ofende as pessoas, envergonha Pierre de prop\u00f3sito e \u00e9 impaciente com quem n\u00e3o lhe agrada. Sua subjetividade vem primeiro que a cegueira, elemento que n\u00e3o define quem ela \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dessa forma, o romance \u201c[&#8230;] n\u00e3o \u00e9 essencialmente um livro sobre a cegueira, mas uma obra que se utiliza da cegueira como uma estrat\u00e9gia para discutir as rela\u00e7\u00f5es interpessoais dos personagens\u201d, conforme Silva, Barros e Silva (2018). Pierre n\u00e3o \u00e9 o que parece ser e, desde o primeiro contato, tem inten\u00e7\u00f5es ocultas na rela\u00e7\u00e3o com Laila; Laila n\u00e3o busca ser v\u00edtima e exerce poder sobre os outros e a pr\u00f3pria narradora guarda seus mist\u00e9rios. Nessa trama, o que est\u00e1 em destaque \u00e9 a complexidade do ser humano, e essa aposta afasta qualquer manique\u00edsmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escritora conta com uma produ\u00e7\u00e3o ampla, que transita entre contos (<em>O vendedor de Judas<\/em>, 2011), cr\u00f4nicas (<em>Dicion\u00e1rio amoroso de Fortaleza<\/em>: um <em>tour<\/em> pela cidade, 2014) e literatura infantojuvenil (<em>Rachel. O mundo por escrito<\/em>, 2010), al\u00e9m de romances publicados nos \u00faltimos anos (<em>Em plena luz<\/em>, 2019; <em>Um espelho no prego<\/em>, 2024).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MAGALH\u00c3ES, Milena (2018). Cegueira e crueldade na narrativa de T\u00e9rcia Montenegro. <em>Estudos de Literatura Brasileira Contempor\u00e2nea<\/em>, n. 54, p. 41-60. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/elbc\/a\/jP3YYjjRSnbykWmHXkfdtqf\/?format=pdf&amp;lang=pt\">https:\/\/www.scielo.br\/j\/elbc\/a\/jP3YYjjRSnbykWmHXkfdtqf\/?format=pdf&amp;lang=pt<\/a>. Acesso em: 3 mar. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MELO, Cimara Valim de (2019). Uma literatura em tr\u00e2nsito: notas sobre <em>Turismo para cegos<\/em>, de T\u00e9rcia Montenegro. <em>In<\/em>: 4\u00ba Semin\u00e1rio Internacional de l\u00edngua, literatura e processos culturais \u2013 SILLPRO, 5 a 7 nov. 2019, Universidade Caxias do Sul. <em>Anais\u2026<\/em> Caxias do Sul: UCS. v. 2, p. 81-93.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SILVA, Manoela Cristina Correia Carvalho; BARROS, Alessandra Santana Soares; SILVA, Miralva dos Santos (2018). <em>Turismo para cegos<\/em>: velhos e novos simbolismos numa obra liter\u00e1ria sobre a cegueira. <em>Estudos de Literatura Brasileira Contempor\u00e2nea<\/em>, n. 54, p. 61-83. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/elbc\/a\/zYd6dWyTMC5FCrLXwKJt6tv\/?format=pdf&amp;lang=pt\">https:\/\/www.scielo.br\/j\/elbc\/a\/zYd6dWyTMC5FCrLXwKJt6tv\/?format=pdf&amp;lang=pt<\/a>. Acesso em: 3 mar. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-4257.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-4257\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Companhia-das-Letras-2015.webp\" data-caption-title=\"Companhia das Letras, 2015\" data-attachment-id=\"4258\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Companhia das Letras, 2015\" width=\"250\" height=\"375\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/03\/Companhia-das-Letras-2015\/4157179707.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22375%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20375%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Companhia das Letras, 2015<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MONTENEGRO, T\u00e9rcia. 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