{"id":4204,"date":"2025-03-26T13:20:36","date_gmt":"2025-03-26T16:20:36","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4204"},"modified":"2025-09-15T09:47:54","modified_gmt":"2025-09-15T12:47:54","slug":"cebola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4204","title":{"rendered":"Cebola"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">KARAM, Manoel Carlos. <em>Cebola<\/em>. Florian\u00f3polis: FCC, 1997.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Giuliano Lellis Ito Santos<br><em>Foto:<\/em> <em>Isis Gamell<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Manoel Carlos Karam (Rio do Sul, SC, 1947 \u2013 Curitiba, PR, 2007) construiu sua carreira liter\u00e1ria na cidade de Curitiba, onde passou a residir em 1966 e viveu at\u00e9 sua morte. Na d\u00e9cada de 1970, escreveu e dirigiu pe\u00e7as de teatro, passando a dedicar-se \u00e0 literatura a partir dos anos 1980. Em 1995, recebeu o Pr\u00eamio Cruz e Sousa da Funda\u00e7\u00e3o Catarinense de Cultura, que viabilizou a publica\u00e7\u00e3o de <em>Cebola<\/em> em 1997.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Karam possui uma trajet\u00f3ria no jornalismo, trabalhando em diversos ve\u00edculos de imprensa do Paran\u00e1, mas o que mais se destaca \u00e9 sua produ\u00e7\u00e3o ficcional, composta por sete romances. Entre eles, ressalta-se a trilogia Alhures do Sul, formada por <em>Fontes murmurantes<\/em> (1985), <em>O impostor no baile de m\u00e1scaras<\/em> (1992) e <em>Cebola<\/em> (1997).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Cebola<\/em> talvez narre uma grande festa, uma reuni\u00e3o de personagens marginais que buscam entender seu lugar no mundo \u2013 ou melhor, um lugar que j\u00e1 est\u00e1 bem delimitado pela casa, cen\u00e1rio de toda a narrativa. Nesse sentido, o leitor adentra um universo a partir de um espa\u00e7o reduzido, onde as mais diversas discuss\u00f5es cotidianas ganham ares de filosofia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na orelha da segunda edi\u00e7\u00e3o de <em>Cebola<\/em>, o escritor Joca Reiners Terron (2010) relata: &#8220;Certa vez Manoel Carlos Karam me explicou qual era a l\u00f3gica por tr\u00e1s de seus livros publicados at\u00e9 ent\u00e3o. Os livros <em>Fontes murmurantes<\/em> (1985), <em>O impostor no baile de m\u00e1scara<\/em> (1992) e <em>Cebola<\/em> (1997) [\u2026]\u201d. Segundo Terron (2010), essa explica\u00e7\u00e3o aconteceu em um encontro marcado por um cen\u00e1rio peculiar: \u201cEra uma noite quente em Curitiba e est\u00e1vamos siderados por dois fen\u00f4menos verdes que ocorriam no quintal de sua casa no Bom Retiro: vagalumes e Heinekens. Creio que estas \u00faltimas s\u00e3o o motivo de eu n\u00e3o lembrar quase nada da explica\u00e7\u00e3o de Karam\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O coment\u00e1rio de Terron (2010) remete justamente ao ambiente onde se passa o romance de Karam: a ideia de que conversas corriqueiras e esquec\u00edveis podem conter reflex\u00f5es mais profundas. E \u00e9 exatamente isso que encontramos em sua narrativa \u2013 essa mistura entre o banal e o filos\u00f3fico, marcada por uma boa dose de <em>nonsense<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro \u00e9 dividido em quatro partes: \u201cCom\u00e9dia\u201d, \u201cContos\u201d, \u201cCombust\u00e3o\u201d e \u201cCharada\u201d. N\u00e3o h\u00e1 uma linearidade no encadeamento da narrativa, mas, como sugere o pr\u00f3prio t\u00edtulo, <em>Cebola<\/em>, as hist\u00f3rias inseridas nessa estrutura funcionam como camadas, exigindo que o leitor refa\u00e7a as conex\u00f5es para identificar um sistema subjacente. O formato da cebola, com suas sobreposi\u00e7\u00f5es, reflete essa estrutura, em que a compreens\u00e3o se d\u00e1 pelo desdobramento sucessivo de elementos interligados. Essa ideia de camadas se manifesta tamb\u00e9m na estrutura do romance, que se organiza de maneira que reflete a divis\u00e3o em quatro partes. Nesse caso, n\u00e3o parece mera coincid\u00eancia que tanto o t\u00edtulo do livro quanto os nomes das partes comecem com a letra \u201cC\u201d. O formato semicircular dessa letra, curvado e aberto, pode ser associado \u00e0 forma como essas partes se encaixam, sugerindo continuidade e interdepend\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez por isso, algumas hist\u00f3rias s\u00e3o contadas e recontadas, \u00e0s vezes com uma mudan\u00e7a de ponto de vista, \u00e0s vezes modificadas pelo mesmo narrador. Assim, o romance acaba por criar um mundo em devir, no qual a frase \u201co mundo d\u00e1 voltas dentro desta casa\u201d o sintetiza muito bem. O leitor pode supor, ent\u00e3o, que h\u00e1 a proje\u00e7\u00e3o de um microcosmo, fazendo com que a casa figure como um mundo complexo, complicado e cheio de conflitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Boa parte da narrativa \u00e9 constru\u00edda por meio de di\u00e1logos, embora n\u00e3o sejam apresentados de forma convencional, com travess\u00f5es ou marca\u00e7\u00f5es t\u00edpicas. Apresentam-se, antes, em fluxo, tentando retratar a pluralidade de vozes presentes no mesmo espa\u00e7o. Um trecho do livro que ilustra essa estrutura \u00e9 o do di\u00e1logo entre jogadores, em um jogo de p\u00f4quer: \u201cManfredo viu que ela escondia os \u00f3culos escuros atr\u00e1s do leque de cartas. \/ Fala logo, porra. \/ Manfredo falou. \/ Eu acredito numa coisa. \/ Que ningu\u00e9m aqui pretende ir al\u00e9m do inesquec\u00edvel. \/ Em resposta, todos pediram cartas\u201d. Essa estrutura\u00e7\u00e3o corresponde ao mundo em conflito presente no romance, com personagens em debate constante sobre os mais diversos assuntos, como religi\u00e3o, guerra, terrorismo, Al Capone, Bu\u00f1uel, Bar\u00e3o de Itarar\u00e9, Kierkegaard, entre muitos outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O romance tamb\u00e9m brinca com a ambiguidade ao apresentar personagens com nomes que evocam figuras hist\u00f3ricas ou ficcionais. Napole\u00e3o e Olavo B. sugerem Bonaparte e Bilac? O mesmo acontece com C\u00e2ndico, Manfredo, Ema e Batatinha, poss\u00edveis refer\u00eancias a Voltaire, Byron, Flaubert e Manda-Chuva, j\u00e1 que este \u00faltimo \u00e9 o animal de estima\u00e7\u00e3o da casa. O mais curioso \u00e9 que nenhuma delas possui caracter\u00edsticas marcantes que coincidam com as personalidades de nomes semelhantes, que parecem referenciar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o da narrativa, a primeira parte, \u201cCom\u00e9dia\u201d, dividida em cap\u00edtulos numerados de um a nove, apresenta o espa\u00e7o e as personagens, permitindo ao leitor adentrar o universo <em>nonsense<\/em> da casa e acompanhar os di\u00e1logos de pelo menos quinze personagens. Essa parte se encerra com a cena da sopa de letrinhas, servida pelo fantasma que habita a cozinha. Em seguida, a segunda parte, \u201cContos\u201d, estrutura-se por meio de t\u00edtulos individuais para cada narrativa, trazendo hist\u00f3rias brev\u00edssimas que, em alguns momentos, retomam passagens da parte anterior. J\u00e1 a terceira parte, \u201cCombust\u00e3o\u201d, organiza-se em cap\u00edtulos dispostos em ordem alfab\u00e9tica e acompanha um inc\u00eandio que consome a casa. Apesar do caos instaurado, as personagens seguem suas rotinas sem grandes altera\u00e7\u00f5es, enquanto o fogo passa a ser um tema recorrente nas conversas. Por fim, a quarta parte, \u201cCharada\u201d, apresenta pequenas narrativas fragmentadas, separadas apenas por asteriscos, algumas das quais recuperam epis\u00f3dios j\u00e1 mencionados ao longo do livro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir dessa estrutura, \u00e9 poss\u00edvel perceber dois movimentos distintos na narrativa. Enquanto a primeira e a terceira partes estabelecem certa continuidade, seja pela numera\u00e7\u00e3o progressiva dos cap\u00edtulos ou pela sequ\u00eancia alfab\u00e9tica, a segunda e a quarta sugerem uma fragmenta\u00e7\u00e3o do discurso, como se as hist\u00f3rias ocorressem de modo isolado dentro do espa\u00e7o da casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Cebola<\/em> \u00e9 um romance de leitura fluida, mas desafiadora, principalmente para leitores acostumados a narrativas lineares. Sua constru\u00e7\u00e3o dialoga com ideias de vanguarda, evidenciadas por refer\u00eancias a autores como Bu\u00f1uel e Beckett, cuja influ\u00eancia refor\u00e7a o car\u00e1ter experimental da obra. Contudo, a presen\u00e7a de nomes como Sam Peckinpah, diretor e roteirista, faz uma liga\u00e7\u00e3o com o cinema hollywoodiano, estabelecendo uma ponte com a cultura de massa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por tudo isso, esse romance de Manoel Carlos Karam destaca-se como expoente de uma literatura que se alimenta de diversos discursos contempor\u00e2neos como forma de constru\u00e7\u00e3o narrativa, fazendo com que o leitor permane\u00e7a em constante d\u00favida sobre a inten\u00e7\u00e3o dessas refer\u00eancias, ora ir\u00f4nicas, ora enigm\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PUJOL FILHO, Reginaldo (2014). Ensaios e resenhas: O circo de Karam est\u00e1 sempre armado. At\u00e9 os dentes. <em>Rascunho<\/em> \u2013 O jornal de literatura do Brasil, Porto Alegre, n. 166. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/rascunho.com.br\/ensaios-e-resenhas\/o-circo-de-karam-esta-sempre-armado-ate-os-dentes\/.\">https:\/\/rascunho.com.br\/ensaios-e-resenhas\/o-circo-de-karam-esta-sempre-armado-ate-os-dentes\/.<\/a> Acesso em: 12 mar. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">TERRON, Joca Reiners (2010).&nbsp;Certa vez Manoel Carlos Karam me explicou\u2026 [Orelha de livro]. In: KARAM, Manoel Carlos. <em>Cebola<\/em>. Florian\u00f3polis: Kafka.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">UFPR TV (2019). Depoimento de Karam. [Entrevista concedida a] S\u00e9rgio Brand\u00e3o. Mem\u00f3rias Paran\u00e1. <em>Persona<\/em>, 1 v\u00eddeo (33 min). Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=LeGwnWwRhIs\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=LeGwnWwRhIs<\/a>. Acesso em: 12 mar. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-4206.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-4206\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Kafka-2010.webp\" data-caption-title=\"Kafka, 2010\" data-attachment-id=\"4208\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Kafka, 2010\" width=\"250\" height=\"375\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/02\/Kafka-2010\/1391080069.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22375%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20375%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Kafka, 2010<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>KARAM, Manoel Carlos. 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