{"id":4121,"date":"2025-03-27T00:30:43","date_gmt":"2025-03-27T03:30:43","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4121"},"modified":"2025-11-12T17:57:36","modified_gmt":"2025-11-12T20:57:36","slug":"um-certo-jaques-netan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4121","title":{"rendered":"Um certo Jaques Netan"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">NEJAR, Carlos.&nbsp;<em>Um certo Jaques Netan.<\/em>&nbsp;Rio de Janeiro: Record, 1991.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Carolina Montebelo Barcelos<br><em>Foto: Regina Dalcastagn\u00e8<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Luiz Carlos Verzoni Nejar (Porto Alegre, RS, 1939), conhecido no meio liter\u00e1rio como Carlos Nejar, \u00e9 poeta, romancista, cr\u00edtico liter\u00e1rio e tradutor, ocupante da cadeira n\u00famero 4 da Academia Brasileira de Letras desde 1988. Por sua prof\u00edcua produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, cujo in\u00edcio data de 1960, \u00e9 chamado de o \u201cpoeta do pampa brasileiro\u201d. Em 1991, publicou seu primeiro romance, por vezes tamb\u00e9m considerado uma novela \u2013 muito em fun\u00e7\u00e3o de sua extens\u00e3o breve \u2013 <em>Um certo Jaques Netan<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O romance \u00e9 dividido em cinco cap\u00edtulos sem t\u00edtulos, com n\u00famero variado de fragmentos em cada um. Trata-se de uma narrativa n\u00e3o linear e monof\u00f4nica, uma vez que o foco \u00e9 no personagem Jaques Netan; os outros personagens raramente mencionados s\u00e3o Tamisa, sua esposa, e Cristiana, sua filha. Embora a voz narrativa seja heterodieg\u00e9tica, ou seja, o narrador n\u00e3o participa efetivamente da hist\u00f3ria, a professora e pesquisadora Marcele Franceschini observa que mesmo ausente esse narrador exprime a sensa\u00e7\u00e3o de fragilidade e de isolamento que circunda o protagonista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jaques Netan \u00e9 um m\u00e9dico e as poucas passagens no romance que tangenciam o real mencionam, por exemplo, seu consult\u00f3rio, clientes, ou o relacionamento com Tamisa. A mem\u00f3ria do protagonista sobre como conheceu Tamisa, sua descri\u00e7\u00e3o dos atributos f\u00edsicos da amada, os anos que passaram juntos e a vinda da filha Cristiana marcam os poucos momentos de brandura do romance.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No mais, a obra se insere em um universo on\u00edrico e, tal como no sonho, a narrativa \u00e9 fragment\u00e1ria, carregada de simbologias. Tamb\u00e9m o narrador evoca os sonhos do protagonista, desde aqueles prazerosos ou que suscitam curiosidade e que iniciam o romance, dos quais ele n\u00e3o quer sair, passando pelo afastamento do plano terreno com \u201cN\u00e3o mais sonhava, pois tudo era sonho\u201d, at\u00e9 chegar ao pesadelo e, a partir de ent\u00e3o, n\u00e3o querer mais sonhar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sonho \u00e9 uma das imagens que atravessam o romance; outra imagem \u00e9 a do espelho. O espelho, para o protagonista, serve como met\u00e1fora do tempo: \u201cVerific\u00e1vel pela oscila\u00e7\u00e3o das imagens\u201d; reflete uma imagem ou a esconde. Tamb\u00e9m, o espelho, para al\u00e9m de&nbsp; refletir \u2013 ou esconder \u2013 uma imagem, adquire camadas: \u201cOs espelhos nos captam os olhos, que tamb\u00e9m s\u00e3o espelhos. Em outro mais dentro ainda\u201d, igualmente, s\u00e3o capazes de se aprofundar no ser que reflete, pois \u201cn\u00e3o sabem como somos, mas como sonhamos\u201d. Assim, essas duas imagens, a dos sonhos e a dos espelhos, que tamb\u00e9m s\u00e3o encontradas na po\u00e9tica do autor, algumas vezes se interseccionam no romance.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma terceira imagem recorrente em <em>Um certo Jaques Netan<\/em> \u00e9 o muro. Tal qual o espelho, o muro faz parte do universo on\u00edrico do romance \u2013 \u201co muro se fora armazenando no sonho de Jaques\u201d \u2013 , tangenciando o pesadelo do protagonista. O muro \u00e9 s\u00edmbolo da opress\u00e3o e da repress\u00e3o. Em certo momento do romance, Jaques Netan ouve no r\u00e1dio que o pa\u00eds estava sob Lei Marcial, o governo civil havia sido deposto e uma junta militar estava agora no comando. Um cartaz avistado pelo protagonista avisava que os cidad\u00e3os deveriam servir ao governo, que a este se reservava o direito de vida e morte sobre todos e, mormente, que \u201co muro \u00e9 o tributo que o Novo Regime imp\u00f5e\u201d e, ainda, que \u201cos que obedecerem ao muro, florescer\u00e3o junto a ele\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo o muro ganha grandes propor\u00e7\u00f5es, avan\u00e7a, e por desobedi\u00eancia a ele cidad\u00e3os s\u00e3o fuzilados. Jaques Netan encara a rec\u00e9m-empossada junta militar com indigna\u00e7\u00e3o e, portanto, \u00e9 avesso ao muro, por isso o muro \u00e9 seu pesadelo. Para ele, \u201cA Lei Marcial e o muro s\u00e3o muitos mortos juntos\u201d. Dessa forma, o muro age no romance como alegoria de uma ditadura militar. Assim como ocorreu no Brasil de 1964 a 1985, em <em>Um certo Jaques Netan<\/em>, o governo pratica a censura \u00e0 imprensa, persegue, prende e assassina quem n\u00e3o se alinha a ele e, por meio de coa\u00e7\u00f5es e torturas, chega aos opositores atrav\u00e9s das dela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O muro, s\u00edmbolo da tirania, do terror do regime que se imp\u00f5e, toma a casa de Jaques Netan e, assim, ele \u00e9 amarrado e preso. O protagonista havia sido delatado. Mas n\u00e3o se resigna e promete, em um bilhete, resistir com seus companheiros. Porque, para Netan, a palavra \u00e9 resist\u00eancia, \u00e9 o que nunca ir\u00e1 ruir em meio ao terror e \u00e0 imin\u00eancia da morte. Netan n\u00e3o se sente derrotado e n\u00e3o se mostra abatido, pois tem a for\u00e7a da palavra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora n\u00e3o haja qualquer refer\u00eancia ao Brasil, mas a um \u201cPa\u00eds\u201d, visto que \u201cJaques n\u00e3o tinha p\u00e1tria\u201d, \u00e9 poss\u00edvel fazer a analogia do romance com a Ditadura (1964-1985) ocorrida no Brasil. A imprecis\u00e3o do t\u00edtulo do romance \u2013 \u201cum certo\u201d \u2013 j\u00e1 acena para essa despretens\u00e3o de se orientar pelo real. Desse modo, ao escrever as hist\u00f3rias de Jaques Netan, Carlos Nejar traz \u00e0 tona um passado recente do Brasil por meio de s\u00edmbolos e alegorias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>Um certo Jaques Netan<\/em>, Nejar realiza um exerc\u00edcio de intertextualidade, pois s\u00e3o diversas as cita\u00e7\u00f5es no romance. H\u00e1 refer\u00eancias, por exemplo, \u00e0 Baleia Branca e a Ahab, de <em>Moby Dick<\/em>, em que o autor compara a Baleia Branca, que no romance de Herman Melville mutilou a perna de Ahab, com o \u201cmuro\u201d. Tal qual Ahab, Netan quer se vingar da Baleia Branca-muro. Podem ser vistas tamb\u00e9m cita\u00e7\u00f5es diretas, como as de um Canto do \u201cInferno\u201d, da <em>Divina Com\u00e9dia <\/em>(Dante Alighieri): \u201cTinham de sangue os rostos salpicados, que lhes ca\u00eda ao peito e aos p\u00e9s tamb\u00e9m\u201d. Nessa passagem, mais uma vez, a refer\u00eancia \u00e9 ao muro, local onde eram realizadas as execu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outros exemplos de cita\u00e7\u00f5es v\u00e3o de <em>Romeu e Julieta<\/em> (William Shakespeare), do poema <em>La sangre derramada<\/em> (Federico Garc\u00eda Lorca) ao Eclesiastes do Antigo Testamento, al\u00e9m de alus\u00f5es a imagens utilizadas como alegorias, caso da refer\u00eancia ora direta ora indireta \u00e0 pintura de Van Gogh, <em>Campo de trigo com corvos<\/em>. Vale tamb\u00e9m notar outras cita\u00e7\u00f5es que podem remeter ao pr\u00f3prio Carlos Nejar, como a Jorge Luis Borges e Fernando Pessoa, ambos iniciaram a vida liter\u00e1ria escrevendo poesias e posteriormente voltaram-se tamb\u00e9m para a prosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das cita\u00e7\u00f5es \u00e0 supracitada pintura de Van Gogh ocorre quando Jaques Netan encontra-se preso: \u201cNetan sentia-se em um p\u00e9 de trigo, com os corvos sobre ele. Como o trigal pintado por Van Gogh.\u201d. A cita\u00e7\u00e3o funciona como um press\u00e1gio do porvir, j\u00e1 que a obra foi realizada pelo artista um pouco antes de sua morte. O pr\u00f3prio narrador afirma serem veross\u00edmeis tais s\u00edmbolos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como diz o narrador de <em>Um certo Jaques Netan<\/em>, \u201cN\u00e3o h\u00e1 democracia sob a morte. H\u00e1 mortos\u201d. Dessa maneira, se considerarmos o testemunho como aquele que n\u00e3o \u00e9 elaborado somente pela v\u00edtima ou sobrevivente, mas tamb\u00e9m por quem dele se solidariza, o romance de Carlos Nejar se insere em uma manifesta\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de testemunho sobre o regime de exce\u00e7\u00e3o no Brasil. Se no c\u00e2none liter\u00e1rio, h\u00e1 um destaque para a literatura testemunho, no Brasil, tem-se a literatura testemunhal que abarca a Ditadura (1964-1985), variando de narrativas escritas por v\u00edtimas do regime \u00e0quelas elaboradas por quem, como Carlos Nejar, procura fazer com que o passado recente e traum\u00e1tico n\u00e3o seja esquecido ou ignorado. Assim, <em>Um certo Jaques Netan <\/em>se sobressai tanto pelos seus atributos liter\u00e1rios como pelo seu car\u00e1ter arquiv\u00edstico, no sentido de resgate de mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FRANCESCHINI, Marcele Aires (2020). Na dimens\u00e3o on\u00edrica de <em>Um certo Jaques Netan<\/em>, de Carlos Nejar, e <em>Sistema lacrimal<\/em>, de Lirinha. In: FRANCESCHINI, Marcele Aires; CAMPOS, Jefferson; CAMARGO, Hertz Wendell de. <em>Imagens, discursos e textualidades culturais<\/em>. Londrina: Syntagma Editores, p. 197-215. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MONGELLI, L\u00eania M\u00e1rcia (1992). Nejar, Carlos. Um certo Jaques Netan.&nbsp;<em>Revista do Instituto de Estudos Brasileiros<\/em>, S\u00e3o Paulo, n. 34, p. 227-228. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.revistas.usp.br\/rieb\/article\/view\/70695\/73520\">https:\/\/www.revistas.usp.br\/rieb\/article\/view\/70695\/73520<\/a>.&nbsp; Acesso em: 30 jan. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SELIGMANN-SILVA, M\u00e1rcio (2012). Direito p\u00f3s-f\u00e1ustico: por um novo tribunal como espa\u00e7o de rememora\u00e7\u00e3o e elabora\u00e7\u00e3o dos traumas sociais. In: ARA\u00daJO, Maria Paula; FICO, Carlos; GRIN, Monica (orgs.). <em>Viol\u00eancia na hist\u00f3ria<\/em>: Mem\u00f3ria, trauma e repara\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Ponteio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-4126.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-4126\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Record-1991.webp\" data-caption-title=\"Record, 1991\" data-attachment-id=\"4127\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Record, 1991\" width=\"250\" height=\"369\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/02\/Record-1991\/217786318.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22369%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20369%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Record, 1991<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NEJAR, Carlos.&nbsp;Um certo Jaques Netan.&nbsp;Rio de Janeiro: Record, 1991. 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