{"id":4115,"date":"2025-03-24T16:59:00","date_gmt":"2025-03-24T19:59:00","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4115"},"modified":"2025-11-12T18:00:07","modified_gmt":"2025-11-12T21:00:07","slug":"a-chave-de-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4115","title":{"rendered":"A chave de casa"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">LEVY, Tatiana Salem. <em>A chave de casa. <\/em>S\u00e3o Paulo: Grupo Editorial Record, 2007<strong>.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Giulia Campos<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Alice Carvalho dos Santos<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fragmentos. Essa \u00e9 a palavra que norteia <em>A chave de casa,<\/em> romance de estreia de Tatiana Salem Levy (Lisboa, Portugal, 1979). Escritora, tradutora e doutora em Estudos da Literatura, ela come\u00e7ou sua jornada liter\u00e1ria publicando contos em revistas e antologias. Caminhando pelo que convencionou-se chamar de autofic\u00e7\u00e3o, Levy oferece ao leitor, nesse romance, imagens v\u00edvidas que parecem emergir como fiapos de dentro de sua mem\u00f3ria. A maleabilidade e a imperman\u00eancia da mem\u00f3ria s\u00e3o, na verdade, grandes temas e pontos centrais da obra, relacionando-se de maneira intrincada com a heran\u00e7a familiar e o sentimento de pertencimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Levy \u00e9 natural de Lisboa, filha de pais brasileiros e neta de judeus turcos. Nasceu em meio ao ex\u00edlio de seus pais durante a ditadura militar e mudou-se para o Brasil com sua fam\u00edlia aos 9 anos de idade. Nesse romance, discute temas como identidade e pertencimento, sua hist\u00f3ria misturando-se e confundindo-se com a hist\u00f3ria da protagonista. Em entrevista ao <em>Caderno Seminal de Estudos de Literatura<\/em>, em 2021, Levy definiu o tema da heran\u00e7a familiar como uma de suas maiores obsess\u00f5es liter\u00e1rias e um objeto recorrente de seus romances. Em <em>A chave de casa, <\/em>a certa altura, a protagonista afirma: \u201cTenho em mim, o sil\u00eancio e a solid\u00e3o de uma fam\u00edlia inteira, de gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A premissa que d\u00e1 o t\u00edtulo ao livro prende o leitor logo de in\u00edcio: a narradora est\u00e1 paralisada na cama quando ganha de seu av\u00f4 uma chave antiqu\u00edssima, pertencente \u00e0 casa onde ele morava com sua fam\u00edlia em Esmirna, na Turquia, antes de emigrar ao Brasil para nunca mais voltar. D\u00e9cadas depois, ele entrega a chave para a protagonista, propondo que ela v\u00e1 at\u00e9 essa cidade para redescobrir suas origens e, quem sabe, abrir a porta da casa de seus antepassados. Essa jornada \u00e9 descrita em cap\u00edtulos curtos (muitas vezes com menos de uma p\u00e1gina, algumas vezes com apenas um ou dois par\u00e1grafos) e vem costurada a outros diferentes contextos: as reflex\u00f5es da narradora acerca do luto e da morte de sua m\u00e3e, sua rela\u00e7\u00e3o com um homem violento e as hist\u00f3rias de seus antepassados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O romance foi escrito, num primeiro momento, como a tese de doutorado, sob o t\u00edtulo<em> A chave de casa: <\/em>experimentos com a heran\u00e7a familiar e liter\u00e1ria<em>. <\/em>Em seguida, uma vers\u00e3o de 110 p\u00e1ginas do romance foi publicada, primeiro em Portugal, e em seguida no Brasil, pela editora Record. O romance venceu, em 2008, o Pr\u00eamio S\u00e3o Paulo de Literatura e, no mesmo ano, foi finalista do Pr\u00eamio Jabuti.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No artigo<em> \u201c<\/em>Chaves de casa, chaves de leitura: fragmentos de leitura do romance <em>A chave de casa, <\/em>de Tatiana Salem Levy&#8221;<em>, <\/em>Alessandra Cristina Moreira de Magalh\u00e3es discute a estrutura fragmentada da obra, analisando como a narra\u00e7\u00e3o prop\u00f5e uma leitura circular, \u201cqui\u00e7\u00e1 rand\u00f4mica\u201d, do romance. Al\u00e9m disso, destaca como a contemporaneidade \u00e9 delimitada por cenas entrecortadas e virtualidades. Com a constante evolu\u00e7\u00e3o da tecnologia, e o advento dos celulares e redes sociais, a vida cotidiana atual \u00e9 marcada pela sobreposi\u00e7\u00e3o de narrativas, imagens, discuss\u00f5es e discursos, e os nossos modos de ler tamb\u00e9m s\u00e3o influenciados por esse contexto, tornando-se fragmentados na mesma medida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na entrevista, anteriormente citada, a autora tamb\u00e9m fala acerca dessa estrutura fragmentada de suas obras, relatando que sempre escreve a partir de uma imagem, procurando as palavras certas para ater-se ao essencial de uma cena, reiterando o que Magalh\u00e3es afirma: se, no s\u00e9culo XX, autoras como Virginia Woolf j\u00e1 pensavam sua escrita a partir de cenas, no s\u00e9culo XXI, essas cenas s\u00e3o muito mais fragmentadas, velozes e curtas, uma vez que vivemos numa velocidade muito maior. Em <em>A chave de casa, <\/em>essa redu\u00e7\u00e3o ao essencial fica representada, com algumas cenas formadas por um conjunto de duas ou tr\u00eas frases apenas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Levy impressiona pela compet\u00eancia narrativa, e constr\u00f3i cenas e sentimentos de maneira muito palat\u00e1vel a quem l\u00ea. Utiliza, com precis\u00e3o, recursos estil\u00edsticos como elipses e lacunas, criando uma narrativa potente e l\u00edrica. Em certo ponto, a autora reconhece esse processo de reduzir suas cenas representativas ao essencial: \u201cSe n\u00e3o sangra, minha escrita n\u00e3o existe\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 trechos marcantes, na obra, em que a autora apresenta ao seu leitor diversas dicotomias. Pamella T. Souza de Oliveira (2018) destaca algumas delas: \u201cmobilidade\/paralisia, passado\/presente, prazer\/dor, vida\/morte e, n\u00e3o poderia deixar de citar, verdade\/fic\u00e7\u00e3o\u201d. Falando especificamente de verdade\/fic\u00e7\u00e3o, um outro recurso estil\u00edstico amplamente utilizado na narrativa s\u00e3o os colchetes, que trazem a perspectiva de sua m\u00e3e, reiterando as mem\u00f3rias da narradora. Anna Caroline Carvalho (2017) define o uso desse recurso como um narrador onisciente neutro. \u00c9 a partir dos colchetes que a narradora cria uma nova camada de compreens\u00e3o para o leitor, discutindo a autofic\u00e7\u00e3o em sua ess\u00eancia. Pode algu\u00e9m descrever as pr\u00f3prias mem\u00f3rias de maneira fidedigna? Levy explora essas ambiguidades e antagonismos com destreza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Magalh\u00e3es (2012) aborda ainda como a voz da m\u00e3e, apresentada entre os colchetes, prop\u00f5e um contraponto, trazendo uma for\u00e7a de contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 vers\u00e3o dos acontecimentos dada pela protagonista. No mesmo sentido, a autora tamb\u00e9m discorre sobre como a autofic\u00e7\u00e3o se situa nos limites da fic\u00e7\u00e3o, possibilitando ao leitor presenciar o \u201cdesenrolar [&#8230;] do processo de constru\u00e7\u00e3o da escrita e do sujeito, que acontecem simultaneamente\u201d.\u00a0Esse processo fica especialmente claro quando Levy utiliza-se dos colchetes para propor um di\u00e1logo entre as diferentes vozes que d\u00e3o vaz\u00e3o \u00e0 narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Num momento especialmente sens\u00edvel da obra, a protagonista, ap\u00f3s descrever em detalhes e aus\u00eancias seu estado de paralisia e sua dor, dialoga com a voz da m\u00e3e, que lhe pergunta se ela nunca pensa em coisas boas, e se n\u00e3o tem sonhos. No fim do fragmento, a primeira das vozes responde: \u201cmeu sonho, m\u00e3e, \u00e9 escrever. [Escrever?] \u00c9, tenho esse sonho imposs\u00edvel, escrever, escrever, escrever\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tatiana Salem Levy constr\u00f3i, em <em>A chave de casa<\/em>, um mosaico de cenas, fragmentos e sentidos, compondo um romance sens\u00edvel e complexo. Indo fundo em temas como identidade, pertencimento, heran\u00e7a familiar, luto e solid\u00e3o, a autora costura com habilidade liter\u00e1ria as dicotomias de sua subjetividade, e o resultado \u00e9 um texto multifacetado, coerente e indispens\u00e1vel. Sua import\u00e2ncia para a atualidade reside em sua originalidade estrutural e na forma como Levy discute temas dif\u00edceis a partir de um novo olhar, que abarca a fragmenta\u00e7\u00e3o da contemporaneidade. A maneira com que a narrativa \u00e9 constru\u00edda faz ressoar a pot\u00eancia l\u00edrica da escrita de Levy.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CARREIRA, Shirley de Souza Gomes; OLIVEIRA, Paulo C\u00e9sar Silva de (2021). Entrevista com Tatiana Salem Levy<em>.<\/em> <em>Caderno seminal<\/em>, Rio de Janeiro, n. 39.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CARVALHO, Anna Caroline (2017). <em>O narrador e a mem\u00f3ria em <\/em>A chave de casa. Monografia (Gradua\u00e7\u00e3o em Letras) \u2013 Universidade de Bras\u00edlia, Bras\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MAGALH\u00c3ES, Alessandra Cristina Moreira de (2012). Chaves de casa, chaves de leitura: fragmentos de leitura do romance <em>A chave de casa<\/em>, de Tatiana Salem Levy. <em>Revista MOARA<\/em>, n. 37, p. 4-13, jan.\/jun.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">OLIVEIRA, Pamella T. Souza de. (2018) \u201cUm verdadeiro judeu n\u00e3o esquece seu passado\u201d: a autofic\u00e7\u00e3o de A chave de casa, de Tatiana Salem Levy. <em>Garrafa<\/em>, vol. 16, n. 46, p. 82-100.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-4133.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-4133\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Record-2007.webp\" data-caption-title=\"Record, 2007\" data-attachment-id=\"4134\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Record, 2007\" width=\"250\" height=\"376\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/02\/Record-2007\/3674776731.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22376%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20376%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Record, 2007<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Literatura-Moderna-2013.webp\" data-caption-title=\"Literatura Moderna, 2013\" data-attachment-id=\"4135\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img decoding=\"async\" title=\"Literatura Moderna, 2013\" width=\"250\" height=\"375\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/02\/Literatura-Moderna-2013\/831550073.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22375%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20375%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Literatura Moderna, 2013<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LEVY, Tatiana Salem. 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