{"id":3946,"date":"2025-03-30T23:28:16","date_gmt":"2025-03-31T02:28:16","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3946"},"modified":"2025-11-12T18:02:30","modified_gmt":"2025-11-12T21:02:30","slug":"nossos-ossos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3946","title":{"rendered":"Nossos ossos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">FREIRE, Marcelino. <em>Nossos ossos<\/em>. Rio de Janeiro: Record, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Carmem de Jesus Garcia<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o:<\/em> <em>Cl\u00e1udio Rodrigues<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Marcelino Freire (Sert\u00e2nia, PE, 1967) \u00e9 escritor premiado e dramaturgo, promotor de oficinas liter\u00e1rias, ativista cultural, criador das <em>Baladas Liter\u00e1rias<\/em> e editor. Sua obra desponta nos anos 2000, quando o campo liter\u00e1rio brasileiro se abriu a novos escritores, a tem\u00e1tica da viol\u00eancia se acentuou e os novos meios de divulga\u00e7\u00e3o das obras e de seus autores se firmaram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu primeiro livro de contos, <em>Angu de sangue <\/em>(2000), e sua inclus\u00e3o na antologia de contos <em>Gera\u00e7\u00e3o 90: Manuscritos de computador <\/em>(2001) o projetaram na cena liter\u00e1ria com o distintivo de uma escrita perform\u00e1tica que aproxima prosa e verso pela presen\u00e7a de ritmo e rima, traz as marcas da oralidade e, ao mesmo tempo, \u00e9 dotada de uma linguagem concisa, sem floreios, forte, \u00e0s vezes at\u00e9 chula, quase sempre impactante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos anos 2000, Freire ingressou definitivamente no rol de escritores reconhecidos pela cr\u00edtica liter\u00e1ria e acad\u00eamica. Publicou mais quatro colet\u00e2neas de contos, com destaque para os premiados <em>Contos negreiros<\/em> (2005), vencedor do Pr\u00eamio Jabuti de 2006, e <em>Rasif: mar que arrebenta<\/em> (2008), finalista do Pr\u00eamio Jabuti de 2009.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Nossos ossos<\/em> (2013), at\u00e9 o momento, \u00e9 o primeiro e \u00fanico romance de Freire publicado. Em 2014, essa \u201cprosa longa\u201d, conforme o pr\u00f3prio autor prefere denominar sua obra, foi finalista do Pr\u00eamio Jabuti e tamb\u00e9m vencedora do Pr\u00eamio Machado de Assis, na categoria de \u201cmelhor romance\u201d. O seu segundo romance, <em>Escalavra<\/em>, foi lan\u00e7ado em novembro de 2024, 11 anos ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de <em>Nossos ossos<\/em> (2013). O p\u00fablico, todavia, teve contato anterior com a est\u00f3ria e a poesia de <em>Escalavra<\/em>, uma vez que um experimento de dramaturgia e cinema baseado no romance e intitulado \u201cProcesso Escalavra<em>\u201d<\/em>, foi publicado no YouTube em 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Nossos ossos<\/em> conta a hist\u00f3ria de um dramaturgo bem sucedido profissionalmente. Retirante nordestino, o dramaturgo vive na metr\u00f3pole paulista e se prop\u00f5e a levar de volta \u00e0 terra natal o corpo de um mich\u00ea, abandonado como indigente no necrot\u00e9rio, depois de ter sido assassinado. Essa \u00e9 a hist\u00f3ria de fundo do romance, cen\u00e1rio \u00e0 frente do qual se desenvolve o enredo de Heleno. O livro tem 120 p\u00e1ginas e \u00e9 dividido em \u201cParte Um\u201d e \u201cParte Outro\u201d, partes nas quais se desenrolam 23 cap\u00edtulos curtos, cujos t\u00edtulos fazem refer\u00eancia ao corpo e \u00e0 anatomia humana, como, por exemplo, \u201cOs Ligamentos\u201d, cap\u00edtulo que inicia o romance, e \u201cAs Carca\u00e7as\u201d, cap\u00edtulo final.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O dramaturgo \u00e9 o narrador-protagonista Heleno de Gusm\u00e3o, que tamb\u00e9m assina a orelha do livro, num depoimento ao escritor Paulo Lins. Um carro funer\u00e1rio atravessa o pa\u00eds com o corpo de C\u00edcero, com destino a Po\u00e7o do Boi, lugarejo nordestino pr\u00f3ximo \u00e0 Sert\u00e2nia, localidade de origem de Heleno. Ao mesmo tempo em que busca descobrir quem s\u00e3o e onde est\u00e3o os pais de C\u00edcero, com o objetivo de entregar o corpo e os bens que deixar\u00e1 para o morto, Heleno vai preparando a sua viagem final, narrando sua hist\u00f3ria de gl\u00f3rias e fracassos, conquistas e perdas em suas passagens n\u00e3o apenas pelos sal\u00f5es em que foi premiado, mas principalmente pelas duras e deselegantes esquinas da capital paulista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Heleno se envolveu em encontros casuais homoafetivos, em que busca sexo sem compromisso, e assim conheceu C\u00edcero, com quem trocou afeto em v\u00e1rias ocasi\u00f5es. O rapaz era mich\u00ea, fazia sexo por dinheiro, mas Heleno identificou afinidades com o amante por serem eles naturais de cidades pr\u00f3ximas, terem sotaque semelhante, estarem \u201cunidos na saudade\u201d e no interesse de \u201cpartilharem suas hist\u00f3rias\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os cap\u00edtulos alternam relatos da hist\u00f3ria atual e das mem\u00f3rias, sem a preocupa\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica de uma linha do tempo da vida de Heleno. C\u00edcero chega a seu destino, e tamb\u00e9m Heleno, em um final que surpreende o leitor tal qual acontece nos contos de Freire. E \u201cCai o pano\u201d, frase final do romance, tal como em uma pe\u00e7a de teatro. \u201cNossos ossos esperam os vossos\u201d, declara\u00e7\u00e3o que est\u00e1 na \u00faltima p\u00e1gina do romance e destaca o retorno de ambos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fic\u00e7\u00e3o e realidade se entrela\u00e7am nesta prosa \u201cautopornogr\u00e1fica\u201d como a ela se referiu Freire. O nome do motorista que conduz o carro funer\u00e1rio, Louren\u00e7o, \u00e9 tamb\u00e9m o nome do escritor amigo de Marcelino Freire e respons\u00e1vel pela ilustra\u00e7\u00e3o da capa do romance <em>Nossos ossos<\/em>. O pr\u00f3prio narrador afirma que \u201cse tivesse que escrever na vida uma outra pe\u00e7a de teatro seria a narrada no livro, e que ela n\u00e3o \u00e9 fic\u00e7\u00e3o, mas a pura verdade\u201d. Heleno \u00e9 natural de Sert\u00e2nia, tal como Freire.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O uso de met\u00e1foras e elipses narrativas est\u00e1 presente no texto. No importante cap\u00edtulo inicial, \u201cOs Ligamentos\u201d, s\u00e3o apresentadas as a\u00e7\u00f5es em curso necess\u00e1rias para a viagem final de C\u00edcero e de Heleno, introduzindo-se a liga\u00e7\u00e3o entre as duas, apesar de o t\u00edtulo sugerir os ligamentos do corpo humano para se manter de p\u00e9, ereto, at\u00e9 ele se transformar em \u201cAs Carca\u00e7as\u201d, cap\u00edtulo final do romance. A altern\u00e2ncia entre o presente e o passado explica, por exemplo, o fato de Heleno sacar todo o seu dinheiro do banco antes de narrar que o saque ser\u00e1 para custear a longa viagem. H\u00e1, portanto, uma elipse narrativa ao n\u00e3o se divulgar a informa\u00e7\u00e3o, mesmo quando se sugere implicitamente o que se possa arguir: longa viagem de quem?&nbsp; Logo adiante dessas cenas em que se faz presente a elipse narrativa, tamb\u00e9m se observa uma met\u00e1fora da morte: Heleno passa a noite arrastando caixas e livros, rasgando pap\u00e9is, para nunca mais voltar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A viol\u00eancia \u00e9 tem\u00e1tica presente na obra cont\u00edstica de Freire e de outros escritores brasileiros. Muitos s\u00e3o os relatos de situa\u00e7\u00f5es cotidianas de viol\u00eancia sofrida pela popula\u00e7\u00e3o marginalizada, quaisquer que sejam os fatores: seja pela pobreza e desigualdade social, seja em raz\u00e3o da luta pela sobreviv\u00eancia, seja em virtude da discrimina\u00e7\u00e3o racial, sexual e social, seja pela prostitui\u00e7\u00e3o. Assim sendo, a presen\u00e7a da viol\u00eancia na literatura brasileira da primeira d\u00e9cada dos anos 2000 \u00e9 objeto de reflex\u00e3o de muitos autores, dentre os quais se destacam Schollhammer (2013) e Pelegrini (2008).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos textos de Freire, os marginalizados t\u00eam a voz narrativa, os relatos s\u00e3o em primeira pessoa e tornam o autor um \u201ceditor de vozes\u201d, como o apontou Castello (2008). Mas isto n\u00e3o acontece em <em>Nossos ossos<\/em>: a viol\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 na fala do narrador do romance, mas \u00e9 bastante expressiva nas rela\u00e7\u00f5es homoer\u00f3ticas, no conv\u00edvio de Heleno com e nos locais em que vive a popula\u00e7\u00e3o marginal de mich\u00eas, travestis e gigol\u00f4s das esquinas, becos e quartos de hot\u00e9is baratos da capital paulista. Em muitos destes encontros h\u00e1 troca de afeto, como na rela\u00e7\u00e3o de Heleno com C\u00edcero, o que leva o narrador \u00e0 ideia de buscar um enterro digno para o amigo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chama-se aten\u00e7\u00e3o para a ambiguidade do termo \u201cParte\u201d nos t\u00edtulos \u201cParte Um\u201d e \u201cParte Outro\u201d: como substantivo, refere-se a \u201cpeda\u00e7o\u201d, \u201cdivis\u00e3o\u201d; como verbo, \u00e0 a\u00e7\u00e3o de ir embora, de \u201cpartir\u201d \u2014 parte o primeiro e depois, o outro. A marca de oralidade, diferencial da escrita para teatro, faz-se presente ao longo de todo o romance. Freire j\u00e1 afirmou, inclusive, que escreve seus textos em voz alta. A forma de narrar \u00e9 breve, s\u00e3o in\u00fameras as rimas, as asson\u00e2ncias, as alitera\u00e7\u00f5es por toda a narrativa, \u00e0s vezes, em demasia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Nossos ossos<\/em> \u00e9 uma obra de reflex\u00e3o sobre a vida e a morte: a vida dif\u00edcil de um retirante nordestino homossexual na metr\u00f3pole, mesmo que seja ele bem-sucedido profissional e financeiramente; a morte pelo desencanto e a morte pela viol\u00eancia sexual vivida pela popula\u00e7\u00e3o homoafetiva no centro da capital paulista. \u00c9 um romance instigante, escrito por um reconhecido e premiado contista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CARNEIRO, Fl\u00e1vio (2005). Marcelino Freire: Contos de Improviso. In:<em> No pa\u00eds do presente<\/em>: fic\u00e7\u00e3o brasileira no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI<em>. <\/em>Rio de Janeiro: Rocco, p. 175-178.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CASTELLO, Jos\u00e9 (2008). O editor de vozes. <em>O Globo<\/em>, 16 ago.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">OLIVEIRA, Nelson (2001). <em>Gera\u00e7\u00e3o 90: <\/em>manuscritos de computador. S\u00e3o Paulo: Boitempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PELEGRINI, T\u00e2nia (2008). As vozes da viol\u00eancia na cultura brasileira contempor\u00e2nea. In:<em> Desprop\u00f3sitos<\/em>: estudos de fic\u00e7\u00e3o brasileira contempor\u00e2nea. S\u00e3o Paulo: Annablume; FAPESP, p. 177-206.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PROCESSO Escalavra. Dire\u00e7\u00e3o: Emilio de Mello. Produ\u00e7\u00e3o: Complementar Produ\u00e7\u00f5es. 1 v\u00eddeo (20 min48s). YouTube, 28 de outubro de 2021. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=dGcogZC_H-Y.\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=dGcogZC_H-Y.<\/a> Acesso em: 25 set. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SCHOLLHAMMER, Karl Erik (2013). A viol\u00eancia como desafio para a literatura brasileira contempor\u00e2nea. In: <em>Cena do crime<\/em>: viol\u00eancia e realismo no Brasil contempor\u00e2neo. Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, p. 39-102.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">VASCONCELOS, Liana Arag\u00e3o Lira (2007). <em>Estrat\u00e9gias de atua\u00e7\u00e3o no mercado editorial<\/em>: Marcelino Freire e a Gera\u00e7\u00e3o 90. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Literatura) \u2013 Universidade de Bras\u00edlia, Bras\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-4045.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-4045\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; 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Nossos ossos. Rio de Janeiro: Record, 2013. Carmem de Jesus GarciaIlustra\u00e7\u00e3o: Cl\u00e1udio Rodrigues Marcelino Freire (Sert\u00e2nia, PE, 1967) \u00e9 escritor premiado e dramaturgo, promotor de oficinas liter\u00e1rias, ativista cultural, criador das Baladas Liter\u00e1rias e editor. 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