{"id":3813,"date":"2025-03-25T17:47:03","date_gmt":"2025-03-25T20:47:03","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3813"},"modified":"2025-09-15T09:47:38","modified_gmt":"2025-09-15T12:47:38","slug":"a-tragedia-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3813","title":{"rendered":"A trag\u00e9dia brasileira"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">SANT&#8217;ANNA, S\u00e9rgio. <em>A trag\u00e9dia brasileira<\/em>: romance-teatro. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1987.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Edmon Neto<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o:<\/em> <em>Esp\u00edrito Objeto<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se existem vozes na prosa brasileira da segunda metade do s\u00e9culo XX que levam \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias o experimentalismo como procedimento est\u00e9tico, \u00e9 dif\u00edcil negar que uma das mais not\u00e1veis seja a de S\u00e9rgio Sant\u2019Anna (Rio de Janeiro, RJ, 1941 \u2013 Rio de Janeiro, RJ, 2020). Com dom\u00ednio pleno das t\u00e9cnicas narrativas, j\u00e1 utilizadas em suas primeiras obras, como <em>Confiss\u00f5es de Ralfo<\/em> (1975), <em>Simulacros<\/em> (1977) e <em>Um romance de gera\u00e7\u00e3o<\/em> (1980), o autor explora jogos e simula\u00e7\u00f5es sem, contudo, perder de vista as tramas de uma gera\u00e7\u00e3o que testemunhou os desencantos do mundo ap\u00f3s os anos 1960. \u00c9 o que ocorre em <em>A trag\u00e9dia brasileira<\/em>: romance-teatro, publicado pela primeira vez em 1987. Nele, o autor rasura as fronteiras entre g\u00eaneros liter\u00e1rios e conduz os leitores a assumir as pr\u00f3prias r\u00e9deas interpretativas do \u201cespet\u00e1culo imagin\u00e1rio\u201d anunciado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O enredo motivador gira em torno do atropelamento da menina Jacira, que viveu entre 1950 e 1962. A cena \u00e9 elaborada e reelaborada sob perspectivas distintas (ora por um autor, ora por um diretor). Para isso, Sant\u2019Anna lan\u00e7a m\u00e3o de t\u00e9cnicas do texto dram\u00e1tico, do romance e do ensaio, tanto para contar uma hist\u00f3ria singular do ponto de vista dos modelos formais quanto para eventualmente prever posicionamentos cr\u00edticos sobre o que est\u00e1 sendo tecido no romance-teatro. Nesse sentido, o plano da obra envolve uma abertura, seguida de tr\u00eas atos e um ep\u00edlogo nos quais desdobra-se a hist\u00f3ria de Jacira, intercalada com as agruras do autor-diretor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo de in\u00edcio o leitor \u00e9 levado ao cen\u00e1rio de um espet\u00e1culo teatral. D\u00e3o-se as tr\u00eas pancadas de praxe e se estabelece uma atmosfera fria no palco, composta pela l\u00e1pide da adolescente e por uma cadeira de balan\u00e7o, contrastada com o soar de uma nota sol e uma luz quente. Em primeiro plano, mostram-se o espectro do rosto de Jacira e o do poeta Roberto \u2013 personagem que mant\u00e9m uma fixa\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica pela menina. Nessa abertura, ao mesmo tempo que se apresentam os elementos do cen\u00e1rio inicial do espet\u00e1culo, reflete-se sobre os significados poss\u00edveis de cada objeto e cada gesto no espa\u00e7o c\u00eanico, j\u00e1 insinuando algum desfecho de eventos tr\u00e1gicos por excel\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro ato, constitu\u00eddo por di\u00e1logos a serem encenados, trata de algumas perspectivas sobre a mesma cena principal. O atropelamento em si \u00e9 testemunhado por Roberto \u2013 o poeta <em>voyeur<\/em> \u2013 e por um homem negro que mora num terreno baldio e tenta salvar Jacira. Na sequ\u00eancia, motorista, advogado, delegado e escriv\u00e3o reconstroem a cena pelo olhar do primeiro, trazendo \u00e0 tona posicionamentos pol\u00edticos do contexto dos anos 1950 e 1960 e o <em>modus operandi<\/em> da burocracia e da justi\u00e7a brasileiras. Na mesma medida em que se mesclam cenas da vida real, como Pel\u00e9 na Copa do Mundo do Chile ou a insurg\u00eancia dos militares como for\u00e7a pol\u00edtica, as personagens-testemunhas da trag\u00e9dia de Jacira constituem o cen\u00e1rio do espet\u00e1culo e ao mesmo tempo s\u00e3o capazes de modific\u00e1-lo, denunciando a fic\u00e7\u00e3o ali encenada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No caso do poeta Roberto, sua paix\u00e3o pela adolescente ser\u00e1 comparada, de modo expl\u00edcito, ao procedimento fenomenol\u00f3gico que reconta a mesma hist\u00f3ria sob perspectivas diferentes. A t\u00e9cnica \u00e9 utilizada por Lawrence Durrell na tetralogia <em>O quarteto de Alexandria<\/em>, obra publicada entre os anos 1957 e 1960, na qual o autor vai acrescentando pormenores, de modo progressivo, ao mesmo fen\u00f4meno, como explorar, por exemplo, categorias da psican\u00e1lise freudiana para dar conta de solu\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias: \u201cEstou me acostumando com a ideia de considerar todo ato sexual como um processo em que quatro pessoas est\u00e3o envolvidas [\u2026] Sigmund Freud\u201d. An\u00e1logo a Durrell, Sant\u2019Anna explora a vida de Roberto crian\u00e7a, sua rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e, com o pai ga\u00facho e major do ex\u00e9rcito, e com o psiquiatra, por meio de cenas que se alternam com o poeta adulto, j\u00e1 movido pela paix\u00e3o, a escrever sobre Jacira. Tensionam-se ainda mais as quest\u00f5es sobre sexualidade e pervers\u00e3o quando elas s\u00e3o desenvolvidas em contextos crist\u00e3os, algo muito presente nas cenas posteriores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo ato d\u2019<em>A trag\u00e9dia brasileira<\/em> volta-se para as personagens que interpretam a hist\u00f3ria principal. Como se o ocorrido anteriormente j\u00e1 fosse o espet\u00e1culo, os atores agora saem de cena e ganham exist\u00eancias materiais, mesmo que suas autonomias estejam afetadas de algum modo pela hist\u00f3ria da menina. Chamam a aten\u00e7\u00e3o as cenas denominadas \u201cMetamorfoses\u201d, em que os espectadores (ou leitores) s\u00e3o \u201ctransportados\u201d ao \u201crecolhimento das divaga\u00e7\u00f5es dentro do seu pr\u00f3prio cen\u00e1rio interior\u201d. \u00c9 nesse momento que acontece um entrecruzamento de hist\u00f3rias, desdobradas do enredo-fonte, como a transforma\u00e7\u00e3o de uma confiss\u00e3o cat\u00f3lica de tr\u00eas adolescentes em um cen\u00e1rio de sala de aula da d\u00e9cada de 1980, sendo o professor um duplo de Roberto. Em seguida, a trag\u00e9dia de Jacira \u00e9 discutida como exerc\u00edcio pedag\u00f3gico nessa mesma escola, e temas sens\u00edveis s\u00e3o abordados de forma n\u00e3o ortodoxa. Quer no apartamento do autor-diretor, onde se prepara uma \u201cCena X\u201d, quer num restaurante chin\u00eas, onde se re\u00fane o elenco da pe\u00e7a e uma menina misteriosa passa a se relacionar com o diretor, o segundo ato segue uma sequ\u00eancia metarreflexiva em que a narrativa pensa a pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o. E o contato com a menina misteriosa tanto \u00e9 problem\u00e1tico que faz aquele senhor questionar o absurdo irrepresent\u00e1vel da pe\u00e7a ou a falta de dom\u00ednio sobre suas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, a n\u00e3o ser sobre aquelas movidas pelo gesto criador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cN\u00e3o existe meio-termo em Arte: ou se parte decididamente para a experimenta\u00e7\u00e3o, ou se produz para o p\u00fablico\u201d, conclui o autor-diretor em certa altura. E parece ser com essa investida que o terceiro ato representa uma volta a mais no parafuso d\u2019<em>A trag\u00e9dia brasileira<\/em>, para lembrar a obra <em>The Turn of the Screw<\/em> (1898), do escritor Henry James, aludida por Sant\u2019Anna e cuja express\u00e3o sugere um grau maior de press\u00e3o e crueldade aplicado a essa hist\u00f3ria. O leitor nesse momento \u00e9 levado ao espa\u00e7o da regi\u00e3o Norte do pa\u00eds, mais especificamente a um restaurante na rodovia Bel\u00e9m-Bras\u00edlia, lugar no qual se desenrola uma situa\u00e7\u00e3o narrativa entre um motorista, uma prostituta adolescente, um gar\u00e7om, um malandro e um jovem homossexual. Pode ser que se trate da \u201cCena X\u201d com a qual o autor-diretor encontrava-se \u00e0s voltas no ato anterior: a tentativa de encenar uma outra trag\u00e9dia, ainda mais an\u00f4nima, vinculada a um outro Brasil. A pista est\u00e1 na revela\u00e7\u00e3o de que a prostituta adolescente se chama Altamira (cidade do M\u00e9dio Xingu cuja hist\u00f3ria \u00e9 perpassada por epis\u00f3dios de constru\u00e7\u00e3o e ru\u00edna), algo que torna a correspond\u00eancia com o enredo de Jacira a sinaliza\u00e7\u00e3o de que as trag\u00e9dias brasileiras, embora ocorram todos os dias, n\u00e3o encontram, em nenhum autor ou diretor, elabora\u00e7\u00e3o suficiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O romance-teatro de Sant\u2019Anna tem seu ocaso no ep\u00edlogo em que figuras religiosas ou mistificadas s\u00e3o colocadas na arena narrativa, em um final ainda mais aberto \u00e0s possibilidades interpretativas. Com sua pena experimental e associado a uma linhagem \u201cbrutalista\u201d, pr\u00f3xima a Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, o autor ajudou a renovar a prosa brasileira, sobretudo porque foi capaz de mobilizar o sistema liter\u00e1rio (para usar o conceito do te\u00f3rico Antonio Candido) ao desestabilizar as posi\u00e7\u00f5es supostamente confort\u00e1veis do autor, do texto e do leitor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CANDIDO, Antonio (1976). <em>Literatura e sociedade<\/em>: estudos de teoria e hist\u00f3ria liter\u00e1ria. S\u00e3o Paulo: Editora Nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GONGORA, Anderson Possani (2017). A espetaculariza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia em\u00a0<em>A trag\u00e9dia brasileira<\/em>, de S\u00e9rgio Sant\u2019Anna.\u00a0<em>F\u00f3rum de Literatura Brasileira Contempor\u00e2nea<\/em>, v. 9, n. 18, p. 17-34. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/revistas.ufrj.br\/index.php\/flbc\/article\/view\/18036\">https:\/\/revistas.ufrj.br\/index.php\/flbc\/article\/view\/18036<\/a>. Acesso em: 12 dez. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SCH\u00d8LLHAMMER, Karl Erik (2009). <em>Fic\u00e7\u00e3o brasileira contempor\u00e2nea<\/em>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-3844.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-3844\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Guanabara-1987.webp\" data-caption-title=\"Guanabara, 1987\" data-attachment-id=\"3845\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Guanabara, 1987\" width=\"250\" height=\"373\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/01\/Guanabara-1987\/2614124094.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22373%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20373%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Guanabara, 1987<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Companhia-das-Letras-2005-1.webp\" data-caption-title=\"Companhia das Letras, 2005\" data-attachment-id=\"3846\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img decoding=\"async\" title=\"Companhia das Letras, 2005\" width=\"250\" height=\"375\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/01\/Companhia-das-Letras-2005-1\/4232117850.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22375%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20375%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Companhia das Letras, 2005<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SANT&#8217;ANNA, S\u00e9rgio. 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