{"id":3801,"date":"2025-03-26T12:12:13","date_gmt":"2025-03-26T15:12:13","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3801"},"modified":"2025-11-12T18:01:29","modified_gmt":"2025-11-12T21:01:29","slug":"a-ceu-aberto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3801","title":{"rendered":"A c\u00e9u aberto"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">NOLL, Jo\u00e3o Gilberto. <em>A c\u00e9u aberto<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1996.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Edmon Neto<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Carolina Vigna<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O escritor Jo\u00e3o Gilberto Noll (Porto Alegre, 1946 \u2013 2017) \u00e9 comumente associado \u00e0 prosa p\u00f3s-moderna, tendo conseguido captar na d\u00e9cada de 1980 o esp\u00edrito de uma \u201cindividualidade desprovida de conte\u00fado psicol\u00f3gico, sem profundidade e sem projeto\u201d, nas palavras do professor Karl Erik Sch\u00f8llhammer. No momento que se discutia o fen\u00f4meno da profissionaliza\u00e7\u00e3o do escritor, a sociedade j\u00e1 passava pela transforma\u00e7\u00e3o de todas as suas pr\u00e1ticas em espet\u00e1culo midi\u00e1tico, sendo que muitas obras de Noll ficaram marcadas pela perda radical de sentido e de refer\u00eancias, como <em>Rastros do ver\u00e3o<\/em> (1986), <em>Hotel Atl\u00e2ntico<\/em> (1989) e <em>Harmada<\/em> (1993), para citar alguns exemplos. E \u00e9 justamente essa a condu\u00e7\u00e3o de <em>A c\u00e9u aberto<\/em>, romance de 1996, que, de acordo com o professor, \u00e9 uma das narrativas respons\u00e1veis por tornar o autor ga\u00facho \u201co int\u00e9rprete mais original do sentimento p\u00f3s-moderno\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao sonho interrompido logo na abertura do romance, que remete \u00e0 inf\u00e2ncia de dois jovens irm\u00e3os, se segue uma busca pelo acampamento do pai, soldado de guerra e de nome Nicolau. Eles est\u00e3o \u00e0 procura de aux\u00edlio para o irm\u00e3o mais novo, que sofre de uma doen\u00e7a desconhecida. O mais velho, por sua vez, \u00e9 quem narra <em>A<\/em> <em>c\u00e9u aberto<\/em> e, ao conseguir amparo m\u00e9dico para o irm\u00e3o, vai se tornando uma sentinela naquele ambiente militar. Sua nova vida \u00e9 narrada ao sabor de experi\u00eancias homoer\u00f3ticas, ora sugeridas (\u201cboiando em mim a sobrevida de uma pulsa\u00e7\u00e3o perigosa\u201d), ora rememoradas ou francamente expl\u00edcitas. Exemplo disso \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o do narrador com o pianista Artur, de quem o jovem era uma esp\u00e9cie de \u201cemin\u00eancia parda\u201d, pois dava conta de resolver quest\u00f5es pr\u00e1ticas do m\u00fasico que estava entregue aos prazeres fortuitos e incapaz de assumir a postura de um adulto funcional. Velho amigo de Nicolau, ele n\u00e3o demonstra, entretanto, qualquer sinal de interesse sexual pelo filho do amigo, que via naquela velha amizade o motivo de n\u00e3o ser querido de outra forma por Artur: \u201cj\u00e1 cansei de me manter o garoto casto em cujo ombro ele mal toca temeroso e retesado para que a m\u00e3o n\u00e3o suba nem principalmente des\u00e7a\u201d. Numa outra cena protagonizada pelo filho mais velho, um beijo terno na face de um soldado franzino; noutra, ainda, o sexo com um general.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cOra, todas as guerras t\u00eam nome ou alguma coisa assim que clareie o entendimento\u201d. N\u00e3o \u00e9 esse, entretanto, o caso de <em>A c\u00e9u aberto<\/em>. Isso porque as no\u00e7\u00f5es de tempo e de espa\u00e7o e a elabora\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica das personagens muitas vezes s\u00e3o insuficientes para se consolidar uma percep\u00e7\u00e3o sobre elas. H\u00e1 uma crise instaurada desde sempre na representa\u00e7\u00e3o de certos tipos sociais ou personagens redondas cujo desenvolvimento psicol\u00f3gico pode ser dado e consabido. Certas caracteriza\u00e7\u00f5es na narrativa de Noll aos poucos v\u00e3o sofrendo interfer\u00eancias no seu processo de constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria, comprometendo qualquer materialidade, de modo que alguns projetos v\u00e3o sendo abandonados no caminho e os leitores v\u00e3o se sentindo \u00e0 deriva. A t\u00e9cnica do autor, contudo, de efeito an\u00e1logo ao do cinema, faz com que, mesmo desamparados, os leitores de Noll se deixem conduzir em vertigem pelas imagens que se desprendem umas das outras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No recrudescimento da guerra inscrita e deflagrada num lugar vazio e sem refer\u00eancia geogr\u00e1fica, o irm\u00e3o mais novo e o pai se perdem do irm\u00e3o mais velho, que \u00e0s vezes expressa um desejo de apagamento ou de retorno a um lugar de onde n\u00e3o se deveria ter sa\u00eddo. O irm\u00e3o mais novo, aos poucos, surge com fei\u00e7\u00f5es ditas femininas, seja pela \u201csuavidade no olhar\u201d, seja pelas roupas e t\u00fanicas religiosas, criando, com o que era at\u00e9 agora cen\u00e1rio militar, uma ambi\u00eancia constitu\u00edda de signos religiosos. N\u00e3o havia, por\u00e9m, rezas nessa igreja sen\u00e3o rastros de desejo sexual de um padre pelo irm\u00e3o mais novo, narrado de modo lac\u00f4nico, sem evid\u00eancias emocionais. Enquanto isso, junto \u00e0 hip\u00f3tese de assassinato do pai, Nicolau, a metamorfose do irm\u00e3o em mulher do narrador cria uma transi\u00e7\u00e3o ins\u00f3lita que beira o sonho. Isso passa a fazer com que a imagem do irm\u00e3o coabite as a\u00e7\u00f5es dessa mulher, como a sugerir o incestuoso ou como se juntos, por um momento, eles formassem um duplo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 os cen\u00e1rios, sempre prec\u00e1rios, de repente s\u00e3o outros. \u201cEm que pa\u00eds estou?\u201d, pergunta o narrador num paiol em meio aos bichos. A narrativa de Jo\u00e3o Gilberto Noll ganha outros circuitos espa\u00e7o-temporais \u00e0 medida que outras personagens v\u00e3o surgindo e se consolidando, e assim um outro esbo\u00e7o de vida \u00e9 tra\u00e7ado para o protagonista. E quando compartilhar os dias com a mulher parece se assentar junto \u00e0 vigil\u00e2ncia do paiol, surge, de modo repentino, o filho do pianista Artur, personagem encontrado na cama com a mulher do narrador. Trata-se de um jovem iniciado na dramaturgia, a contar hist\u00f3rias da vida em Estocolmo, dos projetos criativos e das not\u00edcias do pai e da cuidadora. Seu projeto era o Teatro da Apari\u00e7\u00e3o, cujas personagens surgiriam do nada e sumiriam para o nada, pensando o rapaz estar \u201ccriando a sua pr\u00f3pria po\u00e9tica\u201d, segundo coment\u00e1rio ir\u00f4nico do narrador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Curiosamente, esse procedimento \u00e9 empregado pelo pr\u00f3prio Noll, autor emp\u00edrico a desenvolver a personagem do jovem dramaturgo na medida em que suas rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas v\u00e3o sendo costuradas com o filho mais velho e com sua mulher num tri\u00e2ngulo amoroso impreciso, de modo que alguns v\u00ednculos s\u00e3o friamente desfeitos, como se fosse poss\u00edvel \u201climpar o estrago com o devido estoicismo\u201d. Outras amarras e n\u00f3s dram\u00e1ticos s\u00e3o resolvidos muitos anos depois, via cortes temporais abruptos, vertidos em algum arremedo frustrado de reviravolta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os \u00faltimos fatos ocorrem ainda na presen\u00e7a fantasm\u00e1tica do irm\u00e3o mais novo a habitar as hip\u00f3teses do narrador sobre um suposto destino. Ap\u00f3s receber not\u00edcias sobre o retorno da guerra, que culminam na transforma\u00e7\u00e3o do protagonista em um refugiado, ele parte, acompanhado de seu comandante, rumo ao desconhecido, como espreitador do mundo pela janelinha de um navio cargueiro, para, quem sabe um dia, poder ancorar em terra firme e segura. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse, portanto, \u00e9 o cen\u00e1rio derradeiro de <em>A c\u00e9u aberto<\/em>, em cujo desfecho se v\u00ea um mundo irrespir\u00e1vel: \u201cquando se espera um perd\u00e3o, vem, sei l\u00e1, uma li\u00e7\u00e3o de moral, ou uma cusparada\u201d. N\u00e3o se pode afirmar que o narrador personagem encontra amparo em algum pa\u00eds distante, pois se convive, ao fim e ao cabo, com os estilha\u00e7os de um mundo derru\u00eddo e sustentado pela linguagem po\u00e9tica de Jo\u00e3o Gilberto Noll.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a inten\u00e7\u00e3o de produzir \u201cum afresco\u201d do fim de s\u00e9culo, o autor p\u00f4de abordar na obra a \u201cimpossibilidade do tempo\u201d e a \u201csedu\u00e7\u00e3o pela instantaneidade\u201d, conforme entrevista para a Folha de S\u00e3o Paulo. Eis um motivo da sensa\u00e7\u00e3o de perambular por paisagens obtusas na leitura desse texto liter\u00e1rio, algo que ao mesmo tempo pode explicar o sucesso da trajet\u00f3ria de um dos escritores mais instigantes e desafiadores de sua gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AJZENBERG, Bernardo. <em>A c\u00e9u aberto<\/em> ilumina a escurid\u00e3o de Jo\u00e3o Gilberto Noll. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/1996\/11\/09\/ilustrada\/1.html\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/1996\/11\/09\/ilustrada\/1.html<\/a>. Acesso em: 18 maio 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SCH<em>\u00d8<\/em>LLHAMMER, Karl Erik (2009). <em>Fic\u00e7\u00e3o brasileira contempor\u00e2nea<\/em>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00dcSSEKIND, Flora (2003). Fic\u00e7\u00e3o 80: dobradi\u00e7as e vitrines. <em>In<\/em>: S\u00dcSSEKIND, Flora. <em>Pap\u00e9is colados<\/em>. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ. p. 257-272.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-3831.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-3831\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Companhia-das-Letras-1996.webp\" data-caption-title=\"Companhia das Letras, 1996\" data-attachment-id=\"3832\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Companhia das Letras, 1996\" width=\"250\" height=\"383\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/01\/Companhia-das-Letras-1996\/1381797492.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22383%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20383%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Companhia das Letras, 1996<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Record-2008.webp\" data-caption-title=\"Record, 2008\" data-attachment-id=\"3833\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img decoding=\"async\" title=\"Record, 2008\" width=\"250\" height=\"376\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/01\/Record-2008\/1083636829.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22376%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20376%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Record, 2008<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NOLL, Jo\u00e3o Gilberto. 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