{"id":3529,"date":"2025-02-10T16:26:59","date_gmt":"2025-02-10T19:26:59","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3529"},"modified":"2025-11-12T18:01:03","modified_gmt":"2025-11-12T21:01:03","slug":"terrapreta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3529","title":{"rendered":"Terrapreta"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">CARELLI, Rita. <em>Terrapreta.<\/em> S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Caroline Barbosa<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o:<\/em> <em>Dona Dora<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escritora e ilustradora Rita Carelli (S\u00e3o Paulo, SP, 1984) \u00e9 tamb\u00e9m atriz e diretora de cinema e teatro. Suas primeiras publica\u00e7\u00f5es s\u00e3o a cole\u00e7\u00e3o de livros-filmes <em>Um dia na aldeia<\/em> (2018) e livros infantis<em> A hist\u00f3ria de Akykysi\u00e3, o dono da ca\u00e7a<\/em> (2018), <em>Minha fam\u00edlia Enauen\u00ea<\/em> (2018), <em>Amor, O Coelho <\/em>(2021) e <em>Menina Mandioca<\/em> (2022). <em>Terrapreta <\/em>(2021) \u00e9 seu primeiro romance.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>Terrapreta<\/em>, o narrador parte do ponto de vista de Ana e de como ela experiencia a comunidade ind\u00edgena, rejeitando respostas prontas e explorando a lacuna do desejo de saber o que n\u00e3o se sabe. Carelli realiza o que Jos\u00e9 Miguel Wisnik (2023) chama de \u201cobliqua\u00e7\u00e3o\u201d, a posi\u00e7\u00e3o na qual um autor se coloca a fim de habitar um lugar transversal a partir do qual \u00e9 \u201cao mesmo tempo e conjuntamente\u201d sujeito e objeto do que narra, observando-se como \u201co eu de um outro\u201d. Nesse movimento identificado por Wisnik como pr\u00f3prio da fic\u00e7\u00e3o, o escritor estabelece um \u201cpacto m\u00e1gico\u201d com o leitor, pois ao mesmo tempo em que \u00e9 um outro, h\u00e1 um contrato claro de que n\u00e3o pode ser efetivamente esse outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Carelli \u00e9 filha do documentarista e antrop\u00f3logo Vincent Carelli, e desde a inf\u00e2ncia est\u00e1 em contato com comunidades ind\u00edgenas. No entanto, sua obra n\u00e3o explora a ambiguidade de sua biografia, remetendo a elementos diretamente relacionados \u00e0 sua vida. O mote da narrativa concentra-se no choque cultural, no olhar para o outro, no aprender a viver junto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ana, a personagem principal, \u00e9 uma jovem de classe m\u00e9dia de quinze anos, que mora em S\u00e3o Paulo. A menina acorda atrasada certa manh\u00e3 e sua m\u00e3e a leva de carro para a escola. Tudo parece se encaminhar para apenas mais um dia comum. No entanto, uma not\u00edcia inesperada se apresenta: a m\u00e3e sofreu um infarto fulminante, e o pai, que estava distante h\u00e1 um tempo, foi o respons\u00e1vel chamado para dar a not\u00edcia \u00e0 filha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre ficar na casa da av\u00f3 materna e viajar com o pai antrop\u00f3logo para o Alto Xingu nesse momento de luto, a segunda op\u00e7\u00e3o \u00e9 a que prevalece. Na comunidade, a jovem percebe que \u00e9 motivo de riso para os ind\u00edgenas, sem que se sinta propriamente v\u00edtima de <em>bullying<\/em>. Ali ela \u00e9 apenas diferente: \u201cO riso divertido deles n\u00e3o era o riso maldoso dos colegas de escola, ali parecia que rir de tudo era esporte generalizado e Ana se sentia surpreendentemente livre em seu n\u00e3o-lugar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ana entra em contato com costumes distintos dos que ela cultivava em S\u00e3o Paulo, mas vive a comunidade de peito aberto. Constr\u00f3i amizades e afetos, depara-se com desejos e anseios e transita entre a calmaria da natureza e o turbilh\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es pela mudan\u00e7a da inf\u00e2ncia para a puberdade, assim como pela perda da m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O romance \u00e9 narrado em terceira pessoa, adotando um tom \u00edntimo e po\u00e9tico, elaborado com base em figuras de linguagem que querem desenhar as emo\u00e7\u00f5es da personagem: \u201cUma pontada aguda perfura algum encanamento interno, fazendo minar uma gota no canto do olho. O \u00f4nibus sacoleja, l\u00e1 fora, uma vaca pasta, o vazamento persiste\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dividido em cap\u00edtulos curtos, o romance \u00e9 estruturado em tr\u00eas partes. A primeira delas, intitulada \u201cTempestade\u201d, apresenta a mudan\u00e7a geogr\u00e1fica de Ana, seu contato com um modo diferente de vida, o conhecimento das tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. As transforma\u00e7\u00f5es que ela experimenta durante a adolesc\u00eancia encontram correspond\u00eancia na celebra\u00e7\u00e3o do Kuarup, uma \u201cfesta para lembrar os mortos\u201d, em que a comunidade homenageia os que partiram e marca o fim do per\u00edodo de reclus\u00e3o das meninas que menstruaram e que estavam sendo preparadas para sa\u00edrem como mulheres feitas perante a comunidade. Uma delas, Kassuri, torna-se uma amiga querida de Ana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No decorrer da narrativa, principalmente no contato inicial da personagem com os habitantes do Alto Xingu, o leitor \u00e9 levado a conhecer diversas lendas que fazem parte do imagin\u00e1rio da comunidade, como a rela\u00e7\u00e3o dos irm\u00e3os Sol e Lua na origem do Kuarup, a explica\u00e7\u00e3o de como surgiu o pequi, a hist\u00f3ria de Anakinalo e o perigo do bicho-esp\u00edrito. No fim da obra, a autora destaca que todos os nomes ind\u00edgenas foram inventados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como o romance n\u00e3o \u00e9 linear e mescla tempos distintos, na segunda parte, \u201cSob a Terra\u201d, percebe-se que Ana reflete sobre essa viv\u00eancia junto aos ind\u00edgenas, muitos anos depois, j\u00e1 morando em Paris. E o faz para escrever uma tese. O di\u00e1rio que manteve \u00e0 \u00e9poca \u00e9 enviado do Brasil por algu\u00e9m misterioso. Ana resolve ent\u00e3o retornar ao Alto Xingu, alarmada com as not\u00edcias das queimadas e pelo temor de que algo aconte\u00e7a com seu pai e com os amigos que deixou para tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa se\u00e7\u00e3o, o narrador, que at\u00e9 ent\u00e3o se mantinha em terceira pessoa, modula-se para a primeira pessoa, emulando o di\u00e1rio de Ana. As perspectivas de terceira e primeira pessoa se alternam, proporcionando uma experi\u00eancia narrativa que combina a objetividade dos eventos com as emo\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es \u00edntimas da personagem: \u201cSinto uma estranheza ao pensar que a aldeia est\u00e1 plantada sobre um cemit\u00e9rio, que as ra\u00edzes das casas e do p\u00e1tio s\u00e3o os t\u00famulos dos ancestrais. Depois penso na cova improvisada aos p\u00e9s da pitangueira do nosso quintal onde enterrei as cinzas da minha m\u00e3e. N\u00e3o era t\u00e3o diferente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na \u00faltima parte do romance, \u201cNovos tempos\u201d, a narrativa retoma o di\u00e1rio de Ana, documentando os desdobramentos de seu retorno ao Brasil e seu esfor\u00e7o para cicatrizar antigas feridas, al\u00e9m de reatar o v\u00ednculo com seu pai, agora um importante aliado na luta pela sobreviv\u00eancia dos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Terrapreta<\/em> insere-se em uma tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria que explora as viv\u00eancias do \u201coutro\u201d, enquanto reconhece a posi\u00e7\u00e3o do narrador como sujeito que parte de uma perspectiva externa. Esse movimento, presente tamb\u00e9m em obras como <em>O som do rugido da on\u00e7a<\/em> (Companhia das Letras, 2021), de Micheliny Verunschk, traz a cosmogonia ind\u00edgena para o centro da forma romanesca, a fim de interpelar o presente e questionar nosso modo de viver junto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GAMAL, Haron (2022). Entre inc\u00eandios e tempestades, o renascer. <em>Rascunho,<\/em> n. 261. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/rascunho.com.br\/ensaios-e-resenhas\/entre-incendios-e-tempestades-o-renascer\/\">https:\/\/rascunho.com.br\/ensaios-e-resenhas\/entre-incendios-e-tempestades-o-renascer\/<\/a>. Acesso em: 1 jun. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">WISNIK. Jos\u00e9 Miguel (2023). Fic\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o.<em> Revera<\/em>, S\u00e3o Paulo,v. 3, p. 126-150. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/instituto\/revera\/index.php\/revera\/article\/view\/7\">http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/instituto\/revera\/index.php\/revera\/article\/view\/7<\/a>. Acesso em: 26 maio 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-3582.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-3582\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Editora-34-2021.webp\" data-caption-title=\"Editora 34, 2021\" data-attachment-id=\"3583\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Editora 34, 2021\" width=\"250\" height=\"373\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/01\/Editora-34-2021\/1228064682.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22373%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20373%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Editora 34, 2021<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Franca-Metailie-2024.webp\" data-caption-title=\"Fran\u00e7a, M\u00e9taili\u00e9, 2024\" data-attachment-id=\"3584\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img decoding=\"async\" title=\"Fran\u00e7a, M\u00e9taili\u00e9, 2024\" width=\"250\" height=\"384\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/01\/Franca-Metailie-2024\/907123598.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22384%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20384%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Fran\u00e7a, M\u00e9taili\u00e9, 2024<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CARELLI, Rita. 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