{"id":3525,"date":"2025-02-10T12:27:16","date_gmt":"2025-02-10T15:27:16","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3525"},"modified":"2025-11-12T18:01:30","modified_gmt":"2025-11-12T21:01:30","slug":"saia-da-frente-do-meu-sol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3525","title":{"rendered":"Saia da frente do meu sol"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">CHARBEL, Felipe. <em>Saia da frente do meu sol<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica Contempor\u00e2nea, 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Samara Lima<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o:<\/em> <em>L\u00e9o Tavares<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Philippe Lejeune (2014) afirma que as tradicionais autobiografias registravam as mem\u00f3rias de pessoas ilustres e de reconhecida relev\u00e2ncia para a sociedade. O te\u00f3rico franc\u00eas igualmente afirma que seu interesse pelo g\u00eanero teve in\u00edcio com a tentativa de tamb\u00e9m conferir import\u00e2ncia \u00e0 vida do homem an\u00f4nimo. A rela\u00e7\u00e3o entre o g\u00eanero e a tentativa de magnificar o pequeno \u00e9 interessante, pois, nos \u00faltimos anos, \u00e9 poss\u00edvel perceber uma \u201cguinada subjetiva\u201d (Sarlo, 2007) nas produ\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas em consequ\u00eancia da valoriza\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica da intimidade, dos relatos de experi\u00eancias pessoais e do interesse pelas vidas comuns.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e9 justamente lan\u00e7ando um olhar para \u201calgu\u00e9m sem muito brilho\u201d da sua fam\u00edlia, \u00e0 medida que tamb\u00e9m explora seus pr\u00f3prios impasses, que o escritor, ensa\u00edsta e professor de Hist\u00f3ria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Felipe Charbel (Rio de Janeiro, RJ, 1977), constr\u00f3i <em>Saia da frente do meu sol<\/em>. Trata-se de uma narrativa estruturada em torno do seu tio-av\u00f4, Ricardo, que ocupou um lugar marginal na hist\u00f3ria familiar e foi \u201cum agregado a vida inteira\u201d: primeiro morando no quartinho de fundos no apartamento da irm\u00e3 mais nova e, nos seus \u00faltimos anos, no quartinho do apartamento da m\u00e3e do autor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois de um almo\u00e7o de Natal na casa de sua m\u00e3e, o narrador encontra uma caixa de sapatos no arm\u00e1rio, que tinha pertencido \u00e0 sua av\u00f3, repleta de itens familiares, entre os quais uma s\u00e9rie de fotografias de seu falecido tio. A certid\u00e3o de \u00f3bito de Ricardo ali contida atesta que ele n\u00e3o \u201cdeixou filhos, n\u00e3o deixou bens, n\u00e3o era leitor e faleceu sem testamento conhecido\u201d. \u00c9 valendo-se desse pequeno acervo que Charbel questiona o que sobra dessa vida sem registro e sem heran\u00e7a e busca acessar minimamente a exist\u00eancia dessa figura enigm\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A obra \u00e9 dividida em quatro partes e, no primeiro cap\u00edtulo, \u201cSeu tio est\u00e1 vindo morar com a gente\u201d, aparecem as primeiras impress\u00f5es do narrador em rela\u00e7\u00e3o ao seu tio. No decorrer do texto, Ricardo \u00e9 descrito como uma pessoa reservada, de \u201ctemperamento irasc\u00edvel\u201d, com uma exist\u00eancia envolta em segredos e que desenvolveu uma paralisia nas pernas sem um diagn\u00f3stico oficial, possivelmente associado \u00e0 s\u00edfilis neurol\u00f3gica. Entretanto, se no primeiro plano apresenta-se uma vers\u00e3o decr\u00e9pita do personagem, que para muitos era considerado um estorvo, \u00e9 igualmente nesse cap\u00edtulo que o narrador j\u00e1 deixa entrever uma esp\u00e9cie de burburinho que circulava entre seus familiares sobre quem seu tio-av\u00f4 tinha sido antes da doen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As imagens fotogr\u00e1ficas que o narrador encontra e que s\u00e3o reproduzidas na narrativa desempenham um papel fundamental na sua investiga\u00e7\u00e3o sobre a vida anterior do personagem. Citando John Berger, o narrador afirma que \u201co verdadeiro conte\u00fado de uma fotografia \u00e9 invis\u00edvel\u201d e que \u201cao registrar o que foi visto, sempre e por sua pr\u00f3pria natureza se refere ao que n\u00e3o \u00e9 visto\u201d. Assim, a cada encontro com as fotos de Ricardo, que ilustram momentos significativos de sua vida, desde a juventude at\u00e9 a idade adulta, o autor interroga o que v\u00ea. Ele observa as pessoas retratadas na cena e como se relacionam entre si, o local da captura, suas poses e vestimentas, ao passo que se empenha \u201cpara enxergar algo mais, para perceber algo que se insinue entre uma coisa e outra\u201d. \u00c9 a partir do momento que ultrapassa a evid\u00eancia da imagem, em sua tentativa de captar o que n\u00e3o \u00e9 visto e encontrar \u201cos tra\u00e7os de vidas que vazam pelas rachaduras do papel\u201d, que ele se depara com uma outra vers\u00e3o de seu tio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que seu olhar e suas interpreta\u00e7\u00f5es sobre as imagens revelam \u00e9 uma vers\u00e3o mais vaidosa e malandra de Ricardo, com um cigarro na m\u00e3o, com ar zombeteiro de quem tem sempre uma \u201ctirada certeira brotando na sua cabe\u00e7a\u201d e cria sua pr\u00f3pria fic\u00e7\u00e3o diante da c\u00e2mera. Algu\u00e9m que se diverte e dorme ao relento nas matas e nas praias, que faz os outros rirem e que \u201ccanta aos berros num baile de Carnaval\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o que se v\u00ea na fotografia \u00e9 o \u201cretorno do morto\u201d, gra\u00e7as ao car\u00e1ter espectral do sujeito retratado, como o narrador aponta ao falar sobre Roland Barthes, aquele que enxerga e o que suas especula\u00e7\u00f5es promovem \u00e9 \u201co retorno do vivo\u201d. Essas imagens permitem ao narrador e ao leitor confrontar aquelas de Ricardo oferecidas pelos coment\u00e1rios sussurrados nas festas e reuni\u00f5es de fam\u00edlia: \u201co petulante, os escombros de um ser humano, o inquilino do quartinho de fundos, o homem que arrastava pela vida um balde de mijo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em diversos momentos, o narrador comenta sua cren\u00e7a na impossibilidade de reconstruir a vida de algu\u00e9m, assumindo de antem\u00e3o o \u201cfracasso\u201d que \u00e9 narrar o outro, comentando ainda a dificuldade de capturar totalmente o que as fotografias expressam. Esse jogo de incerteza, em que o documento n\u00e3o compactua plenamente com o diz\u00edvel, aumenta ainda mais o mist\u00e9rio em torno do personagem, pois adiciona camadas mais complexas \u00e0 narrativa, e permite ao leitor a constru\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria vis\u00e3o sobre quem Ricardo pode ter sido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um aspecto essencial da obra diz respeito \u00e0 quest\u00e3o da homossexualidade (ou bissexualidade) do personagem. J\u00e1 no final da obra, o narrador encontra um conjunto de fotos de Ricardo apenas com outros homens, em um \u201csaquinho pl\u00e1stico dentro de outro saquinho pl\u00e1stico\u201d, no fundo da caixa amarela. Dentre todas, as fotos na praia s\u00e3o as que carregam um maior apelo er\u00f3tico. \u00c9 poss\u00edvel pensar que o sigilo do conte\u00fado das fotos e o quartinho dos fundos, que era o \u00fanico lugar que cabia ao tio Ricardo, estejam associados ao ato de esconder algo que n\u00e3o era bem visto aos olhos da fam\u00edlia e da sociedade da \u00e9poca. O que justifica o fato de a doen\u00e7a do tio ser considerada, pelos parentes, um \u201cproblema moral\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O narrador n\u00e3o fixa uma orienta\u00e7\u00e3o sexual para Ricardo. O que faz, e instiga o leitor a fazer, \u00e9 aprofundar a reflex\u00e3o sobre a an\u00e1lise das imagens, sobre as mem\u00f3rias dos \u201cn\u00e3o-ditos\u201d e sobre as senten\u00e7as que ouviu ao longo da vida, como: \u201cSeu tio era um homem de v\u00edcios\u201d; \u201cTinha um ou outro desvio, mas n\u00e3o era m\u00e1 pessoa\u201d; \u201cSe amigou dos cantores da \u00e9poca\u201d e \u201cAt\u00e9 que n\u00e3o dava pinta\u201d, evitando, dessa forma, reproduzir a viol\u00eancia do olhar dos outros sobre a vida do tio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A din\u00e2mica entre passado e presente, que diz respeito \u00e0 l\u00f3gica da imagem fotogr\u00e1fica, \u00e9 parte essencial da constitui\u00e7\u00e3o da narrativa. O vai e vem temporal est\u00e1 presente nas flutua\u00e7\u00f5es da mem\u00f3ria do narrador, na maneira como maneja as fotografias e as interroga, bem como na narra\u00e7\u00e3o fragment\u00e1ria da vida de Ricardo e de sua hist\u00f3ria familiar. A narrativa n\u00e3o investiga apenas a vida do tio do autor, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma investiga\u00e7\u00e3o sobre si pr\u00f3prio, sua fam\u00edlia, e os inconvenientes que surgem desde o momento em que decide concentrar-se em narrar sua hist\u00f3ria (\u201cFalando dele, \u00e9 de mim que falo\u201d). Isso fica evidente na op\u00e7\u00e3o formal, que re\u00fane, em meio ao enredo, trechos de di\u00e1rios, fotos das anota\u00e7\u00f5es e as discuss\u00f5es sobre o projeto do livro que ora se l\u00ea, incorporando, assim, o pr\u00f3prio processo de escrita \u00e0 feitura da obra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>Janelas irreais \u2013 um di\u00e1rio de releitura<\/em> (2018), Charbel rel\u00ea algumas obras importantes para sua forma\u00e7\u00e3o como leitor, ao passo que revela pequenos dramas pessoais que s\u00e3o disparados justamente pelas releituras realizadas, deixando ent\u00e3o nebulosas as experi\u00eancias dos personagens dos romances e as nuances da sua pr\u00f3pria vida. Da mesma forma, <em>Saia da frente do meu sol<\/em> \u00e9 uma narrativa h\u00edbrida, que, ao mesclar diferentes linguagens e g\u00eaneros liter\u00e1rios, fic\u00e7\u00e3o e realidade, aposta numa pr\u00e1tica de escrita inst\u00e1vel e suscita questionamentos sobre as possibilidades da literatura hoje.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CHARBEL, Felipe (2018). <em>Janelas irreais<\/em>: um di\u00e1rio de releitura. Belo Horizonte: Relic\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CHARBEL, Felipe (Entrevistado). (2023). <em>Conversas contempor\u00e2neas<\/em> [Podcast]. Youtube. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ww31EluWeUQ\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ww31EluWeUQ<\/a>. Acesso em: 11 jul. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LEJEUNE, Philippe (2014). <em>O pacto autobiogr\u00e1fico<\/em>: de Rousseau \u00e0 Internet. Trad. de Jovita Maria Gerheim Noronha e Maria In\u00eas Coimbra Guedes. Belo Horizonte: Editora da UFMG.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SARLO, Beatriz (2007). <em>Tempo passado<\/em>: cultura da mem\u00f3ria e guinada subjetiva. Trad. de Rosa Freire d\u2019Aguiar. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras; Belo Horizonte: Editora da UFMG.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-3573.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-3573\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Autentica-Contemporanea-2023.webp\" data-caption-title=\"Aut\u00eantica Contempor\u00e2nea, 2023\" data-attachment-id=\"3574\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Aut\u00eantica Contempor\u00e2nea, 2023\" width=\"250\" height=\"384\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/01\/Autentica-Contemporanea-2023\/1150130303.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22384%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20384%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Aut\u00eantica Contempor\u00e2nea, 2023<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CHARBEL, Felipe. 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