{"id":3521,"date":"2025-02-07T18:50:40","date_gmt":"2025-02-07T21:50:40","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3521"},"modified":"2025-12-15T12:25:59","modified_gmt":"2025-12-15T15:25:59","slug":"onde-pastam-os-minotauros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3521","title":{"rendered":"Onde pastam os minotauros"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">TERRON, Joca Reiners. <em>Onde pastam os minotauros<\/em>. S\u00e3o Paulo: Todavia, 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Breno K\u00fcmmel<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o:<\/em> <em>Manuela Dib<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Joca Reiners Terron (Cuiab\u00e1, MT, 1968), de origem mato-grossense e h\u00e1 d\u00e9cadas morador de S\u00e3o Paulo, tem uma produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria volumosa. Al\u00e9m de oito romances, publicou tamb\u00e9m dois volumes de contos e cinco de poesia desde o in\u00edcio de sua carreira em 1998. Seus livros frequentemente operam sob um entendimento bastante flex\u00edvel de verossimilhan\u00e7a, com elementos da literatura fant\u00e1stica e do surrealismo (relativamente pouco presentes na literatura brasileira) explorando temas de escatologia; tanto no entendimento comum da palavra, em que significa excrementos corporais, quanto \u00e0 doutrina teol\u00f3gica que estuda ide\u00e1rios apocal\u00edpticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme seria previsto pela sua trajet\u00f3ria at\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 numa dic\u00e7\u00e3o estritamente realista e expositiva que se organiza seu oitavo romance, <em>Onde pastam os minotauros,<\/em> em uma ideia que buscaria dar conta da realidade por meio de um retrato pretensamente completo ou fidedigno pela literalidade. Tem-se, em vez disso, um painel essencialmente expressionista, de tra\u00e7os que se pautam ao mesmo tempo pelo exagero e pela fineza da linguagem, numa sensa\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o constante, sufocante e inescap\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria do livro transcorre durante o fim de ano em um abatedouro no interior de Mato Grosso. Esse abatedouro produz carne halal, destinada a pa\u00edses mu\u00e7ulmanos. Nesse caso, os animais s\u00e3o abatidos em obedi\u00eancia \u00e0s regras da religi\u00e3o, com as cabe\u00e7as voltadas para Meca. Para al\u00e9m da mis\u00e9ria corriqueira, sal\u00e1rios baixos, jornada exaustiva e realidade de matan\u00e7a constante de animais inocentes, os personagens ainda vivem a tens\u00e3o de uma iminente demiss\u00e3o em massa, com a substitui\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra brasileira por uma mu\u00e7ulmana estrangeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se a vida sob o jugo de um trabalho mal remunerado e desgastante j\u00e1 era em si um sofrimento dificilmente atur\u00e1vel, a alternativa a isso seria compor a multid\u00e3o de maltrapilhos que vive do lado de fora do cercado do abatedouro, implorando por restos de animais, rejeitos e ossos para aplacar a fome. \u00c9 como se os personagens vivessem num equil\u00edbrio dif\u00edcil na beira do abismo, com uma vista constante para a queda e nenhum vislumbre de melhorias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 um dos raros romances brasileiros que trata centralmente da realidade do trabalho. Embora o livro aborde detalhadamente a rotina e os procedimentos do abate, isso ocorre de forma distante do efeito de um realismo do tipo mais instrutivo, que faria lembrar os romances de proletariado da gera\u00e7\u00e3o de 30, com aquele intuito antigo de instruir o leitor a respeito de uma realidade que ele precisaria conhecer para poder enfrent\u00e1-la. H\u00e1, em vez disso, uma espessa densidade simb\u00f3lica nos procedimentos narrativos, de forma que mesmo uma frase que descreva transparentemente uma a\u00e7\u00e3o ganha o peso de uma alegoria enigm\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda que trate do dia a dia de oper\u00e1rios numa f\u00e1brica (pois o matadouro s\u00f3 pode ser entendido dessa maneira, com seus rel\u00f3gios de ponto e \u00edndices de produtividade contabilizada) e de uma realidade macroecon\u00f4mica de grande import\u00e2ncia pol\u00edtica no pa\u00eds, \u00e9 o peso simb\u00f3lico trazido pelas decis\u00f5es estil\u00edsticas do autor que causa a impress\u00e3o mais forte da narrativa. Isso pode ser comprovado a partir do pr\u00f3prio t\u00edtulo e mais vividamente nos trechos de tom mitol\u00f3gico que falam de uma crian\u00e7a nascida metade boi, presa no labirinto, como nas hist\u00f3rias da Gr\u00e9cia helen\u00edstica, em uma recupera\u00e7\u00e3o deliberadamente distorcida do material narrativo arcaico. O livro ainda traz v\u00e1rios cap\u00edtulos narrados pelos pr\u00f3prios animais, que d\u00e3o um testemunho de placidez enigm\u00e1tica a respeito da matan\u00e7a que os cerca e os atinge, assim como da infelicidade inamov\u00edvel dos respons\u00e1veis por essa matan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O texto eventualmente chega a tratar da realidade externa, como as refer\u00eancias \u00e0 terra natal do colega de trabalho Ahmed, e o massacre feito contra os palestinos no Oriente M\u00e9dio. Mesmo assim, a impress\u00e3o que continuamente perpassa a leitura \u00e9 a de um mundo que se resume \u00e0s instala\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas do matadouro. Atrav\u00e9s de um labirinto descrito no seu sentido concreto para os animais no abatedouro, a estil\u00edstica do romance prende tamb\u00e9m o leitor num mundo aparentemente sem horizontes, com estradas apenas de vinda (de retorno, a contragosto ou n\u00e3o, ao matadouro).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os personagens do livro evidenciam em seus pr\u00f3prios nomes o tom da narrativa: C\u00e3o, Crente e Lucy Fuerza (apelido em par\u00f3dia da companhia el\u00e9trica paraguaia, Luz y Fuerza). C\u00e3o \u00e9 o funcion\u00e1rio que conduz os animais para o abate, tendo uma facilidade sobrenatural em seu of\u00edcio devido \u00e0 conex\u00e3o ps\u00edquica que sente com os animais que encaminha v\u00e1rias vezes por dia para a morte violenta. Ap\u00f3s longo conv\u00edvio, C\u00e3o parece se conscientizar de que a facilidade em lidar com os animais teria serventia puramente produtiva, ou seja, para matar um n\u00famero maior de animais com a carne menos endurecida do estresse pr\u00e9-abate, resultando num produto de melhor qualidade. Ele tentou abandonar o abatedouro e buscou no tr\u00e1fico de drogas outro meio de sustento, por\u00e9m foi preso e liberto num per\u00edodo anterior \u00e0 narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O personagem Crente, por sua vez, vive entre o trabalho exaustivo e visitas diligentes ao hospital. Sua filha est\u00e1 internada devido a uma doen\u00e7a inominada, mas que o leitor \u00e9 levado a crer, por refer\u00eancias muito passageiras, que se originou em uma pandemia que teria matado a m\u00e3e da menina, algo muito pr\u00f3ximo da realidade recente da Covid-19. Seu sofrimento ante a incerteza do futuro da filha e a revolta ao concluir que a transmiss\u00e3o do v\u00edrus foi responsabilidade do pastor da igreja \u00e9 talvez o momento em que a narrativa mais se aproxima de uma vis\u00e3o mais imediatista e menos simb\u00f3lica das injusti\u00e7as e erros do mundo. No entanto, a realidade em que se vive no pa\u00eds, do dom\u00ednio crescente do poder evang\u00e9lico, mostra a dificuldade de tratar a quest\u00e3o sem tonalidades de caricatura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro \u00e9 denso, mesmo com o estilo apurado e claro, pois a homogeneidade da negatividade e da desesperan\u00e7a torna o avan\u00e7o da leitura mais devagar do que daria inicialmente a ver, diante da extens\u00e3o reduzida dos cap\u00edtulos, com duas a quatro p\u00e1ginas em sua maioria. A obra chega a apresentar um final esperan\u00e7oso, mas a travessia continua exigindo um f\u00f4lego de \u00e2nimo por parte de quem l\u00ea. O apuro descritivo e estil\u00edstico do romance, para al\u00e9m de seu poderio imaginativo e abordagem de tema incomum dentro da literatura brasileira, mais do que bastam para que este se sustente como uma obra merecedora de aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DINIZ, L\u00edgia (2023). Joca Reiners Terron usa minotauros em den\u00fancia l\u00edrica dos abatedouros. <em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>, 28 jul. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2023\/07\/joca-reiners-terron-usa-minotauros-em-denuncia-lirica-dos-abatedouros.shtml\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2023\/07\/joca-reiners-terron-usa-minotauros-em-denuncia-lirica-dos-abatedouros.shtml.<\/a> Acesso em: 4 ago. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FONSECA, Luiz Guilherme (2023). Sobre humanos e monstros. <em>Quatro Cinco Um<\/em>, 1 set. Dispon\u00edvel em:&nbsp; <a href=\"https:\/\/quatrocincoum.com.br\/resenhas\/literatura\/literatura-brasileira\/sobre-humanos-e-monstros\/\">https:\/\/quatrocincoum.com.br\/resenhas\/literatura\/literatura-brasileira\/sobre-humanos-e-monstros\/<\/a> . Acesso em: 4 ago. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">NOGUEIRA, Paulo (2023). Joca Reiners Terron: narrativa perturbadora em <em>Onde pastam os minotauros<\/em>. <em>Estado de Minas<\/em>, 25 ago. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.em.com.br\/app\/noticia\/pensar\/2023\/08\/25\/interna_pensar,1551619\/joca-reiners-terron-narrativa-perturbadora-em-onde-pastam-os-minotauros.shtml\">https:\/\/www.em.com.br\/app\/noticia\/pensar\/2023\/08\/25\/interna_pensar,1551619\/joca-reiners-terron-narrativa-perturbadora-em-onde-pastam-os-minotauros.shtml<\/a>. Acesso em: 4 ago. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-3567.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-3567\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Todavia-2023-1.webp\" data-caption-title=\"Todavia, 2023\" data-attachment-id=\"3568\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Todavia, 2023\" width=\"250\" height=\"379\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/01\/Todavia-2023-1\/909444034.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22379%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20379%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Todavia, 2023<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>TERRON, Joca Reiners. 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