{"id":3519,"date":"2025-02-07T18:05:11","date_gmt":"2025-02-07T21:05:11","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3519"},"modified":"2025-11-12T17:59:05","modified_gmt":"2025-11-12T20:59:05","slug":"o-voo-da-guara-vermelha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3519","title":{"rendered":"O voo da guar\u00e1 vermelha"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">REZENDE, Maria Val\u00e9ria. <em>O voo da guar\u00e1 vermelha<\/em>. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Andr\u00e9 Luiz dos Santos Rodrigues<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Francisco Dalcastagn\u00e8<\/em> <em>Miguel<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O psicanalista franc\u00eas Jacques Lacan afirmou, no semin\u00e1rio <em>A transfer\u00eancia<\/em>, que amar \u00e9 dar o que n\u00e3o se tem a algu\u00e9m que n\u00e3o o quer. A experi\u00eancia amorosa (e psicanal\u00edtica) seria, nesse sentido, uma experi\u00eancia de desencontro e n\u00e3o de reple\u00e7\u00e3o. Entre o otimismo, a ternura e a ingenuidade, <em>O voo da guar\u00e1 vermelha<\/em>, primeiro romance de Maria Val\u00e9ria Rezende (Santos, SP, 1942), apresenta o contr\u00e1rio dessa tese: as vidas dos protagonistas se cruzam em um momento em que ambos necessitavam de algu\u00e9m para complet\u00e1-los, cada qual concedendo o que possu\u00eda e recebendo aquilo de que precisava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apresentando, segundo Daiana Piaceski (2019), uma das caracter\u00edsticas centrais das hist\u00f3rias da autora, a saber, o olhar para pessoas em tr\u00e2nsito, o livro conta a saga do pedreiro Ros\u00e1lio da Concei\u00e7\u00e3o e da prostituta Irene. Quando se encontram na casa de prostitui\u00e7\u00e3o onde a mo\u00e7a trabalha, a vida de Ros\u00e1lio era comer feij\u00e3o, trabalhar, lavar-se e dormir; a de Irene, amealhar o dinheiro para sustentar o filho ainda beb\u00ea, cuidado por uma velha senhora. As vidas dos protagonistas \u2013 provavelmente constru\u00eddos a partir de sujeitos com os quais a autora cruzou em sua longa trajet\u00f3ria como educadora popular \u2013 estavam acinzentadas pelos problemas do Brasil rural e do Brasil urbano p\u00f3s-ditadura: o analfabetismo, a invisibilidade social, o trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o, o desmatamento, o garimpo, o HIV, o abismo social, o preconceito de g\u00eanero, o preconceito de orienta\u00e7\u00e3o sexual, a segrega\u00e7\u00e3o urbana e o concreto sufocante das grandes cidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Irene, Ros\u00e1lio oferece suas experi\u00eancias de vida, relatadas com a destreza de um contador de hist\u00f3rias. Realizando seu sonho de ser professora, ela, por sua vez, compartilha o que sabe das letras, como ler e escrever. Nessa troca de saberes, os personagens se aproximam, tornam-se um casal e redescobrem, pouco a pouco, o prazer de viver. Esse reaprendizado da alegria reflete-se nos t\u00edtulos dos cap\u00edtulos, que pareiam diferentes cores: verde e negro, roxo e branco, ocre e rosa etc. A cada cap\u00edtulo, a cada encontro no quarto de Irene, novas cores tingem o mundo dos personagens, suas vidas se emaranham, \u201cmisturadas, uma e outra, dif\u00edcil de separar por querer, por m\u00e3o humana\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A maneira como enxergam o mundo \u00e9 complexa, mesclando o conhecimento vindo de cl\u00e1ssicos da literatura (como <em>Dom Quixote<\/em> e <em>As mil e uma noites<\/em>) com a cren\u00e7a em valores crist\u00e3os, em feiti\u00e7os, em encantados, em criaturas da floresta (como Caipora e Mapinguari) e na natureza como consci\u00eancia viva e comunicante (os animais falam e as plantas sentem).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O saber formal, contudo, n\u00e3o est\u00e1 em patamar superior ao saber vindo da experi\u00eancia, pois \u00e9 esta que embasa as hist\u00f3rias de Ros\u00e1lio, que, ecoando a filosofia de Paulo Freire \u2013 uma das refer\u00eancias no pensamento de Rezende \u2013, n\u00e3o sabia ler um livro, mas sabia ler o mundo. Desde a inf\u00e2ncia, na busca por aprender a ler e a escrever, Ros\u00e1lio passou por diversos locais e of\u00edcios. Al\u00e9m da Grota dos Crioulos, local onde nasceu e que, em seus prim\u00f3rdios, reunia negros fugidos do cativeiro, viveu em um acampamento de madeireiros, em um garimpo, em uma favela e em um assentamento sem-terra. Ia aonde diziam que poderia aprender a decifrar as letras, desejo realizado apenas por Irene. Ela ampliou o mundo de Ros\u00e1lio alfabetizando-o; ele alargou o dela contando aquilo pelo que passou at\u00e9 encontr\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Constru\u00edda em terceira pessoa, a voz narrativa alia-se aos protagonistas, abrindo espa\u00e7o para o discurso em primeira pessoa destes. As frases das duas inst\u00e2ncias s\u00e3o extensas e fazem o leitor ouvir, quando n\u00e3o rimas, a musicalidade, os excessos e o ritmo de uma fala espont\u00e2nea, sem a solenidade de frases lapidares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O modo de constitui\u00e7\u00e3o do romance e dos \u201ccausos\u201d de Ros\u00e1lio \u00e9 encadeado, semelhante ao de <em>As mil e uma noites<\/em>, com uma hist\u00f3ria ramificando-se em outra, um discurso subordinando-se a outro: a voz narrativa fala de Ros\u00e1lio, que fala de Maria Flora, que fala de Su\u00e9cio. As hist\u00f3rias se interligam para consolidar a viv\u00eancia tanto quanto as letras para formar palavras, e depois frases, e depois textos, e depois livros \u2013 uma coisa se expande para outra: Ros\u00e1lio aprende a \u201cescrever \u2018laranja\u2019, depois \u2018gomo\u2019 e da\u00ed \u2018goma\u2019; a \u2018goma\u2019 deu \u2018tapioca\u2019, a \u2018cana\u2019 virou \u2018garapa\u2019\u201d. Uma incontrol\u00e1vel rea\u00e7\u00e3o em cadeia, a constitui\u00e7\u00e3o do romance, assim como acontece com o conhecimento, tende ao infinito, fundo contra o qual a guar\u00e1 voa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo bela e singela, a imagem do t\u00edtulo re\u00fane os elementos formais, tem\u00e1ticos e ideol\u00f3gicos da obra: o voo refletindo o cromatismo de diversas cenas, a emancipa\u00e7\u00e3o proporcionada pelo conhecimento (formal ou informal) e a fluidez que caracteriza as constru\u00e7\u00f5es frasais da voz narrativa e dos personagens. Em <em>O voo da guar\u00e1 vermelha<\/em>, a narrativa \u00e9 sempre impelida para adiante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ademais, o livro tem car\u00e1ter metalingu\u00edstico, uma vez que a voz narrativa e os personagens refletem sobre como se originam as hist\u00f3rias que se contam e seu efeito nos sujeitos. Conta-se uma hist\u00f3ria para lembrar o que foi vivido, presenciado ou ouvido. E tamb\u00e9m se conta para estar na pele do outro, para reviver, sem dor, o que aconteceu, para mudar o pr\u00f3prio destino, para esquecer da vida, para deixar vest\u00edgios no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais ainda: contar e ouvir hist\u00f3rias \u00e9 viciante, \u201cuma cacha\u00e7a que, uma vez pegado o gosto, ningu\u00e9m queria deixar\u201d. De origem imprecisa, pois n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel distinguir a verdade da inven\u00e7\u00e3o: Ros\u00e1lio garimpa \u201cna mem\u00f3ria retalhos para costurar um no outro e ver nascer outros sentidos que possa desenrolar no papel e um dia v\u00e3o chamar outros, at\u00e9 completar hist\u00f3rias e fazer seu pr\u00f3prio livro\u201d. N\u00e3o tendo sido batizado, Ros\u00e1lio, por muito tempo, n\u00e3o possuiu um nome registrado oficialmente. J\u00e1 foi Nem-Ningu\u00e9m, Curumim, Caro\u00e7o e Doutor \u2013 sintoma de que seus direitos foram negados, sintoma de que sua personalidade, pr\u00f3pria de um artista, \u00e9 metamorfa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 passagens que ecoam o discurso de Riobaldo, narrador de <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>, de Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa. Ainda que se fale que \u201ca vida tem dessas voltas, uma coisa exagerada se vira no seu contr\u00e1rio, o medo \u00e0s vezes chegando a parecer uma coragem, o \u00f3dio se confundindo com seu avesso, o amor\u201d, tais ambiguidades sentimentais n\u00e3o s\u00e3o vividas pelos personagens, retratados como seres movidos apenas pelo desejo de fazer o bem e de modificar positivamente a vida do outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A voz narrativa possui afei\u00e7\u00e3o por Ros\u00e1lio e Irene e d\u00e1 a entender que, quando mediadas pelo dinheiro, as rela\u00e7\u00f5es se degradam. Quando impulsionadas pela vontade de se conectar com o outro, revigoram, cortando \u201cpela raiz a planta de desespero\u201d. A negatividade n\u00e3o se encontra em seus pensamentos, mas no mundo que os empurrou para as margens da sociedade, fazendo de <em>O voo da guar\u00e1 vermelha<\/em> uma esp\u00e9cie de romance prolet\u00e1rio contempor\u00e2neo. Sua import\u00e2ncia reside no fato de abordar ficcionalmente o impacto social e existencial do analfabetismo, problema que atingia 11,4 milh\u00f5es de pessoas no Brasil, segundo dados do Censo Demogr\u00e1fico 2022. A narrativa parece, por fim, sugerir, de forma idealista, que os sujeitos se deixem modificar por suas rela\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o devem ser fundadas no interesse, mas na genuinidade. Assim, Ros\u00e1lio e Irene \u201cse tornam um s\u00f3, num descalabro de amor\u201d: para a narrativa, o encaixe exato; para a psican\u00e1lise, o mutualismo imposs\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ILH\u00c9U, Ta\u00eds. (2018). O vasto mundo de Maria Val\u00e9ria Rezende. <em>Le Monde Diplomatique<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/o-vasto-mundo-de-maria-valeria-rezende\/\">https:\/\/diplomatique.org.br\/o-vasto-mundo-de-maria-valeria-rezende\/<\/a>. Acesso em: 29 mai. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PIACESKI, Daiana Patricia Follman (2019). Maria Val\u00e9ria Rezende: colorindo invis\u00edveis por meio da literatura. <em>Revista Crioula<\/em>, S\u00e3o Paulo, n. 24, p. 250-267. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.revistas.usp.br\/crioula\/article\/view\/160624\/158696\">https:\/\/www.revistas.usp.br\/crioula\/article\/view\/160624\/158696<\/a>. Acesso em: 22 mai. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ZUKOSKI, Ana Maria Soares; ZOLIN, L\u00facia Osana (2020). A escrita como processo de subjetiva\u00e7\u00e3o feminina: uma leitura de <em>O voo da guar\u00e1 vermelha<\/em> (2005), de Maria Val\u00e9ria Rezende. <em>Scripta Uniandrade<\/em>, Curitiba, v. 18, n. 1, p. 62-78. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/revista.uniandrade.br\/index.php\/ScriptaUniandrade\/article\/view\/1592\">https:\/\/revista.uniandrade.br\/index.php\/ScriptaUniandrade\/article\/view\/1592<\/a>. Acesso em: 27 mai. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-3564.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-3564\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Alfaguara-2014.webp\" data-caption-title=\"Alfaguara, 2014\" data-attachment-id=\"3565\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Alfaguara, 2014\" width=\"250\" height=\"389\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/01\/Alfaguara-2014\/2041073265.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22389%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20389%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Alfaguara, 2014<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>REZENDE, Maria Val\u00e9ria. 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