{"id":3513,"date":"2025-02-07T14:11:42","date_gmt":"2025-02-07T17:11:42","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3513"},"modified":"2025-09-15T09:47:08","modified_gmt":"2025-09-15T12:47:08","slug":"o-rastro-do-jaguar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3513","title":{"rendered":"O rastro do Jaguar"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">CARVALHO, Murilo. <em>O rastro do Jaguar<\/em>. S\u00e3o Paulo: LeYa, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Pedro Ivo Rocha de Macedo<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Moreno Lago<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Guerra do Paraguai, vista sob a perspectiva de um jornalista europeu com olhos postos sobre um her\u00f3i involunt\u00e1rio, \u00e9 o cen\u00e1rio principal de Murilo Carvalho (Carvalh\u00f3polis, MG, 1949) em seu romance de estreia, <em>O rastro do Jaguar<\/em> (2009). Vencedora da primeira edi\u00e7\u00e3o do Pr\u00eamio LEYA, patrocinada pela editora portuguesa, a obra foi publicada no Brasil no ano seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Carvalho, jornalista experiente, com carreira iniciada nos anos 1970, recupera uma tradi\u00e7\u00e3o ent\u00e3o em desuso no Brasil, a do romance hist\u00f3rico, partindo das expedi\u00e7\u00f5es reais do naturalista franc\u00eas Auguste de Saint-Hilaire, que em suas duas incurs\u00f5es pelo Brasil no s\u00e9culo XIX traz de volta consigo \u00e0 Europa dois habitantes origin\u00e1rios do pa\u00eds, um jovem botocudo e uma crian\u00e7a guarani. O que inscreve a obra de Carvalho numa nova possibilidade para o romance hist\u00f3rico \u00e9 justamente o protagonista dessa jornada. Em <em>O rastro do Jaguar<\/em>, \u00e9 essa crian\u00e7a guarani o guia e her\u00f3i do romance.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim como em <em>Um defeito de cor<\/em> (2006), publicado por Ana Maria Gon\u00e7alves tr\u00eas anos antes, Carvalho subverte o romance hist\u00f3rico tradicional ao trazer para o primeiro plano n\u00e3o uma personalidade consagrada pelos livros de Hist\u00f3ria, mas um personagem que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o seria (e n\u00e3o fora) biografado, possibilitando novos olhares sobre o passado e a forma\u00e7\u00e3o do Brasil. A partir dos elementos biogr\u00e1ficos m\u00ednimos extra\u00eddos da obra de Saint-Hilaire, Carvalho apresenta Pierre, m\u00fasico da \u00f3pera de Paris, egresso do ex\u00e9rcito de Napole\u00e3o III, que traz as fei\u00e7\u00f5es de um outro povo, mas que desconhece a sua origem, tendo sido entregue ainda crian\u00e7a a uma fam\u00edlia de militares e sem quaisquer informa\u00e7\u00f5es sobre o seu passado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao se envolver no tumulto da estreia de uma \u00f3pera em Paris, Pierre acaba tendo contato com seu \u201cirm\u00e3o\u201d Firmiano e concebe a possibilidade de visitar o Brasil para encontrar o seu povo de origem. Para tanto, leva consigo seu amigo Pereira, jornalista luso-franc\u00eas que aproveita a oportunidade para se tornar correspondente do conflito que se iniciava no Cone Sul.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O narrador, ao resgatar essa hist\u00f3ria d\u00e9cadas ap\u00f3s os eventos, reflete: \u201crelendo este relato, percebi que me desviei um pouco de meu prop\u00f3sito inicial; pretendia escrever uma reportagem, ou algo assim; acabei enveredando por uma esp\u00e9cie de di\u00e1rio pessoal\u201d. A linguagem est\u00e1 a servi\u00e7o da hist\u00f3ria que se conta, privilegiando a narra\u00e7\u00e3o objetiva dos fatos e eventos. A origem jornal\u00edstica do autor e do narrador Pereira transpiram no estilo conciso empregado no texto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao conceder a narra\u00e7\u00e3o do texto a um personagem estrangeiro, franc\u00eas de m\u00e3e portuguesa realojado no Brasil, ele mesmo um sem lugar, Carvalho escapa \u00e0 armadilha de tentar reproduzir o esp\u00edrito e a voz do protagonista ind\u00edgena. Esp\u00edrito e voz dessa popula\u00e7\u00e3o calados no s\u00e9culo XIX e que s\u00f3 podem ser reconstru\u00eddos na fabula\u00e7\u00e3o memorialista de seu amigo d\u00e9cadas passadas: \u201cA fala de Pierre n\u00e3o era exatamente essa que eu uso para descrever suas ideias e seu entusiasmo, capazes de nos confundir. Al\u00e9m disso, escrever como eu escrevo \u00e9 minha alegria; o que importa agora n\u00e3o s\u00e3o as exatas palavras ditas num passado que se perde na minha mem\u00f3ria, mas os fatos que vieram, aos poucos, construindo esta hist\u00f3ria que eu preciso narrar\u201d. Pereira, o narrador, sente um dever de mem\u00f3ria que se faz notar como a miss\u00e3o de todo o romance.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O rastro do Jaguar<\/em> \u00e9, ao mesmo tempo, uma cr\u00f4nica de viagem ao estilo dos naturalistas, ao percorrer o Brasil do s\u00e9culo XIX, atravessando diferentes realidades geogr\u00e1ficas e sociais, e tamb\u00e9m um romance de guerra, apresentando de forma factual eventos, batalhas e perdas do maior conflito j\u00e1 ocorrido no continente. Contudo, mais que isso, o romance \u00e9 uma reflex\u00e3o etnogr\u00e1fica, ao tentar deslindar a situa\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas nas zonas ocupadas do territ\u00f3rio brasileiro na segunda metade do s\u00e9culo XIX, ent\u00e3o j\u00e1 profundamente dizimadas e despojadas de terra e dignidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dispers\u00e3o pelo sert\u00e3o baiano dos ind\u00edgenas destitu\u00eddos de tudo, o conflito de resist\u00eancia dos botocudos no Vale do Jequitinhonha e o processo de assimila\u00e7\u00e3o dos guaranis no sul do pa\u00eds propiciam a apresenta\u00e7\u00e3o de distintas cosmogonias e possibilidades de conviv\u00eancia, perdidas no genoc\u00eddio que construiu a identidade nacional. Ao longo de suas 570 p\u00e1ginas, o texto traz uma abund\u00e2ncia de elementos hist\u00f3ricos e culturais organicamente entremeados \u00e0 narrativa, propiciando intertextos que v\u00e3o da \u00f3pera wagneriana \u00e0 estatu\u00e1ria do barroco Aleijadinho. Personagens hist\u00f3ricos como Gon\u00e7alves Dias, o l\u00edder ind\u00edgena Manh\u00e1-O\u00e9 e o Marqu\u00eas de Caxias se encontram com os protagonistas do romance, bem como uma s\u00e9rie de personagens fict\u00edcios que permitem construir um panorama multifacetado do pa\u00eds, composto de estrangeiros, colonos, religiosos, ricos, pobres e escravizados. O cruzamento com diferentes perspectivas sociais ao longo do p\u00e9riplo de Pierre pelo pa\u00eds complexifica sua busca na compreens\u00e3o do que significa ter uma identidade e pertencer a um povo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A identidade de Pierre se consolida por meio da desconstru\u00e7\u00e3o. De oficial do ex\u00e9rcito e m\u00fasico profissional, ele se torna l\u00edder profetizado do povo guarani, que consegue se encontrar ap\u00f3s grandes percal\u00e7os e pouca hesita\u00e7\u00e3o. Pierre se v\u00ea obrigado a assumir o manto do Jaguar, a que se refere o t\u00edtulo, aquele que conduziria o povo adornado a <em>yuy mara ei<\/em>, uma terra sem males. Carvalho urde uma trama complexa e bastante substantiva, em que o dever de mem\u00f3ria pessoal do narrador transborda para um dever coletivo da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No confronto com a realidade de um passado sem esperan\u00e7a, o romance deixa ao leitor a possibilidade do caminho: \u201cn\u00e3o importa o destino; o que importa \u00e9 partir. A busca da Terra Sem Males se basta; n\u00e3o \u00e9 preciso encontr\u00e1-la\u201d. A fic\u00e7\u00e3o em <em>O rastro do Jaguar<\/em> permite um espa\u00e7o poss\u00edvel de mem\u00f3ria hist\u00f3rica, tantas vezes ignorada, de um povo ind\u00edgena que n\u00e3o p\u00f4de existir, de uma terra sem males que n\u00e3o se concretizou na constru\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ALMEIDA, Ana Maria de Gouveia (2016). <em>A viagem da personagem Pierre Saint\u2019Hilaire em <\/em>O rastro do Jaguar<em>, de Murilo Carvalho<\/em>. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Letras) \u2013 Universidade Federal de Vi\u00e7osa, Vi\u00e7osa. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/locus.ufv.br\/handle\/123456789\/11672\">https:\/\/locus.ufv.br\/\/handle\/123456789\/11672<\/a>. <a href=\"http:\/\/periodicos.unb.br\/index.php\/estudos\/article\/view\/9430\">A<\/a>cesso em: 29 jun. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CARVALHO, C\u00edntia Paula Andrade de (2011). A narrativa h\u00edbrida de <em>O rastro do Jaguar<\/em>: a representa\u00e7\u00e3o dos \u00edndios da Am\u00e9rica do Sul revisitada no romance hist\u00f3rico contempor\u00e2neo. In: XII CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC CENTRO, CENTROS \u2013 \u00c9TICA, EST\u00c9TICA, 18 a 22 de jul. 2011, Universidade Federal do Paran\u00e1 \u2013 Curitiba, Brasil. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/abralic.org.br\/eventos\/cong2011\/AnaisOnline\/resumos\/TC0946-1.pdf\">https:\/\/abralic.org.br\/eventos\/cong2011\/AnaisOnline\/resumos\/TC0946-1.pdf<\/a>. <a href=\"http:\/\/periodicos.unb.br\/index.php\/estudos\/article\/view\/9430\">A<\/a>cesso em: 29 jun. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DIAS, Gon\u00e7alves (1998). <em>Poesia e prosa completas<\/em>. Rio de Janeiro: Nova Aguilar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">OLIVIERI-GODET, Rita (2010). Hist\u00f3rias de \u00edndios entre assimila\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia: <em>O rastro do Jaguar<\/em>. <em>Estudos de Literatura Brasileira Contempor\u00e2nea<\/em>, Bras\u00edlia, n. 36, p. 175-189. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.unb.br\/index.php\/estudos\/article\/view\/9717\">https:\/\/periodicos.unb.br\/index.php\/estudos\/article\/view\/9717<\/a>. Acesso em: 29 jun. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SAINT\u2019HILAIRE, Auguste de (2002). <em>Viagem ao Rio Grande do Sul<\/em>. Bras\u00edlia: Senado Federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-3620.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-3620\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Leya-2009.webp\" data-caption-title=\"Leya, 2009\" data-attachment-id=\"3621\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Leya, 2009\" width=\"250\" height=\"366\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/01\/Leya-2009\/2517985514.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22366%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20366%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Leya, 2009<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Leya-2012.webp\" data-caption-title=\"Leya, 2012\" data-attachment-id=\"3622\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img decoding=\"async\" title=\"Leya, 2012\" width=\"250\" height=\"370\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/01\/Leya-2012\/2663097080.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22370%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20370%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Leya, 2012<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CARVALHO, Murilo. 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