{"id":3487,"date":"2025-03-28T12:08:47","date_gmt":"2025-03-28T15:08:47","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3487"},"modified":"2025-11-12T17:57:14","modified_gmt":"2025-11-12T20:57:14","slug":"nao-falei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3487","title":{"rendered":"N\u00e3o falei"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">BRACHER, Beatriz. <em>N\u00e3o falei<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2004.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Luciene Azevedo<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o:<\/em> <em>Catalina Chervin<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Beatriz Bracher (S\u00e3o Paulo, SP, 1961) \u00e9 autora premiada, por contos e romances, mas desde a publica\u00e7\u00e3o de <em>Anatomia do para\u00edso<\/em> (pr\u00eamio S\u00e3o Paulo de Literatura), em 2015, n\u00e3o temos not\u00edcia de mais um livro. Ativa como editora, dedica-se atualmente a projetos como o da editora Ch\u00e3o, que investe no resgate de obras n\u00e3o ficcionais de autores brasileiros, e o da Supers\u00f4nica, uma editora de audiolivros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>N\u00e3o falei,<\/em> a negativa perempt\u00f3ria do t\u00edtulo do segundo romance de Beatriz Bracher \u00e9 explorada a partir das muitas modula\u00e7\u00f5es reflexivas de Gustavo, que, em primeira pessoa, vai abrindo espa\u00e7o a muitas outras vozes ao longo da narrativa, apresentando ao leitor um balan\u00e7o de vida. Aposentando-se da carreira de professor universit\u00e1rio, ele vai deixar a casa da fam\u00edlia em S\u00e3o Paulo para continuar atuando na pesquisa em uma universidade do interior do estado. Remexe pap\u00e9is antigos (e ent\u00e3o ficamos sabendo que atuou na observa\u00e7\u00e3o das escolas da rede b\u00e1sica de ensino) e l\u00ea o romance escrito pelo irm\u00e3o, Jos\u00e9, um ciclo autobiogr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mem\u00f3ria do que \u00e9 ao mesmo tempo recalcado e imposs\u00edvel de esquecer \u00e9 disparada n\u00e3o apenas pela mudan\u00e7a, mas, principalmente, porque Cec\u00edlia, uma das ex-alunas de Gustavo, est\u00e1 escrevendo um romance sobre as d\u00e9cadas de 60 e 70 e sugere uma entrevista, querendo obter dele uma esp\u00e9cie de testemunho do que foi a resist\u00eancia \u00e0 ditadura. Gustavo foi preso e torturado. Depois de solto, paira sobre ele a suspeita de que delatou seu amigo de inf\u00e2ncia, Armando, que, afinal, foi morto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro, ent\u00e3o, \u00e9 um pouco do que o narrador tem a oferecer \u00e0 sua ex-aluna: uma \u201clembran\u00e7a quebrada, um embaralhamento do que sobrou visto de longe, quase sumindo no meio do tal vazio agressivo\u201d, que \u00e9 como Cec\u00edlia descreve o ambiente da escola p\u00fablica na qual trabalha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do seu lado, o leitor vai enveredando por um emaranhado que, por meio de uma prosa digressiva, junta a lembran\u00e7a do cotidiano familiar, as opini\u00f5es amargas do narrador sobre a observa\u00e7\u00e3o da rotina escolar (expressas em suas cartas e relat\u00f3rios de trabalho) com as marcas deixadas pela pris\u00e3o e pela suspeita de todos sobre sua trai\u00e7\u00e3o. A narrativa vai espraiando-se em todas essas dire\u00e7\u00f5es, ao mesmo tempo em que reflete sobre o modo de contar a hist\u00f3ria: \u201cSe fosse poss\u00edvel. Minha hist\u00f3ria percebida como coisa, sem palavras, sem voz, mas apreendida inteira, s\u00f3lida\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A forma entrecortada por um coro de vozes e materiais (trechos registrados de conversas, reprodu\u00e7\u00e3o dos relat\u00f3rios, letras de m\u00fasica e poemas) emula a \u201clembran\u00e7a quebrada\u201d do personagem narrador. Ao mesmo tempo, a narrativa apresenta as pe\u00e7as de um mosaico que, pouco a pouco, vai aproximando a utopia dos jovens resistentes \u00e0 ditadura da an\u00e1lise amarga da estrutura educacional. O \u201cmessianismo humanit\u00e1rio, a catequese revolucion\u00e1ria e o pragmatismo utilit\u00e1rio\u201d que servem de caracteriza\u00e7\u00e3o ao comportamento dos resistentes ao regime de exce\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m uma mostra do desencanto com o poder transformador da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As anota\u00e7\u00f5es reproduzidas em meio \u00e0 narrativa, acumuladas metodicamente por Gustavo ao longo dos anos de registro do cotidiano escolar, apontam para o olhar agudo de um etn\u00f3grafo observador e dizem verdades dif\u00edceis, ao comporem um cen\u00e1rio no qual a \u201ccondescend\u00eancia das professoras doces\u201d reafirma o fracasso dos alunos e os preconceitos que se agarram a eles: \u201cSujo, preto, franzino, burro, moleque, mariquinha, macaco, sem-vergonha, morto-de fome, pregui\u00e7oso, cabe\u00e7a-oca, safado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui, a men\u00e7\u00e3o feita, logo a seguir \u00e0 pris\u00e3o de Graciliano Ramos, durante a ditadura Vargas, e a amplia\u00e7\u00e3o do coment\u00e1rio para outro livro, <em>Inf\u00e2ncia<\/em>, conjuga-se \u00e0 fala das m\u00e3es entrevistadas por Gustavo que delatam a viol\u00eancia dom\u00e9stica: \u201cJos\u00e9lia apanhou tanto quando era pequena, mas tanto. E eu batia mesmo, a valer.\u201d O que aparece simultaneamente vis\u00edvel e emba\u00e7ado \u00e9 a estreita rela\u00e7\u00e3o entre a viol\u00eancia institucional (demasiado humana?) e a viol\u00eancia dom\u00e9stica, entranhada no pequeno cotidiano da inf\u00e2ncia, seja na escola, seja no ambiente dom\u00e9stico. Essa associa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais evidente porque esse encadeamento de vozes culmina numa men\u00e7\u00e3o a Primo Levi: \u201cE deixamos isso acontecer, acontecemos esse horror. E continuamos a acontecer, acontece, continuamos homens\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de lidar com temas espinhosos, Bracher n\u00e3o quer defender ideias, n\u00e3o deseja escrever um romance de tese, quer privilegiar a \u201cambiguidade e a contradi\u00e7\u00e3o em sua natureza\u201d, recusando-se, na mesma medida, ao sil\u00eancio ou \u00e0s senhas para entendidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, o t\u00edtulo do romance, <em>N\u00e3o falei,<\/em> funciona simultaneamente como uma resposta direta \u00e0 desconfian\u00e7a que paira sobre o papel que Gustavo teve na morte de Armando, mas tamb\u00e9m como uma maneira de honrar a convic\u00e7\u00e3o de que \u201cn\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda fora da complexidade\u201d, como afirma Gustavo ao refletir sobre a pr\u00f3pria vida (coletiva, pol\u00edtica, familiar, pessoal).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o narrador tem dificuldade de encontrar a linha com a qual costurar os distintos veios narrativos, outros autores e trechos de suas obras v\u00eam em seu socorro, falam em seu nome. Cita\u00e7\u00f5es devidamente identificadas e costuradas de Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro, Carlos Drummond de Andrade, Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, Edgar Morin, Pedro Nava e muitos outros. Fazendo men\u00e7\u00e3o \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o cheia de certezas sobre uma imagem do pa\u00eds por Sergio Buarque de Holanda em seu cl\u00e1ssico, Gustavo recha\u00e7a sua seguran\u00e7a, \u201cperversora e ilusionista\u201d, mas reconhece que \u201c\u00e9 preciso um ponto de vista e uma pergunta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9, ent\u00e3o, que o romance se encaminha para seu fecho que, apesar de insinuar uma vis\u00e3o niilista e c\u00ednica, tem algo de cat\u00e1rtico para o narrador. A partir da tens\u00e3o entre a complexidade e a necessidade de desvend\u00e1-la, Gustavo reconstr\u00f3i sua trajet\u00f3ria, de pris\u00e3o e tortura, mas tamb\u00e9m relembra o entusiasmo com descoberta dos sentidos das palavras por seus alunos: \u201c\u00e9ramos pequenos e fracos e sem sa\u00edda, e, ao mesmo tempo, est\u00e1vamos juntos, n\u00e3o na luta, ideologia ou coisa assim, mas na vida\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a><\/a>O balan\u00e7o final \u00e9 o de que a suspeita da trai\u00e7\u00e3o da qual Gustavo acreditava ser v\u00edtima seja uma hist\u00f3ria inventada, constru\u00edda a partir de uma verossimilhan\u00e7a fraudulenta. Conclui-se tamb\u00e9m que \u201cos tempos sempre s\u00e3o dif\u00edceis\u201d, por isso vale a pena cultivar alguma utopia, que \u00e9 o que \u201cd\u00e1 poder e vontade de construir um mundo, para chafurdar no passado, agarrar o futuro e retirar de l\u00e1 vis\u00f5es que nos moviam\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BRACHER, Beatriz. (2008) O mundo j\u00e1 tinha acabado.<em> Terceira Margem,<\/em> Rio de Janeiro, n. 19, p. 37-51. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/revistas.ufrj.br\/index.php\/tm\/article\/view\/11053\/8070\">https:\/\/revistas.ufrj.br\/index.php\/tm\/article\/view\/11053\/8070<\/a> .Acesso em: 9 ago. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BRACHER, Beatriz. (2010). <em>Ler um livro \u00e9 importante para voc\u00ea n\u00e3o estar aqui nem agora. Para voc\u00ea n\u00e3o ser voc\u00ea por um tempo.<\/em> [Entrevista concedida a] Lu\u00eds Henrique Pellanda. &nbsp;Jornal Rascunho, Curitiba, v. 127. Dispon\u00edvel em: &nbsp;<a href=\"https:\/\/rascunho.com.br\/paiol-literario\/beatriz-bracher\/\">https:\/\/rascunho.com.br\/paiol-literario\/beatriz-bracher\/<\/a>. Acesso em: 9 ago. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ENDERS, Geise B. Guerra. (2015). <em>N\u00e3o falei \u2013 O trabalho de mem\u00f3ria na narrativa de um sobrevivente<\/em>. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Letras) \u2013 Universidade de Bras\u00edlia, Bras\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MARQUES, Karina (2020). <em>Mea culpa<\/em>&nbsp;e autopuni\u00e7\u00e3o: o colaboracionista em&nbsp;<em>N\u00e3o falei<\/em>, de Beatriz Bracher, e o desertor em&nbsp;<em>Azul-corvo<\/em>, de Adriana Lisboa. <em>Estudos de Literatura Brasileira Contempor\u00e2nea<\/em>, Bras\u00edlia, n. 60, p. 1-12.&nbsp; Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/elbc\/a\/9wCHt5DqbLTs8mmZWwr9SWz\/?lang=pt\">https:\/\/www.scielo.br\/j\/elbc\/a\/9wCHt5DqbLTs8mmZWwr9SWz\/?lang=pt<\/a>. &nbsp;Acesso em: 9 ago. 2024. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">WELTER, Juliane V.; KLAFKE, Mariana F. (2018). <em>N\u00e3o falei<\/em>: testemunho culpado em Beatriz Bracher. <em>Contexto,<\/em> Vit\u00f3ria, n.34, p.104 -118. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.ufes.br\/contexto\/article\/view\/20523\">https:\/\/periodicos.ufes.br\/contexto\/article\/view\/20523<\/a>. Acesso em: 10 ago. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-3579.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-3579\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Editora-34-2004.webp\" data-caption-title=\"Editora 34, 2004\" data-attachment-id=\"3580\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Editora 34, 2004\" width=\"250\" height=\"434\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/01\/Editora-34-2004\/462620406.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22434%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20434%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Editora 34, 2004<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BRACHER, Beatriz. N\u00e3o falei. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2004. Luciene AzevedoIlustra\u00e7\u00e3o: Catalina Chervin Beatriz Bracher (S\u00e3o Paulo, SP, 1961) \u00e9 autora premiada, por contos e romances, mas desde a publica\u00e7\u00e3o de Anatomia do para\u00edso (pr\u00eamio S\u00e3o Paulo de Literatura), em 2015, n\u00e3o temos not\u00edcia de mais um livro. 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