{"id":3434,"date":"2025-03-28T11:47:54","date_gmt":"2025-03-28T14:47:54","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3434"},"modified":"2025-11-12T18:02:30","modified_gmt":"2025-11-12T21:02:30","slug":"menos-que-um","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3434","title":{"rendered":"Menos que um"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">MELO, Patr\u00edcia. <em>Menos que um<\/em>. S\u00e3o Paulo: LeYa Brasil, 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Jordan Benjamin Jones<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o:<\/em> <em>Moreno Lago<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Escritora, roteirista e dramaturga premiada, Patr\u00edcia Melo (Assis, SP, 1962) estreou na literatura com <em>Acqua Toffana<\/em> em 1994 e, desde ent\u00e3o, vem publicando livros regularmente. Destacam-se <em>O matador<\/em> (1995), <em>Inferno<\/em> (2000, ganhador do Pr\u00eamio Jabuti de 2001) e <em>Mulheres empilhadas<\/em> (2019), todos os quais abordam a viol\u00eancia em v\u00e1rios contextos. Ao longo da carreira, Melo (que passou a morar na Su\u00ed\u00e7a em 2009) tem se mostrado destemida em escrever sobre tem\u00e1ticas dif\u00edceis presentes na sociedade brasileira, inclusive o tr\u00e1fico de drogas, a trai\u00e7\u00e3o, o feminic\u00eddio e a pobreza, entre outras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>Menos que um<\/em> (2022), a autora apresenta um panorama de personagens que pertencem (ou pelo menos se associam) a um grupo extremamente vulner\u00e1vel e muitas vezes invisibilizado na sociedade brasileira: os moradores de rua. O tom do livro \u00e9 de um realismo ao mesmo tempo duro e po\u00e9tico, que n\u00e3o se esquiva de expor detalhadamente as injusti\u00e7as e trag\u00e9dias que perseguem os personagens. <em>Menos que um<\/em> se centra principalmente nas pessoas desabrigadas, que nem corti\u00e7o ou favela t\u00eam para insul\u00e1-las da fome, do frio e da viol\u00eancia bruta da cidade. Assim, o livro gira em torno de um lugar restrito: a pra\u00e7a da matriz de uma grande cidade, marco zero e cora\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fico da metr\u00f3pole.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O romance \u00e9 dividido em tr\u00eas partes, cada uma das quais tem dezessete cap\u00edtulos. Esses cap\u00edtulos s\u00e3o narrados em terceira pessoa e alternam entre as perspectivas de seis personagens principais (e outros indiv\u00edduos ao seu redor): Seno Chacoy, imigrante venezuelano que se considera melhor que os muitos moradores de rua que encontra e que enxerga no Brasil sinais de uma decad\u00eancia semelhante \u00e0 que o levou a deixar seu pa\u00eds natal; Chilves, homem negro que sobrevive como catador, sonha em viver na comunidade de luxo fechada <em>Swiss Life Residence<\/em> e encontra uma ideologia revolucion\u00e1ria que o leva a tentar abrir os olhos de seus companheiros de rua \u00e0s injusti\u00e7as que sofrem, baseadas em grande parte no racismo; J\u00e9ssica, adolescente negra (e namorada de Chilves) que enfrenta ao mesmo tempo a maternidade e o v\u00edcio em drogas; Douglas, coveiro em um cemit\u00e9rio da cidade que perde a f\u00e9 devido \u00e0 morte em massa de grandes por\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o (que ele mesmo ajuda a enterrar); Iraquitan, escritor sem abrigo que cata palavras e as registra em cadernos, buscando um p\u00fablico para seus escritos sobre aquilo que observa no espa\u00e7o urbano, e Glenda, mulher trans que luta para reaver um espa\u00e7o pr\u00f3prio na cidade e deixar para tr\u00e1s sua antiga identidade como homem chamado Weverton. Os personagens secund\u00e1rios incluem pessoas cujos nomes frequentemente desaparecem em favor de seus apelidos: Farol Baixo, Sal\u00e1rio M\u00ednimo, Beto Senador etc. Esses indiv\u00edduos seguem caminhos diferentes em face dos desafios da vida na rua: a escrita, a ocupa\u00e7\u00e3o de pr\u00e9dios abandonados, o roubo, o tr\u00e1fico e uso de drogas, a prostitui\u00e7\u00e3o etc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo dos meses retratados no romance, alguns personagens parecem subir na vida enquanto outros caem de vez, gra\u00e7as em parte \u00e0s suas pr\u00f3prias decis\u00f5es e em parte \u00e0s escolhas de outras pessoas e ao apoio oferecido ou negado pelas organiza\u00e7\u00f5es ao seu redor (igrejas, a pol\u00edcia, o governo e os programas sociais, entre outros). Nos retratos que abarca, <em>Menos que um<\/em> mostra a vitimiza\u00e7\u00e3o dessa popula\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel junto \u00e0 sua resist\u00eancia e \u00e0 solidariedade em ocupar espa\u00e7os e encontrar um espa\u00e7o pr\u00f3prio na cidade que faz quest\u00e3o de expuls\u00e1-los de um canto para outro sem que a popula\u00e7\u00e3o os veja. Uma exce\u00e7\u00e3o a esse padr\u00e3o \u00e9 o personagem Douglas, que esbo\u00e7a e tenta praticar uma \u201creligi\u00e3o da pequena bondade\u201d, buscando fazer sua parte para praticar o bem, n\u00e3o obstante a maldade e a viol\u00eancia que v\u00ea ao seu redor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Menos que um<\/em> est\u00e1 cheio da tristeza e da viol\u00eancia que t\u00eam o potencial de gerar um profundo inc\u00f4modo nos leitores. No entanto, o livro tamb\u00e9m n\u00e3o minimiza as alegrias, a interdepend\u00eancia e as pequenas a\u00e7\u00f5es de compaix\u00e3o que surgem no ambiente, possibilitando assim que os moradores consigam sobreviver a mais um dia e continuar sonhando com uma realidade diferente. Os cap\u00edtulos do livro intercalam um leque de tem\u00e1ticas inter-relacionadas: o despejo dos pobres, a pandemia de COVID-19 e a precariedade provocada por ela, a solidariedade entre os personagens (e os la\u00e7os afetivos que se rompem), os sonhos de uma vida melhor, o afastamento e a fuga dos ricos, a busca de justi\u00e7a, a vingan\u00e7a pessoal, as drogas, o sexo, a prostitui\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia e a impunidade com que policiais corruptos tratam os mais vulner\u00e1veis da sociedade brasileira. O livro tem um foco alternante: a maioria dos cap\u00edtulos se centra em um ou dois personagens, dando continuidade \u00e0s suas hist\u00f3rias antes de assumir o ponto de vista de outro personagem. Essa estrutura espelha a fragmenta\u00e7\u00e3o dos moradores de rua, oferecendo informa\u00e7\u00f5es aos poucos aos leitores antes de mostrar at\u00e9 que ponto as trajet\u00f3rias individuais s\u00e3o inter-relacionadas. A narra\u00e7\u00e3o limitada \u00e0 terceira pessoa tamb\u00e9m reflete a falta de entendimento dos personagens e os dilemas que enfrentam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sonho e realidade se misturam, assim como a tristeza e momentos de felicidade e de esperan\u00e7a. Em <em>Menos que um<\/em>, Melo emprega um realismo cuja brutalidade vem embalada em uma prosa po\u00e9tica e refinada, invocando e dialogando com outros marcos da literatura brasileira, como o personagem Iraquitan, cujos coment\u00e1rios e escritas dialogam com e atualizam <em>Quarto de despejo<\/em>. Como ele explica em certo momento, \u201cn\u00e3o \u00e9 que o crack seja bom. A rua \u00e9 que \u00e9 ruim\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escrita de Melo, tanto em <em>Menos que um<\/em> quanto em seus outros livros, representa uma voz importante na literatura brasileira contempor\u00e2nea devido \u00e0s suas observa\u00e7\u00f5es incisivas e \u00e0 sua coragem em abordar tem\u00e1ticas pol\u00eamicas que afligem a sociedade brasileira e que precisam ser discutidas e enfrentadas para ajudar o Brasil a avan\u00e7ar na contemporaneidade. <em>Menos que um<\/em> \u00e9 escrito de maneira a n\u00e3o minimizar nem exagerar os desafios e a viol\u00eancia cotidianos da popula\u00e7\u00e3o que vive nas camadas mais baixas da sociedade urbana brasileira. Mostra como um passo em falso ou um acidente pode fazer desmoronar a prec\u00e1ria estabilidade que alguns personagens constroem. Al\u00e9m de detalhar as trag\u00e9dias e viol\u00eancias presentes nas ruas urbanas, o livro explora como a educa\u00e7\u00e3o e a moradia, quando fornecidas a essa popula\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel, podem ajud\u00e1-la a se reerguer e elevar seu potencial para o futuro junto \u00e0 capacidade de sonhar com uma vida melhor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda que n\u00e3o especifique em que cidade a hist\u00f3ria se passa, h\u00e1 claros ind\u00edcios e refer\u00eancias que colocam as hist\u00f3rias no centro de uma metr\u00f3pole \u2013 ou seja, no cora\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o brasileira, o que chama a aten\u00e7\u00e3o para a injusti\u00e7a e a ironia de se ter centenas, milhares de pessoas desabrigadas em uma cidade com muitos pr\u00e9dios vazios ou abandonados. Ainda que seja imposs\u00edvel retratar essas milhares de pessoas em um \u00fanico livro, Melo oferece um retrato complexo, rico e desafiador para que os leitores entendam o que se explica no texto: \u201cna rua, para saber quem \u00e9 uma pessoa, voc\u00ea tem que juntar um monte de caquinhos\u201d. <em>Menos que um<\/em> oferece v\u00e1rios caquinhos aos leitores, ajudando-os a juntar esses peda\u00e7os em seu pr\u00f3prio contexto a fim de chegar mais perto dos outros \u2013 frequentemente invisibilizados \u2013 que o livro faz mais vis\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MAGRI, Ieda (2021). Nova descida ao inferno: Patr\u00edcia Melo e as mulheres que matam. <em>Estudos de Literatura Brasileira Contempor\u00e2nea<\/em>, Bras\u00edlia, n. 62, p. 1-12. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.unb.br\/index.php\/estudos\/article\/view\/37434\">https:\/\/periodicos.unb.br\/index.php\/estudos\/article\/view\/37434<\/a>. Acesso em: 6 jul. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SCHARGEL, Sergio (2023). De uma est\u00e9tica da viol\u00eancia: poder e experi\u00eancia urbana em Patr\u00edcia Melo. <em>Bulletin of Contemporary Hispanic Studies<\/em>, v. 5, n. 1, p. 71-82. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.3828\/bchs.2023.6\">https:\/\/doi.org\/10.3828\/bchs.2023.6<\/a>. Acesso em: 6 jul. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-3612.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-3612\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Leya-2022.webp\" data-caption-title=\"Leya, 2022\" data-attachment-id=\"3613\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Leya, 2022\" width=\"250\" height=\"354\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/01\/Leya-2022\/2637446393.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22354%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20354%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Leya, 2022<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MELO, Patr\u00edcia. 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