{"id":3429,"date":"2025-02-05T16:49:45","date_gmt":"2025-02-05T19:49:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3429"},"modified":"2026-07-15T08:01:02","modified_gmt":"2026-07-15T11:01:02","slug":"loucas-de-familia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3429","title":{"rendered":"Lou\u00e7as de Fam\u00edlia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">MARQUES. Eliane. <em>Lou\u00e7as de Fam\u00edlia<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Ludimila Moreira Menezes<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Mari\u00e2ngela Albuquerque<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A autora Eliane Marques (Sant\u2019Ana do Livramento, RS, 1970) \u00e9 mestra em Direito P\u00fablico, graduada em Pedagogia e Direito e atua como Auditora de Controle Externo no Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul. A romancista tamb\u00e9m \u00e9 poeta, tradutora e psicanalista. O livro de poemas <em>e<\/em> <em>se algu\u00e9m o pano<\/em> (Apr\u00e8s Coup, 2015) foi o vencedor do Pr\u00eamio A\u00e7orianos de 2016. Tamb\u00e9m como poeta publicou <em>Relic\u00e1rio <\/em>(Grupo Cero, 2009) e, sob o\u00a0 selo editorial Orisun Oro, <em>o po\u00e7o das marianas <\/em>(Pr\u00eamio Minuano de Literatura, 2021). Trabalhou como roteirista, produtora executiva e diretora do document\u00e1rio \u201cWole Soyinka \u2013 A forja de Ogum\u201d e colaborou com poemas para o espet\u00e1culo de dan\u00e7a Sambaracutu, do Canoas Coletivo de Dan\u00e7a, entre outros trabalhos multim\u00eddias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O romance <em>Lou\u00e7as de fam\u00edlias<\/em>, lan\u00e7ado em 2023 pela Aut\u00eantica Contempor\u00e2nea, investe na constru\u00e7\u00e3o de uma linguagem em dic\u00e7\u00e3o confessional de Cuandu, narradora negra \u00e0s voltas com seu processo psicanal\u00edtico em incessante elabora\u00e7\u00e3o de traumas, lutos e viol\u00eancias experimentados por si e por seus ancestrais. Com um f\u00f4lego geneal\u00f3gico e uma perspectiva afrocentrada que reconstr\u00f3i imagin\u00e1rios e alcan\u00e7a experi\u00eancias e subjetividades de mulheres negras, identidades corp\u00f3reas e metaf\u00edsicas de parentes,<em> Lou\u00e7as de fam\u00edlia<\/em>, desde uma sintaxe polif\u00f4nica, possibilita ao leitor um caminho por arquiteturas geogr\u00e1ficas e sentimentais historicamente destitu\u00eddas de espacialidade, intimidade e dignidade. Nesse romance, o lugar no mundo dessas mulheres e homens ganha concretude a partir de um olhar po\u00e9tico e anal\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo da narrativa, que excede a representa\u00e7\u00e3o de uma fam\u00edlia negra constru\u00edda entre abnega\u00e7\u00e3o, luta e romantiza\u00e7\u00e3o do sofrimento, o \u00edmpeto raivoso e po\u00e9tico de Cuandu d\u00e1 concretude aos mundos de trabalho escravizados e precarizados assumidos pelos seus parentes pr\u00f3ximos e distantes. Entre apelos mnem\u00f4nicos dessa heran\u00e7a escravagista-colonialista, o romance opera m\u00faltiplas assun\u00e7\u00f5es de consci\u00eancia de classe e luta antirracista em uma mirada estil\u00edstica de vanguarda da linguagem que se condensa entre o espanhol, as l\u00ednguas ind\u00edgenas e o iorub\u00e1 se disseminando desde experimenta\u00e7\u00f5es sensoriais e os resgates \u00e0s cosmovis\u00f5es amefricanas tratadas como mitologias e recursos narrativos em prol da complexifica\u00e7\u00e3o dos afetos e memorab\u00edlias de si e dos ancestrais negros. Outro elemento de vanguarda no texto de Marques \u00e9 a for\u00e7a da oralidade como aglutinadora de imagens, pensamentos e sentimentos que p\u00f5e em cena um legado polif\u00f4nico de heran\u00e7as culturais distintas em constante epistemic\u00eddio pela elite e pelo pacto da branquitude.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O rastilho dessa puls\u00e3o de Cuandu de cartografar inf\u00e2ncias e hist\u00f3rias, sobretudo de tias, av\u00f3s e m\u00e3e em uma espessura temporal de simultaneidade de presente e passado, ganha f\u00f4lego diante da morte de Tia Eluma. Eluma foi uma tia que professou a f\u00e9 em Orix\u00e1s, trabalhou anos em um terreiro de Candombl\u00e9 e depois se converteu \u00e0 cren\u00e7a evang\u00e9lica. O testamento de Eluma, que inaugura o romance, \u00e9 um invent\u00e1rio de contas a pagar, um epigrama funesto de uma vida em trabalho precarizado como empregada dom\u00e9stica e fiel de igreja: \u201c<em>mais uma conta de roupa que ela fez em janeiro com uma irm\u00e3 da igreja as roupas falta 256,00 pois eram 7 de 64,00 est\u00e1 faltando 4, luz e 46,00 + \u00e1gua metade dela, metade Maria Ant\u00f4nia RS 167,00, Se for poss\u00edvel me ajudar toda ajuda \u00e9 bem vinda.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 pelos impactos dos microcosmos dos v\u00e1rios mundos de trabalhos, dom\u00e9sticos (as casas de fam\u00edlia) ou em matadouros, arroios e armaz\u00e9ns na \u201ccidadezinha que n\u00e3o se decide entre nome de santa nome de ana ou de liberdade\u201d, na fronteira entre o Brasil e o Uruguai, que tanto o impulso pela mem\u00f3ria hist\u00f3rica quanto o desejo pela ruptura da for\u00e7a de trabalho subalternizada se tornam as linhas de for\u00e7a do romance. Vale destacar que ele n\u00e3o investe em um panorama historiogr\u00e1fico sobre a explora\u00e7\u00e3o de trabalhadoras e descendentes de escravizados; Eliane Marques elabora uma \u00e9tica interessada na complexidade, na resist\u00eancia, nos dilemas e trunfos imaginativos desses personagens. Al\u00e9m da for\u00e7a criativa de imaginar as dores, as vulnerabilidades e as complexidades de si e de seus ancestrais, a narradora reescreve e amplia experi\u00eancias, imagin\u00e1rios e futuro para essa comunidade de trabalhadores e trabalhadoras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como em um coro polif\u00f4nico, a narradora se vale das hist\u00f3rias recontadas pelas parentes pr\u00f3ximas e de sua pr\u00f3pria viv\u00eancia com a tia Eluma para elaborar um texto que alterna e emparelha imagin\u00e1rios do s\u00e9culo passado e sintomas contempor\u00e2neos de subjetividades negras em uma miscel\u00e2nea de sotaques e l\u00ednguas que ressoam as marcas de um Brasil escravagista e de um sincretismo (em que se aglutinam rastros do colonialismo, articula\u00e7\u00f5es e negocia\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia e resist\u00eancia) em uma cidade elitista no RS na fronteira com o Uruguai.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O romance se estrutura em sucessivas tens\u00f5es dram\u00e1ticas mobilizadas pela consci\u00eancia de classe e ra\u00e7a de Cuandu e pelas reminisc\u00eancias convocadas ora pela raiva, ora pela nostalgia dos elos de cuidados entre as mulheres. Cuandu comp\u00f5e para si um arco narrativo dial\u00e9tico que p\u00f5e em atrito o passado e suas reverbera\u00e7\u00f5es racistas no presente, delineando um desejo de futuro que redimensione sua presen\u00e7a em recusa e coragem de implodir por gestos e linguagem os pactos de autocomisera\u00e7\u00e3o e condescend\u00eancia com seus ancestrais. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra linha de for\u00e7a para a condu\u00e7\u00e3o narrativa de entrecruzamento da mem\u00f3ria, dos afetos e das puls\u00f5es \u00e9 o incessante jogo po\u00e9tico e psicanal\u00edtico da linguagem em constante manejo pela narradora e protagonista Cuandu, que torna poss\u00edvel que a voz feminina de uma mulher preta do interior do Rio Grande do Sul ganhe impacto, apelo e for\u00e7a para seguir elaborando seus futuros e sua voz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AUGUSTO, Ronald. (2023). O processo da fic\u00e7\u00e3o, segundo Eliane Marques. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.letras.ufmg.br\/literafro\/resenhas\/ficcao\/1804-eliane-marques-loucas-de-familia\">http:\/\/www.letras.ufmg.br\/literafro\/resenhas\/ficcao\/1804-eliane-marques-loucas-de-familia<\/a>. Acesso em: 10 jun. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MONTENEGRO, Tercia. Os despeda\u00e7amentos. <em>Jornal Rascunho<\/em>. Edi\u00e7\u00e3o 280, ago. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-3606.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-3606\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Autentica-Contemporanea-2023-1.webp\" data-caption-title=\"Aut\u00eantica Contempor\u00e2nea, 2023\" data-attachment-id=\"3607\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Aut\u00eantica Contempor\u00e2nea, 2023\" width=\"250\" height=\"384\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/01\/Autentica-Contemporanea-2023-1\/4027042696.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22384%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20384%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Aut\u00eantica Contempor\u00e2nea, 2023<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Portugal-Particular-2025.webp\" data-caption-title=\"Portugal, Particular, 2025\" data-attachment-id=\"5048\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img decoding=\"async\" title=\"Portugal, Particular, 2025\" width=\"250\" height=\"381\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/01\/Portugal-Particular-2025\/1888274827.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22381%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20381%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Portugal, Particular, 2025<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARQUES. 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