{"id":3312,"date":"2025-03-10T12:10:55","date_gmt":"2025-03-10T15:10:55","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3312"},"modified":"2025-12-15T11:35:32","modified_gmt":"2025-12-15T14:35:32","slug":"a-palavra-que-resta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3312","title":{"rendered":"A palavra que resta"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">GARDEL, St\u00eanio. <em>A palavra que resta. <\/em>S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Juliana Florentino Hampel<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Cl\u00e1udio Rodrigues<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A palavra que resta<\/em> (2021) \u00e9 o primeiro romance do escritor cearense St\u00eanio Gardel (Limoeiro do Norte, CE, 1980), agraciado com o pr\u00eamio norte-americano National Book Award por sua tradu\u00e7\u00e3o para o ingl\u00eas em 2023, o que acabou por projet\u00e1-lo internacionalmente. O enredo, em primeiro plano, \u00e9 centrado na dif\u00edcil hist\u00f3ria de amor de Raimundo e C\u00edcero, ambientada no sert\u00e3o nordestino. Em segundo plano, trata das agruras enfrentadas por Raimundo para aprender a ler e desvendar o conte\u00fado da carta que C\u00edcero lhe deixara ao se separarem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No presente da narra\u00e7\u00e3o, Raimundo Gaud\u00eancio de Freitas est\u00e1 com 71 anos e escreve com dificuldade seu nome, com \u201cum tra\u00e7o incerto, arredio ao toque do papel\u201d, pois apenas recentemente tomara coragem para aprender a ler e escrever, \u201cessa inven\u00e7\u00e3o de aprender depois de velho\u201d. O maior desejo era poder ler a carta que seu amado havia lhe deixado 52 anos antes, \u201cuma carta inteira. [&#8230;] A carta guardava uma vida inteira\u201d. Entretanto, no decorrer da narrativa, o leitor vai testemunhar a aceita\u00e7\u00e3o e compreens\u00e3o de uma identidade que nasce a partir da escrita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Raimundo e C\u00edcero viviam na mesma comunidade sertaneja, e suas fam\u00edlias eram vizinhas. Eles se conhecem desde crian\u00e7a e, com a chegada da adolesc\u00eancia, brota a paix\u00e3o que perdura em um relacionamento amoroso \u00e0s escondidas, interrompido quando ambas as fam\u00edlias descobrem o que consideram um ato \u201cimundo\u201d. Castigado pelo pai e rejeitado pela m\u00e3e, que inclusive culpa sua \u201csujidade e impureza\u201d de ter sido a causadora da morte de seus irm\u00e3os g\u00eameos alguns anos antes, Raimundo decide partir da casa paterna. Passa a trabalhar como ajudante de cargas, viajando com motoristas de caminh\u00e3o pelo Brasil afora, sem outro destino sen\u00e3o o de sobreviver. Em um desses epis\u00f3dios, conhece a travesti Suzann\u00fd, com quem passa a morar e, finalmente, assume publicamente sua orienta\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fugindo da narra\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica dos fatos, <em>A palavra que resta <\/em>possui um fluxo narrativo vertiginoso, entremeando os pensamentos de Raimundo, seu vaiv\u00e9m entre passado e presente dos fatos e as demais vozes que surgem na trama em discurso direto ou indireto livre. Segundo Diego Barbosa (2021), em mat\u00e9ria sobre o romance, isso explicaria a presen\u00e7a constante da oralidade na obra, que descortina uma \u201ccartografia do preconceito e do sil\u00eancio\u201d, desvelando um \u201cmachismo onipresente e feroz, al\u00e9m de se constituir como um retrato do Brasil profundo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<em>A palavra que resta <\/em>trata de faltas: da palavra, do entendimento, da aceita\u00e7\u00e3o de um universo que nos \u00e9 desconhecido e das possibilidades de amor que ainda s\u00e3o condenadas em nossa sociedade. A busca do protagonista pelo corpo da palavra \u00e9 igualmente a busca por si mesmo, por compreender sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e poder contar a todos que est\u00e1 apaixonado, mesmo que n\u00e3o haja \u201cpalavra que chegue [mas] o jeito \u00e9 catar as poucas que tem e falar\u201d. Caso essas palavras n\u00e3o deem conta, \u201cse for preciso a gente briga, que n\u00e3o d\u00e1 mais pra ficar apartado um do outro, pra separar v\u00e3o ter que cortar n\u00f3s dois, na carne, ir arrancando os peda\u00e7os da gente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Os peda\u00e7os de carne de Raimundo s\u00e3o realmente arrancados nas surras cont\u00ednuas que o pai lhe d\u00e1, tentando expurgar esse mal e \u201cimund\u00edcie\u201d de seu corpo. No entanto, o desejo por C\u00edcero e pela palavra, que se confundem o tempo todo na narra\u00e7\u00e3o, s\u00f3 aumenta apesar da frustra\u00e7\u00e3o de n\u00e3o poderem ser vivenciados: \u201ce o estudo foi passando por mim desse jeito, a vontade t\u00e3o perto, a escola se aproximando e se afastando\u201d. O esfor\u00e7o incessante de elaborar sua hist\u00f3ria vai se construindo pelo pensamento que procura pelas palavras certas, mas que n\u00e3o saem de sua boca, porque elas permanecem \u201cgritando aqui dentro [&#8230;] gosto de C\u00edcero sim, meu corpo pede o dele sim, forte, macho, duro, montando em cima de mim\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A estrutura do romance \u00e9 composta por quatro cap\u00edtulos. No primeiro, presente e passado s\u00e3o intercalados para contar a hist\u00f3ria de Raimundo na comunidade sertaneja onde nasceu. No segundo, h\u00e1 uma volta a um passado mais distante, quando Raimundo conhece a tr\u00e1gica hist\u00f3ria do tio paterno. No terceiro, desenrola-se a vida de Raimundo ap\u00f3s sair da casa dos pais e o encontro significativo com Suzann\u00fd. No quarto e \u00faltimo, Raimundo tece um longo mon\u00f3logo com a fam\u00edlia e com C\u00edcero, ap\u00f3s voltar \u00e0 casa paterna para uma visita, explicando que amar algu\u00e9m do mesmo sexo n\u00e3o \u201c\u00e9 pra ser coisa de morte, \u00e9 pra ser coisa de vida\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos pontos de converg\u00eancia da trama \u00e9 o encontro com Suzann\u00fd, figura que amea\u00e7a a verdade que Raimundo insiste em esconder. O corpo h\u00edbrido da mulher trans permite que a personagem se questione sobre sua pr\u00f3pria sexualidade; contudo, \u00e9 a coragem da nova amiga que o anima a se assumir e seguir em frente para escrever sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Enquanto no presente da narra\u00e7\u00e3o Raimundo se sente envergonhado de voltar \u00e0 escola para aprender a ler na velhice, ela lhe explica que a vergonha \u201c\u00e9 sentimento que n\u00e3o se aproveita\u201d e que a \u00fanica vez em que se sentiu envergonhada foi ao tentar explicar ao pai sobre seu desajuste como uma mulher num corpo masculino, utilizando a imagem de um copo cheio de pedras. As pedras, segundo ela, n\u00e3o se ajustam ao copo como a \u00e1gua, elas deixam espa\u00e7os vazios e \u201ceu me sinto pedra dentro do meu corpo\u201d. Por n\u00e3o ter tido a coragem necess\u00e1ria de se assumir diante do pai, acaba sendo expulsa de casa: \u201cEle s\u00f3 viu a vergonha [&#8230;] Quem \u00e9 que quer viver com vergonha dentro de casa? Chutou ela pra fora e me arrastou junto, pronto, de que me serviu a vergonha?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Suzann\u00fd torna-se a colega de casa que aconselha e orienta, e na qual Raimundo se espelha para come\u00e7ar a mudar o rumo de sua vida. A decis\u00e3o de assumir sua homossexualidade \u00e9 equiparada \u00e0 de se alfabetizar, \u201c\u00e9 quase como eu aprendendo a ler e a escrever, tomei a decis\u00e3o de ver o mundo de outro jeito, me sentir dentro dele, porque a ignor\u00e2ncia faz \u00e9 isso, exclui, isola, e n\u00e3o era isolado que eu vivia?\u201d. Poder conversar abertamente com Suzann\u00fd \u00e9 libertador, porque \u201cas palavras tinham um som diferente quando eram iguais \u00e0s palavras de dentro de mim\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme se formam as palavras libertadoras em seu pr\u00f3prio pensamento, o protagonista de <em>A palavra que resta<\/em> come\u00e7a a costurar sua pr\u00f3pria narrativa. A visita \u00e0 casa paterna e o reencontro com a irm\u00e3 Marcinha depois de d\u00e9cadas v\u00e3o descortinando di\u00e1logos com o passado nos quais ele busca por sua identidade, sempre munido da correspond\u00eancia que, na leitura de Natalia Timerman (2021), comporta o futuro de uma vida inteira que j\u00e1 se tornou passado. O \u201csil\u00eancio portado por carta n\u00e3o lida se torna vazio\u201d, que s\u00f3 poder\u00e1 ser preenchido pelas palavras do romance que transbordam como as cheias do rio na cidade natal, que demarca a vida com os encontros furtivos dos amantes e a morte devido \u00e0 grande trag\u00e9dia vivida pela fam\u00edlia Freitas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As \u00e1guas do rio, bem com as da cheia que inundam a casa paterna, marcam o antes representado pela cruz, a morte e a impossibilidade de se viver um amor que se repete a cada gera\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia de Raimundo, e o depois, com as possibilidades de di\u00e1logo entre os amantes que v\u00e3o sendo enunciadas. Um vazio que vai sendo preenchido pela escrita no caderno novo que ele ganhou de Suzann\u00fd, no qual vers\u00f5es do reencontro dos dois v\u00e3o sendo registradas, e a voz de um C\u00edcero ausente surge mencionando a correspond\u00eancia: \u201cele vai ouvir o que escrevi na carta, vai ouvir e vai vir me pegar, pra gente sair desse fim de mundo e ser feliz\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A palavra que resta<\/em> ultrapassa qualquer classifica\u00e7\u00e3o como romance de g\u00eanero ou literatura <em>queer<\/em> por penetrar na ess\u00eancia de seres m\u00faltiplos, ampliando os horizontes de compreens\u00e3o do humano mediante um texto poeticamente elaborado que evoca as mais belas imagens universais da literatura para abordar temas como amor, autoaceita\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia e exclus\u00e3o social. Assim, a carta, o rio, a cruz, o cinema e os corpos se materializam na escrita de Raimundo Gaud\u00eancio de Freitas atrav\u00e9s de um olhar que revela ternura e dor, mas, acima de tudo, a coragem de assumir quem se \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BARBOSA, Diego (2021). <em>A palavra que resta<\/em>, de St\u00eanio Gardel, e a for\u00e7a da carta que guarda uma vida. <em>Di\u00e1rio do Nordeste, <\/em>Fortaleza. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/diariodonordeste.verdesmares.com.br\/verso\/a-palavra-que-resta-de-stenio-gardel-e-a-forca-da-carta-que-guarda-uma-vida-1.3074140\">https:\/\/diariodonordeste.verdesmares.com.br\/verso\/a-palavra-que-resta-de-stenio-gardel-e-a-forca-da-carta-que-guarda-uma-vida-1.3074140<\/a>. Acesso em: 30 abr. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BEZERRA, Th\u00e1tilla Ruanna Dias (2023). Homofobia familiar em <em>A palavra que resta<\/em> de St\u00eanio Gardel. <em>Revista Educa\u00e7\u00e3o e Contexto, <\/em>Goi\u00e2nia, v. 2, n. 2. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/revistaseduc.educacao.go.gov.br\/index.php\/rec\/article\/view\/109\/67\">https:\/\/revistaseduc.educacao.go.gov.br\/index.php\/rec\/article\/view\/109\/67<\/a>. Acesso em: 30 abr. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SUZARTE, Eduardo Mezzavilla (2022). <em>A fragmenta\u00e7\u00e3o do romance em <\/em>A palavra que resta<em>, de St\u00eanio Gardel<\/em>. Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso (Gradua\u00e7\u00e3o em Letras) \u2013 Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">TIMERMAN, Natalia (2021). As tantas margens do rio. <em>Quatro cinco um<\/em>, n. 46. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/quatrocincoum.com.br\/resenhas\/literatura\/literatura-brasileira\/as-tantas-margens-do-rio\/\">https:\/\/quatrocincoum.com.br\/resenhas\/literatura\/literatura-brasileira\/as-tantas-margens-do-rio\/<\/a>. Acesso em: 14 jun. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-3483.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-3483\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; 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