{"id":3297,"date":"2025-03-13T11:23:50","date_gmt":"2025-03-13T14:23:50","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3297"},"modified":"2025-11-12T18:02:44","modified_gmt":"2025-11-12T21:02:44","slug":"silencio-na-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3297","title":{"rendered":"Sil\u00eancio na cidade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">SEABRA, Roberto.<em> Sil\u00eancio na cidade<\/em>. Bras\u00edlia: Camar\u00e1, 2016.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Elisangela Fialho<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Esp\u00edrito Objeto<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Sil\u00eancio na cidade<\/em>, primeiro romance do jornalista Roberto Seabra (Bras\u00edlia, DF, 1964), lan\u00e7ado em 2016, envolve o leitor principalmente por apresentar um enredo marcado por a\u00e7\u00f5es cronol\u00f3gicas em torno de um crime: o assassinato de Ana Clara, uma menina de sete anos. O centro da narrativa pode parecer familiar ao leitor, e a raz\u00e3o \u00e9 que essa hist\u00f3ria foi inspirada no assassinato brutal de Ana L\u00eddia Braga, estudante de sete anos, ocorrido em 11 de setembro de 1973, na capital federal. Os sujeitos apontados no inqu\u00e9rito policial como culpados foram inocentados por falta de provas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seabra teve sua inf\u00e2ncia marcada por esses eventos e, como morador de Bras\u00edlia, compreende que o crime foi respons\u00e1vel por \u201ctirar a ingenuidade\u201d da recente capital do pa\u00eds. O autor, todavia, ressalta que a cidade n\u00e3o era t\u00e3o \u201cinocente\u201d, j\u00e1 que ocupante do centro da ditadura militar, como fica claro quando, a partir da morte da personagem ficcional, sintetiza a transforma\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o sobre Bras\u00edlia: \u201cAna Clara precisou ser sacrificada para que Bras\u00edlia se tornasse uma cidade de verdade, uma cidade real\u201d. A vis\u00e3o id\u00edlica sobre a capital federal \u2013 espa\u00e7o de nascimento de um novo pa\u00eds, terra das oportunidades \u2013 \u00e9 abalada pelo crime (tanto na realidade quanto na narrativa), promovendo, no cen\u00e1rio local, segundo o narrador-personagem, \u201cuma mistura de medo e prazer, uma coisa m\u00f3rbida, que at\u00e9 hoje me assusta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m os fatos tr\u00e1gicos que envolveram o fim da vida de Ana L\u00eddia marcaram especialmente a inf\u00e2ncia de Seabra porque o pai, investigador de pol\u00edcia \u00e0 \u00e9poca, trazia suas impress\u00f5es sobre o caso para o ambiente familiar. Assim, quarenta anos depois, o jornalista viu-se impelido a contar essa hist\u00f3ria, silenciada por muitas raz\u00f5es, e optou por faz\u00ea-lo num romance, mesclando, portanto, realidade e cria\u00e7\u00e3o ficcional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro \u00e9 composto por 38 cap\u00edtulos, cujas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o predominantemente cronol\u00f3gicas, permitindo ao leitor \u201catuar\u201d junto \u00e0 equipe investigativa, a sofrer, com e como eles, a ang\u00fastia de uma morte precoce e brutal, reveladora do que h\u00e1 de pior no homem. Conta, ainda, com uma apresenta\u00e7\u00e3o feita pela escritora Ros\u00e2ngela Vieira Rocha, que conviveu com a v\u00edtima e sua fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria \u00e9 narrada por Amantino Torres, investigador da Pol\u00edcia Civil, que assume a miss\u00e3o de desvendar a morte de Ana Clara e, para isso, conta com outros tr\u00eas parceiros: uma perita criminal, Vera Hermano; o motorista e policial, Edu\u00edno; e o jornalista Geraldo Raimundo \u2013 o Giramundo. Aos 25 anos e h\u00e1 somente dois na Pol\u00edcia, Tino Torres \u00e9 o primeiro a ter ci\u00eancia do sequestro de Ana Clara, quando os pais da menina chegam \u00e0 delegacia para relatar que ela havia sido levada, da escola em que estudava, por um desconhecido. O protagonista, ent\u00e3o, d\u00e1 in\u00edcio \u00e0 busca que ir\u00e1 marcar sua vida pessoal e profissional: a da verdade sobre os fatos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O grupo \u2013 uma clara refer\u00eancia aos personagens do cl\u00e1ssico <em>D\u2019Artagnan e os tr\u00eas mosqueteiros<\/em>, de Alexandre Dumas \u2013 realiza uma investiga\u00e7\u00e3o extraoficial, depois que a Delegacia de Homic\u00eddios \u201ccria\u201d uma vers\u00e3o do crime com o intuito de acobertar os verdadeiros assassinos. As estrat\u00e9gias tra\u00e7adas pelo grupo para buscar provas e revelar a verdade sobre a morte da menina s\u00e3o, ent\u00e3o, acompanhadas pelo leitor da trama.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estruturado nos moldes do romance policial, <em>Sil\u00eancio na cidade<\/em> (re)constr\u00f3i o cen\u00e1rio pol\u00edtico marcado pela ditadura militar no centro do pa\u00eds. Nesse sentido, o alto escal\u00e3o da pol\u00edcia e da pol\u00edtica manipula as provas, os fatos, com a inten\u00e7\u00e3o de que os verdadeiros culpados n\u00e3o sejam revelados, visando principalmente \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o do <em>status quo<\/em>, do poder institu\u00eddo pelo golpe. Em virtude disso, a luta por justi\u00e7a amplia-se, levando os personagens a enfrentarem o pr\u00f3prio Estado e suas formas de coa\u00e7\u00e3o (e execu\u00e7\u00e3o), para revelarem, jornalisticamente, a verdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os sil\u00eancios que marcam a cidade da narrativa s\u00e3o diversos: o imposto \u00e0 m\u00eddia, proibida de noticiar a investiga\u00e7\u00e3o; o presente na indica\u00e7\u00e3o de um agente p\u00fablico para vigiar Tino Torres; o sugerido aos policiais nas amea\u00e7as que recebem por telefone. O sil\u00eancio, entretanto, n\u00e3o marca somente o tempo do enunciado \u2013 no qual a hist\u00f3ria se passa \u2013, pois caracteriza tamb\u00e9m o tempo da enuncia\u00e7\u00e3o. Dois fatos promovem uma mudan\u00e7a em Amantino Torres, j\u00e1 aposentado e sexagen\u00e1rio: a leitura de uma mat\u00e9ria jornal\u00edstica cujo t\u00edtulo \u00e9 \u201cCaso Ana Clara: 40 anos de mist\u00e9rio\u201d, e o acenar da finitude da vida. Diante disso, ele passa a se ver de outro modo e a contemplar por outro prisma o seu passado. Ent\u00e3o, decide transformar as anota\u00e7\u00f5es e os documentos sobre o caso Ana Clara em um manuscrito, sobre o qual, algumas vezes ao longo do romance, reflete e tamb\u00e9m faz provoca\u00e7\u00f5es: \u201cTalvez o leitor esteja querendo abandonar este manuscrito por n\u00e3o ver nele algo al\u00e9m de um mero di\u00e1rio de um policial aposentado. E na verdade, \u00e9 isso mesmo que estou escrevendo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A metalinguagem marca as p\u00e1ginas do volume, at\u00e9 porque o autor impl\u00edcito \u00e9 tamb\u00e9m um leitor: \u201cdepois de d\u00e9cadas de tentativas frustradas de seguir os passos de Rubem Fonseca ou de um Conan Doyle, eu me assumi um reles servidor p\u00fablico [&#8230;]\u201d. Neste vi\u00e9s, a vida e a arte mais uma vez se encontram, pois Seabra, em entrevista concedida a Maur\u00edcio Melo J\u00fanior \u00e0 TV Senado, comenta que realizou algumas tentativas de escrever um livro-reportagem sobre a morte de Ana L\u00eddia Braga, mas muitos foram os empecilhos, n\u00e3o superados nem mesmo quando os arquivos da ditadura militar se tornaram p\u00fablicos. Como afirma o autor, <em>O sil\u00eancio da cidade <\/em>ilustra os m\u00faltiplos pap\u00e9is que a literatura pode exercer: entreter, promover reflex\u00e3o, mas tamb\u00e9m denunciar. Nesse sentido, cumpre ressaltar que a nova vers\u00e3o do romance, publicada pela Sa\u00edra Editorial e lan\u00e7ada no in\u00edcio de 2023, \u00e9 voltada para o p\u00fablico infantojuvenil, ampliando, acredita-se, o leque das possibilidades liter\u00e1rias do livro: auxiliar a forma\u00e7\u00e3o\/constru\u00e7\u00e3o do jovem leitor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 o papel pol\u00edtico desempenhado pela fic\u00e7\u00e3o, que dialoga com a Hist\u00f3ria, encontra-se sinalizado desde a ep\u00edgrafe, por meio de uma marca memorial\u00edstica que percorre toda a narrativa: \u201cSe voc\u00ea n\u00e3o sabe para onde vai, regresse ao passado para saber de onde vem (Eric Nepomuceno, autor de <em>A mem\u00f3ria de todos n\u00f3s<\/em>)\u201d. Essa fun\u00e7\u00e3o social da literatura tamb\u00e9m se faz presente nas palavras do narrador-personagem: \u201cPortanto, esse meu escrito nada mais \u00e9 do que uma homenagem que presto \u00e0 posteridade daquela menina\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem d\u00favida, a posteridade de Ana L\u00eddia (a da personagem Ana Clara), dentre tantas outras Anas, Marias e Isabelas, e tamb\u00e9m dentre tantos Bernardos e Henrys \u2013 crian\u00e7as v\u00edtimas de viol\u00eancia f\u00edsica, sexual, no Brasil de ontem e de hoje \u2013 enxergar\u00e1 nesse romance a import\u00e2ncia da sua pr\u00f3pria voz, a qual, ante os sil\u00eancios impostos, se torna instrumento capaz de fazer ecoar outras vozes precocemente silenciadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LEITURAS. Roberto Seabra fala do livro\u00a0<em>Sil\u00eancio na cidade<\/em>. Programa de entrevista\u00a0<em>Leituras<\/em>. TV Senado, 2018, 1 v\u00eddeo (26 min44s). Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ywm7Toss_Ps\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ywm7Toss_Ps<\/a>. Acesso em: 18 mai. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">STAUD, Sheila Katiane (2021). Escrita como reexist\u00eancia: resgates memorial\u00edsticos em\u00a0<em>Sil\u00eancio na cidade<\/em>, de Roberto Seabra.\u00a0<em>EntreLetras<\/em>,\u00a0[S. l.], v. 12, n. 2, p. 178-196. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/periodicos.ufnt.edu.br\/index.php\/entreletras\/article\/view\/12749\">https:\/\/periodicos.ufnt.edu.br\/index.php\/entreletras\/article\/view\/12749<\/a>. Acesso em: 18 mai. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-3394.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-3394\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Camara-2016.webp\" data-caption-title=\"Camar\u00e1, 2016\" data-attachment-id=\"3395\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Camar\u00e1, 2016\" width=\"250\" height=\"375\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/01\/Camara-2016\/486510848.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22375%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20375%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Camar\u00e1, 2016<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Saira-Editorial-2023.webp\" data-caption-title=\"Sa\u00edra Editorial, 2023\" data-attachment-id=\"3396\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img decoding=\"async\" title=\"Sa\u00edra Editorial, 2023\" width=\"250\" height=\"380\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/01\/Saira-Editorial-2023\/2836228620.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22380%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20380%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Sa\u00edra Editorial, 2023<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SEABRA, Roberto. 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