{"id":2671,"date":"2024-10-03T01:41:03","date_gmt":"2024-10-03T04:41:03","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2671"},"modified":"2026-03-23T13:41:55","modified_gmt":"2026-03-23T16:41:55","slug":"o-ano-em-que-conheci-meus-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2671","title":{"rendered":"O ano em que conheci meus pais"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">MORAES, Toni. <em>O ano em que conheci meus pais<\/em>. S\u00e3o Paulo: Monomito, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Samara Lima<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Dona Dora<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 faz mais de tr\u00eas d\u00e9cadas que presenciamos o retorno da democracia no Brasil, ap\u00f3s o golpe militar de 1964, mas as opress\u00f5es vivenciadas por todos aqueles que o regime chamava de subversivos ainda permanecem latentes em nosso imagin\u00e1rio coletivo. Durante muito tempo, coube \u00e0s fam\u00edlias e \u00e0s v\u00edtimas registrar suas experi\u00eancias e testemunhos das barbaridades cometidas contra os direitos humanos. Da mesma forma, a literatura e tantas outras produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e culturais, como uma esp\u00e9cie de vontade \u00e9tica, desempenharam e ainda v\u00eam desempenhando um papel fundamental de supl\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria nacional, n\u00e3o s\u00f3 contribuindo para o processo de constru\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias coletivas e individuais e expondo os perigos engendrados pelo silenciamento, como tamb\u00e9m se estabelecendo como um espa\u00e7o de elabora\u00e7\u00e3o do luto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi justamente pensando nessas quest\u00f5es e na capacidade de a fic\u00e7\u00e3o lidar com temas e viv\u00eancias impronunci\u00e1veis que Toni Moraes (Bel\u00e9m, PA, 1986) estreou na cena liter\u00e1ria com a obra <em>O ano em que conheci meus pais<\/em> (2017), publicada pela editora Monomito. Toni Moraes \u00e9 arquiteto, editor, escritor e pesquisador de literatura. Nasceu no Par\u00e1 e radicou-se em S\u00e3o Paulo em 2010, a fim de iniciar uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em mercado imobili\u00e1rio. J\u00e1 publicou uma colet\u00e2nea de contos tamb\u00e9m pela editora Monomito e recentemente lan\u00e7ou seu segundo romance, <em>Morto n\u00e3o me serves de nada<\/em> (2023), pela editora Folheando. A\u00ed, estamos diante de uma narrativa ambientada entre Argentina e Brasil que busca, dentre tantas outras coisas, refletir sobre o contexto social e pol\u00edtico da Am\u00e9rica do Sul e a ascens\u00e3o de ideias reacion\u00e1rias nos dois pa\u00edses, apontando mais uma vez para o investimento no cruzamento entre literatura e pol\u00edtica, realidade e fic\u00e7\u00e3o, na composi\u00e7\u00e3o de suas obras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro <em>O ano em que conheci meus pais <\/em>desenvolve sua a\u00e7\u00e3o central em 1989, \u00e9poca de efervesc\u00eancia pol\u00edtica no Brasil (a primeira elei\u00e7\u00e3o presidencial direta desde a d\u00e9cada de 60) e no mundo (a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria), e aborda a tem\u00e1tica da ditadura militar, concentrando-se no impacto desse per\u00edodo hist\u00f3rico na mem\u00f3ria do protagonista, Jonas Damasceno. A obra \u00e9 narrada em terceira pessoa por um narrador onisciente, que assume a perspectiva do protagonista do romance, muitas vezes dando a impress\u00e3o de que estamos acompanhando a narrativa a partir do seu ponto de vista. Por meio desse narrador, somos apresentados \u00e0 trajet\u00f3ria do jovem jornalista nascido em Bel\u00e9m e criado pelos av\u00f3s, Od\u00edlio e Ver\u00f4nica, na capital paulista. Ele quer contar boas hist\u00f3rias, registrar os fatos, ainda que n\u00e3o saiba quais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No in\u00edcio do relato, ficamos sabendo que Jonas somente conheceu seus pais por meio de fotografias, pois eles morreram em um acidente automobil\u00edstico quando ele tinha apenas tr\u00eas anos. O grande dilema da sua vida, que tamb\u00e9m \u00e9 o mote principal do romance, \u00e9 ter crescido carregando \u201cum vazio em sua biografia\u201d que nem mesmo os esfor\u00e7os dos familiares foram capazes de preencher: \u201cA falta de passado e desinteresse pelo futuro prendiam-no ao presente\u201d. \u00c9 quando ele decide assistir a uma palestra do militante pol\u00edtico Ciro Pessanha, na PUC-Rio, que sua trajet\u00f3ria se transforma, uma vez que diversas d\u00favidas sobre seu passado v\u00eam \u00e0 tona: questionado sobre seu nome \u2013 que \u00e9 o mesmo de seu pai \u2013 fica sabendo que seus pais foram militantes na \u00e9poca da ditadura militar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 interessante notar que o t\u00edtulo do romance, assim como o desenvolvimento do enredo, se assemelha ao filme <em>O ano em que meus pais sa\u00edram de f\u00e9rias<\/em> (2006), dirigido por Cao Hamburger. O filme \u00e9 um drama brasileiro que, a partir da perspectiva de um garoto de 12 anos chamado Mauro e apaixonado por futebol, narra sua preocupa\u00e7\u00e3o com a demora da volta dos seus pais que sa\u00edram de \u201cf\u00e9rias\u201d. O drama que envolve o filme \u00e9 que, na verdade, os pais do garoto n\u00e3o foram passear, mas, sim, obrigados a fugir por serem de esquerda, tendo que deixar a crian\u00e7a com o av\u00f4 paterno. A vida do garoto, ent\u00e3o, sofre uma mudan\u00e7a dr\u00e1stica e o que o consola \u00e9 acompanhar o desenvolvimento da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol na Copa do Mundo. O di\u00e1logo entre as duas produ\u00e7\u00f5es nos mostra n\u00e3o s\u00f3 o trabalho com a tem\u00e1tica nas diferentes pr\u00e1ticas art\u00edsticas, mas tamb\u00e9m a preocupa\u00e7\u00e3o atual em resgatar um evento traum\u00e1tico a fim de reimaginar a ru\u00edna e narrar um passado que ainda foge de nossa apreens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A obra transcorre em diferentes cen\u00e1rios, como S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Bel\u00e9m e Marab\u00e1, espa\u00e7os detalhadamente descritos a fim de criar uma esp\u00e9cie de cartografia dos lugares pelos quais os personagens circulam. Ao lado do amigo Domenico, um artista pl\u00e1stico que enfrenta seus pr\u00f3prios problemas e precisa lidar com a sua condi\u00e7\u00e3o de soropositivo em uma \u00e9poca na qual o tratamento era inacess\u00edvel e a morte inevit\u00e1vel, Jonas percorre as cidades em busca dos supostos conhecidos de seus pais a fim de conseguir informa\u00e7\u00f5es para entender os acontecimentos que culminaram na morte deles, encontrando, muitas vezes, apenas \u201cperguntas e incertezas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto o protagonista tenta resgatar as pe\u00e7as que faltam para compor o seu passado, Domenico, que encarna a figura daquele que enfrenta o mundo ao seu modo e contradiz as imposi\u00e7\u00f5es sociais, busca viver intensamente o presente, pois n\u00e3o v\u00ea perspectiva de futuro. Na busca por sua identidade, \u00e9 desvelada uma rede de quest\u00f5es pol\u00edticas (publica\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas falsas, opress\u00e3o \u00e0s pessoas que lutavam contra o regime vigente na \u00e9poca e, principalmente, as tentativas do Estado de velar a Guerrilha do Araguaia) e familiares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A obra conta com pequenos <em>flashbacks<\/em> que aparecem no in\u00edcio de cada cap\u00edtulo do livro na forma de cartas. Sem remetente e destinat\u00e1rio claros, essas cartas exp\u00f5em as lutas com os companheiros contra o regime ditatorial na d\u00e9cada de 70 e pela sobreviv\u00eancia. Entregam ao leitor mais da narrativa principal \u00e0 medida que o que vai sendo contado a\u00ed mescla-se com a vida do protagonista. Se, por um lado, as imbrica\u00e7\u00f5es entre personagens, tempos narrativos e resolu\u00e7\u00f5es dos imbr\u00f3glios da trama parecem indicar a habilidade do autor em construir uma trama com diversas camadas sem perder o n\u00facleo da narrativa, por outro, a obra \u00e9 marcada desde o in\u00edcio pela obstina\u00e7\u00e3o em costurar todos os elementos a ponto de n\u00e3o deixar margem para que o leitor por si s\u00f3 desvende os mist\u00e9rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em<em> O ano em que conheci meus pais<\/em>, somos conduzidos ao embate entre a verdade e a mentira, o presente e o passado, os eventos coletivos do pa\u00eds e a vida \u00edntima dos personagens. Neste sentido, a obra assume grande relev\u00e2ncia ao tentar retratar, por meio da fic\u00e7\u00e3o, o per\u00edodo de regime de exce\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, \u201co corte [&#8230;] profundo demais no estado democr\u00e1tico brasileiro\u201d, e os vest\u00edgios do autoritarismo que persistem no Brasil, em especial no Par\u00e1, onde as consequ\u00eancias da ditadura ainda s\u00e3o apagadas e silenciadas, expondo um dos epis\u00f3dios mais violentos da hist\u00f3ria do estado, a Guerrilha do Araguaia. Toni Moraes tem como refer\u00eancia liter\u00e1ria o autor Milton Hatoum e dele parece ter herdado, al\u00e9m das descri\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas dos espa\u00e7os retratados e o jogo com as fronteiras entre fic\u00e7\u00e3o e realidade, a vontade de visibilizar o Norte e, sobretudo, lan\u00e7ar um olhar cr\u00edtico para a nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MORAES, Toni. Entrevista com Toni Moraes da Monomito Editorial \/\/ Criador de Mundos. [Entrevista concedida a Juliano Alves]. S\u00e3o Paulo, 25 out 2018. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=mAfuWTFy3UA&amp;t=497s\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=mAfuWTFy3UA&amp;t=497s<\/a>. Acesso em: 22 jul. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-4447.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-4447\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Monomito-2017.webp\" data-caption-title=\"Monomito, 2017\" data-attachment-id=\"2682\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Monomito, 2017\" width=\"250\" height=\"385\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2024\/10\/Monomito-2017\/961794559.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22385%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20385%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Monomito, 2017<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MORAES, Toni. 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