{"id":2669,"date":"2024-10-07T14:13:30","date_gmt":"2024-10-07T17:13:30","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2669"},"modified":"2025-09-15T09:46:36","modified_gmt":"2025-09-15T12:46:36","slug":"noite-sobre-alcantara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2669","title":{"rendered":"A noite sobre Alc\u00e2ntara"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">MONTELLO, Josu\u00e9. A <em>noite sobre Alc\u00e2ntara.<\/em> Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, 1978.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Luiz Henrique Silva de Oliveira<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Cl\u00e1udio Rodrigues<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Publicado em 1978 pela editora Jos\u00e9 Olympio, o romance A <em>noite sobre Alc\u00e2ntara<\/em>, de Josu\u00e9 Montello (S\u00e3o Lu\u00eds, MA, 1917 \u2013 Rio de Janeiro, RJ, 2016), discute a queda da cidade maranhense de Alc\u00e2ntara enquanto um dos epicentros econ\u00f4micos do Brasil imperial. Para tanto, a obra aborda a fuga dos brancos pertencentes \u00e0 elite econ\u00f4mica da cidade depois da crise econ\u00f4mica que a atinge, devido ao fato de que o poderio financeiro local reca\u00eda sobretudo no uso de m\u00e3o de obra escravizada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs (2000), em<em> A teoria do romance<\/em>, \u201ca arte, a realidade vision\u00e1ria do mundo [&#8230;] \u00e9 uma totalidade criada, pois a unidade natural das esferas metaf\u00edsicas foi rompida para sempre\u201d. O estudioso alude \u00e0 ascens\u00e3o do romance como modelo capaz de dar vaz\u00e3o tanto aos problemas dos homens comuns, abandonados \u00e0 sorte de suas escolhas, quanto aos destinos das coletividades, produto e processo do desenvolvimento hist\u00f3rico. \u00c9 neste ponto que Montello e Luk\u00e1cs se encontram: a obra liter\u00e1ria recupera epis\u00f3dios emblem\u00e1ticos da cidade de Alc\u00e2ntara, do estado do Maranh\u00e3o e do Brasil, por meio da figura\u00e7\u00e3o do contexto social e da dimens\u00e3o \u00edntima de Natalino, o protagonista do romance. Montello constr\u00f3i a coer\u00eancia de sua narrativa \u2013 interna e externa ao protagonista \u2013 pela adi\u00e7\u00e3o de elementos hist\u00f3ricos temperados ao gosto da inexor\u00e1vel rasura da verdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Filho de aristocratas, Natalino (cuja cor de pele n\u00e3o \u00e9 identificada, mas que pode ser presumida como branca) \u00e9 considerado por seus conterr\u00e2neos como um dos her\u00f3is da Guerra do Paraguai (1864-1870). Mas a verdade \u00e9 que Natalino desertou do campo de batalha e escondeu tal fato de seus convivas alcantarenses. Sua imagem, pois, \u00e9 forjada por esta mentira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O texto est\u00e1 bipartido temporalmente, contendo um plano para o andamento do enredo (narrativa) e outro plano para o ato de rememorar os acontecimentos (narra\u00e7\u00e3o). No primeiro plano, Natalino, ao jogar a chave de sua resid\u00eancia em um lote vago, no momento em que decide deixar Alc\u00e2ntara, \u00e9 abordado pelo Comendador Ventura Lopes, outrora figura de relevo da cidade. Natalino perde o barco que o transportaria a S\u00e3o Lu\u00eds, fato que o faz permanecer mais uma noite na cidade. Durante esse per\u00edodo de uma noite desenvolvem-se os acontecimentos de segundo plano, formado pelas rememora\u00e7\u00f5es do protagonista, as quais delineiam uma esp\u00e9cie de panorama hist\u00f3rico da cidade maranhense em fins do s\u00e9culo XIX. Ao gosto da mem\u00f3ria, passado e presente se entrela\u00e7am por meio de uma estrutura narrativa dividida em duas se\u00e7\u00f5es: \u201cA travessia\u201d e \u201cEnquanto a noite n\u00e3o vem\u201d. Esta \u00faltima \u00e9 subdividida em cinco partes que abordam desde o in\u00edcio da Guerra do Paraguai, em 1870, at\u00e9 dezembro de 1899, quando Natalino finalmente viaja para a capital maranhense.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Natalino \u00e9 um personagem em busca de si e dos prop\u00f3sitos de sua exist\u00eancia. A personagem se alista como volunt\u00e1ria na Guerra do Paraguai, mas deserta; trava relacionamentos amorosos, mas n\u00e3o consegue ser pai; pertence \u00e0 elite conservadora e se assume liberal; possui ber\u00e7o, entretanto abdica da carreira pol\u00edtica pavimentada por seu pai e seus correligion\u00e1rios. Mas n\u00e3o seria a busca por si mesma a t\u00f4nica de Alc\u00e2ntara, dado o decl\u00ednio da Monarquia brasileira? Afinal, com o an\u00fancio da Rep\u00fablica e da transi\u00e7\u00e3o do trabalho compuls\u00f3rio para o assalariado, o apogeu alcantarense n\u00e3o mais tem lugar, as suas carruagens e escravarias n\u00e3o mais ecoam pelas ruas, uma vez que s\u00e3o apenas fragmentos de lembran\u00e7as dos mun\u00edcipes. Vivem estes num presente apenas habitado pelo passado, pela mem\u00f3ria. Prova disso \u00e9 a sa\u00edda da cidade pelas fam\u00edlias importantes em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 capital, S\u00e3o Lu\u00eds, abandonando palacetes, escravizados, fazendas e mobili\u00e1rios, elementos s\u00edmbolos de uma ordem social que se apresenta rasurada pela discursividade anunciada no livro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A se\u00e7\u00e3o \u201cEnquanto a noite n\u00e3o vem\u201d insere na trama personagens hist\u00f3ricos e acontecimentos decisivos para a hist\u00f3ria de Alc\u00e2ntara. Contudo, n\u00e3o o faz por meio do desejo de retomada da verdade, mas mediante o questionamento e a rasura dos fatos. Tal movimento culmina no alargamento da percep\u00e7\u00e3o dos acontecimentos, tanto em rela\u00e7\u00e3o ao que foi quanto em rela\u00e7\u00e3o ao que poderia ter sido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do ponto de vista editorial, destaca-se a altera\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo do romance a partir da segunda edi\u00e7\u00e3o, datada de 1984, sob responsabilidade da nova detentora dos direitos de edi\u00e7\u00e3o do escritor maranhense, a editora Nova Fronteira. A supress\u00e3o do artigo definindo \u201ca\u201d, fazendo constar na capa apenas <em>Noite sobre Alc\u00e2ntara<\/em>, amplia a sem\u00e2ntica do t\u00edtulo e da obra, sugerindo que a palavra \u201cNoite\u201d pode assumir diversas dimens\u00f5es metaf\u00f3ricas na narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A noite sobre Alc\u00e2ntara<\/em> inscreve-se na tradi\u00e7\u00e3o do romance hist\u00f3rico, forma que re\u00fane um mosaico de narrativas que partem dos registros individuais e coletivos para repensar os acontecimentos sociais e hist\u00f3ricos. O romance mobiliza com epis\u00f3dios da hist\u00f3ria do Brasil, embaralhando fatos, trazendo personagens, destinos e desatinos de um territ\u00f3rio e de um tipo de organiza\u00e7\u00e3o social, de forma a metaforizar a transi\u00e7\u00e3o entre a Monarquia e a Rep\u00fablica. O interesse da obra recai sobretudo nesse di\u00e1logo, que tematiza a fuga dos bancos e a n\u00e3o incorpora\u00e7\u00e3o do negro na sociedade brasileira no p\u00f3s-escravid\u00e3o e primeiros anos da Rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BATISTA, Suzany Silva (2018). <em>Um passeio po\u00e9tico<\/em>:<em> <\/em>a mem\u00f3ria como estrat\u00e9gia narrativa em <em>A noite sobre Alc\u00e2ntara<\/em>. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Mem\u00f3ria: Linguagem e Sociedade) \u2013 Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Vit\u00f3ria da Conquista. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www2.uesb.br\/ppg\/ppgmls\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Disserta%C3%A7%C3%A3o-de-Suzany-Silva-Batista.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">http:\/\/www2.uesb.br\/ppg\/ppgmls\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Disserta%C3%A7%C3%A3o-de-Suzany-Silva-Batista.pdf<\/a>. Acesso em: 9 out. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">HUTCHEON, Linda (1991). <em>Po\u00e9tica do p\u00f3s-modernismo<\/em>: hist\u00f3ria, teoria, fic\u00e7\u00e3o. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">KREUTZER, Winfried (1991). <em>Estrutura e significa\u00e7\u00e3o de <\/em>Os tambores de S\u00e3o Lu\u00eds<em>, de Josu\u00e9 Montello<\/em>. Rio de Janeiro: ABL.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LUK\u00c1CS, Georg (2000). <em>A teoria do romance<\/em>:<em> <\/em>um ensaio hist\u00f3rico-filos\u00f3fico sobre as formas da grande \u00e9pica. Trad. Jos\u00e9 Marcos Mariani de Macedo. S\u00e3o Paulo: Editora 34.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MARANH\u00c3O (1992). Secretaria de Estado da Cultura. <em>Casa de Cultura Josu\u00e9 Montello<\/em>: fontes de pesquisa para a hist\u00f3ria do Maranh\u00e3o. S\u00e3o Lu\u00eds: CCJM.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ZANELA, Agda Adriana (2009). <em>A epop\u00e9ia maranhense de Josu\u00e9 Montello<\/em>: desvendando a po\u00e9tica montelliana em quatro romances. Tese (Doutorado em Estudos Liter\u00e1rios) \u2013 Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ci\u00eancias e Letras de Araraquara. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/hdl.handle.net\/11449\/102386\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">http:\/\/hdl.handle.net\/11449\/102386<\/a>. Acesso em: 9 out. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-4445.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-4445\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; 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