{"id":2659,"date":"2024-09-30T14:51:59","date_gmt":"2024-09-30T17:51:59","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2659"},"modified":"2026-03-23T10:39:08","modified_gmt":"2026-03-23T13:39:08","slug":"nada-digo-de-ti-que-em-ti-nao-veja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2659","title":{"rendered":"Nada digo de ti, que em ti n\u00e3o veja"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">CRUZ, Eliana Alves. <em>Nada digo de ti, que em ti n\u00e3o veja<\/em>. Rio de Janeiro: Pallas, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Luan Sabino Siqueira<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Cl\u00e1udio Rodrigues <\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim como em seu romance anterior, <em>O crime do cais do Valongo<\/em> (2018), em <em>Nada digo de ti, que em ti n\u00e3o veja <\/em>(2020), Eliana Alves Cruz (Rio de Janeiro, RJ, 1966) mobiliza aspectos comuns aos romances de tipo policial com o intuito de armar uma intrincada teia narrativa recheada de elementos como amor, suspense, a\u00e7\u00e3o e drama. Localizando seus personagens historicamente no per\u00edodo colonial, mais precisamente no s\u00e9culo XVIII, a autora empreende um retorno ao passado para discutir temas caros ao nosso presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste que \u00e9 o seu terceiro romance hist\u00f3rico, Eliana Alves Cruz narra a trajet\u00f3ria de Vit\u00f3ria, uma travesti negra, ex-escravizada, que se vale da ast\u00facia e de seus dons de vid\u00eancia para sobreviver a um mundo e a um tempo que a todo o momento nega a exist\u00eancia de pessoas como ela. Ao se envolver amorosamente com Felipe Gama, homem branco pertencente a uma fam\u00edlia de posses, Vit\u00f3ria, que, como nos informa o narrador, \u201csentia-se f\u00eamea e n\u00e3o admitia que lhe dissessem o contr\u00e1rio\u201d, \u00e9 confrontada com as dores e as del\u00edcias de um relacionamento que, a priori, s\u00f3 pode ser experimentado nas sombras, fugindo aos preconceitos de ordem social, racial e moral. Felipe, por sua vez, \u00e9 prometido em casamento desde a inf\u00e2ncia a Sianinha, personagem que, assim como ele, faz parte de uma fam\u00edlia de crist\u00e3os-novos que, por medo da Inquisi\u00e7\u00e3o, escondem a ascend\u00eancia judaica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A trama come\u00e7a a se complicar com a chegada ao Brasil do inquisidor Frei Alexandre Saldanha Sardinha. Vindo de Portugal como representante do Tribunal do Santo Of\u00edcio, e interessado em enriquecer com a explora\u00e7\u00e3o do ouro em Minas Gerais, traz consigo a responsabilidade de julgar as poss\u00edveis infra\u00e7\u00f5es e pecados dos habitantes da col\u00f4nia, causando temor em toda a popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 a partir desse momento que a figura de um misterioso delator surge, passando a amea\u00e7ar, pelo envio de cartas an\u00f4nimas, n\u00e3o apenas a rela\u00e7\u00e3o secreta do casal de protagonistas, Felipe e Vit\u00f3ria, como tamb\u00e9m a verdadeira origem dos Muniz e dos Gama.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em torno dessa hist\u00f3ria de amor, ao mesmo tempo imposs\u00edvel e envolvente, forma-se um quadro social caracter\u00edstico dos tempos coloniais, mas que, ainda hoje, persiste em apresentar seus resqu\u00edcios na sociedade contempor\u00e2nea. Dessa forma, tanto no presente quanto no passado, encontramos a viol\u00eancia contra as minorias, seja ela formada por negros, mulheres ou pessoas LGBTQIAP+; a persegui\u00e7\u00e3o religiosa, encarnada pela Inquisi\u00e7\u00e3o; a cobi\u00e7a e a ambi\u00e7\u00e3o, que geram a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem. Acerca deste \u00faltimo tema, o romance apresenta, de maneira bem detalhada, o modo como eram explorados os negros escravizados que trabalhavam nas minas de ouro. \u00c9 pela voz de um deles que tomamos ci\u00eancia dos horrores e das viol\u00eancias perpetradas por um sistema feito para moer gente, liquidando-as f\u00edsica e espiritualmente: \u201cO barulho alto dos ferros, martelos e picaretas nas paredes n\u00e3o para por horas e horas e horas\u2026 \u00c9 muito perigoso porque deixa capatazes e escravos surdos, e os que escavam, com o tempo, ficam cegos tamb\u00e9m por causa do p\u00f3 e dos estilha\u00e7os que saem das pedras.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O entrecho toma conta do miolo da hist\u00f3ria \u2013 que se passa entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais \u2013 quando parte das personagens seguem em comitiva rumo \u00e0 regi\u00e3o que, \u00e0 \u00e9poca, era a respons\u00e1vel pela maior parte dos lucros da Col\u00f4nia, o que atra\u00eda o interesse n\u00e3o apenas dos governantes da Metr\u00f3pole como tamb\u00e9m de aventureiros locais e estrangeiros. \u00c9 nesse momento que personagens como Z\u00e9 Savalu e Balthazar Gama ganham destaque, e a autora imprime ao livro um tom de aventura que remete \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria dos romances de capa e espada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Savalu \u00e9 um escravizado oriundo do Reino do Daom\u00e9 e que, desde que chegou ao Brasil, sempre serviu aos Muniz. Apaixonado por Quit\u00e9ria, outra escravizada, sofre com o ass\u00e9dio de Sianinha, que nutre pelos seus escravos de companhia uma estranha obsess\u00e3o. Em fun\u00e7\u00e3o dessa persegui\u00e7\u00e3o, \u00e9 enviado por Branca Muniz, m\u00e3e de Sianinha, para as Minas junto aos membros da comitiva, o que ele vislumbra como a grande oportunidade de conquistar tanto a sua quanto a liberdade dos seus, sobretudo a do seu futuro filho, representando a luta dos negros pelo fim da escravid\u00e3o. \u00c9 junto a Felipe que Z\u00e9 Savalu descobre um mapa que cont\u00e9m um tesouro, que o ajudar\u00e1 futuramente na compra da sua liberdade. Balthazar Gama, por sua vez, \u00e9 um homem rude e dominador, acostumado a violentar todos os que s\u00e3o mais fracos do que ele. Irm\u00e3o mais velho de Felipe, \u00e9 ele quem administra com m\u00e3os de ferro os neg\u00f3cios da fam\u00edlia no territ\u00f3rio mineiro. Tomado como a express\u00e3o da crueldade, trata-se de um escravocrata que possui rela\u00e7\u00f5es escusas com o contrabando de pedras preciosas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>Nada digo de ti, que em ti n\u00e3o veja<\/em> todos os personagens apresentam motivos para guardar segredos, seja por suas pr\u00e1ticas sociais consideradas pelo c\u00f3digo legislativo da \u00e9poca como ilegais, seja pela impossibilidade de assumir os seus pr\u00f3prios desejos ou a sua verdadeira identidade. Amea\u00e7ados pelas leis contidas nas Ordena\u00e7\u00f5es Filipinas, esp\u00e9cie de c\u00f3digo penal, a narrativa parece sustentar a tese de que, em um mundo onde a liberdade n\u00e3o \u00e9 um princ\u00edpio, todos acabam precisando de subterf\u00fagios e mascaramentos para sobreviver, sobretudo aqueles que apontam o dedo para acusar: \u201cBranca jamais questionou os costumes familiares, pois faziam parte naturalmente de sua vida, n\u00e3o vendo conflito neles. No entanto, aos poucos foi se dando conta da urg\u00eancia em manter absoluto sil\u00eancio sobre a intimidade do lar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No que diz respeito \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da narrativa, o romance se divide em cinco partes, que v\u00e3o apresentando os fatos de maneira progressiva. Para tanto, a autora lan\u00e7a m\u00e3o de uma s\u00e9rie de estrat\u00e9gias a fim de que o leitor tome conhecimento das intrigas que enredam a trama, como a incorpora\u00e7\u00e3o de outros g\u00eaneros textuais no corpo do texto a exemplo de cartas an\u00f4nimas e trechos de di\u00e1rios, elementos que ajudam a desvendar os mist\u00e9rios lan\u00e7ados ao longo da hist\u00f3ria. Nesse sentido, pe\u00e7a importante da maior parte das intrigas que movimentam o enredo \u00e9 Diogo. Tio de Sianinha, foi transformado em vig\u00e1rio para escamotear a origem judia da fam\u00edlia Muniz. Contudo, sua paix\u00e3o reprimida por Felipe faz com que ele acabe traindo as duas fam\u00edlias ao amea\u00e7ar revelar n\u00e3o apenas o relacionamento do noivo de sua sobrinha com Vit\u00f3ria como tamb\u00e9m o segredo dos Muniz e dos Gama.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, outro ponto que chama a aten\u00e7\u00e3o do leitor \u00e9 a figura do narrador. Constru\u00eddo como uma voz onisciente, ele possui o conhecimento da totalidade dos fatos a serem narrados, traduzindo os sentimentos e as rea\u00e7\u00f5es das personagens e fazendo coment\u00e1rios espirituosos, cheios de ironia e mordacidade: \u201csou um confesso bisbilhoteiro, um fofoqueiro dos mais terr\u00edveis. Acabo revelando tudo o que vejo sem d\u00f3 ou enfeites [&#8230;] Est\u00e1 a\u00ed: o futuro \u00e9 a resid\u00eancia do sonho, da expectativa, das realiza\u00e7\u00f5es e do rid\u00edculo. Que estranha fam\u00edlia!\u201d. Ao final, a voz que narra revela ser a de Kitembo, um nkisi que nas religi\u00f5es de matriz afro-brasileira representa o tempo, sendo, portanto, o respons\u00e1vel por trazer ao p\u00fablico do presente os eventos do passado, ao mesmo tempo que projeta a possibilidade de um futuro que possa romper com as viol\u00eancias de outrora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atualmente, Eliana Alves Cruz tem se firmado como um dos nomes mais relevantes da literatura brasileira contempor\u00e2nea de autoria negra. Ao construir uma obra em que o di\u00e1logo com eventos hist\u00f3ricos ganha centralidade em seus enredos, sobretudo aqueles que se relacionam com a forma\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra no Brasil, a autora reafirma a pesquisa de arquivo e d\u00e1 novo sentido para a vida daqueles sujeitos que foram vistos como infames, para retomarmos Foucault, sendo esse um valoroso exerc\u00edcio de capacidade fabulat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ARRIAGADA, Raul Ignacio Valdivia (2021). Nada digo de ti, que em ti n\u00e3o veja, de Eliana Alvez Cruz: uma an\u00e1lise liter\u00e1ria e comparativa do romance hist\u00f3rico sob o olhar feminino. <em>Revista Decifrar,<\/em> v. 9, n. 18, p. 50-59.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AUGUSTO, Guilherme (2020). Novo romance de Eliana Alves Cruz exp\u00f5e o <em>apartheid<\/em> brasileiro. <em>Estado de Minas<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.em.com.br\/app\/noticia\/cultura\/2020\/06\/29\/interna_cultura,1160714\/novo-romance-de-eliana-alves-cruz-expoe-o-apartheid-brasileiro.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.em.com.br\/app\/noticia\/cultura\/2020\/06\/29\/interna_cultura,1160714\/novo-romance-de-eliana-alves-cruz-expoe-o-apartheid-brasileiro.shtml<\/a>. Acesso em: 28 maio 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BARBOSA, Roberta Tiburcio (2022). Di\u00e1logos interculturais em Nada digo de ti, que em ti n\u00e3o veja. <em>Travessias Interativas<\/em>, v. 12, n. 25, p. 272\u2013280. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.ufs.br\/Travessias\/article\/view\/16764\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/periodicos.ufs.br\/Travessias\/article\/view\/16764<\/a>. Acesso em: 30 maio 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FOUCAULT, Michel (2018).&nbsp; A vida dos homens infames. <em>In<\/em>: FOUCAULT, Michel. <em>O que \u00e9 um autor?<\/em> Trad. Ant\u00f3nio Fernando Cascais e Eduardo Cordeiro. 10. ed. Lisboa: Nova Vega. p. 89-128.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ROSSI, Cl\u00f3vis (2011). Nem fim do mundo nem mundo novo<strong>. <\/strong><em>Folha de S. Paulo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-4455.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-4455\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Pallas-2020-2.webp\" data-caption-title=\"Pallas, 2020\" data-attachment-id=\"2767\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Pallas, 2020\" width=\"250\" height=\"375\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2024\/09\/Pallas-2020-2\/3882503832.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22375%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20375%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Pallas, 2020<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CRUZ, Eliana Alves. 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