{"id":2634,"date":"2024-09-30T13:46:19","date_gmt":"2024-09-30T16:46:19","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2634"},"modified":"2025-11-12T18:00:22","modified_gmt":"2025-11-12T21:00:22","slug":"mulheres-que-mordem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2634","title":{"rendered":"Mulheres que mordem"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">LEAL, Beatriz. <em>Mulheres que mordem. <\/em>Rio de Janeiro: \u00cdm\u00e3 Editorial, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Mariana Di Salvio Almeida<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Manuela Dib<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Finalista do 58\u00ba Pr\u00eamio Jabuti, <em>Mulheres que mordem<\/em> \u00e9 o romance de estreia de Beatriz Leal (S\u00e3o Paulo, SP, 1985). Voz jovem e promissora da literatura brasileira, Leal mudou-se de S\u00e3o Paulo para Bras\u00edlia em 2004, onde se formou em Jornalismo. Em 2020, publicou seu segundo romance, <em>Os elefantes barrem<\/em>. Trata-se de uma carreira ainda recente, mas que vem recebendo boa acolhida por parte da cr\u00edtica especializada, embora ainda n\u00e3o haja um trabalho acad\u00eamico de f\u00f4lego acerca de sua literatura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Mulheres que mordem <\/em>dialoga com uma corrente liter\u00e1ria recente cujas obras lan\u00e7am distintas perspectivas sobre as ditaduras latino-americanas da segunda metade do s\u00e9culo XX justamente por imaginar um arquivo deliberadamente apagado pelos regimes militares com o intuito de se eximirem das sistem\u00e1ticas viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos. Por meio de uma narrativa curta, Beatriz Leal, em homenagem \u00e0s <em>Abuelas de la Plaza de Mayo<\/em>, ficcionaliza a busca das <em>abuelas<\/em> por seus netos desaparecidos durante a ditadura militar argentina (1976-1983)<em>. <\/em>A nota final do romance afirma esse papel no sentido de lan\u00e7ar m\u00e3o a recursos propriamente liter\u00e1rios para interpretar as lacunas das experi\u00eancias vividas sob governos autorit\u00e1rios: \u201cA ditadura na Argentina, os desaparecidos e as cerca de 500 crian\u00e7as sequestradas e adotadas por fam\u00edlias de militares e policiais da d\u00e9cada de 1970 s\u00e3o reais. As Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio tamb\u00e9m s\u00e3o. O resto \u00e9 fic\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O romance prop\u00f5e-se a lidar pela fic\u00e7\u00e3o com o passado atroz que, embora sistematicamente apagado pelos militares, ainda reverbera no presente. Valendo-se de diferentes vozes, tempos, inst\u00e2ncias narrativas e g\u00eaneros, suas personagens principais \u2013 Elena, Clara, Rosa e Laura \u2013 formam uma teia cujos fios foram rompidos pelos efeitos mais cru\u00e9is da ditadura argentina. Com saltos temporais e geogr\u00e1ficos nos 32 cap\u00edtulos dispostos como pe\u00e7as de um jogo a ser armado pelo leitor, a obra evidencia essas personagens, seus pap\u00e9is sociais, os temas pr\u00f3prios do universo feminino e, sobretudo, o legado de resist\u00eancia das mulheres ao regime.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Elena, por meio do narrador onisciente, abre a narrativa em 1977. H\u00e1 quatro pequenos cap\u00edtulos dedicados a ela, intercalados pelos cap\u00edtulos dedicados a Laura e pelas cartas de Rosa. Elena \u00e9 m\u00e3e adotiva de Laura, casada com o torturador Ramiro Garc\u00eda de los Rios e morre de c\u00e2ncer de \u00fatero quando a filha tinha oito anos de idade. Com Elena, surge o tema da maternidade e mostra-se uma mulher que prefere n\u00e3o pensar na profiss\u00e3o do marido e nas origens da filha. Ela desconhece sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e n\u00e3o pode cont\u00e1-la, sendo apresentada, assim, pelo narrador onisciente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, Rosa surge em primeira pessoa nas cartas que escrevia de Buenos Aires (de 1981 a 1985) para Roberto, ex-namorado de sua filha Clara, torturada e assassinada ap\u00f3s dar \u00e0 luz um casal de g\u00eameos em um centro de deten\u00e7\u00e3o argentino. Pelas cartas de Rosa, que atravessam todo o romance, o leitor encontra um relato desesperado do processo de reconhecimento dos restos mortais de Clara; a decis\u00e3o de se mudar para o abastado bairro da capital portenha, a Recoleta \u2013 onde moravam muitos militares \u2013, com a esperan\u00e7a de encontrar seus netos desaparecidos; os poucos encontros com Laura como professora de piano, de quem desconfia ser av\u00f3; a descoberta de Ramiro sobre sua participa\u00e7\u00e3o nas <em>abuelas<\/em>; e o pedido de socorro com o qual \u00e9 finalizada a \u00faltima carta, pois se d\u00e1 conta de que Laura nunca mais voltar\u00e1. A esperan\u00e7a de encontrar seus netos desaparecidos \u00e9 o que a mant\u00e9m viva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por sua vez, a Laura, a neta desaparecida, \u00e9 negado um passado, o que gera uma profunda sensa\u00e7\u00e3o de desencaixe: mudou-se para Bras\u00edlia com o pai adotivo, Ramiro, com dez anos de idade, e nunca mais voltou a Buenos Aires e tampouco fala espanhol. A personagem, assim como Elena, \u00e9 apresentada por um narrador onisciente: por imposi\u00e7\u00e3o de Ramiro, n\u00e3o consegue contar a pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos cap\u00edtulos dedicados a ela, a jovem somatiza esse passado do qual n\u00e3o tem conhecimento. Emocionalmente, desenvolve bulimia e \u201ccria problemas porque \u00e9 viciada em executar solu\u00e7\u00f5es\u201d para esquecer o passado. No entanto, ainda assim, a jovem busca, quando j\u00e1 n\u00e3o mais mora com o pai, com quem tem uma rela\u00e7\u00e3o distante, resgatar a mem\u00f3ria de sua inf\u00e2ncia em Buenos Aires. Pela l\u00edngua espanhola, gatilho para o resgate da mem\u00f3ria, Laura \u00e9 transportada para a inf\u00e2ncia, desestabilizando-a a ponto de desistir de uma busca t\u00e3o essencial quanto dolorosa sobre a sua pr\u00f3pria identidade. Mas n\u00e3o s\u00f3, o romance polif\u00f4nico tamb\u00e9m traz vozes de dois personagens masculinos \u2013 as consultas psicol\u00f3gicas do torturador Ramiro Garc\u00eda de los R\u00edos e as duas cartas de Roberto, pelos quais, al\u00e9m das cartas de Rosa, Clara toma corpo na narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As seis consultas ocorridas em 1992, em Bras\u00edlia, d\u00e3o voz ao torturador. Ramiro surge como um sujeito amb\u00edguo, que clama seus atos brutais como parte do of\u00edcio de um profissional competente. Tamb\u00e9m nelas h\u00e1 a descri\u00e7\u00e3o de cenas de torturas, estupros e do processo de desumaniza\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas diretas da ditadura. H\u00e1 a narra\u00e7\u00e3o da morte de Clara, que se recusou a falar durante a sess\u00e3o de tortura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Elena, Clara, Rosa e Laura s\u00e3o mulheres que mordem e, por isso, sobrevivem e resistem como conseguem. S\u00e3o plantas carn\u00edvoras \u2013 como as que est\u00e3o na capa do romance \u2013 e dependem, simbolicamente, de mordidas para seguir vivendo. Elena evitava pensar nas origens da pr\u00f3pria filha; Clara resistia a falar durante a sess\u00e3o de tortura mordendo a pr\u00f3pria boca; Rosa, em sua busca desesperada, mordia e ro\u00eda as unhas tamanha era a sua ang\u00fastia; e Laura, que somatizou todo esse passado atroz do qual n\u00e3o tem conhecimento, costumava morder as escovas de dente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fernando Perlatto (2017) comenta que a linguagem liter\u00e1ria possui \u201crecursos formais diferenciados\u201d e, por isso, pode ser \u201cparticularmente frut\u00edfera (&#8230;) para a elabora\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00f5es mais complexas e multifacetadas de experi\u00eancias vividas sob governos autorit\u00e1rios\u201d. <em>Mulheres que mordem <\/em>parece ser exemplar nesse sentido. O romance, mediante frases curtas e diretas, explora os saltos temporais e geogr\u00e1ficos (Buenos Aires, Bras\u00edlia e B\u00fazios), a polifonia, entre outros recursos, para abordar como a ditadura dilacerou a vida de mulheres provenientes da classe m\u00e9dia argentina e como elas representaram uma faceta importante de resist\u00eancia ao regime<em>. <\/em>Desse modo, embora estejam exclu\u00eddas dessa representatividade as camadas sociais menos abastadas, o romance de Leal busca despertar a mem\u00f3ria de resist\u00eancia feminina durante a ditadura militar argentina, dando corporeidade aos sujeitos que, com o tempo, tendem a se tornar apenas n\u00fameros, e escancarando, via fic\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia levada a cabo pelos governos autorit\u00e1rios da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CENTENARO, Natasha (2018). Morder para viver e escrever para lembrar: <em>Mulheres que mordem<\/em>, de Beatriz Leal, e a rememora\u00e7\u00e3o do tempo que n\u00e3o pode ser esquecido na Am\u00e9rica Latina. <em>Travessias, <\/em>Cascavel, v. 12, n. 1, p. 160-176. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/e-revista.unioeste.br\/index.php\/travessias\/article\/view\/19369\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/e-revista.unioeste.br\/index.php\/travessias\/article\/view\/19369<\/a>. Acesso: 10 jul. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GOMES, G\u00ednia Maria (2020). Ex\u00edlio em <em>Mulheres que mordem, <\/em>de Beatriz Leal. <em>In<\/em>: GOMES, G\u00ednia Maria (org.). <em>Narrativas brasileira contempor\u00e2neas<\/em>: mem\u00f3rias da repress\u00e3o. Porto Alegre: Editora Polifonia, p. 133-157.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PERLATTO, Fernando (2017). Hist\u00f3ria, literatura e ditadura brasileira: historiografia e fic\u00e7\u00f5es no contexto do cinquenten\u00e1rio do golpe de 1964. <em>Estudos Hist\u00f3ricos, <\/em>Rio de Janeiro, v. 30, n. 62, p. 721-740.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PINHEIRO, Alexandra dos Santos (2021). Mulheres que mordem, de Beatriz Leal: novos textos, velhos temas. <em>Scripta Uniandrade<\/em>, Curitiba, v. 19, n. 1, p. 281-299. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/revista.uniandrade.br\/index.php\/ScriptaUniandrade\/article\/view\/2053\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/revista.uniandrade.br\/index.php\/ScriptaUniandrade\/article\/view\/2053<\/a>. Acesso: 10 jul. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SAFATLE, Vladimir (2012). Do uso da viol\u00eancia contra o Estado ilegal. <em>In<\/em>: TELES, Edson; SAFATLE, Vladimir (orgs.). <em>O que resta da ditadura: <\/em>a exce\u00e7\u00e3o brasileira. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial, p. 237-252.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-4461.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-4461\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Ima-Editorial-2015-2.webp\" data-caption-title=\"\u00cdm\u00e3 Editorial, 2015\" data-attachment-id=\"2954\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"\u00cdm\u00e3 Editorial, 2015\" width=\"250\" height=\"355\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2024\/09\/Ima-Editorial-2015-2\/3816192144.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22355%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20355%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">\u00cdm\u00e3 Editorial, 2015<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LEAL, Beatriz. 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