{"id":2593,"date":"2024-09-30T11:04:28","date_gmt":"2024-09-30T14:04:28","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2593"},"modified":"2025-09-15T09:46:37","modified_gmt":"2025-09-15T12:46:37","slug":"albergue-noturno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2593","title":{"rendered":"Albergue noturno"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">PANTOJA, Edilson. <em>Albergue noturno<\/em>. Bel\u00e9m: IAP, 2005.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Edmon Neto<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Francisco Dalcastagn\u00e8 Miguel<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das maneiras de se pensar a fic\u00e7\u00e3o brasileira contempor\u00e2nea \u00e9 partir do crit\u00e9rio que lan\u00e7a luz sobre uma das heran\u00e7as modernas do narrar: perceber como os escritores lidam com a ideia cristalizada de g\u00eaneros liter\u00e1rios. Das tend\u00eancias observadas pelos cr\u00edticos em rela\u00e7\u00e3o ao romance, uma delas elabora o seu discurso a partir da fus\u00e3o entre natureza lingu\u00edstica e finalidade, caracter\u00edsticas inerentes a certos textos tantas vezes reduzidos a categorias estanques. Essa \u00e9 uma das inquieta\u00e7\u00f5es formais presentes na leitura de <em>Albergue noturno<\/em>, romance de estreia publicado em 2005 pelo escritor e fil\u00f3sofo Edilson Pantoja (Bel\u00e9m, PA, 1968), e com o qual foi vencedor do Pr\u00eamio do Instituto de Artes do Par\u00e1 no mesmo ano. Pantoja elabora um trabalho em que a tradi\u00e7\u00e3o da literatura ocidental estabelece franco di\u00e1logo com a filosofia e, em muitos momentos, deixa o discurso filos\u00f3fico entranhar as solu\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Albergue noturno <\/em>\u00e9 um romance composto por 36 cap\u00edtulos curtos, que aparentemente funcionam como uma esp\u00e9cie de m\u00f3bile ou conjunto de contos aut\u00f4nomos. Isso permitiria que a leitura ocorresse de forma fragmentada, sem perda substancial de sentido, embora ao longo da hist\u00f3ria seja percept\u00edvel a exist\u00eancia de uma teia intrincada de rela\u00e7\u00f5es entre os elementos da narrativa e, por extens\u00e3o, entre os cap\u00edtulos. O protagonista e narrador em primeira pessoa \u00e9 Lutero Dias, um m\u00e9dico que abandonou a profiss\u00e3o vinculada \u00e0 ci\u00eancia emp\u00edrica e, no presente ficcional, torna-se disc\u00edpulo do fil\u00f3sofo grego Epicuro (s\u00e9culo IV a.C.), cuja doutrina tem como meta a modera\u00e7\u00e3o e a plenitude de viver. Autodeclarado cultivador de enigmas e ideias fixas, Lutero Dias passa a procur\u00e1-los, catalog\u00e1-los e organiz\u00e1-los dentro do que ele chama de \u201carquivo de inc\u00f4modos\u201d, tendo que aprender a lidar com a vontade de atingir a condi\u00e7\u00e3o epicurista da ataraxia, ou \u201cimperturbabilidade do esp\u00edrito\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para sustentar a sua \u00edntima pesquisa, o doutor conta com uma heran\u00e7a do av\u00f4 cuja condicionante, ironicamente, condena o hedonista (aquele que teria a \u201cchave da vida feliz\u201d) ao celibato. Por\u00e9m, diante das interdi\u00e7\u00f5es amorosas, o hedonismo do narrador, embora desejoso, restringe-se a prazeres fortuitos e a del\u00edrios dionis\u00edacos quase sempre solit\u00e1rios. E se a avers\u00e3o ao barulho da multid\u00e3o talvez ajudasse aquele homem a alcan\u00e7ar a tranquilidade almejada para o seu \u00e2nimo, o aglomerado de gente passa a antagonizar o enredo de Lutero Dias, que possui, como marca do ins\u00f3lito, uma cauda frequentemente ferida. Essa condi\u00e7\u00e3o da personagem afeta a constru\u00e7\u00e3o de sua subjetividade, pois faz parte da dificuldade de estabelecer interlocu\u00e7\u00e3o com outras pessoas. Ora o secret\u00e1rio que pensa ser o chefe um asceta, ora a vizinha presumidamente psic\u00f3loga e por quem o m\u00e9dico nutre uma fixa\u00e7\u00e3o muda, poucos seres humanos cruzam o cotidiano desse homem solit\u00e1rio, g\u00eanio autodeclarado, morador de um albergue na Pra\u00e7a da Rep\u00fablica, em Bel\u00e9m do Par\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sempre \u00e0s voltas com reflex\u00f5es aparentemente monol\u00f3gicas e autocentradas, Lutero Dias conversa com um \u201cvelho companheiro\u201d, o c\u00e3o protetor e dos \u201cpoucos \u00edntimos\u201d que saberiam de uma suposta miss\u00e3o a ser cumprida pelo m\u00e9dico. Anci\u00e3o \u201cesfor\u00e7ado em manter-se fiel\u201d ao dono, de cujas dores da cauda ferida tamb\u00e9m \u00e9 servil cuidador, esse animal, que um dia soubera falar, \u00e9 uma esp\u00e9cie de c\u00famplice das incurs\u00f5es metaf\u00edsicas de Lutero. Com o c\u00e3o, o narrador parte das perguntas ancestrais (\u201cO que \u00e9 o mundo?\u201d) e chega \u00e0s formula\u00e7\u00f5es que ainda podem ser feitas sobre a origem e o fim de todas as coisas, tudo isso sendo tamb\u00e9m o meio pelo qual a hist\u00f3ria \u00e9 contada. Nesse sentido, o \u201cmaldito gosto pela metaf\u00edsica\u201d imp\u00f5e perguntas sobre as explos\u00f5es c\u00f3smicas, o <em>big-bang<\/em>, a consequente \u201coculta\u00e7\u00e3o do <em>t\u00e9los<\/em> que a tudo conduz\u201d. E mesmo que seja importante manter a aten\u00e7\u00e3o em outras personagens, como a aranha esot\u00e9rica e dogm\u00e1tica, al\u00e9m do macaco exageradamente expansivo (ambos constru\u00eddos de modo estrat\u00e9gico), o destino do protagonista n\u00e3o pode ser dissociado do velho c\u00e3o e da multid\u00e3o louca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Possu\u00eddo pelo medo e incumbido da dif\u00edcil tarefa de manter o esp\u00edrito imperturb\u00e1vel, Lutero Dias v\u00ea a situa\u00e7\u00e3o de sua cauda agravar, e \u00e9 nesse momento que se percebe uma transforma\u00e7\u00e3o na arquitetura narrativa de Edilson Pantoja. Mesmo que o texto forne\u00e7a pistas, crie <em>links<\/em>, sugira a ocorr\u00eancia de eventos futuros e antecipe determinadas informa\u00e7\u00f5es, a apari\u00e7\u00e3o das Moiras (fiandeiras da mitologia grega), que tentam tranquilizar o narrador sobre sua condi\u00e7\u00e3o, \u00e9 evid\u00eancia de que se come\u00e7a a tra\u00e7ar uma perip\u00e9cia na hist\u00f3ria. Surge, ent\u00e3o, a figura de um outro conhecido antigo, conterr\u00e2neo de Lutero Dias, \u201camigo sussurrante\u201d que, no passado, teria morado \u00e0 beira do rio, numa toca com seus parentes. Os sinais desse antigo companheiro eram percebidos pelo cheiro putrefato exalado de seu corpo, tendo em vista que ele ganha forma de um verme descrito como sofista e antrop\u00f3fago, que um dia fora idealista e agora se tornara mercen\u00e1rio. Marcado por tantos adjetivos, esse personagem, entretanto, \u00e9 respons\u00e1vel por convidar o protagonista para uma jornada pelo subterr\u00e2neo, afinal, segundo o verme, \u201cningu\u00e9m que viu apenas um lado do mundo pode dizer conhec\u00ea-lo por inteiro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E se a presen\u00e7a de uma cauda em Lutero Dias sugere a possibilidade de metamorfose, \u00e9 na sua perda que a narrativa tem o seu momento decisivo. Ap\u00f3s sinalizar que as muitas perguntas feitas sobre o seu estado poderiam levar \u00e0 decep\u00e7\u00e3o, o m\u00e9dico aceita o convite para ver o mundo por dentro e ter o \u201cabismo como resposta\u201d, passando a enxergar no escuro. O passeio pelo subterr\u00e2neo e pelas reparti\u00e7\u00f5es da morte \u00e9 o cl\u00edmax da narrativa, que alude e reelabora explicitamente uma s\u00e9rie de refer\u00eancias da literatura e da filosofia ocidentais, como a alegoria plat\u00f4nica da caverna, a \u00e9pica de Homero, Dom Quixote e, de modo mais evidente, <em>A divina com\u00e9dia<\/em>. O verme e o m\u00e9dico (e tamb\u00e9m o c\u00e3o) s\u00e3o esp\u00e9cies de Dante e Virg\u00edlio que, ao chegarem \u00e0 porta do inferno, veem escrito: \u201cDeixai toda esperan\u00e7a, \u00f3 v\u00f3s que entrais\u201d. Aqui, personagens \u00e9picos ganham contornos tr\u00e1gicos numa jornada cujo objetivo se relaciona com a liberta\u00e7\u00e3o de um \u201csimulacro verdadeiro\u201d, ligado a princ\u00edpios da fic\u00e7\u00e3o que teriam sido aprisionados pela a\u00e7\u00e3o dos homens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O protagonista, por isso, participa de intrigas que o tempo inteiro ir\u00e3o colocar em xeque as certezas eventualmente instauradas ao longo dos cap\u00edtulos. No desfecho, personagens voltam reconfiguradas, solucionando alguns mist\u00e9rios, instaurando muitas outras perguntas. Para tanto, um dos recursos t\u00e9cnicos criados em <em>Albergue noturno<\/em> \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de personagens fugidios, como a vizinha, o secret\u00e1rio e os animais (mosca, macaco, aranha, c\u00e3o e verme), cuja rela\u00e7\u00e3o ins\u00f3lita e fabular com o homem sustenta a posi\u00e7\u00e3o deste apartado da sociedade, que, em algum momento, far\u00e1 ruir o espa\u00e7o da narrativa por meio da elabora\u00e7\u00e3o de seu pensamento. N\u00e3o se sabe se um dia o epicurismo de Dr. Lutero Dias o conciliar\u00e1 com a multid\u00e3o barulhenta, ou melhor, se a perda de sua cauda o obrigar\u00e1 a isso, a exemplo do que ocorre em um poema em prosa do franc\u00eas Charles Baudelaire (Paris, 1821 \u2013 Paris, 1867), em que a perda da aur\u00e9ola do poeta rom\u00e2ntico o obriga a voltar para o conv\u00edvio da sociedade. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enxergar o outro lado \u00e9, contudo, o doce del\u00edrio que se testemunha em <em>Albergue noturno<\/em>. Talvez a escolha de Edilson Pantoja pela ep\u00edgrafe de <em>Assim falou Zaratustra<\/em>, de Nietzsche, pode indicar a predile\u00e7\u00e3o por uma obra que at\u00e9 hoje \u00e9 um mist\u00e9rio ante o \u00edmpeto de qualquer r\u00f3tulo classificat\u00f3rio. O recorte que diz \u201calgum veneno uma vez por outra \u00e9 coisa que proporciona agrad\u00e1veis sonhos. E muitos venenos no fim para morrer agradavelmente\u201d prenuncia o flerte entre vida e morte, presente na cria\u00e7\u00e3o de um \u201clugar transfronteiri\u00e7o\u201d em que albergue e inferno s\u00e3o uma coisa s\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BORGES, Rudinei. <em>Edilson Pantoja \u2013 Entre(vista)<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/alzirarevista.wordpress.com\/2014\/05\/06\/edilson-pantoja-entrevista\/.\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/alzirarevista.wordpress.com\/2014\/05\/06\/edilson-pantoja-entrevista\/.<\/a> Acesso em: 20 jul. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PANTOJA, Edilson. <em>Albergue noturno<\/em>. Filosofia \u00e9 Literatura! E Vice e asreV! Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/alberguenoturno.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">http:\/\/alberguenoturno.blogspot.com\/<\/a>. Acesso em: 28 jul. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-3899.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-3899\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/IAP2005.webp\" data-caption-title=\"IAP, 2005\" data-attachment-id=\"3900\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"IAP, 2005\" width=\"250\" height=\"334\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/01\/IAP2005\/4249630074.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22334%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20334%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">IAP, 2005<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PANTOJA, Edilson. 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