{"id":2589,"date":"2024-09-30T10:46:30","date_gmt":"2024-09-30T13:46:30","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2589"},"modified":"2025-11-12T17:58:08","modified_gmt":"2025-11-12T20:58:08","slug":"a-verdadeira-estoria-de-jesus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2589","title":{"rendered":"A verdadeira est\u00f3ria de Jesus"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">SOLHA, Waldemar Jos\u00e9. <em>A verdadeira est\u00f3ria de Jesus<\/em>. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1979.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Carolina Coutinho Moreno<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Marlova Aseff<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nascido em Sorocaba, Waldemar Jos\u00e9 Solha (Sorocaba, SP, 1941) radicou-se em Jo\u00e3o Pessoa em 1962, depois de ter se mudado para o munic\u00edpio de Pombal aos 21 anos para trabalhar em uma ag\u00eancia do Banco do Brasil. Nessa cidade, conta ter passado por uma transforma\u00e7\u00e3o ao entrar em contato com a produ\u00e7\u00e3o teatral e liter\u00e1ria de um local culturalmente aquecido. A predile\u00e7\u00e3o pela experimenta\u00e7\u00e3o parece ser uma particularidade do autor, que, prol\u00edfico e m\u00faltiplo, tamb\u00e9m \u00e9 artista pl\u00e1stico, participou de filmes como produtor, roteirista e ator, montou pe\u00e7as teatrais, al\u00e9m de trabalhar em parceria com compositores em m\u00fasicas e orquestras sinf\u00f4nicas. Mesmo sua produ\u00e7\u00e3o como escritor \u00e9 diversa, contando com romances, contos, ensaios, poemas, libretos, pe\u00e7as e roteiros cinematogr\u00e1ficos. Seu passeio por diversas formas e modalidades art\u00edsticas revela um gosto por cruzamentos que est\u00e1 presente na pr\u00f3pria composi\u00e7\u00e3o de suas obras, o que aponta para um investimento na indetermina\u00e7\u00e3o de g\u00eaneros que ainda hoje continua a desafiar a cr\u00edtica liter\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A verdadeira est\u00f3ria de Jesus<\/em>, publicado em 1979, \u00e9 um romance repleto de apropria\u00e7\u00f5es de fontes heterog\u00eaneas, flertando com o experimentalismo. Literatura, hist\u00f3ria e religi\u00e3o se encontram e se misturam com elementos da cultura popular em uma narrativa entrecortada por outros textos e discursos \u2013 hist\u00f3rias em quadrinhos, contos de fada, refer\u00eancias do cinema e da televis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 no inusitado t\u00edtulo tem-se o mote principal do tom ir\u00f4nico e dessacralizador que a narrativa assume. A op\u00e7\u00e3o pela grafia \u201cest\u00f3ria\u201d questiona a confian\u00e7a na Hist\u00f3ria e a credibilidade dos fatos, sugerindo que o que se toma como verdade est\u00e1 mais pr\u00f3ximo da constru\u00e7\u00e3o narrativa, das f\u00e1bulas e dos contos populares. A Academia Brasileira de Letras, no <em>Dicion\u00e1rio Escolar da L\u00edngua Portuguesa<\/em> (2008), considera a palavra &#8220;est\u00f3ria&#8221; um arca\u00edsmo, talvez um legado de quando essa distin\u00e7\u00e3o era menos fluida, menos inc\u00f4moda, e estabelece a prefer\u00eancia por &#8220;hist\u00f3ria&#8221;, capaz de aglutinar tanto as narrativas ou relatos de fatos reais como tamb\u00e9m os de fic\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 justamente nesse conflito entre fato e inven\u00e7\u00e3o que a \u201cverdadeira est\u00f3ria\u201d de Solha se insere.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cen\u00e1rio principal do romance \u00e9 o palco de um teatro grego, onde Lucas, Marcos, Jo\u00e3o e Mateus se re\u00fanem para discutir a necessidade de um salvador para libertar o seu povo e o seu tempo. Lucas ent\u00e3o prop\u00f5e a solu\u00e7\u00e3o para os problemas de todos: ela est\u00e1 nas f\u00e1bulas e nos mitos que oferecem sentido \u00e0 experi\u00eancia humana. A grandiosidade da tarefa de criar um salvador \u00e9 intimidante, e certamente controversa, mas o desespero do momento tamb\u00e9m \u00e9 ineg\u00e1vel. O argumento de Lucas para a fabrica\u00e7\u00e3o de um her\u00f3i \u00e9 que, como artistas, os quatro devem agir como intermedi\u00e1rios divinos, na sua condi\u00e7\u00e3o de espelhos feitos \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus, e atuar na \u201cre-cria\u00e7\u00e3o\u201d desse grande Messias como uma obra de arte para ser constru\u00edda e talhada para sua posterior assimila\u00e7\u00e3o pela hist\u00f3ria, ainda que seja um produto da est\u00f3ria, pois isso \u00e9 o que garantir\u00e1 sua efetividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, eles debatem suas ideias e conceitos e, ao ritmo das constela\u00e7\u00f5es do zod\u00edaco, produzem o grande her\u00f3i a partir dos epis\u00f3dios de nascimento, batismo, prova\u00e7\u00f5es, crucifica\u00e7\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, de modo que ele abarque a pr\u00f3pria humanidade e o mundo, e seja o \u201cHomem-s\u00edntese\u201d engrenado na \u201cm\u00e1quina da Est\u00f3ria\u201d. Para realizar tal fa\u00e7anha, as fontes de inspira\u00e7\u00e3o dos quatro ap\u00f3stolos-personagens ser\u00e3o m\u00faltiplas e ecl\u00e9ticas: contos de fadas, como Branca de Neve; personagens das hist\u00f3rias em quadrinhos, como Super-Homem e Flash Gordon; personagens religiosos, como Sidarta e Zoroastro; e tamb\u00e9m mitos gregos, como o de Prometeu. Desse am\u00e1lgama surge o salvador, na forma de um \u201cac\u00famulo de fic\u00e7\u00f5es\u201d, uma \u201cc\u00f3pia de tantos e tantos outros\u201d: se tantos her\u00f3is s\u00e3o nascidos de virgens, o mesmo deve acontecer com Cristo; como nos outros mitos solares, Jesus deve ser g\u00eameo (de Barrab\u00e1s); a data de seu anivers\u00e1rio tamb\u00e9m \u00e9 dividida com H\u00f3rus, divindade eg\u00edpcia dos c\u00e9us e dos vivos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse processo de dessacraliza\u00e7\u00e3o da figura de Jesus Cristo n\u00e3o busca apenas a desconstru\u00e7\u00e3o dos discursos religioso ou mesmo hist\u00f3rico, mas atinge tamb\u00e9m certa ideia do que \u00e9 a literatura, j\u00e1 que a narrativa n\u00e3o s\u00f3 dialoga com as muitas imagens coladas ao texto, como tamb\u00e9m se vale de uma costura de apropria\u00e7\u00f5es que lembram o mecanismo, hoje t\u00e3o banal, da pr\u00e1tica do &#8220;recorte e cole&#8221;. Assim, o leitor l\u00ea uma esp\u00e9cie de curadoria das v\u00e1rias tradi\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas culturais em fus\u00e3o com os novos \u00edcones da cultura de massas, j\u00e1 que o romance \u00e9 escrito no contexto do crescimento dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e da <em>pop art<\/em>. Tipograficamente, tamb\u00e9m h\u00e1 \u201cestranhezas\u201d na obra: alguns trechos s\u00e3o destacados do corpo do texto, abundam as letras mai\u00fasculas e as reprodu\u00e7\u00f5es de hist\u00f3rias em quadrinhos, pinturas, fotografias e reportagens. A pr\u00f3pria capa do livro adapta a cena da origem do Super-Homem e mostra Jesus Cristo revelando o grande \u201cJ\u201d no seu peito por baixo de suas roupas, sobreposto a cenas de outros her\u00f3is em combate.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Escrita ainda no regime ditatorial, mas no horizonte da democratiza\u00e7\u00e3o, a narrativa <em>A verdadeira est\u00f3ria de Jesus<\/em> vale-se da anacronia para fazer uma cr\u00edtica velada ao momento hist\u00f3rico em que o livro foi publicado. Na obra, as distintas vers\u00f5es de Jesus proferem discursos em meio aos cliques das c\u00e2meras de revistas e emissoras de televis\u00e3o, ao mesmo tempo que ca\u00e7as do Imp\u00e9rio Romano sobrevoam e lan\u00e7am bombas na conquista de Jerusal\u00e9m. Esses recursos podem ser interpretados como um modo de W. J. Solha criticar subliminarmente o momento pol\u00edtico do Brasil do final dos anos 1970, que ainda aguardava a reabertura democr\u00e1tica: \u201cFalamos em salva\u00e7\u00e3o. Mas salva\u00e7\u00e3o como, de que jeito? Escapar de qu\u00ea? Sal-va-\u00e7\u00e3o quando?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os anos finais da longa ditadura foram marcados por grandes transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, sociais e culturais: um tempo de transi\u00e7\u00e3o para uma desejada nova ordem social. A utiliza\u00e7\u00e3o e o di\u00e1logo da obra com g\u00eaneros e discursos considerados menores, mas que come\u00e7avam a ganhar espa\u00e7o no cotidiano brasileiro do final da d\u00e9cada de 1970, indiciam um modo de a sociedade se relacionar com a cultura de novas maneiras. Em uma sociedade que desejava redesenhar seus contornos, Solha investe no humor, na s\u00e1tira, na cr\u00edtica, na apropria\u00e7\u00e3o de fontes que mesclam tradi\u00e7\u00e3o e cultura de massa para criar uma forma liter\u00e1ria inovadora e que permanece atual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS (2008). <em>Dicion\u00e1rio escolar da L\u00edngua Portuguesa<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia Editora Nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SOLHA, W.J. (1986). <em>A verdadeira est\u00f3ria de Jesus<\/em>. Espet\u00e1culo do Grupo Bigorna. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/A VERDADEIRA est\u00f3ria de Jesus (1986, W. J. Solha). Espet\u00e1culo do Grupo Bigorna. Texto e dire\u00e7\u00e3o: W. J. Solha. 1986. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v= G12E1mFdGOg&amp;ab_channel=Para%C3%ADbaemImagens. Acesso em: 20 jan. 2023.  FIGUEIREDO, Ariz\u00e2ngela (2008). O teatro planet\u00e1rio de A verdadeira est\u00f3ria de Jesus: a apropria\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio sociocultural dos anos 1970 por W. J. Solha. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Estudo de Linguagens) \u2013 Universidade do Estado da Bahia, Salvador. Dispon\u00edvel em: https:\/\/silo.tips\/download\/universidade-do-estado-da-bahia-pos-graduaao-em-estudo-de-linguagens-departament. Acesso em: 20 jan. 2023.\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=G12E1mFdGOg<\/a>. Acesso em: 20 jan. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FIGUEIREDO, Ariz\u00e2ngela (2008). <em>O teatro planet\u00e1rio de <\/em>A verdadeira est\u00f3ria de Jesus: a apropria\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio sociocultural dos anos 1970 por W. J. Solha. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Estudo de Linguagens) \u2013 Universidade do Estado da Bahia, Salvador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-4478.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-4478\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Atica-1979.webp\" data-caption-title=\"\u00c1tica, 1979\" data-attachment-id=\"2591\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"\u00c1tica, 1979\" width=\"250\" height=\"359\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2024\/09\/Atica-1979\/117198626.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22359%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20359%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">\u00c1tica, 1979<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SOLHA, Waldemar Jos\u00e9. 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