{"id":2574,"date":"2024-09-30T09:51:45","date_gmt":"2024-09-30T12:51:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2574"},"modified":"2025-10-03T13:25:58","modified_gmt":"2025-10-03T16:25:58","slug":"a-cidade-inexistente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2574","title":{"rendered":"A cidade inexistente"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">REZENDE JR., Jos\u00e9. <em>A cidade inexistente<\/em>. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Ana Paula Gon\u00e7alves de Oliveira<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Esp\u00edrito Objeto<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma cidade condenada ao afogamento para a constru\u00e7\u00e3o de uma hidrel\u00e9trica, um velho e um c\u00e3o que insistem em n\u00e3o arredar os p\u00e9s e as patas, os impasses que os moradores enfrentam ao se verem obrigados a deixar seus lares e se mudarem para uma cidade nova, que \u00e9 replica da velha, mas totalmente diferente, s\u00e3o os temas de <em>A cidade inexistente<\/em>, publicado em 2019. A obra \u00e9 o primeiro romance de Jos\u00e9 Rezende Jr. (Aimor\u00e9s, MG, 1959), jornalista e escritor mineiro radicado em Bras\u00edlia, que ficou conhecido no cen\u00e1rio liter\u00e1rio como contista ao ganhar o pr\u00eamio Jabuti em 2010, na categoria de contos e cr\u00f4nicas, pelo livro <em>Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras est\u00f3rias de amor)<\/em>. Tamb\u00e9m \u00e9 autor de <em>A mulher-gorila e outros dem\u00f4nios<\/em>, <em>Est\u00f3rias m\u00ednimas<\/em>, <em>Os vivos e os mortos<\/em> e do infantojuvenil<em> F\u00e1bula urbana<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse romance, em que a qualquer momento a cidade ser\u00e1 transformada em \u00e1gua, o protagonista, um idoso acompanhado de seu cachorro, insiste em se manter na cidade e na casa que abrigou quatro gera\u00e7\u00f5es de sua fam\u00edlia. As figuras da velhice, do humano e do cachorro, costumeiramente associadas \u00e0 fragilidade f\u00edsica, operam como um s\u00edmbolo de resist\u00eancia com seus corpos que, apesar de desgastados e fr\u00e1geis, t\u00eam um pacto indiz\u00edvel entre si de que ali \u00e9 onde devem continuar, de que a sa\u00edda \u00e9 inegoci\u00e1vel. Por isso s\u00e3o vistos pelo governo como foco subversivo ao insistirem em manter-se ocupando a cidade condenada \u00e0 morte por afogamento, assim como tudo o que se mantiver no caminho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os outros cidad\u00e3os, retirantes que n\u00e3o fogem da seca, e sim da \u00e1gua, esbo\u00e7am pequenas rea\u00e7\u00f5es de enfrentamento (ou as imaginam), mas o governo usa diferentes modos de coagi-los, por meio de indeniza\u00e7\u00f5es e burocracias engenhosamente ajustadas para enganar pelas vias legais e, claro, pela viol\u00eancia da for\u00e7a policial. O que separa a cidade da trag\u00e9dia do afogamento \u00e9 apenas um bot\u00e3o que est\u00e1 nas m\u00e3os do governador que ali jamais pisou e que, de longe, da capital, pode, a qualquer momento, apert\u00e1-lo, abrindo as comportas da hidrel\u00e9trica e inundando tudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cap\u00edtulos curtos constroem a obra, que alterna entre um narrador onisciente e um narrador-personagem, o menino, neto do velho e ex-dono do c\u00e3o, que assume a voz narrativa em alguns momentos pontuais, esclarecendo detalhes de um tempo posterior e deslocado. \u00c9 assim que v\u00e3o se entrela\u00e7ando as m\u00faltiplas hist\u00f3rias. Entre elas, aparecem figuras comuns que existem em quase todas as cidades, como o louco que fala bobagens, mas que \u00e0s vezes tem raz\u00e3o em suas sandices; o padre que sacrifica seu corpo em jejum, pedindo interven\u00e7\u00e3o divina em prol da salva\u00e7\u00e3o da cidade; o circo itinerante, que vem de tempos em tempos entreter o marasmo do interior; uma fam\u00edlia de pessoas pequeninas; e at\u00e9 os mitos t\u00edpicos que assustam crian\u00e7as travessas, como o da cabra cabriola, criatura metade cabra, metade monstro que bota fogo pelas fu\u00e7as e pelo traseiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo que tais figuras corriqueiras comp\u00f5em a cidade, o autor explora algumas min\u00facias doloridas, que costumam ser mantidas em segredo, mas que constituem as vidas e sustentam as fofocas de quase toda cidade interiorana. \u00c9 o caso, por exemplo, do advogado que \u00e9 chantageado pelo prefeito, suicida-se e deixa sua noiva esperando no altar. Ela, por sua vez, transforma-se em vi\u00fava suicida e fantasma. H\u00e1 tamb\u00e9m o padre, que, apesar de devoto, mant\u00e9m um caso secreto; e a boate da luz vermelha, que, na noite de despedida da cidade, transforma-se em cen\u00e1rio de estupro de uma mulher prostituta. Tais epis\u00f3dios engendram tramas interligadas que ilustram segredos e brutalidades t\u00edpicos de uma sociedade brasileira adoecida, corrompida e tomada de hipocrisia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As personagens femininas parecem ser o ponto de fragilidade da obra, j\u00e1 que, apesar de interessantes, deslizam em narrativas que est\u00e3o sempre atreladas a sofrimento, explora\u00e7\u00e3o sexual, cenas de erotiza\u00e7\u00e3o ou proje\u00e7\u00f5es do imagin\u00e1rio masculino. \u00c9 esse o caso da noiva que sofre a trag\u00e9dia do abandono e tem um final tr\u00e1gico; da prostituta que sofre um estupro coletivo e que se mant\u00e9m na narrativa cumprindo apenas a fun\u00e7\u00e3o de objeto sexual do velho; ou de Ludmila, que aparece como uma talentosa trapezista de circo, mas logo se converte em mera figura de enamoramento de jovens garotos das cidades pelas quais passa. Essas personagens femininas aparecem constantemente de modo acess\u00f3rio, j\u00e1 que suas exist\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o aut\u00f4nomas e s\u00f3 s\u00e3o justificadas na narrativa se atreladas aos personagens masculinos. Estes \u00faltimos s\u00e3o o centro da obra, em torno do qual giram o desejo, a paix\u00e3o, a viol\u00eancia ou a trag\u00e9dia das personagens femininas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, uma das for\u00e7as do romance est\u00e1 na mescla de aspectos real\u00edsticos e cotidianos, com toques fant\u00e1sticos que, pouco a pouco, v\u00e3o ganhando espa\u00e7o. Um exemplo \u00e9 a hist\u00f3ria dos viajantes, uma mulher e um homem que sonham um com o outro e, de modo trivial, se encontram na esta\u00e7\u00e3o de trem. Eles avistam a cidade inundada, decidem desbrav\u00e1-la e, no desenrolar da narrativa, passam por uma esp\u00e9cie de metamorfose, transformando-se em criaturas bestiais que povoam, navegam e comem os restos mortais que sobraram na cidade que se tornara um lago. O autor \u00e9 capaz de fazer essa transi\u00e7\u00e3o com maestria, de modo que o(a) leitor(a) embarca com naturalidade e surpresa nos aspectos inesperados da obra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora seja poss\u00edvel copiar quase toda a estrutura da cidade, replicando at\u00e9 mesmo as teias de aranha, o mofo, as pinturas velhas das casas e outros detalhes compositivos, h\u00e1 uma aura de autenticidade que n\u00e3o \u00e9 pass\u00edvel de c\u00f3pia. Os afetos, os cheiros, os sons dos bichos, tudo se altera e n\u00e3o reaparece na nova cidade, que quer ser igual \u00e0 velha, mas n\u00e3o \u00e9. A grava\u00e7\u00e3o do canto triste e desafinado de um p\u00e1ssaro inexistente \u00e9 o som que passa a acordar os moradores; os p\u00e9s de manga s\u00e3o \u00e1rvores infrut\u00edferas, sem juras de amor talhadas com canivete pelo garoto apaixonado; as cabras tristes j\u00e1 n\u00e3o reagem do mesmo modo. Tudo diz adeus, tudo se entristece, e esses detalhes parecem revelar as dificuldades de se viver em meio \u00e0 engana\u00e7\u00e3o do fingimento do que n\u00e3o \u00e9, lembrando disso n\u00e3o apenas os moradores, mas tamb\u00e9m o(a) leitor(a).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A cidade inexistente,<\/em> na mescla entre o real e o fantasioso, o que existe e o que \u00e9 inexistente, interliga hist\u00f3rias que, a partir do sofrimento individual e coletivo, exibem uma importante reflex\u00e3o sobre as perdas irrepar\u00e1veis a que uma popula\u00e7\u00e3o \u00e9 submetida quando h\u00e1 desapropria\u00e7\u00e3o do seu territ\u00f3rio em favor de uma constru\u00e7\u00e3o que dissimula apontar para o progresso. Essas perdas, para al\u00e9m do estrutural, na verdade se fincam na subjetividade de um eu que, mesmo tendo um teto e uma cidade, fica fraturado por j\u00e1 n\u00e3o ter a autenticidade de suas origens e, n\u00e3o tendo para onde ir nem retornar, passa, assim, a povoar uma esp\u00e9cie de n\u00e3o lugar. Na obra, existe uma circularidade e uma repeti\u00e7\u00e3o das cenas que comp\u00f5em o pr\u00f3logo e o ep\u00edlogo e apontam para diferentes possibilidades do desenrolar dos fatos, a depender de qual a\u00e7\u00e3o \u00e9 tomada pela popula\u00e7\u00e3o. Entre a rendi\u00e7\u00e3o e a resist\u00eancia, h\u00e1 uma escolha, o que deixa o(a) leitor(a) com vontade de ler um punhado a mais de p\u00e1ginas para continuar sabendo sobre o que essa comunidade, ao adquirir a consci\u00eancia do que essas perdas e fraturas lhe causam, far\u00e1 ao subir ou descer dos caminh\u00f5es carregados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SILVA, Felipe Teodoro da (2019). <em>S\u00f3 h\u00e1 labirintos<\/em>: (des)leituras da fic\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Rezende Jr. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Estudos da Linguagem) \u2013 Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-4486.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-4486\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/7-Letras-2019.webp\" data-caption-title=\"7 Letras, 2019\" data-attachment-id=\"2576\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"7 Letras, 2019\" width=\"250\" height=\"383\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2024\/09\/7-Letras-2019\/246755127.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22383%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20383%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">7 Letras, 2019<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>REZENDE JR., Jos\u00e9. 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