{"id":2564,"date":"2024-09-30T06:31:24","date_gmt":"2024-09-30T09:31:24","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2564"},"modified":"2025-11-12T18:02:09","modified_gmt":"2025-11-12T21:02:09","slug":"um-corpo-a-deriva-danca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2564","title":{"rendered":"Um corpo \u00e0 deriva"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">PEREIRA, Edimilson de Almeida. <em>Um corpo \u00e0 deriva<\/em>. Juiz de Fora: Macondo, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Luan Sabino Siqueira<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Catalina Chervin<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No poema \u201cCena de pesca de Tsoelike\u201d, Edimilson de Almeida Pereira (Juiz de Fora, MG, 1963) afirma, nos versos iniciais, que \u201ca mem\u00f3ria \u00e9\/um curso em parte\/naveg\u00e1vel\u201d. Com efeito, pode-se aplicar a senten\u00e7a ao romance <em>Um corpo \u00e0 deriva<\/em>, em que a mem\u00f3ria e a linguagem apresentam-se como os dois grandes personagens de uma narrativa que nos instiga a pensar de que modo o passado da escravid\u00e3o impactou \u2013 e, de certa forma, continua a impactar \u2013 a vida de pessoas negras na contemporaneidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Um corpo \u00e0 deriva<\/em> integra um conjunto de tr\u00eas romances publicados pelo autor simultaneamente no ano de 2020, marcando sua estreia, ap\u00f3s anos de dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 poesia e \u00e0 prosa ensa\u00edstica, na prosa de fic\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m desse romance, que foi semifinalista do Pr\u00eamio Oceanos, o escritor tamb\u00e9m publicou<em> Front<\/em> (Noz, 2020) e <em>O ausente<\/em> (Relic\u00e1rio, 2020), que juntos formam a trilogia intitulada \u201cN\u00e1usea\u201d, tendo o primeiro recebido o Pr\u00eamio S\u00e3o Paulo de Literatura e o \u00faltimo, o Pr\u00eamio Oceanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em primeiro lugar, definir o enredo de <em>Um corpo \u00e0 deriva<\/em> mostra-se uma tarefa ingrata, na medida em que o romance n\u00e3o opera propriamente com os procedimentos comuns \u00e0s narrativas tradicionais. Ao iniciarmos a leitura do livro, somos confinados em um apartamento, mais precisamente em um quarto, com outros dois personagens dos quais s\u00f3 nos \u00e9 revelado o nome de um, Tesfa, cuja origem \u00e9 et\u00edope e significa \u201cesperan\u00e7a\u201d. Trata-se de um casal que, ao final de uma tarde, combinou um duplo suic\u00eddio. Entretanto, o plano dos dois falha, e \u00e9 a partir desse ponto que passamos a acompanhar as reflex\u00f5es de cunho existencialista de ambos em torno da recusa de tal atitude extrema que implica na vida deles. A tens\u00e3o que se instaura entre o espa\u00e7o de dentro, reduzido \u00e0s quatro paredes de um apartamento em uma cidade qualquer do pa\u00eds, e o espa\u00e7o de fora, pontuado por ru\u00eddos, estampidos e barulhos que tentam invadir o interior do pr\u00e9dio, produz a n\u00e1usea que acomete os personagens, perpassando toda a atmosfera do romance: \u201cEsse pa\u00eds \u00e9 n\u00e1usea, Tesfa, mais que flor\u201d, sentencia uma das vozes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Investindo na linguagem como mola propulsora da trama, o livro apresenta uma sucess\u00e3o de discursos que se intercalam com o prop\u00f3sito de refletir acerca de formas com que os sujeitos v\u00edtimas das domina\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas podem trair a linguagem legada por seus algozes para que, a partir dela, consigam promover a liberta\u00e7\u00e3o dos corpos e das mentes: \u201cPrecisamos tomar de assalto a linguagem. Essa \u00e9 a \u00fanica maneira para mantermos nossas cabe\u00e7as acima da \u00e1gua\u201d. Sabe-se que os grandes empreendimentos coloniais utilizaram a linguagem como meio privilegiado de defini\u00e7\u00e3o do outro, o que, no limite, significou a domina\u00e7\u00e3o dos povos considerados inferiores. Dessa maneira, de acordo com Achille Mbembe (2018), o termo \u201cnegro\u201d foi criado para \u201csignificar exclus\u00e3o, embrutecimento e degrada\u00e7\u00e3o, ou seja, um limite sempre conjurado e abominado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de no romance n\u00e3o haver, em nenhum momento, men\u00e7\u00e3o \u00e0 palavra \u201cnegro\u201d, somos levados a identificar, naqueles personagens, viv\u00eancias, do passado e do presente, comuns \u00e0 comunidade afrodiasp\u00f3rica do pa\u00eds, em particular, e do territ\u00f3rio americano, em geral. Assim, operando um duplo movimento, o autor, ao mesmo tempo que recusa tais denomina\u00e7\u00f5es, prop\u00f5e reflex\u00f5es em torno da constitui\u00e7\u00e3o de um eu que tenta de diversas formas encontrar um caminho alternativo ao que lhe fora imposto pelo discurso dominante: \u201cSe narrar \u00e9 tirar do horror algum tra\u00e7o de humanidade, ent\u00e3o o que foi dito a meu respeito n\u00e3o tem sentido. Ao falarem sobre mim, me negaram essa humanidade. Mas eu sou, Tesfa, tu sabes. Eu sou\u201d. A batalha verbal travada entre Tesfa e a voz que diz \u201cEu\u201d apresenta personalidades que se complementam na diverg\u00eancia. Enquanto ele esbo\u00e7a em v\u00e1rios momentos certa esperan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao futuro, ela incorpora certa atitude niilista que p\u00f5e em d\u00favida as certezas dele: \u201cPercebes, Tesfa, a ordem \u00e9 concordar quando discordamos, entre a n\u00e9voa e a claridade. H\u00e1 muito que n\u00e3o somos e nos tocamos atrav\u00e9s da can\u00e7\u00e3o impiedosa dessa tarde\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo do romance, outras vozes s\u00e3o convidadas a participar da dan\u00e7a discursiva pontuada pela m\u00fasica de artistas como Elizeth Cardoso, Jimi Hendrix e Moacir Santos. Nesse sentido, o Velho angular \u00e9 a primeira voz a intervir na conversa do casal, representando uma figura ancestral que traz em si um sentido inaugural ao tratar dos temas do passado, trazendo-os para o presente e projetando-os no porvir. Sua visita serve para fazer ao casal de jovens uma s\u00e9rie de questionamentos que envolve a t\u00eanue linha que relaciona eventos como a travessia do Atl\u00e2ntico, a partir dos navios negreiros, e a cont\u00ednua explora\u00e7\u00e3o de povos que ainda hoje s\u00e3o obrigados a migrar em busca de direitos fundamentais, como o direito \u00e0 vida, \u00e0 moradia e ao bem-estar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As outras vozes que falam no romance pertencem a Chagas, artista pl\u00e1stico amigo do casal que, embora desaparecido, os assombra com a sua capacidade de se fazer permanentemente presente, tocando em feridas que insistem em n\u00e3o cicatrizar; e Fin, uma figura misteriosa, revivida por Chagas, e que, ao ser interpelado pelo Eu, lan\u00e7a enigmas em vez de oferecer respostas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No que toca \u00e0 linguagem propriamente dita com que o livro \u00e9 concebido, o romance apresenta uma clara filia\u00e7\u00e3o do texto em prosa ao discurso po\u00e9tico j\u00e1 trabalhado pelo autor em quase quarenta anos de atividade liter\u00e1ria. Desse modo, procedimentos e caracter\u00edsticas recorrentes na poesia de Edimilson de Almeida Pereira, como a explora\u00e7\u00e3o dos m\u00faltiplos significados de determinadas palavras, o trabalho com a sonoridade e os jogos lingu\u00edsticos, e o car\u00e1ter el\u00edptico na constru\u00e7\u00e3o de algumas frases, figuram aqui para auxiliar a constru\u00e7\u00e3o de uma prosa po\u00e9tica que, na literatura brasileira contempor\u00e2nea, encontra ecos em autores como Clarice Lispector e Raduan Nassar. N\u00e3o \u00e0 toa, a presen\u00e7a de poemas no corpo do romance gerou a publica\u00e7\u00e3o avulsa pela mesma casa editorial do volume <em>Ru\u00eddos <\/em>(2020), vendido de maneira independente ao romance como forma de pontuar as rela\u00e7\u00f5es existentes na obra entre prosa e poesia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao final do romance, a n\u00e1usea, que pode remeter tanto ao existencialismo sartriano quanto a algo mais pr\u00f3ximo de um afropessimismo, cede espa\u00e7o a um <em>groove<\/em> melanc\u00f3lico cada vez mais forte, dando vaz\u00e3o a uma expressividade que ajuda a compor um panorama discursivo que, ao falar da morte, reafirma o sentido da vida. \u00c9 dentro de um quarto-\u00fatero, esse lugar inimagin\u00e1vel, capaz de incendiar o sol, que os personagens de Edimilson de Almeida Pereira gestam, a partir da linguagem, seus planos de vingan\u00e7a, dando a ver o desejo de se tornarem, finalmente, corpos incaptur\u00e1veis. Afinal, como os personagens afirmam, o que queremos da linguagem \u00e9 \u201ctudo que nos permita ser no mundo sem que nossas costas se curvem\u201d; Guimar\u00e3es Rosa, por sua vez, nos diz em seu <em>Grande Sert\u00e3o: veredas<\/em>, outra travessia promovida atrav\u00e9s da linguagem, que o que a vida requer de n\u00f3s \u00e9 coragem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MBEMBE, Achille (2018). <em>Cr\u00edtica da raz\u00e3o negra<\/em>. Trad. Sebasti\u00e3o Nascimento. S\u00e3o Paulo: n-1 edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PEREIRA, Edimilson de Almeida (2020). Entrevista a Paula de Carvalho. <em>Quatro cinco um<\/em>: a revista dos livros. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.quatrocincoum.com.br\/br\/entrevistas\/fichamento\/edimilson-de-almeida-pereira\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.quatrocincoum.com.br\/br\/entrevistas\/fichamento\/edimilson-de-almeida-pereira<\/a>. Acesso em: 24 out. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SILVA, Alen das Neves; ALVES, Anamaria (2022). Derivar para buscar o humano integral: a esperan\u00e7a no corpo. <em>Literafro<\/em>: o portal da literatura afro-brasileira. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.letras.ufmg.br\/literafro\/resenhas\/ficcao\/1686-edimilson-de-almeida-pereira-um-corpo-a-deriva\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">http:\/\/www.letras.ufmg.br\/literafro\/resenhas\/ficcao\/1686-edimilson-de-almeida-pereira-um-corpo-a-deriva<\/a>. Acesso em: 10 jun. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-4490.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-4490\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Macondo-2020.webp\" data-caption-title=\"Macondo, 2020\" data-attachment-id=\"2566\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Macondo, 2020\" width=\"250\" height=\"385\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2024\/09\/Macondo-2020\/3216726358.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22385%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20385%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Macondo, 2020<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PEREIRA, Edimilson de Almeida. 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