{"id":2453,"date":"2024-09-30T15:17:04","date_gmt":"2024-09-30T18:17:04","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2453"},"modified":"2025-11-12T17:59:21","modified_gmt":"2025-11-12T20:59:21","slug":"o-cachorro-e-o-lobo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2453","title":{"rendered":"O cachorro e o lobo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">TORRES, Ant\u00f4nio. <em>O cachorro e o lobo<\/em>. Rio de Janeiro: Record, 1997.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Lilian Reichert Coelho<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Esp\u00edrito Objeto<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\"><em>Um c\u00e3o uivando para a lua<\/em> (1972) \u00e9 o t\u00edtulo do primeiro romance de Ant\u00f4nio Torres (S\u00e1tiro Dias, BA, 1940) e uma frase que atravessa outros livros do escritor baiano. O c\u00e3o \u00e9 o ser humano enlouquecido, perdido entre diversos medos: da sociedade brasileira que se expande com as ilus\u00f5es do capitalismo para o urbano ca\u00f3tico, deteriorando os sujeitos e as rela\u00e7\u00f5es; da press\u00e3o do mundo do trabalho, do consumo e do desemprego. E, apesar disso, reconhece a beleza da lua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em diversos romances, os personagens de Ant\u00f4nio Torres est\u00e3o no limiar subjetivo e de tempos e espa\u00e7os coexistentes e contradit\u00f3rios, na vida pacata de algum povoado esquecido por Deus e ponto de expuls\u00e3o de migrantes (nomeado ou n\u00e3o, o Junco, distrito de Inhambupe, hoje munic\u00edpio de S\u00e1tiro Dias, na Bahia, cidade natal do escritor) ou na comodidade vazia da vida moderna da cidade grande. E se confortam na mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O cachorro e o lobo<\/em> \u00e9 o oitavo romance de Torres e o segundo livro da trilogia da migra\u00e7\u00e3o, do suic\u00eddio e das mem\u00f3rias de Totonhim. A trilogia se iniciou com a publica\u00e7\u00e3o de <em>Essa terra<\/em> (1976) e foi conclu\u00edda com <em>Pelo fundo da agulha<\/em> (2006). Em 2022, para comemorar os 50anos de atua\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de Ant\u00f4nio Torres, a editora Record publicou a <em>Trilogia Brasil<\/em>, reunindo os tr\u00eas romances num \u00fanico volume. No final do primeiro livro, o jovem Totonhim decide ir para S\u00e3o Paulo, seguindo a sina de seu irm\u00e3o mais velho, Nelo, adorado pelos pais, que havia partido 20 anos antes em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e retorna derrotado. Sente-se impelido a deixar Junco rumo a S\u00e3o Paulo por temer a associa\u00e7\u00e3o com o irm\u00e3o suicida, condenado que jamais ter\u00e1 o perd\u00e3o do povo nem de Deus, como apregoa o \u201caluado\u201d Alcino na pequena pra\u00e7a do lugarejo que vive conforme o calend\u00e1rio dos festejos cat\u00f3licos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O cachorro e o lobo<\/em> \u00e9 composto por cinco partes: \u201cO telefonema\u201d, \u201cManh\u00e3\u201d, \u201cTarde\u201d, \u201cNoite\u201d e \u201cA despedida\u201d. A liga\u00e7\u00e3o da irm\u00e3 No\u00eamia provoca o deslocamento de Totonhim, ap\u00f3s d\u00e9cadas de dist\u00e2ncia e sil\u00eancio, uma viagem que durar\u00e1 24 horas. <em>O cachorro e o lobo <\/em>\u00e9 o mais centrado em afetividades dentre os romances da trilogia, sem a afli\u00e7\u00e3o e a tristeza de <em>Essa terra<\/em> ou a melancolia do homem envelhecido, aposentado, sem esperan\u00e7a, de <em>Pelo fundo da agulha<\/em>, embora tamb\u00e9m esteja permeado pela constata\u00e7\u00e3o da perman\u00eancia da dureza das condi\u00e7\u00f5es de vida no povoado em face das modernidades e transforma\u00e7\u00f5es entendidas pelo narrador como incontorn\u00e1veis. Isso al\u00e9m dos fantasmas, sendo o mais not\u00e1vel o de Nelo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O telefone \u00e9 o artefato disparador da viagem e da mem\u00f3ria, mas a imagem da modernidade mais acentuada \u00e0 que o narrador recorre em <em>O cachorro e o lobo<\/em> \u00e9 a antena parab\u00f3lica, a condensar a t\u00f4nica de um tempo que corr\u00f3i mundos antigos rememorados com nostalgia. Ela simboliza mudan\u00e7as irrefre\u00e1veis e interfere nas mem\u00f3rias de Totonhim, que acreditava na ideia de voltar para sua terra natal e reconhec\u00ea-la tal como era em sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, oferecendo-lhe o conforto de um ref\u00fagio intacto. Entretanto, n\u00e3o nota tantas equival\u00eancias entre o que v\u00ea e o que ret\u00e9m na mem\u00f3ria. Do passado \u2013 e da pr\u00f3pria vida \u2013 sobra apenas um \u201ccaco de telha\u201d da casa da inf\u00e2ncia. O olhar do narrador n\u00e3o \u00e9 inocentemente nost\u00e1lgico, mas de constata\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo perturbadora e fatalista, da cis\u00e3o entre a contemporaneidade e o passado, entre S\u00e3o Paulo e o Junco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cachorro do t\u00edtulo \u00e9 o pr\u00f3prio narrador (tanto se refere ao c\u00e3o uivando para a lua quanto ao fato de o pai e outros personagens o chamarem de \u201cseu cachorro!\u201d), e o lobo \u00e9 o pai, Seu Totonho, que o filho esperava encontrar derrotado pelo tempo e pela precariedade do Junco. O pesquisador Rog\u00e9rio Gon\u00e7alves (2014) destaca que o cachorro pode ser interpretado como o filho domesticado pela sociedade urbana, enquanto o pai \u00e9 o lobo em sua vida ainda livre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O tema principal da narrativa \u00e9 a celebra\u00e7\u00e3o do reencontro atravessado pelas mem\u00f3rias, sem tens\u00f5es ou apreens\u00f5es, mesmo ap\u00f3s d\u00e9cadas de aus\u00eancia e sil\u00eancio de Totonhim. Tudo \u00e9 aparentemente simples como a linguagem, com frases curtas, inser\u00e7\u00e3o de elementos da oralidade e do palavreado popular para fabular sobre o modo de ser das pessoas do Junco, principalmente do velho Totonho. A prosa se desenvolve na primeira pessoa e o tempo transcorre de modo linear; no entanto, a progress\u00e3o \u00e9 entrecortada por rememora\u00e7\u00f5es do narrador em movimentos temporais diversos que incluem imagens, refer\u00eancias liter\u00e1rias e do cancioneiro popular, coment\u00e1rios bem-humorados e espirituosos, ditos populares ou arremates jocosos sobre pessoas e situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O olhar do narrador para o personagem do pai, seu Totonho, ambos Ant\u00e3o por nascimento, \u00e9 de sensibilidade movida n\u00e3o apenas pelo amor filial, mas pela ternura por um ser humano ao mesmo tempo raro e comum. A admira\u00e7\u00e3o pelo pai transborda tanto das lembran\u00e7as quanto de di\u00e1logos (imaginados e acontecidos) e do conv\u00edvio de apenas um dia. Enquanto a fam\u00edlia repele o velho por ser alco\u00f3latra, por falar com fantasmas e galinhas e se opor \u00e0s modernidades que j\u00e1 chegaram ao Junco, Totonhim v\u00ea amorosidade intuitiva e espont\u00e2nea em sua acolhida, em sua rela\u00e7\u00e3o tel\u00farica com a natureza, a antiga casa e as pessoas do lugar. Mas tudo isso n\u00e3o pertence a ele, que deve regressar \u00e0 vida de funcion\u00e1rio p\u00fablico na cidade grande, \u00e0 mulher e aos filhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu Totonho \u00e9 o guardi\u00e3o de um mundo antigo e ainda resistente, em processo de perda de uma autenticidade popular. A simplicidade do pai fascina Totonhim, comparada \u00e0 vida na capital financeira do pa\u00eds, que \u00e9 apenas aludida em<em> O cachorro e o lobo<\/em>. Seu Totonho n\u00e3o \u00e9 um homem simpl\u00f3rio; ao contr\u00e1rio, \u00e9 um personagem que representa uma das imagens presentes no imagin\u00e1rio sobre o sertanejo como aquele que dribla as adversidades com humor. Totonhim, n\u00e3o, talvez por se sentir fracassado. Por isso precisa tanto da mem\u00f3ria e da terra natal, da fam\u00edlia, da primeira namorada, da \u00e9poca passada que idealiza, mas v\u00ea como perdida. Essa melancolia ante a pr\u00f3pria vida pode ser associada tamb\u00e9m ao pa\u00eds e aos resultados dos discursos e pr\u00e1ticas sobre o progresso, ambos culminando em fracasso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os encontros e o empenho memorial\u00edstico preenchem as 24 horas de Totonhim no Junco, confirmando a possibilidade de rela\u00e7\u00f5es humanas pr\u00f3ximas e afetivas, mesmo no mundo de hoje (talvez n\u00e3o para Totonhim na sua vida na capital). A esses movimentos conjugam-se an\u00e1lises e coment\u00e1rios sociais ou filos\u00f3ficos que n\u00e3o se configuram como meros toques decorativos ou pausas narrativas, mas como revela\u00e7\u00e3o de uma \u00e9tica de resist\u00eancia ao mundo que se transforma a partir das tens\u00f5es entre o local e o global, o sert\u00e3o e a metr\u00f3pole.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">As diferen\u00e7as entre a vida em centros urbanos e no interior s\u00e3o ainda desafios para a arte, o pensamento social, as pol\u00edticas p\u00fablicas, demarcando o imagin\u00e1rio social e a literatura brasileira contempor\u00e2nea, com os debates sobre regionalismo e a \u00eanfase da produ\u00e7\u00e3o sobre contextos urbanos. Torres dialoga com a literatura can\u00f4nica que tematiza o sert\u00e3o (ALMEIDA, 2021), propondo uma leitura que se desvia de idealiza\u00e7\u00f5es ou da trag\u00e9dia da seca, da fome e do coronelismo. Num presente como o da terceira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, em que a vis\u00e3o dominante sobre o rural transita da ideologia do atraso para uma imagem positiva do agroneg\u00f3cio, a afirma\u00e7\u00e3o de Ant\u00f4nio Torres sobre progresso e desenvolvimento como fal\u00e1cias que impactam nas subjetividades de narradores e personagens no Brasil contempor\u00e2neo pelo processo da globaliza\u00e7\u00e3o permanece relevante. <em>O cachorro e o lobo<\/em> interessa a pesquisadores\/as dos regionalismos e das rela\u00e7\u00f5es entre literatura e mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ALMEIDA, Adriana Soares de (2021). <em>A morte de si pelo sert\u00e3o da mem\u00f3ria<\/em>: uma an\u00e1lise do universo liter\u00e1rio de Ant\u00f4nio Torres. Tese (Doutorado em Literatura e Cultura) \u2013 Instituto de Letras, Universidade Federal da Bahia, Salvador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GON\u00c7ALVES, Rog\u00e9rio Gustavo (2014). O cachorro e o lobo, de Ant\u00f4nio Torres: e edifica\u00e7\u00e3o de um sert\u00e3o ameno. <em>Revista Verbo de Minas<\/em>, v. 15, n. 26, p. 74-90. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/seer.uniacademia.edu.br\/index.php\/verboDeMinas\/article\/view\/466\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/seer.uniacademia.edu.br\/index.php\/verboDeMinas\/article\/view\/466<\/a>. Acesso em: 26 jul. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GON\u00c7ALVES, Rog\u00e9rio Gustavo (2014). <em>O percurso da mem\u00f3ria nos romances de Ant\u00f4nio Torres<\/em>: a constitui\u00e7\u00e3o do eu na fronteira entre o sert\u00e3o e a cidade. Tese (Doutorado Letras) \u2013 Instituto de Bioci\u00eancias, Letras e Ci\u00eancias Exatas, Universidade Estadual Paulista J\u00falio de Mesquita Filho, S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SANTOS, Cl\u00e9lia Gomes dos (2020). <em>As recorr\u00eancias e metamorfoses da fuga<\/em>: os desdobramentos da migra\u00e7\u00e3o nordestina em narrativas de Ant\u00f4nio Torres. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Letras) \u2013 Departamento de Estudos Lingu\u00edsticos e Liter\u00e1rios, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Candeias. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SILVEIRA, Manoela Falcon (2014). <em>A reconfigura\u00e7\u00e3o da nordestinidade<\/em>: imagens do espa\u00e7o Nordeste em \u00c1rido Movie, 2000 Nordestes e na trilogia do escritor Ant\u00f4nio Torres. Tese (Doutorado em Literatura e Cultura) \u2013 Instituto de Letras, Universidade Federal da Bahia, Salvador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-4451.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-4451\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; 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