{"id":2411,"date":"2024-09-27T09:39:45","date_gmt":"2024-09-27T12:39:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2411"},"modified":"2026-03-23T13:16:01","modified_gmt":"2026-03-23T16:16:01","slug":"um-defeito-de-cor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2411","title":{"rendered":"Um defeito de cor"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\"><mark style=\"background-color:#e1dede\" class=\"has-inline-color\">GON\u00c7ALVES, Ana Maria. <em>Um defeito de cor<\/em>. Rio de Janeiro: Record, 2006.<\/mark><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Maria Aparecida Cruz de Oliveira<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Ruben Zacarias<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A produ\u00e7\u00e3o de <em>Um defeito de cor<\/em>, da escritora Ana Maria Gon\u00e7alves (Ibi\u00e1, MG, 1970), compreendeu uma pesquisa documental de 24 meses e um processo de escrita e reescrita de tr\u00eas anos. Em setembro de 2022, 16 anos ap\u00f3s a edi\u00e7\u00e3o de estreia, a Record publicou uma reedi\u00e7\u00e3o especial, com novo projeto gr\u00e1fico e obras da artista premiada Rosana Paulino. Essa reedi\u00e7\u00e3o apresenta um itiner\u00e1rio visual no in\u00edcio do livro e na entrada de cada cap\u00edtulo que funciona como uma intera\u00e7\u00e3o, uma proposta de leitura e interpreta\u00e7\u00e3o do livro. Conta, tamb\u00e9m, com uma colabora\u00e7\u00e3o, a pe\u00e7a ficcional da escritora Cidinha da Silva, em substitui\u00e7\u00e3o \u00e0 tradicional orelha do livro. Al\u00e9m disso, a edi\u00e7\u00e3o especial presenteia o leitor com o conto afrofuturista in\u00e9dito&nbsp;&#8220;Ancestars&#8221;, que faz um di\u00e1logo com a narrativa do livro, com hist\u00f3rias do passado, do presente e do futuro ancestral. &#8220;Ancestars&#8221; \u00e9 a primeira e aguardada narrativa de Ana Maria Gon\u00e7alves ap\u00f3s o lan\u00e7amento de&nbsp;<em>Um defeito de cor<\/em>. Ainda, para brindar a sa\u00fade do livro, em fevereiro de 2024, uma das edi\u00e7\u00f5es ficou esgotada, duas vezes, depois de a obra servir de base para o samba-enredo da Portela, que ganhou Estandarte de Ouro de melhor escola, enredo e personalidade do Carnaval.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse romance brasileiro de 947 p\u00e1ginas mistura fic\u00e7\u00e3o e fatos hist\u00f3ricos. Os elementos historiogr\u00e1ficos est\u00e3o imersos na viv\u00eancia cotidiana das personagens. Previamente, na dedicat\u00f3ria do livro, a autora deixa ind\u00edcios de sua filia\u00e7\u00e3o ao g\u00eanero do romance hist\u00f3rico ao mencionar agradecimentos a historiadores, soci\u00f3logos e antrop\u00f3logos, que serviram de fontes de inspira\u00e7\u00e3o e consulta para a composi\u00e7\u00e3o da obra. Esse registro \u00e9 reiterado, por meio de paratexto, no final do livro, com as refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas que orientaram a escrita da autora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar da possibilidade de a obra ser lida como romance hist\u00f3rico, sua trama \u00e9 narrada em primeira pessoa sob a perspectiva de uma mulher negra idosa. A presen\u00e7a dessa narradora traz um elemento inovador ao g\u00eanero, pois, no romance hist\u00f3rico cl\u00e1ssico, as mulheres n\u00e3o t\u00eam voz, porque a narrativa era sempre apresentada em uma perspectiva masculina. No romance, a linguagem \u00e9 um destaque e de imediato j\u00e1 convida o leitor a entrar em outra cosmogonia, seja pelo simples uso de dez ep\u00edgrafes, com prov\u00e9rbios africanos na entrada dos cap\u00edtulos, seja pela estrat\u00e9gia das notas de rodap\u00e9 com explica\u00e7\u00e3o de termos que conectam o leitor com o mundo lingu\u00edstico e cultural da narradora africana: <em>ib\u00eaji<\/em>, <em>abiku<\/em>, <em>malame<\/em>, <em>olorum<\/em>, <em>agontim\u00e9<\/em>, <em>Ori<\/em>, <em>obi<\/em>, <em>omi<\/em>, <em>oriki<\/em>, <em>ayo<\/em>, <em>Ayzan<\/em>, <em>Sogb\u00f4<\/em>, <em>Agu\u00ea<\/em>, <em>eguns <\/em>etc.; &nbsp;ou express\u00f5es como: <em>Ka\u00f4 kabiecile oba Sango<\/em>: uma sauda\u00e7\u00e3o especial a Xang\u00f4.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A obra tamb\u00e9m se sobressai pela constru\u00e7\u00e3o de uma hero\u00edna complexa, Kehinde, que \u00e9 v\u00edtima do capitalismo colonial, mas que tamb\u00e9m pode se valer dele. \u00c9 a saga de uma africana idosa, quase nonagen\u00e1ria, que retorna da \u00c1frica para o Brasil em busca do filho roubado e vendido pelo pai portugu\u00eas. Ao longo dessas encruzilhadas, ela escreve suas mem\u00f3rias, marcadas por sequestro, abusos, estupros, perdas, viol\u00eancias e escravid\u00e3o, enfim, todos os ingredientes de uma viv\u00eancia colonial. Kehinde foi inspirada na figura hist\u00f3rica de Lu\u00edsa Mahin, m\u00e3e do poeta Lu\u00eds Gama e participante da Revolta dos Mal\u00eas, movimento importante liderado por escravizados mu\u00e7ulmanos a favor da Aboli\u00e7\u00e3o. No entanto, a personagem n\u00e3o foi constru\u00edda apenas com elementos dela, mas \u00e9 um mosaico de muitas outras mulheres negras brasileiras. Nessas circunst\u00e2ncias, a fic\u00e7\u00e3o amplia o campo de int\u00e9rpretes negros da na\u00e7\u00e3o e se inscreve em um contexto hist\u00f3rico importante na forma\u00e7\u00e3o do povo brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro foi dividido em dez cap\u00edtulos. O primeiro \u00e9 mais breve, com 15 subt\u00edtulos, por\u00e9m traz uma narrativa intensa: Kehinde apresenta ao leitor a origem dos seus deslocamentos territoriais for\u00e7ados, o in\u00edcio de um processo motivado pela viol\u00eancia colonial, pelas atitudes brutais que sustentam o projeto colonial, o qual a trouxe ao Brasil em um navio negreiro. Tudo come\u00e7a em 1910, quando uma menina de seis anos, de Savalu, reino de Daom\u00e9, \u00c1frica, \u00e9 obrigada a sair de sua terra com sua irm\u00e3 Taiwo e sua av\u00f3 D\u00far\u00f3jaiy, depois que sua m\u00e3e, D\u00far\u00f3or\u00edlke, e irm\u00e3o, Kokumo, s\u00e3o mortos pelos \u201cguerreiros\u201d do rei Adandozan. Viajam para o litoral, Uid\u00e1, mas l\u00e1 n\u00e3o ficam livres da viol\u00eancia colonial, pois as irm\u00e3s g\u00eameas s\u00e3o capturadas para serem levadas ao Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os demais cap\u00edtulos s\u00e3o marcados pelos seguintes acontecimentos: desembarque da protagonista na Ilha dos Frades e sua venda, no mercado, para o fazendeiro Sinh\u00f4 Jos\u00e9 Carlos; a inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia na casa-grande, na senzala pequena e na senzala grande, onde vai conhecer a face explicitamente mais dura da escravid\u00e3o; segue-se, ent\u00e3o, a vida da protagonista agora na cidade, no Solar da Sinh\u00e1 Ana Felipa; conhece-se uma cerim\u00f4nia de batismo na cultura iorub\u00e1, a consagra\u00e7\u00e3o, cerim\u00f4nia de nome Banjok\u00f4; finalmente se avan\u00e7a para o in\u00edcio dos fatos que levam Kehinde a conquistar autonomia e liberdade, o trabalho de ganhadeira com a venda de <em>cookies<\/em>; por fim, a narrativa apresenta os avan\u00e7os, os desdobramentos das conquistas e a autonomia de Kehinde, bem como os limites.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Um defeito de cor<\/em> \u00e9 uma carta-convite para se conhecer o Brasil. O t\u00edtulo do livro exige a nossa aten\u00e7\u00e3o se quisermos elaborar uma leitura acertada da obra e do pa\u00eds. Isso porque ele denuncia o racismo estrutural que nega aos(\u00e0s) negros(as) o direito \u00e0 subjetividade. \u00c9 problematizada uma estrutura racista que v\u00ea algumas pessoas meramente como \u201cra\u00e7a\u201d e faz delas \u201csujeitos incompletos\u201d no sentido de que lhes s\u00e3o vedadas certas esferas de subjetividade: pol\u00edtica, social e individual. Em contraponto, as hist\u00f3rias de negros(as) assumem o protagonismo no livro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dessa forma, essa obra vencedora do Pr\u00eamio Casa de las Am\u00e9ricas problematiza uma ferida que nunca foi tratada: o racismo. \u00c9 a narrativa da coloniza\u00e7\u00e3o brasileira apresentada em seu estado bruto, com as proje\u00e7\u00f5es de problemas que persistem no Brasil contempor\u00e2neo, uma vez que, nessa trama, o racismo n\u00e3o \u00e9 pensado apenas como refer\u00eancia de um passado colonial, mas tamb\u00e9m como uma realidade traum\u00e1tica, que ainda tem sido negligenciada. Enquanto narrativa das g\u00eaneses de um Brasil fundamentalmente colonial, \u00e9 uma longa hist\u00f3ria de sil\u00eancio imposto, vozes silenciadas, torturadas, l\u00ednguas africanas rompidas, l\u00edngua colonial imposta (portuguesa), discursos interrompidos e impedidos. Mas, al\u00e9m disso, \u00e9 um arranjo de voz da resist\u00eancia, \u00e9 a busca por apresentar nossa hist\u00f3ria silenciada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ler <em>Um defeito de cor<\/em> \u00e9 dialogar com as manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, culturais e hist\u00f3ricas de um pa\u00eds diverso. \u00c9 contemplar a exalta\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria ancestral africana no Brasil, que, apesar da hist\u00f3ria de viol\u00eancia, tem sido exemplo de resist\u00eancia cultural, religiosa e art\u00edstica. De tal modo, essa leitura nos traz a esperan\u00e7a da possibilidade de projetarmos um pa\u00eds justo para todos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">OLIVEIRA, Maria Aparecida Cruz de (2021). <em>Meninas negras no romance afro-brasileiro<\/em><em>. <\/em>Bras\u00edlia: Edi\u00e7\u00f5es Carolina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">OLIVEIRA, Maria Aparecida Cruz de (2019). <em>Representa\u00e7\u00f5es decoloniais: <\/em>as meninas negras no romance afro-brasileiro contempor\u00e2neo. Tese (Doutorado em Literatura) \u2013 Universidade de Bras\u00edlia, Bras\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MIRANDA, Fernanda Rodrigues de; OLIVEIRA, Maria Aparecida Cruz de (Orgs.) <em>Ana Maria Gon\u00e7alves<\/em>: cartografia cr\u00edtica (2020)<em>. <\/em>Bras\u00edlia: Edi\u00e7\u00f5es Carolina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><\/figure>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-4395.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-4395\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Record-2006.webp\" data-caption-title=\"Record, 2006\" data-attachment-id=\"2421\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Record, 2006\" width=\"250\" height=\"375\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2024\/09\/Record-2006\/466149676.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22375%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20375%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Record, 2006<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Record.-2022.webp\" data-caption-title=\"Record, 2022\" data-attachment-id=\"2420\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img decoding=\"async\" title=\"Record, 2022\" width=\"250\" height=\"375\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2024\/09\/Record_-2022\/1421480707.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22375%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20375%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Record, 2022<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GON\u00c7ALVES, Ana Maria. 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