{"id":1374,"date":"2024-06-05T14:03:26","date_gmt":"2024-06-05T14:03:26","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=1374"},"modified":"2025-11-12T18:02:09","modified_gmt":"2025-11-12T21:02:09","slug":"poncia-vicencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=1374","title":{"rendered":"Ponci\u00e1 Vic\u00eancio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">EVARISTO, Concei\u00e7\u00e3o. <em>Ponci\u00e1 Vic\u00eancio<\/em>. Belo Horizonte: Mazza, 2003.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Aline Alves Arruda<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Thais Reis<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA cren\u00e7a era o \u00fanico bem que ela havia trazido para enfrentar uma viagem que durou tr\u00eas dias e tr\u00eas noites\u201d. Essa frase \u00e9 dita pelo narrador de <em>Ponci\u00e1 Vic\u00eancio<\/em>, romance de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo (Belo Horizonte, MG, 1946), quando a protagonista que d\u00e1 nome ao livro faz a primeira viagem de sua vida, saindo de sua terra natal, em um interior qualquer do Brasil, em dire\u00e7\u00e3o a uma cidade grande, provavelmente uma capital, em busca de condi\u00e7\u00f5es melhores de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Ponci\u00e1 Vic\u00eancio<\/em> \u00e9 o primeiro romance de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo e vem sendo tema de artigos e discuss\u00f5es no meio acad\u00eamico desde sua publica\u00e7\u00e3o em 2003. Adotado em provas de vestibular desde 2008, o livro foi traduzido para o ingl\u00eas, franc\u00eas e italiano (este ainda in\u00e9dito). A obra narra problemas do cotidiano das mulheres afrodescendentes sob um ponto de vista claramente feminino e negro. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de <em>Ponci\u00e1 Vic\u00eancio<\/em>, a autora publicou tamb\u00e9m, em 2006, o romance <em>Becos da mem\u00f3ria<\/em>, o qual narra a hist\u00f3ria de personagens que vivem em uma favela que est\u00e1 para ser desfeita; em 2008, <em>Poemas de recorda\u00e7\u00e3o e outros movimentos<\/em>; em 2011, o livro de contos <em>Insubmissas l\u00e1grimas de mulheres<\/em> (reeditado em 2016); em 2014, o premiado <em>Olhos d\u2019\u00e1gua<\/em>, tamb\u00e9m de contos; em 2016, <em>Hist\u00f3rias de leves enganos e parecen\u00e7as<\/em> (reeditado em 2017), livro de contos e novelas; e, em 2018, o mais recente <em>Can\u00e7\u00e3o para ninar menino grande<\/em> (reeditado em 2022).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O enredo de <em>Ponci\u00e1 Vic\u00eancio<\/em> tra\u00e7a a trajet\u00f3ria de uma mulher negra, a protagonista que d\u00e1 nome ao livro, desde sua inf\u00e2ncia at\u00e9 a idade adulta. Ponci\u00e1 mora com a m\u00e3e, Maria Vic\u00eancio, na Vila Vic\u00eancio, que concentra, no interior do Brasil, uma popula\u00e7\u00e3o de descendentes de escravizados. Seu pai e seu irm\u00e3o trabalham na lavoura para a fam\u00edlia Vic\u00eancio, que \u00e9 dona das terras onde todos moram e trabalham, al\u00e9m de serem os donos do sobrenome dos habitantes da vila, como a fam\u00edlia de Ponci\u00e1. O romance tem uma hist\u00f3ria fragmentada em que, atrav\u00e9s de <em>flashbacks<\/em>, se narra a inf\u00e2ncia da menina na vila junto da m\u00e3e, com quem faz artesanato com barro. O narrador em terceira pessoa nos leva ao \u00edntimo dos personagens e \u00e0 introspec\u00e7\u00e3o por meio do uso do discurso indireto livre ao longo de toda a narrativa. \u00c9 dessa forma, misturando as vozes de narrador e personagens, que conhecemos a alegria da menina Ponci\u00e1, que, seguindo uma crendice popular brasileira, brincava de passar debaixo do arco-\u00edris com medo de mudar de sexo e se mostrava diferente desde crian\u00e7a, principalmente por sua semelhan\u00e7a f\u00edsica com o av\u00f4 Vic\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O romance de Evaristo pode ser lido como um livro despretensioso do p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o no que diz respeito \u00e0 cultura afro-brasileira. No entanto, diferentemente de outro romance publicado anos depois, o <em>best seller<\/em> <em>Torto Arado<\/em>, de Itamar Vieira Junior, o romance da escritora mineira, ancorado na cultura banto \u2013 dos povos africanos trazidos das partes central e meridional da \u00c1frica para estados brasileiros como Minas Gerais \u2013, permite uma leitura afrocentrada nas entrelinhas de sua narrativa. Na passagem do arco-\u00edris, por exemplo, na primeira p\u00e1gina do livro, o fen\u00f4meno \u00e9 denominado pelo narrador como \u201cangor\u00f4\u201d \u2013 palavra africana de origem banto que representa um <em>inkice<\/em>, uma divindade correspondente tamb\u00e9m ao orix\u00e1 Oxumar\u00e9 na na\u00e7\u00e3o ketu e no candombl\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas e outras alus\u00f5es afro-brasileiras permeiam a narrativa de Ponci\u00e1 e sua fam\u00edlia numa escrita muito po\u00e9tica e l\u00edrica, marcando o in\u00edcio do que hoje j\u00e1 se conhece como o estilo de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, o seu \u201cbrutalismo po\u00e9tico\u201d, conforme nomeado pelo pesquisador Eduardo Duarte. Assim, a hist\u00f3ria da personagem Ponci\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil, como a da popula\u00e7\u00e3o feminina e negra que ela representa neste pa\u00eds. A mem\u00f3ria coletiva evocada pela autora mineira em seu romance de estreia atrav\u00e9s de sua personagem principal confirma a descend\u00eancia escrava na vida dif\u00edcil que a mo\u00e7a leva, nos sonhos apagados pela discrimina\u00e7\u00e3o e pela marginaliza\u00e7\u00e3o que tanto ela quanto os seus familiares sofrem. A personagem passa, ent\u00e3o, pelo que Orlando Patterson (1982) denomina \u201cmorte social\u201d, ou seja, a invisibilidade diante da sociedade. Sua condi\u00e7\u00e3o social e cultural continua, portanto, sendo regida pelo passado africano. Sua trajet\u00f3ria do espa\u00e7o rural para o urbano representa sua condi\u00e7\u00e3o diasp\u00f3rica. Dessa forma, mesmo que a viagem feita pela menina em sua procura pessoal n\u00e3o seja a viagem transnacional citada pelos estudiosos da di\u00e1spora, aquela se constitui numa met\u00e1fora desta, uma esp\u00e9cie de \u201cdi\u00e1spora interna\u201d, ou seja, a viagem de Ponci\u00e1 e de tantos brasileiros dentro do seu pr\u00f3prio pa\u00eds em busca de uma vida melhor. A passagem em que a menina faz a viagem de trem para a cidade, descrita na frase inicial desta resenha, confirma essa associa\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m dessa jornada, outras ser\u00e3o feitas no romance, confirmando a saga da fam\u00edlia, a descend\u00eancia herdada para simbolizar os deslocamentos feitos desde as navega\u00e7\u00f5es intercontinentais a que foram for\u00e7ados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O romance de Evaristo, situado no s\u00e9culo XX, traz o emblema do Atl\u00e2ntico negro como o trouxe tamb\u00e9m a maranhense Maria Firmina dos Reis no s\u00e9culo XIX. <em>\u00darsula<\/em>, o primeiro romance publicado por uma mulher no Brasil, em 1859, foi totalmente desconsiderado pela grande maioria dos historiadores liter\u00e1rios por muitos anos; nele, h\u00e1 um cap\u00edtulo inteiro narrado na primeira pessoa em que a personagem africana Suzana descreve as agruras vividas no navio negreiro rumo ao Brasil. Carolina Maria de Jesus, inspira\u00e7\u00e3o declarada de Concei\u00e7\u00e3o, transp\u00f4s a voz dos exclu\u00eddos para a literatura em seu <em>Quarto de despejo: di\u00e1rio de uma favelada<\/em> (1960), expondo ao leitor o pensamento, a a\u00e7\u00e3o e a consci\u00eancia afrodescendente. Carolina, assim como Concei\u00e7\u00e3o, traz em sua biografia a hist\u00f3ria da di\u00e1spora. As escritoras mineiras sa\u00edram de seus lugares de origem para cidades maiores, repetindo a hist\u00f3ria de Ponci\u00e1 e de tantos outros afrodescendentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo afirma que \u201ca literatura negra \u00e9 um lugar de mem\u00f3ria\u201d. Essa literatura, que traz para o leitor as marcas desse passado n\u00e3o t\u00e3o distante, precisa dessa mem\u00f3ria para reafirmar sua identidade e sua cultura. A mem\u00f3ria diasp\u00f3rica, coletiva ou individual, \u00e9 a marca do escritor afro-brasileiro, sua motiva\u00e7\u00e3o e maneira de resgatar o passado, de livr\u00e1-lo do esquecimento em que a sociedade brasileira teima em permanecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ARRUDA, Aline Alves (2007). Ponci\u00e1 Vic\u00eancio<em>, de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo<\/em>: um <em>Bildungsroman <\/em>feminino e negro. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Teoria da Literatura) \u2013 Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DIOGO, Ros\u00e1lia Estelita Greg\u00f3rio (2013).&nbsp;<em>Paulina Chiziane e Concei\u00e7\u00e3o Evaristo<\/em>: escritas de resist\u00eancia. Tese (Doutorado em Literaturas de L\u00edngua Portuguesa) \u2013 Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Minas Gerais, Belo Horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MARINGOLO, C\u00e1tia Cristina Bocai\u00fava (2014). Ponci\u00e1 Vic\u00eancio<em> e <\/em>Becos da mem\u00f3ria<em>, de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo:<\/em> construindo hist\u00f3rias por meio de retalhos de mem\u00f3ria. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Estudos Liter\u00e1rios) \u2013 Universidade Estadual Paulista J\u00falio de Mesquita Filho, Araraquara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PATTERSON, Orlando (1982). <em>Slavery and social death<\/em>: a comparative study. Cambridge: Harvard University Press.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SCHNEIDER, Liane (2012). <em>A escreviv\u00eancia de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo em <\/em>Ponci\u00e1 Vic\u00eancio<em>:<\/em> encontros e desencontros culturais entre as vers\u00f5es do romance em portugu\u00eas e em ingl\u00eas. Tese (Doutorado em Letras) \u2013 Universidade Federal da Para\u00edba, Jo\u00e3o Pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-3359.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-3359\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; 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