{"id":1370,"date":"2024-06-05T01:39:11","date_gmt":"2024-06-05T01:39:11","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=1370"},"modified":"2025-10-03T12:46:43","modified_gmt":"2025-10-03T15:46:43","slug":"oco-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=1370","title":{"rendered":"Oco do Mundo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">MOREIRA FILHO, Juarez. <em>Oco do Mundo<\/em>. Goi\u00e2nia: Unigraf, 1982.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Edmon\u00a0Neto<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Dona Dora<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cV\u00e1 conhecer o Oco do Mundo, antes que ele se acabe\u201d \u00e9 um dos muitos ditos populares proferidos pelos moradores do pequeno arraial que d\u00e1 nome ao romance de Juarez Moreira Filho (Ribeiro Gon\u00e7alves, PI, 1953). Tendo a sua primeira edi\u00e7\u00e3o publicada em 1982, <em>Oco do Mundo<\/em> deixa claro, j\u00e1 no primeiro cap\u00edtulo, que \u00e9 proposital a similaridade fonol\u00f3gica entre o t\u00edtulo da obra e a express\u00e3o grotesca \u201ccu do mundo\u201d. Isso porque o abandono regional do antigo norte goiano, que ir\u00e1 se minimizar apenas com a constru\u00e7\u00e3o da rodovia Bel\u00e9m-Bras\u00edlia na d\u00e9cada de 1960, \u00e9 a t\u00f4nica dessa narrativa de forma\u00e7\u00e3o do \u00faltimo estado brasileiro a emancipar-se pol\u00edtica e administrativamente no s\u00e9culo XX. A cria\u00e7\u00e3o do Tocantins em 1989 \u00e9 consequ\u00eancia de uma s\u00e9rie de movimentos autonomistas que datam do s\u00e9culo XIX e ganham for\u00e7a popular nas d\u00e9cadas posteriores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No romance de Moreira Filho, assim como em outras hist\u00f3rias do autor, cria-se uma representa\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o historicamente tomado pelo garimpo de cristais de rocha, cujas consequ\u00eancias implicitamente incidir\u00e3o sobre os moradores do vilarejo nas formas mais brutais de viol\u00eancia. Oco do Mundo, como apontam algumas leituras da escassa fortuna cr\u00edtica sobre o autor, alude \u00e0 cidade de Duer\u00e9, no sul do Tocantins, onde Juarez morou por alguns anos junto \u00e0 fam\u00edlia. Por\u00e9m, mesmo que as poss\u00edveis correspond\u00eancias entre vida e obra do autor ou entre hist\u00f3ria e tempo ficcional possam ser apontadas como caracter\u00edsticas dessa narrativa, sobressaem recursos t\u00e9cnicos e solu\u00e7\u00f5es estil\u00edsticas conduzidos pela voz narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Oco do Mundo<\/em> \u00e9 dividido em onze cap\u00edtulos curtos, em sua maioria de car\u00e1ter descritivo, sendo que as a\u00e7\u00f5es s\u00e3o desencadeadas por interm\u00e9dio de uma voz narrativa que interpreta os fatos testemunhados, de modo que predomina o discurso indireto em todo o texto. O narrador apresenta um posicionamento cr\u00edtico sobre o desenvolvimento da cidade, um \u201clugar condenado pelo progresso\u201d, onde as ruas formadas por cho\u00e7as de pau a pique n\u00e3o raro desapareciam, assim como as pessoas viviam com medo dos perigos da noite e dos c\u00e3es e gatos que n\u00e3o eram sequer estimados. Lugar de poucos atrativos, Oco do Mundo divertia-se com as corridas de jegue embaladas por pe\u00f5es, patr\u00f5es e eventualmente por violeiros e palha\u00e7os, assim como as peladas disputadas com bola de leite de mangaba. Tamb\u00e9m se acreditava que cangaceiros e jagun\u00e7os tinham pacto com o dem\u00f4nio e que o mau comportamento das pessoas era justificado por um duvidoso diagn\u00f3stico psiqui\u00e1trico. Por isso, numa postura muito menos saudosista do que ir\u00f4nica por parte do narrador, em mais de um momento ele profere: \u201cmas aquilo \u00e9 que era vida\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda que o tema da narrativa se volte o tempo inteiro para a presen\u00e7a fantasm\u00e1tica da pacata cidade, os conflitos principais giram em torno da figura de Nego Pigueti e outras personagens secund\u00e1rias, como o cego violeiro Fraz\u00e3o. Jovem de car\u00e1ter err\u00e1tico e inconsequente, Pigueti tem a sua trajet\u00f3ria delimitada em todos os cap\u00edtulos, sendo decisiva a sua participa\u00e7\u00e3o nos assuntos do povoado. Isso porque, na defini\u00e7\u00e3o do narrador, ele era \u201ctreteiro\u201d e sempre conseguia um jeito de tirar vantagem das coisas, personalidade que \u00e0s vezes ir\u00e1 custar a boa rela\u00e7\u00e3o com os outros no povoado. A complexidade do protagonista vai sendo, aos poucos, descortinada ao longo das p\u00e1ginas: ele \u00e9 sens\u00edvel aos cantadores populares e tem talento para desenvolver os pr\u00f3prios versos, assim como \u00e9 destemido para ati\u00e7ar a ira do Vig\u00e1rio Mariano, autoridade religiosa supostamente corrupta. Embora Nego Pigueti tenha sido uma das poucas pessoas a ter a oportunidade de estudar fora, na cidade de Porto Nacional, acaba sucumbindo, ao menos momentaneamente, ao destino no Oco do Mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E se, de modo geral, os homens se resignavam \u00e0 vida sertaneja, nada se compara \u00e0 sina das mulheres, para quem \u201ccoisa boa (&#8230;) era conhecer homens e dizer, pelas ruas, que, no Oco do Mundo, grande parte das meninas n\u00e3o valia mais [que] uma masca de fumo\u201d. Sejam as \u201cantipuritanas\u201d da escola particular do mestre Augusto ou as piranhas da Rua do Sabugo; sejam as mulheres do Vai-quem-quer, parecia que restava a todas ingressarem \u201cna faculdade da sem-vergonheza e se formarem prostitutas\u201d. O Vai-quem-quer era um prost\u00edbulo localizado em lugar ermo (\u201ccabar\u00e9 de corrutela\u201d), cujas estradas de acesso eram frequentemente palco de toda a sorte de crimes e chacinas praticados contra forasteiros e desavisados. O lugar era animado e servido de poucas mulheres que se vendiam aos trabalhadores do vilarejo, inclusive a Nego Pigueti, o mais ass\u00edduo frequentador do bordel. Aqui, embora Pigueti seja retratado como um adolescente de 14 anos com os horm\u00f4nios \u00e0 flor da pele, vale destacar a sua postura violenta, como quando ataca a personagem da Velha Corriqueira, conhecida pelos seus fuxicos mordazes. De todo modo, ou se reservam \u00e0s mulheres os servi\u00e7os da carne ou se lhes restam as tarefas mais comezinhas do lar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nem mesmo Dona Fia, m\u00e3e de Pigueti, e cujos atributos dom\u00e9sticos em nada diferem dos das outras mulheres, \u00e9 mais bem desenvolvida na narrativa, a n\u00e3o ser pelo tom apaziguador com rela\u00e7\u00e3o ao car\u00e1ter do filho. O pai, Seu Ferreiro, antigo tocador de fole vindo do Maranh\u00e3o, envergonha-se das atitudes do menino e orgulha-se do destino das outras duas filhas, que se casaram e voltaram para o antigo estado. Entregue \u00e0 solid\u00e3o e \u00e0 melancolia do Oco do Mundo, Seu Ferreiro \u201csentia que n\u00e3o era mais ningu\u00e9m! O filho ia, aos poucos, matando-o\u201d. Desse modo, ao ampliar o perfil de seu protagonista, o romance de Juarez Moreira Filho encaminha para o desfecho, momento em que as a\u00e7\u00f5es passam a ser mais din\u00e2micas. Apresenta-se, nos dois \u00faltimos cap\u00edtulos, a viol\u00eancia da pol\u00edcia da cidade, que agia de forma c\u00e9lere com os pobres e indiferente \u00e0s a\u00e7\u00f5es dos mais ricos, como o coronel Silveira da t\u00e3o mencionada fazenda Rancho Alegre. Nego Pigueti e seu amigo cego Fraz\u00e3o ser\u00e3o presos, de modo temer\u00e1rio, pelo soldado Boca Preta, antes do processo derradeiro de deslocamento para o sudeste do pa\u00eds ap\u00f3s a fuga de Pigueti.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se os cap\u00edtulos de <em>Oco do Mundo <\/em>em geral priorizam<em> <\/em>as descri\u00e7\u00f5es, \u00e9 no \u00faltimo cap\u00edtulo que o autor constr\u00f3i uma esp\u00e9cie de recolhimento das passagens anteriores por interm\u00e9dio da mem\u00f3ria de Nego Pigueti. Tal estrat\u00e9gia retoma a atmosfera desse sert\u00e3o desconhecido e apresentado por Moreira Filho nessa obra que contribui para o debate sobre literatura brasileira regional para al\u00e9m do c\u00e2none filiado \u00e0 segunda gera\u00e7\u00e3o modernista, al\u00e9m, naturalmente, da pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o da literatura do estado do Tocantins. Vale lembrar que o autor lan\u00e7a m\u00e3o de uma s\u00e9rie de ditos populares, prov\u00e9rbios e voc\u00e1bulos t\u00edpicos da regi\u00e3o tocantinense, tendo sido criado um gloss\u00e1rio que aparece ao final da primeira edi\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m \u00e9 interessante destacar as refer\u00eancias do cancioneiro popular que aparecem explicitamente na narrativa, como o cordelista e cantador cearense Jo\u00e3o Siqueira de Amorim e o poeta paraense Raimundo de Ara\u00fajo Chagas, de pseud\u00f4nimo R. Petit. Uma vez que \u201co mist\u00e9rio estava ainda pra ser desvendado naquele mund\u00e3o de meu Deus\u201d, como afirma o narrador sobre Oco do Mundo, com essa obra Juarez Moreira Filho ajuda, ao menos em parte, a desanuviar o que sabemos sobre outros Brasis profundos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MOTTER, Ana Elisete (2013). Representa\u00e7\u00f5es da identidade do Tocantins no discurso liter\u00e1rio de Juarez Moreira Filho. <em>In<\/em>:<em> <\/em>XXVII SIMP\u00d3SIO NACIONAL DE HIST\u00d3RIA \u2013 CONHECIMENTO HIST\u00d3RICO E DI\u00c1LOGO SOCIAL, 27., 2013, Natal-RN. <em>Anais<\/em> [\u2026]. Natal: Anpuh.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">RODRIGUES, Brendon Husley Rimualdo (2021). <em>As representa\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias do sert\u00e3o garimpeiro e sua geograficidade no antigo norte goiano (1940-1980) nas obras:<\/em> Oco do mundo<em>, <\/em>Tipos de rua<em> e <\/em>Tipos populares<em>, de Juarez Moreira Filho<\/em>. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Estudos de Cultura e Territ\u00f3rio) \u2013 Universidade Federal do Tocantins, Aragua\u00edna, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">RODRIGUES, Jean Carlos; RODRIGUES, Brendon Husley Rimualdo (2021). Espa\u00e7o e literatura: a problem\u00e1tica da identidade regional tocantinense na literatura de Juarez Moreira Filho. <em>Fronteiras: Revista de Hist\u00f3ria<\/em>, v. 23, n. 41, p. 164-177.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-3357.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-3357\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Unigraf-1982.webp\" data-caption-title=\"Unigraf, 1982\" data-attachment-id=\"5413\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Unigraf, 1982\" width=\"250\" height=\"385\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2025\/01\/Unigraf-1982\/495601433.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22385%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20385%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Unigraf, 1982<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MOREIRA FILHO, Juarez. 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