{"id":1305,"date":"2024-06-02T17:47:00","date_gmt":"2024-06-02T17:47:00","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=1305"},"modified":"2025-10-02T05:40:57","modified_gmt":"2025-10-02T08:40:57","slug":"galileia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=1305","title":{"rendered":"Galil\u00e9ia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">BRITO, Ronaldo Correia de. <em>Galil\u00e9ia.<\/em> Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Alyson Gon\u00e7alves Carvalho<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Tha\u00eds Reis<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sert\u00e3o foi objeto de interesse para os mais diversos fins, ao longo da hist\u00f3ria da literatura brasileira. Na d\u00e9cada de 1930, por exemplo, quando ganhou proje\u00e7\u00e3o nacional, o sert\u00e3o serviu como elemento de contraponto \u00e0 hegemonia de representa\u00e7\u00e3o paulista, com narrativas que mostravam as classes sociais em franco decl\u00ednio, cuja fun\u00e7\u00e3o, em sua maioria, repousava em sua utiliza\u00e7\u00e3o como pano de fundo para embates familiares at\u00e9 ser recept\u00e1culo de tradi\u00e7\u00f5es passadas, reacendidas pelo tom melanc\u00f3lico da mem\u00f3ria. Com seus modos pr\u00f3prios de sentir e de pensar, ao longo do s\u00e9culo, diversos autores detiveram-se em possibilidades de recria\u00e7\u00e3o do sert\u00e3o, seja submetendo-o a um misticismo de base contemplativa ou incluindo-o em sociabilidades conectadas, agora repaginadas pelo signo da globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A recorr\u00eancia de signos mim\u00e9ticos em diferentes momentos da hist\u00f3ria fornece a dimens\u00e3o da import\u00e2ncia do sert\u00e3o como elemento caracter\u00edstico da brasilidade. Em <em>Galil\u00e9ia<\/em>, romance de Ronaldo Correia de Brito (Saboeiro, CE, 1951), publicado em 2008, o sert\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 nem c\u00e1 nem l\u00e1, mas numa regi\u00e3o lim\u00edtrofe, sutil, um entrelugar de supera\u00e7\u00e3o e de reformula\u00e7\u00e3o: \u201cO sert\u00e3o \u00e9 o Brasil profundo, misterioso, como o oceano que os argonautas temiam navegar\u201d. Na narrativa, os primos Adonias, Davi e Ismael retornam \u00e0 fazenda do av\u00f4 Raimundo Caetano, chamada Galil\u00e9ia, e se deparam com o abandono de um mundo em decad\u00eancia, diferente daquele ambiente que presenciaram na inf\u00e2ncia, tempo de brincadeiras e desprop\u00f3sitos infantis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O narrador do romance \u00e9 Adonias, m\u00e9dico que estudou no Reino Unido e se estabeleceu em Recife. Ele \u00e9 pai de dois filhos e, por desejo pr\u00f3prio, volta at\u00e9 a propriedade do av\u00f4 situada nas imedia\u00e7\u00f5es do Sert\u00e3o de Inhamuns, no Cear\u00e1, para despedir-se dele, uma vez que o velho j\u00e1 se encontra bastante debilitado. Davi, por sua vez, foi criado em S\u00e3o Paulo, viajou pela Europa e pelos Estados Unidos tocando piano em <em>pubs<\/em> e realizando trabalhos informais. J\u00e1 Ismael, o primo ileg\u00edtimo, tentou a vida na Noruega, mas n\u00e3o se adaptou e retornou ao Brasil. Recheada de enfrentamentos e de fugas, com conversas pouco amistosas, a viagem at\u00e9 a fazenda n\u00e3o ser\u00e1 confort\u00e1vel para nenhum dos tr\u00eas, pois sabem que em Galil\u00e9ia encontrar\u00e3o pessoas que lhes trazem algum tipo de sofrimento, e que precisar\u00e3o enfrentar feridas que ainda permanecem abertas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, com forte teor po\u00e9tico emaranhado em tradi\u00e7\u00e3o popular, a obra pode ser dividida em duas partes ou inst\u00e2ncias narrativas: a primeira, a do deslocamento da viagem, com foco na rela\u00e7\u00e3o dos primos e nas lembran\u00e7as que eles guardam do mundo em que viveram; a segunda, a da chegada, quando se surpreendem com o atual estado do lugar, e quando confrontam as mem\u00f3rias conservadas com aquilo que encontram nas superf\u00edcies empoeiradas dos objetos. Cada cap\u00edtulo recebe como t\u00edtulo o nome de uma personagem espec\u00edfica, geralmente de intertextualidade b\u00edblica (como se o texto sagrado fosse transposto para o sert\u00e3o, numa reinven\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas tem\u00e1tica, mas sobretudo espacial), que ter\u00e1 sua figura\u00e7\u00e3o destacada de algum modo naquele trecho. Assim, o autor apresenta as personagens segundo a rela\u00e7\u00e3o que elas mant\u00eam com o narrador e com os outros dois primos. Essas conex\u00f5es, nem sempre expl\u00edcitas, revelam os problemas e os desafios que o parentesco imp\u00f5e \u00e0quelas viv\u00eancias, o que mostra uma exist\u00eancia sempre problem\u00e1tica do ponto de vista humano e familiar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escrita do autor remete, por vezes, ao tom comedido de Graciliano Ramos, com o grau de significa\u00e7\u00e3o levado ao extremo a partir uma de sele\u00e7\u00e3o vocabular reduzida. Ronaldo Correia de Brito parece querer espelhar o texto com a crueza sertaneja caracter\u00edstica, sem deixar que tal economia enverede para a obviedade, de car\u00e1ter panor\u00e2mico. As cenas s\u00e3o descritas apenas com o que \u00e9 estritamente necess\u00e1rio, e revela-se das personagens mais o que elas pensam do que o que elas de fato s\u00e3o. O pensar \u00e9, no romance, mat\u00e9ria de escapismo, tentativa f\u00fanebre de reorganizar o passado segundo possibilidades mais cab\u00edveis, conforme a necessidade vigente. Ronaldo Correia de Brito traz para a contemporaneidade todo o arcabou\u00e7o inventivo j\u00e1 reconhecido do sert\u00e3o, readequando alguns de seus aspectos numa esp\u00e9cie de duplo intento: reconstruir o conceito para o mundo de hoje; ao mesmo tempo, em retrospecto, coloca o leitor diante de um passado que continua reverberando, a despeito das transforma\u00e7\u00f5es do espa\u00e7o e da interioridade das personagens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Natural da cidade de Saboeiro, no Cear\u00e1, Ronaldo Correia de Brito \u00e9 radicado em Recife, Pernambuco, onde estudou Medicina. Sua primeira colet\u00e2nea, <em>As noites e os dias<\/em>, foi publicada em 1987. Em seguida, aparecem <em>Faca<\/em>, em 2003, <em>O pav\u00e3o misterioso<\/em>, de 2004, e <em>Livro dos homens<\/em>, em 2005. Em 2008, o autor consagrou-se com <em>Galil\u00e9ia<\/em>, obra que ganhou o Pr\u00eamio S\u00e3o Paulo de Literatura como o melhor livro do ano. Sua obra continua: <em>Retratos<\/em> <em>imorais<\/em> (contos, 2010); <em>Arlequim <\/em>(teatro\/prosa infantil, 1989; 1999) e <em>Arlequim de Carnaval<\/em> (teatro, 2011); <em>Bandeira de S\u00e3o Jo\u00e3o<\/em> e <em>Estive l\u00e1 fora<\/em> (teatro e romance, respectivamente; ambos de 2012); <em>Atl\u00e2ntico<\/em> e <em>O amor<\/em> <em>das sombras<\/em> (livros de contos, de 2015); e <em>Dora sem v\u00e9u<\/em> (romance, 2018). Recentemente, lan\u00e7ou o livro de cr\u00f4nicas <em>A arte de torrar caf\u00e9 <\/em>(2021). Brito tamb\u00e9m foi escritor residente em Berkeley, Calif\u00f3rnia, em 2007.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem d\u00favida, muitas de suas experi\u00eancias sertanejas foram introjetadas nas narrativas, desde pormenores descritivos at\u00e9 a interioridade dos seres viventes, suas err\u00e2ncias e anseios fundamentais. Considerar que <em>Galil\u00e9ia<\/em> apenas revive o sert\u00e3o seria um erro, uma vez que, al\u00e9m de o fazer, inova no \u00e2mbito da pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o do elemento na p\u00f3s-modernidade. J\u00e1 adultos, os tr\u00eas personagens enxergam a fazenda pela \u00f3tica do estrangeiro, de algu\u00e9m que conhece-desconhece, mas que busca estabelecer certa identifica\u00e7\u00e3o. Ao resgatar a mem\u00f3ria a partir da \u00f3tica de Adonias, o romance precisa dar conta das vozes dos tr\u00eas primos, todos eles impactados pelas suas experi\u00eancias fora do Brasil. Tais sensa\u00e7\u00f5es reverberam ao longo de toda a a\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um contraponto, um \u201cl\u00e1\u201d que, embora rememore o atraso da fazenda, tamb\u00e9m serve de valoriza\u00e7\u00e3o para aquele mundo esquecido, longe dos infort\u00fanios do mundo tido como desenvolvido. Adonias precisa encontrar-se consigo mesmo, reascender seu legado sertanejo, outrora enterrado pela transforma\u00e7\u00e3o de sua vida. Amarguras, tristezas, fracassos ser\u00e3o as sensa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para que os primos possam recuperar o sentido do passado, elaborando-o segundo a novidade do presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A leitura suscita a discuss\u00e3o de diversos temas. A presen\u00e7a e a perman\u00eancia de resqu\u00edcios geracionais que corroem ou questionam antigas ordens, o esquecimento ou o remorso relacionados a d\u00e9bitos sentimentais, o choque com uma ideia de modernidade atrelada ao tempo, \u00e0 conviv\u00eancia contradit\u00f3ria entre passado e novidade. Fantasmagorias de todos os tipos povoam a obra, com personagens que, apesar de mortas, teimam em manifestar suas silhuetas inertes pelas frestas obscuras. H\u00e1 descobertas de crimes e assassinatos que revelam a natureza humana mais torpe, de justi\u00e7a \u201cpelas pr\u00f3prias m\u00e3os\u201d. Restos e ru\u00ednas do que est\u00e1 ainda encoberto, em que m\u00e3es, av\u00f3s, tias, sobrinhos, conhecidos e estranhos v\u00e3o compondo um mosaico de rancores mal resolvidos, mist\u00e9rios que permanecem ocultos esperando uma sa\u00edda prop\u00edcia para o desencantamento dos dias passados. Aos poucos, a atmosfera m\u00edtica vai se desfazendo, tornando o sert\u00e3o mais familiar, pr\u00f3ximo das peculiaridades comuns a tantas pessoas, que buscam se reatar com suas pr\u00f3prias ra\u00edzes, nem que isso custe a rasura de antigas tradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BORGES, Queren Daniela (2022). A regi\u00e3o e o mundo no romance <em>Galil\u00e9ia,<\/em> de Ronaldo Correia de Brito. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Estudos Liter\u00e1rios) \u2013 Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia, Uberl\u00e2ndia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LANDO, Vivien (2008). Em \u201cGalil\u00e9ia\u201d, autor usa B\u00edblia para contar hist\u00f3ria no sert\u00e3o. <em>Folha de S. Paulo<\/em>, Ilustrada, 29 nov. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LIMA, Elaine Aparecida (2018). <em>Conflitos do passado e tens\u00f5es do presente em <\/em>Galil\u00e9ia <em>e <\/em>Retablo. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Literatura Comparada) \u2013 Universidade Federal da Integra\u00e7\u00e3o Latino-Americana, Foz do Igua\u00e7u.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MELO, M\u00f4nica dos Santos (2014). <em>A ressignifica\u00e7\u00e3o do Sert\u00e3o em <\/em>Galil\u00e9ia<em>, de Ronaldo Correia de Brito<\/em>: problematiza\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o regional do romance no contexto da contemporaneidade. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Letras) \u2013 Universidade Federal de Pernambuco, Recife.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">RIBEIRO, Elizabeth Francischetto (2011).<em>A par\u00f3dia b\u00edblica em Galil\u00e9ia de Ronaldo Correia de Brito<\/em>. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Letras) \u2013 Universidade Federal de Sergipe, S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-3345.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-3345\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Galileia.-1a-edicao.-Rio-de-Janeiro.-Editora-Alfaguaia.-2008.jpg\" data-caption-title=\"Alfaguara, 2008\" data-attachment-id=\"340\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Alfaguara, 2008\" width=\"250\" height=\"390\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2023\/08\/Galileia_-1a-edicao_-Rio-de-Janeiro_-Editora-Alfaguaia_-2008\/1749909384.jpg\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22390%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20390%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Alfaguara, 2008<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BRITO, Ronaldo Correia de. Galil\u00e9ia. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. Alyson Gon\u00e7alves CarvalhoIlustra\u00e7\u00e3o: Tha\u00eds Reis O sert\u00e3o foi objeto de interesse para os mais diversos fins, ao longo da hist\u00f3ria da literatura brasileira. 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