{"id":1152,"date":"2024-05-23T18:33:11","date_gmt":"2024-05-23T18:33:11","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=1152"},"modified":"2025-11-12T18:03:00","modified_gmt":"2025-11-12T21:03:00","slug":"tudo-que-morde-pede-socorro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=1152","title":{"rendered":"Tudo que morde pede socorro"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">KRIEMLER, Cinthia. <em>Tudo que morde pede socorro<\/em>. S\u00e3o Paulo: Patu\u00e1, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Caroline Barbosa<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Gra\u00e7a Craidy<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cinthia Kriemler (Rio de Janeiro, RJ, 1969) \u00e9 servidora aposentada da C\u00e2mara dos Deputados. Graduada em Comunica\u00e7\u00e3o Social pela Universidade de Bras\u00edlia (UnB) e especialista em Estrat\u00e9gias de Comunica\u00e7\u00e3o, Mobiliza\u00e7\u00e3o e Marketing Social (UnB), \u00e9 autora de <em>Tudo que morde pede socorro (2019<\/em>), romance publicado pela editora Patu\u00e1 que aborda quest\u00f5es de viol\u00eancia dom\u00e9stica e abuso sexual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A obra \u00e9 narrada em primeira pessoa por Leonora, personagem principal do romance. Professora e tradutora no Rio de Janeiro, sua vida muda quando o marido, Mateus, se torna violento. Tudo come\u00e7a com um tapa, um xingamento, um empurr\u00e3o at\u00e9 o momento em que ele a mant\u00e9m trancada em casa e a estupra. Ela \u00e9 encontrada pelo amigo, Gabriel, que fica preocupado com seu sumi\u00e7o. Leonora faz um boletim de ocorr\u00eancia e consegue uma medida protetiva contra seu agressor. Por\u00e9m, passado um tempo, ele volta a procur\u00e1-la, arrependido, mais calmo e com o objetivo de faz\u00ea-la acreditar que mudara. Quase um ano depois da viol\u00eancia sofrida, ele diz que vai embora da cidade e passa no local de trabalho de Leonora para se despedir. Como o carro dela n\u00e3o pega, ele oferece uma carona e, dentro do ve\u00edculo, mostra que buscava apenas uma oportunidade para se vingar da protagonista. Quando Leonora percebe que sua vida est\u00e1 em risco, ela agarra o volante e provoca um acidente. Depois de ficar desacordada, percebe que est\u00e1 presa nas ferragens, mas consegue sair; Mateus percebe que ela n\u00e3o o ajudar\u00e1 e a amea\u00e7a, dando a impress\u00e3o de que sua persegui\u00e7\u00e3o pela ex-mulher nunca iria acabar. Leonora ent\u00e3o pega uma barra de ferro e crava no corpo de seu agressor. \u201cEu gostaria de dizer que lamento. Gostaria de dizer que odeio ter me tornado essa deformidade t\u00e3o assemelhada a voc\u00ea, Mateus. Mas \u00e9 mentira. Eu n\u00e3o me arrependo de nada. Eu mataria voc\u00ea. Mil vezes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com sequelas emocionais e f\u00edsicas, pois ela tamb\u00e9m perde o bra\u00e7o esquerdo no acidente, Leonora resolve passar uma temporada em Baependi, sul de Minas Gerais, na casa em que sua m\u00e3e morou quando jovem. Na cidade, ela busca paz e sossego para tentar se curar de seus fantasmas. Apesar de ter conseguido aux\u00edlio financeiro, o dinheiro n\u00e3o paga todas as suas contas e Gabriel continua enviando tradu\u00e7\u00f5es para ela fazer, entre elas o livro<em> Ainsi soit-elle<\/em>, de Beno\u00eete Groult. A obra aborda a quest\u00e3o feminista e alguns trechos de sua tradu\u00e7\u00e3o s\u00e3o inseridos no romance, dando \u00e0 narrativa uma dic\u00e7\u00e3o ensa\u00edstica, pois \u00e9 a\u00ed, nesses momentos, que a reflex\u00e3o da personagem sobre o seu processo de elabora\u00e7\u00e3o de si mesma como mulher se aprofunda e carrega consigo a aten\u00e7\u00e3o do leitor, que acompanha as suas indaga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como Leonora n\u00e3o consegue fazer tudo sozinha, ela contrata Francisca para ajud\u00e1-la. Ap\u00f3s comentar com d. Concei\u00e7\u00e3o, propriet\u00e1ria de uma quitanda, que a ajudante n\u00e3o aparecia para trabalhar h\u00e1 alguns dias, a protagonista consegue o endere\u00e7o da casa dela. Fazal, jovem que \u00e9 como um filho para d. Concei\u00e7\u00e3o, leva Leonora at\u00e9 Francisca e a tradutora descobre que a mulher est\u00e1 sofrendo viol\u00eancia dom\u00e9stica. Por ser mandada embora de forma violenta, ela denuncia a agress\u00e3o e o marido de Francisca \u00e9 preso. Com esse incidente, Leonora conhece melhor a fam\u00edlia de sua ajudante e o pior vem \u00e0 tona: Paula Regina, filha de 15 anos de Francisca, foi abusada pelo pai e est\u00e1 gr\u00e1vida. Leonora \u00e9 colocada no lugar de mediadora na discuss\u00e3o da possibilidade de aborto para a jovem. No entanto, devido \u00e0 resist\u00eancia familiar, a jovem realiza o procedimento de forma inadequada e precisa recorrer a um hospital. Nesse contexto, Kriemler tamb\u00e9m mostra a faceta do patriarcado, que estimula a disputa entre mulheres de forma t\u00e3o desmedida que a pr\u00f3pria Francisca via a adolescente como uma inimiga que queria retirar seu esposo e foi respons\u00e1vel pela menina interromper a gravidez fora do per\u00edodo, arriscando a vida da pr\u00f3pria filha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro caso de viol\u00eancia e abuso sexual chega at\u00e9 a narradora: o do jovem Fazal. Nascido no Afeganist\u00e3o, ele foi vendido pela fam\u00edlia aos seis anos para ser transformado num <em>bacha bazi<\/em>, termo usado para meninos que s\u00e3o escravizados sexualmente por ped\u00f3filos. Fazal \u00e9 devolvido \u00e0 fam\u00edlia aos 18 anos, mas eles n\u00e3o querem mais receb\u00ea-lo e ele \u00e9 expulso de forma violenta. A Cruz Vermelha Internacional encontra-o desmaiado e ele n\u00e3o s\u00f3 recebe tratamento para curar suas feridas f\u00edsicas, mas tamb\u00e9m conhece o dr. Khalil Chalita, que o adota como um filho com a esposa, d. Concei\u00e7\u00e3o. Entretanto, mesmo com todo o amor que recebe dos dois, as dores do que foi vivido destroem o rapaz, pois, quando ele finalmente conhece algu\u00e9m que lhe d\u00e1 afeto, a homofobia se faz presente. Com diversos traumas, Fazal se suicida. &#8220;Predadores sexuais s\u00e3o como hienas. Destroem carnes vivas. Arrancam de suas v\u00edtimas, viola\u00e7\u00e3o por viola\u00e7\u00e3o, todas as possibilidades. At\u00e9 que um resto de corpo em espasmos desiste de lutar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa analogia da armadilha e da presa permeia a narrativa, de cap\u00edtulos curtos, que desenvolve um trabalho cuidadoso com a linguagem. As frases s\u00e3o curtas, objetivas e cruas. Leonora \u00e9 uma mulher que tenta lutar contra o que foi vivido; ent\u00e3o, a narradora da obra n\u00e3o busca enfeitar a dura realidade que vive ou as que lhe chegam utilizando adjetivos e a romantiza\u00e7\u00e3o de um final feliz. Se, por um lado, juridicamente, h\u00e1 canais de den\u00fancia para o registro da viol\u00eancia e a aplica\u00e7\u00e3o dos recursos da Lei Maria da Penha, como curar as feridas f\u00edsicas e emocionais dessa viol\u00eancia? A autora n\u00e3o tem inten\u00e7\u00e3o de fabular um caminho de cura r\u00e1pido, mas indica que sobreviver \u00e9 poss\u00edvel: \u201c<a>algumas<\/a> de n\u00f3s lutamos uma escurid\u00e3o inteira para soltar as nossas patas de armadilhas velhas e enferrujadas. E quando tudo parece fim, nos lembramos do n\u00e3o, essa palavra de alforria\u201d (p. 159).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>O peso do p\u00e1ssaro morto <\/em>(2017), Aline Bei abordou o silenciamento de uma mulher depois de ser estuprada e engravidar; Carola Saavedra discute o estupro no casamento e o de empregadas dom\u00e9sticas em <em>Com armas sonolentas <\/em>(2018); Fabiane Albuquerque, em <em>Cartas a um homem negro que amei <\/em>(2022), discute o silenciamento imposto pelos membros de uma fam\u00edlia ap\u00f3s o abuso e suas sequelas na vida adulta; e <em>Vista chinesa <\/em>(2021), de Tatiana Salem Levy, narra o estupro sofrido por Julia e as sequelas desse ato brutal. Todas, como Kriemler, parecem comprometidas com a elabora\u00e7\u00e3o do trauma para romper o tabu do silenciamento que quer apagar a dor dessas mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seja em contos, poemas ou romances, a pauta da viol\u00eancia em suas m\u00faltiplas formas se faz presente no projeto autoral de Kriemler. <em>Exerc\u00edcio de leitura de mulheres loucas <\/em>(2018) \u00e9 constitu\u00eddo de poemas curtos que discutem o machismo e a condi\u00e7\u00e3o feminina e busca ressignificar a palavra \u201clouca\u201d como liberdade de ser; <em>Todos os abismos convidam para um mergulho <\/em>(2017) emprega uma linguagem crua e brutal, marca da autora, e coloca a dor como personagem central em uma narrativa que discute quest\u00f5es como a viol\u00eancia contra mulheres e crian\u00e7as e a depress\u00e3o na adolesc\u00eancia; e <em>Na escurid\u00e3o n\u00e3o existe cor-de-rosa <\/em>(2015), livro de pequenos contos, as personagens s\u00e3o o centro de narrativas que discutem tamb\u00e9m situa\u00e7\u00f5es de abuso contra a mulher e a luta para se libertar do patriarcado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kriemler, ent\u00e3o, junta-se a um rol de escritoras contempor\u00e2neas que buscam quebrar o silenciamento imposto \u00e0s v\u00edtimas e utiliza artif\u00edcios liter\u00e1rios para denunciar, promover empatia e convocar os leitores a pensarem em uma mudan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">KOVACS, Alexandre (2019). Cinthia Kriemler. Tudo que morde pede socorro. <em>Mundo de K<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.mundodek.com\/2019\/07\/cinthia-kriemler-tudo-que-morde-pede.html\">https:\/\/www.mundodek.com\/2019\/07\/cinthia-kriemler-tudo-que-morde-pede.html<\/a>. Acesso em: 4 fev. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PINTO, Luiz Renato Souza (2021). Se morde, pede socorro? <em>Cidad\u00e3o Cultura<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.cidadaocultura.com.br\/se-morde-pede-socorro\/\">https:\/\/www.cidadaocultura.com.br\/se-morde-pede-socorro\/<\/a>. Acesso em: 4 fev. 2023. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-3149.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-3149\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Patua-2019.webp\" data-caption-title=\"Patu\u00e1, 2019\" data-attachment-id=\"1155\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Patu\u00e1, 2019\" width=\"250\" height=\"357\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2024\/05\/Patua-2019\/2002329331.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22357%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20357%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Patu\u00e1, 2019<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>KRIEMLER, Cinthia. Tudo que morde pede socorro. S\u00e3o Paulo: Patu\u00e1, 2019. Caroline BarbosaIlustra\u00e7\u00e3o: Gra\u00e7a Craidy Cinthia Kriemler (Rio de Janeiro, RJ, 1969) \u00e9 servidora aposentada da C\u00e2mara dos Deputados. 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