{"id":1105,"date":"2024-05-23T15:36:47","date_gmt":"2024-05-23T15:36:47","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=1105"},"modified":"2025-10-02T05:19:42","modified_gmt":"2025-10-02T08:19:42","slug":"desmundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=1105","title":{"rendered":"Desmundo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">MIRANDA, Ana. <em>Desmundo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1996.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Berttoni Licari\u00e3o<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Manuela Dib<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as autoras e os autores da literatura brasileira em atividade, a cearense Ana Miranda (Fortaleza, CE, 1951) figura como uma das mais importantes representantes do romance hist\u00f3rico contempor\u00e2neo. Sua obra \u2013 ainda que composta por colet\u00e2neas de contos intimistas, poemas, livros infanto-juvenis, cr\u00f4nicas, biografias e romances \u2013 tem sido, a despeito da variedade tem\u00e1tica e formal, reiteradamente associada \u00e0quele recorte liter\u00e1rio. N\u00e3o obstante, a leitura atenta dos romances de Ana Miranda revela que a hist\u00f3ria brasileira \u00e9 sem d\u00favida uma constante ficcional, mas est\u00e1 longe de constituir o elemento mais caracter\u00edstico de sua produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em entrevista para a <em>Revista de Hist\u00f3ria da Biblioteca Nacional<\/em>, a autora esclarece que a experimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 o tra\u00e7o definidor de sua escrita, e o trabalho com a linguagem, o aspecto mais importante da literatura que vem produzindo (MIRANDA, 2011). De fato, em cada romance Ana Miranda procura investigar a linguagem em sua mobilidade diacr\u00f4nica, realizando experi\u00eancias com a dic\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias \u00e9pocas. Sua escrita explora as possibilidades de se falar sobre o presente atrav\u00e9s da linguagem de diferentes per\u00edodos, criando \u201cum elo na constru\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria da humanidade, uma pequena e fr\u00e1gil conex\u00e3o entre um e outro tempo, massacrada pelas circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Marcado por uma dic\u00e7\u00e3o que procura se aproximar do portugu\u00eas quinhentista, <em>Desmundo<\/em>, publicado pela primeira vez em 1996, entrela\u00e7a forma e conte\u00fado na constru\u00e7\u00e3o de uma experi\u00eancia de leitura aberta e cheia de nuances. Partindo de uma matriz hist\u00f3rica (agregada ao texto como ep\u00edgrafe), a narrativa aborda a chegada de \u00f3rf\u00e3s portuguesas enviadas em 1555 ao Brasil, a pedido de um capit\u00e3o-mor, para desposarem os crist\u00e3os que aqui viviam. Entre elas, encontra-se Oribela, a narradora, que se apresenta \u00e0 entrada do romance: \u201cDeus, gra\u00e7as, fazes a mim, tua pequena Oribela, a mais vossa merc\u00ea em idade inocente, um cora\u00e7\u00e3o novo e um esp\u00edrito de sabedoria, j\u00e1 estou t\u00e3o cegada pela porta de meus olhos que nada vejo sen\u00e3o deleitos, folgan\u00e7as do corpo, louvores, gra\u00e7as prazentes e meu cora\u00e7\u00e3o endurecido, entrevado sem saber amar ou odiar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 atrav\u00e9s dos olhos dessa jovem, prenhes de vis\u00f5es que \u201cdesfazem um cora\u00e7\u00e3o limpo\u201d, que Ana Miranda constr\u00f3i um complexo panorama dos embates \u00e9ticos, religiosos e sexuais das v\u00e1rias culturas que ent\u00e3o lan\u00e7avam suas ra\u00edzes no solo f\u00e9rtil do Brasil, sem perder de vista, \u00e9 claro, os desdobramentos dessas rela\u00e7\u00f5es que se arrastam at\u00e9 nossos dias. Ind\u00edgenas, crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos, fortemente representados no romance, s\u00e3o fontes de assombro, submiss\u00e3o, aprendizado e compaix\u00e3o, compondo as vozes que extravasam da l\u00edngua ferina de Oribela, em cuja \u201cnatureza continuamente moram desvarios\u201d. For\u00e7ada a se casar com um criador de gado, Francisco de Albuquerque, Oribela resiste ao papel de mulher submissa que lhe \u00e9 imposto e se apaixona pelo mouro Ximeno, figura enigm\u00e1tica que, para a narradora, representa a \u201cventura do partir\u201d e uma possibilidade de transgredir sua condi\u00e7\u00e3o agrilhoada: \u201c Por que vivemos presos todos uns nos outros atados pelos mais fortes grilh\u00f5es, por que causa somos todos t\u00e3o estrangeiros uns dos outros e pouco sabemos da alma alheia mais que umas coisas que se podem dizer com palavras duras mas nossas almas afundadas na ignor\u00e2ncia de n\u00f3s, ai Deus, que fabricaste a formosura da noite, quem \u00e9 o procurador do desamparo desta vida?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dividido em cap\u00edtulos breves organizados em n\u00facleos narrativos (\u201cA chegada\u201d, \u201cA terra\u201d, \u201cO casamento\u201d etc.), <em>Desmundo<\/em>, contrariando as expectativas, \u00e9 uma leitura fluida e envolvente. Uma vez vencido o estranhamento das primeiras p\u00e1ginas \u2013 vencido, claro est\u00e1, \u00e9 modo de dizer, esse estranhamento acompanhar\u00e1 leitores por toda a obra \u2013 a hist\u00f3ria de amor de Oribela e Ximeno vai se revelando aos poucos, expandindo-se com um l\u00e9xico pr\u00f3prio aos descobrimentos. \u00c0 medida que desbrava a nova terra, Oribela tamb\u00e9m descobre a pr\u00f3pria sexualidade, construindo, com isso, um relato repleto de elementos que comp\u00f5em um minucioso painel da sociedade colonial. Sua fala, diga-se de passagem, confronta e subverte dois fortes e indissoci\u00e1veis discursos da \u00e9poca, o religioso (representado pela m\u00e3e de Francisco de Albuquerque) e o patriarcal (representado pelo pr\u00f3prio Francisco de Albuquerque).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As surpresas da narrativa, tecidas com lirismo e brutalidade, emparelham o maravilhamento do novo mundo e a viol\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es sociais numa terra em que o \u201cmal entra pelos p\u00e9s\u201d. Nesse sentido, a tentativa de recupera\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas quinhentista pode ser entendida, tamb\u00e9m, como um dispositivo narrativo que busca reproduzir para os leitores, na forma e na linguagem, o profundo e, por vezes sufocante, estranhamento em que se encontra a narradora. Sobre esse aspecto, a an\u00e1lise de Manuel da Costa Pinto (2004) \u00e9 precisa: \u201co que ao mesmo tempo nos afasta dessa realidade (por causa do estranhamento lingu\u00edstico) e nos inclui nessa atmosfera de brutalidade, que lateja na rispidez verbal que redescobrimos no portugu\u00eas contempor\u00e2neo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Desmundo<\/em> \u00e9, ainda, um importante marco na literatura de Ana Miranda, o momento em que, segundo a autora, sua obra come\u00e7a realmente: \u201cOribela \u00e9 a descoberta de minha voz feminina\u201d (entrevista ao programa <em>Autor por autor<\/em>, TV Cultura). Apesar de aceitar que <em>Boca do inferno<\/em> ainda hoje defina sua imagem como escritora, Ana Miranda (2011) considera-o muito mais \u201cum exerc\u00edcio de dom\u00ednio da t\u00e9cnica de constru\u00e7\u00e3o do romance\u201d. \u00c0 medida que se aprofundou em seu trabalho, rompendo com a linearidade das narrativas iniciais, a romancista sente que a popularidade conquistada com sua estreia na fic\u00e7\u00e3o foi se reduzindo. Somente em seu quinto romance, Ana Miranda (2011) reconhece a consuma\u00e7\u00e3o de uma aspira\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria: \u201cfoi no <em>Desmundo<\/em>, um livro carregado pela palavra, que eu consegui o que eu queria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As raz\u00f5es apontam para sua busca por uma linguagem mais livre, imaginativa e pessoal. <em>Desmundo<\/em> pode ser considerado representativo da maturidade liter\u00e1ria de Ana Miranda por ser o primeiro de seus livros a alcan\u00e7ar uma fus\u00e3o bem-sucedida entre a linguagem do outro \u2013 neste caso, o portugu\u00eas quinhentista \u2013 e sua pr\u00f3pria sensibilidade. Mais do que fontes de inspira\u00e7\u00e3o, suas personagens s\u00e3o fontes lingu\u00edsticas, com as quais a autora procura libertar-se das restri\u00e7\u00f5es lexicais de seu tempo e construir narrativas que representem excurs\u00f5es intimistas \u00e0s profundezas da mente. Essa fus\u00e3o foi poss\u00edvel, em parte, pela ado\u00e7\u00e3o da voz feminina em primeira pessoa. Observe-se que, ap\u00f3s a novela <em>Clarice <\/em>(1996), todos os romances de Ana Miranda possuem narradoras protagonistas: Oribela (<em>Desmundo<\/em>, 1996), Amina (<em>Amrik<\/em>, 1997), Feliciana (<em>Dias e dias<\/em>, 2002), a \u00edndia Yuxin (<em>Yuxin: alma<\/em>, 2009) e Iriana (<em>Sem\u00edramis<\/em>, 2014). A exce\u00e7\u00e3o (at\u00e9 o momento) \u00e9 a novela <em>O peso da luz: Einstein no Cear\u00e1<\/em> (2013).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Personagens como Oribela s\u00e3o obstinadas almas quixotescas, histri\u00f4nicas, l\u00edricas e sonhadoras. Constru\u00eddas por um discurso fluido e sensual, ressentido e provocador, alcan\u00e7am o estatuto de cria\u00e7\u00f5es ora tang\u00edveis, donas de uma forte ilus\u00e3o de realidade, ora di\u00e1fanas, encobertas pelo v\u00e9u da linguagem. Representam, cada uma, demandas espec\u00edficas da autora, que escreve para recriar mundos e, junto a eles, recriar a si mesma como escritora: \u201ceu n\u00e3o escrevo o que eu quero. Escrevo o que eu sou. Sou vers\u00e1til, e tenho muitas solicita\u00e7\u00f5es interiores e exteriores de outros textos, estilos, g\u00eaneros\u201d (entrevista ao jornal <em>O Povo<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de um experimentalismo confesso, sem esquecer que parte consider\u00e1vel de sua obra dialoga com outros escritores do c\u00e2none brasileiro \u2013 Greg\u00f3rio de Matos (em <em>Boca do inferno<\/em>), Augusto dos Anjos (em <em>A \u00faltima quimera<\/em>), Gon\u00e7alves Dias (em <em>Dias e dias<\/em>), Clarice Lispector (em <em>Clarice<\/em>) e Jos\u00e9 de Alencar (em <em>Sem\u00edramis<\/em>) \u2013, Ana Miranda constr\u00f3i uma obra que trabalha, sobretudo, com a mem\u00f3ria da linguagem, fundamentalmente veiculada por vest\u00edgios escritos, e que deve ser lida, pois, como express\u00e3o daquela \u201cimpossibilidade de viver fora do texto infinito\u201d, referida por Roland Barthes (2008). Trata-se, enfim, de uma escrita em palimpsesto, cuja fun\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 somente retomar a linguagem de determinada \u00e9poca, mas, principalmente, dar continuidade ao seu movimento na mem\u00f3ria coletiva atrav\u00e9s da constante atualiza\u00e7\u00e3o dos textos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">COSTA PINTO, Manuel da (2004). <em>Literatura brasileira hoje<\/em>. S\u00e3o Paulo: Publifolha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LICARI\u00c3O, Berttoni (2017) <em>A escrita dos vest\u00edgios em Ana Miranda.<\/em> Bras\u00edlia: Edi\u00e7\u00f5es Carolina, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LICARI\u00c3O, Berttoni (2013). <em>Dias e dias:<\/em> a escrita em palimpsesto de Ana Miranda. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado) \u2013 Universidade Federal de Minas Gerais: Belo Horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MIRANDA, Ana (2011). \u201cA arte de fingir que se mente\u201d. <em>Revista de Hist\u00f3ria da Biblioteca Nacional<\/em>, n. 75, dez., p. 49-52.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">POSSANI, Ta\u00edse (2009). Ana Miranda, leitora de Clarice Lispector. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Hist\u00f3ria da Literatura) \u2013 Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-3138.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-3138\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; 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