{"id":1007,"date":"2024-05-23T08:06:45","date_gmt":"2024-05-23T08:06:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=1007"},"modified":"2025-11-12T18:00:37","modified_gmt":"2025-11-12T21:00:37","slug":"madona-dos-paramos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=1007","title":{"rendered":"Madona dos P\u00e1ramos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">DICKE, Ricardo Guilherme. <em>Madona dos P\u00e1ramos.<\/em> Rio de Janeiro: Antares; 1982.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Madalena Machado<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Carlos Hollanda<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O romance <em>Madona dos P\u00e1ramos,<\/em>de Ricardo Guilherme Dicke (Chapada do Guimar\u00e3es, MT, 1936 \u2013 Cuiab\u00e1, MT, 2008), vencedor do Pr\u00eamio Nacional da Funda\u00e7\u00e3o Cultural do Distrito Federal (1979), apresenta a trajet\u00f3ria de fuga de uma cadeia na capital Cuiab\u00e1 (MT). Um bando de doze homens embrenhados mato adentro pretende chegar a um local que, segundo ouviram contar, era um local de del\u00edcias, um Eldorado perdido chamado Figueira-M\u00e3e. No trajeto, os homens assaltam uma fazenda e matam os moradores, menos uma mulher, que preferem levar na fuga, chamada por todo o romance de \u201cA mo\u00e7a sem nome\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ricardo Dicke constr\u00f3i esse enredo numa linguagem extremamente bem cuidada, desde o dom\u00ednio vocabular vern\u00e1culo e de outras l\u00ednguas em que era fluente como ingl\u00eas, alem\u00e3o, espanhol, latim e franc\u00eas. A vasta erudi\u00e7\u00e3o do escritor atesta uma capacidade de produzir sentidos fazendo uso inclusive do sotaque e de costumes mato-grossenses, que chamaram a aten\u00e7\u00e3o do j\u00fari e levaram \u00e0 sua vit\u00f3ria no pr\u00eamio liter\u00e1rio conquistado. Ele exp\u00f5e uma tem\u00e1tica que parece ser regional, mas exibe uma busca universal por autoconhecimento. O estilo \u00e9 bem equilibrado entre o substantivo vivo e o adjetivo pontual, par\u00e1grafos longos, sem divis\u00e3o em cap\u00edtulos ao formatar o pensamento dos personagens, entrela\u00e7ando as vozes dos diversos narradores que contam suas expectativas, vidas pregressas e desejo comum de chegar \u00e0 Figueira-M\u00e3e (o centro do labirinto no qual se perdem), sem manique\u00edsmo na defini\u00e7\u00e3o de cada car\u00e1ter personificado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O romance <em>Madona dos P\u00e1ramos <\/em>situa-se como a obra prima do escritor, tanto pela elabora\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica, ou seja, a fuga do bando rumo ao desconhecido, quanto pelos procedimentos est\u00e9ticos adotados. Entre eles, distinguimos o objetivo pontual a princ\u00edpio (encontro do ref\u00fagio de todos), em seguida a circula\u00e7\u00e3o do corpo similar ao navegar de ideias de cada personagem. Esse elemento est\u00e9tico extrapola o simples delineamento f\u00edsico ou at\u00e9 mesmo a apresenta\u00e7\u00e3o de suas hist\u00f3rias, agruras, o sentido da vida que se esvai para cada um. De homens fortes, destemidos, com um objetivo claro a princ\u00edpio, passam a seres esquel\u00e9ticos perambulando por um espa\u00e7o que os desafia muito mais que a fuga da pol\u00edcia, os \u201cmeganhas\u201d, no texto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O romance \u00e9 um divisor de \u00e1guas na literatura do escritor, composta por <em>Como o sil\u00eancio <\/em>(1968) \u2212 livro fora de cat\u00e1logo; os romances <em>Deus de Caim<\/em> (1968), <em>Caieira<\/em> (1978), <em>Madona dos P\u00e1ramos<\/em> (1982), <em>\u00daltimo Horizonte<\/em> (1988), <em>A chave do abismo <\/em>(1989) (poesia), <em>Cerim\u00f4nias do esquecimento<\/em> (1995), <em>Rio abaixo dos vaqueiros<\/em> (2000), <em>O sal\u00e1rio dos poetas<\/em> (2000) e <em>Toada do esquecido &amp; sinfonia equestre<\/em> (2006) \u2212 novela. Publica\u00e7\u00f5es p\u00f3stumas s\u00e3o <em>Cerim\u00f4nias do sert\u00e3o<\/em> (2011) \u2013 romance \u2212, <em>O velho mo\u00e7o e outros contos <\/em>(2011), Os <em>semelhantes<\/em> (2011) \u2013 novela \u2212, <em>A proximidade do mar e a ilha <\/em>(2011) \u2212 contos. \u00c0 exce\u00e7\u00e3o do livro de poemas, a obra dickeana publicada at\u00e9 o momento, em sua maioria, \u00e9 composta por romances. As obras s\u00e3o divididas entre aquelas mais restritas a um enredo linear, constru\u00eddo em torno de uma movimenta\u00e7\u00e3o f\u00edsica bem contornada dos personagens, e outras em que o dado objetivo \u00e9 um subterf\u00fagio para o jorro dos pensamentos de personagens atormentados pela ang\u00fastia e pela incerteza do futuro, premidos no limite entre vida e morte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Madona dos P\u00e1ramos<\/em> \u00e9 bastante atual e at\u00e9 mesmo ilustrativo de uma boa parte da produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria contempor\u00e2nea cuja tend\u00eancia, entre outras, \u00e9 a universaliza\u00e7\u00e3o por meio de temas mitol\u00f3gicos de quest\u00f5es hist\u00f3ricas, sociais e individuais. Dicke, ao imiscuir em sua trama a constru\u00e7\u00e3o de um Estado situando seus personagens em confronto com o desconhecido, aprofunda suas densidades psicol\u00f3gicas concomitante \u00e0 grandeza natural de Mato Grosso. Assim, o pensamento localizado dos personagens, que poderia ficar restrito ao regional, extrapola tal reducionismo e alcan\u00e7a o patamar da universalidade porque, entre outras situa\u00e7\u00f5es narrativas, a busca pela terra prometida aparece desde a narrativa b\u00edblica at\u00e9 a terra sonhada no romance <em>Torto arado <\/em>(2020), de Itamar Vieira J\u00fanior, vencedor do Pr\u00eamio Jabuti de 2020. Os arqu\u00e9tipos universais ainda se fazem notar na literatura de Dicke ao criar seus personagens num conflito interno resultante da ang\u00fastia entre vida e morte. Com isso, apura-se o fio t\u00eanue da conscientiza\u00e7\u00e3o concernente \u00e0 provisoriedade em que o ser humano se encontra em todos os tempos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A literatura de Ricardo Dicke em conjunto e <em>Madona dos P\u00e1ramos <\/em>em especial espelham a maestria na escrita ao mesclar um substrato religioso ao fator hist\u00f3rico e pessoal dos personagens. Ele inventa uma trama que atrai n\u00e3o somente pela curiosidade, mas tamb\u00e9m pelo teor humano desenvolvido na narrativa. A narra\u00e7\u00e3o cambiante entre os seres ficcionais \u00e9 igualmente uma t\u00e9cnica apurada do escritor, que exige muito do leitor porque n\u00e3o h\u00e1 aviso pr\u00e9vio da troca de perspectivas. A viagem empreendida \u2013 um <em>leitmotiv <\/em>t\u00e3o antigo quanto a pr\u00f3pria literatura \u2013, a viol\u00eancia no percurso e o dom\u00ednio sobre a natureza e o outro se mesclam de tal forma na trajet\u00f3ria dos personagens que a figura central inspiradora do t\u00edtulo do romance, \u201cA mo\u00e7a sem nome\u201d, se torna a fiel deposit\u00e1ria do sil\u00eancio, criando, dessa maneira, o mist\u00e9rio (p\u00e1ramo) que circunda a todos. Ela \u00e9 o motivo do desejo, a inalcan\u00e7\u00e1vel Madona, passando a vingadora da morte dos familiares por seu mutismo quando est\u00e1 com os fugitivos dos outros e os fugitivos de si mesmos. Figura envolvente, A mo\u00e7a sem nome, nas m\u00e3os de Ricardo Dicke, \u00e9 uma personagem como poucas na literatura tal o trabalho posto em sua criatividade. Nisso, constata-se uma de suas vertentes liter\u00e1rias mais acentuadas, ou seja, o escritor que p\u00f5e em relevo a figura feminina e, n\u00e3o, como um ser fr\u00e1gil e desprotegido. Pelo contr\u00e1rio, ele evidencia o poder da mulher num ambiente masculino e hostil. Indicamo-lo como mais um aspecto de contemporaneidade na literatura mato-grossense.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BARBOSA, Everton Almeida (2014). <em>Narrador, tempo e mem\u00f3ria em Cerim\u00f4nias do Esquecimento, de Ricardo Guilherme Dicke<\/em>. Tese (Doutorado em Estudos Liter\u00e1rios) \u2013 Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MACHADO, Madalena (2014). <em>A literatura de Ricardo Dicke \u2013 Interven\u00e7\u00f5es cr\u00edticas. <\/em>S\u00e3o Paulo: Arte &amp; Ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MACHADO, Madalena (2017). <em>Tr\u00edade po\u00e9tica na obra de Ricardo Dicke. <\/em>Curitiba: Appris.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MIGUEL, Gilvone Furtado (2007). <em>O imagin\u00e1rio mato-grossense nos romances de Ricardo Guilherme Dicke.<\/em> Tese (Doutorado em Letras e Lingu\u00edstica) \u2013 Universidade Federal de Goi\u00e1s, Goi\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MORAES, Rodrigo Simon (2021). <em>Em busca de quem se perdeu: contos in\u00e9ditos de Ricardo Guilherme Dicke. <\/em>Tese (Doutorado em Estudos Liter\u00e1rios) \u2013 Universidade Estadual de Campinas, Campinas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-3130.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-3130\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Antares-1982.jpeg\" data-caption-title=\"Antares, 1982\" data-attachment-id=\"1010\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img decoding=\"async\" title=\"Antares, 1982\" width=\"250\" height=\"357.421875\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Antares-1982.jpeg\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22357.421875%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20357.421875%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Antares, 1982<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DICKE, Ricardo Guilherme. 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