{"id":8228,"date":"2026-05-27T17:54:20","date_gmt":"2026-05-27T20:54:20","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?post_type=entrevista&#038;p=8228"},"modified":"2026-06-29T12:14:28","modified_gmt":"2026-06-29T15:14:28","slug":"carlos-nejar","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?entrevista=carlos-nejar","title":{"rendered":"Carlos Nejar"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Giovanni Ricciardi: <\/strong><em>Percebo que no Brasil os movimentos liter\u00e1rios continuam a dividir e a suscitar sentimentos fortes. Qual \u00e9 a sua posi\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Carlos Nejar: <\/strong>Os movimentos liter\u00e1rios, Giovanni, eu os vejo de uma for\u00adma muito cr\u00edtica, porque a poesia \u2013 a cria\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 muito mais ampla do que qualquer movimento. N\u00f3s buscamos a vida atrav\u00e9s das palavras. Enquanto o movimento tenta abarcar apenas determinados espa\u00e7os, a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 o espa\u00e7o total, a vida total, o pensamento total. H\u00e1 uma grande \u00e2nsia na minha cria\u00e7\u00e3o: a busca da poesia total.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O movimento que mais tentou marcar a minha gera\u00e7\u00e3o, a gera\u00e7\u00e3o de 1960, foi o movimento concretista. Quando comecei co\u00admo poeta, encontrei-o tomando conta dos espa\u00e7os dos jornais com princ\u00edpios dogm\u00e1ticos como este: \u201cquem n\u00e3o est\u00e1 conosco n\u00e3o tem salva\u00e7\u00e3o\u201d; \u201cquem n\u00e3o escreve como n\u00f3s, n\u00e3o escreve poe\u00adsia\u201d. Muitos poetas da minha gera\u00e7\u00e3o resolveram escrever dife\u00adrente, porque exatamente n\u00f3s descobrimos que a nossa salva\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava em nenhum movimento determinado; a nossa salva\u00e7\u00e3o estava na palavra, no trabalho que a palavra merecia para dar uma vis\u00e3o do universo. O concretismo, para n\u00f3s, foi um movimento de terrorismo cultural, que lan\u00e7ou sobre a literatura brasileira toneladas de teorias, muitas delas advindas do estrangeiro, querendo adaptar \u00e0 nossa l\u00edngua determinadas caracter\u00edsticas de literaturas que pertenciam a uma outra l\u00edngua, tentando aplicar a uma l\u00edngua fon\u00e9tica \u2013 como \u00e9 a l\u00edngua portuguesa \u2013 a perspectiva de uma l\u00edngua \u00f3ptica, visual, como \u00e9, por exemplo, o chin\u00eas. A influ\u00eancia que a minha gera\u00e7\u00e3o pode ter sofrido \u00e9 a de Ezra Pound, Mallarm\u00e9, Cummings, jamais a influ\u00eancia deles, os concretistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Donde n\u00f3s, que confiamos na palavra, estarmos inseridos numa tradi\u00e7\u00e3o de poesia brasileira que vem de M\u00e1rio de Andrade, de Carlos Drummond, de Murilo Mendes, de Jorge de Lima \u2013 o Modernismo \u2013, que alcan\u00e7a Jo\u00e3o Cabral, Ledo Ivo e outros. Drummond vislumbrou genialmente que \u201chavia uma pedra no meio do caminho\u201d, e essa pedra \u00e9 o mundo contempor\u00e2neo, \u00e9 o homem diante do problema, diante da ang\u00fastia, diante do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A minha gera\u00e7\u00e3o busca remover essa pedra do meio do caminho; por isso, \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o \u00e9pica: n\u00e3o contempla apenas o acontecimento, quer mudar o acontecimento, quer transformar as coisas, n\u00e3o aceita mais passivamente aquilo que nos imp\u00f5em, mas quer dar uma vis\u00e3o pr\u00f3pria, nova.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>E a sua rela\u00e7\u00e3o com o movimento Pr\u00e1xis?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>Eu sou muito independente. O movimento <em>Pr\u00e1xis<\/em> \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o do te\u00f3rico M\u00e1rio Chamie, que \u00e9 talentoso. A pr\u00f3pria poe\u00adsia dele venceu todas as camisas de for\u00e7a, n\u00e3o se conformou com o movimento que ele mesmo estabeleceu. Porque a vida \u00e9 muito mais forte do que qualquer camisa de for\u00e7a. A defesa de determinadas teorias muitas vezes consiste naquilo que o poeta gostaria de realizar. N\u00f3s, poetas, corremos riscos com a palavra, n\u00f3s lutamos com a palavra e as palavras podem tamb\u00e9m nos atacar como animais, como se fossem feras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Qual \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com as palavras?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>\u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o com a vida. A vida \u00e9 muito mais ampla, mais espa\u00e7osa, mais larga. N\u00f3s, poetas, usamos a palavra como janela, como uma porta que se abre diante do desconhecido. A linguagem, para mim, \u00e9 uma aventura do desconhecido e cada dia mais o poeta tem de adentrar no Universo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>O processo criativo de seus poemas passa por muitas fases de elabora\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>A poesia vai na minha frente. Eu tento acompanh\u00e1-la, segur\u00e1-la dentro de determinada forma, mas ela \u00e9 muito mais forte do que eu. O que eu tenho visto \u00e9 que as formas explodem quan\u00addo a palavra busca existir na sua plenitude sobre a p\u00e1gina. Ja\u00admais eu busco diretamente o sentido, o sentido \u00e9 que me busca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando come\u00e7o um texto, n\u00e3o sei o que vai ser. Vou vendo o texto ir se formando \u00e0 medida que as palavras v\u00e3o me levando e o fio do pensamento vai correndo. De repente, eu vejo que o poema est\u00e1 pronto. Vejo tamb\u00e9m que os meus poemas come\u00e7am a formar uma verdadeira comunidade, que \u00e9 o livro, como aqueles jogos de ar\u00admar da inf\u00e2ncia: come\u00e7am-se a juntar e v\u00ea-se que o livro est\u00e1 pron\u00adto. Uma caracter\u00edstica minha \u00e9 que eu n\u00e3o sou apenas autor de poemas, eu sou autor de livros. Os poemas vivem independentemente, mas tamb\u00e9m em fun\u00e7\u00e3o da aldeia, que \u00e9 o livro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>O que voc\u00ea sente, fisicamente, quando surge um poema?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>Num primeiro movimento, sinto como se estivesse carregado de coisas que eu precisasse p\u00f4r fora. Fico carregado de emo\u00e7\u00e3o. \u00c9 como se eu andasse em alta velocidade e, de repente, aquilo tudo come\u00e7asse a vir ao papel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os poemas come\u00e7am a se formar numa verdadeira explos\u00e3o criadora. Depois, os poemas se assentam e os deixo esfriar, porque est\u00e3o incandescentes. E vou aperfei\u00e7oando o texto. O meu aperfei\u00e7oamento \u00e9 sobretudo tirar coisas, e, para esse trabalho, eu deixo que o tempo se acumule.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algumas vezes, eu escrevo um livro em seis meses, mas s\u00f3 o publico depois de quatro anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quando voc\u00ea fala em livro, fala num conjunto de poemas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>Sim! No Brasil, em regra, os poetas s\u00e3o autores de poemas. Eu me caracterizo por ser um autor de livros. Todos os meus livros v\u00e3o formar um livro \u00fanico e grande, um canto \u00e9pico, dram\u00e1tico, l\u00edrico, pungente, do homem, da condi\u00e7\u00e3o humana. Eu estou ligado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana. Nessa medida, eu sou um poeta pol\u00edtico, um poeta metaf\u00edsico, l\u00edrico, \u00e9pico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>H\u00e1 crises durante a cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>Sim, h\u00e1 crises, como h\u00e1 crises na vida, mas a crise \u00e9 a parturi\u00e7\u00e3o de algo maior. Fico o espa\u00e7o de um ano sem escrever, co\u00admo se estivesse imensamente cansado, mas, atrav\u00e9s de uma palavra ou outra, come\u00e7a a brotar um novo livro, que se forma co\u00admo uma teia de aranha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em certa medida, eu crio meus livros, mas tamb\u00e9m sou criado por eles. Tanto que eu, diferentemente dos outros autores, digo que nem sempre os livros s\u00e3o os meus filhos; \u00e0s vezes, o livro \u00e9 meu pai, porque eu cres\u00e7o nele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>H\u00e1 momentos ideais para escrever?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>H\u00e1. Eu acredito na inspira\u00e7\u00e3o. O poema pode nascer den\u00adtro de um livro, quando j\u00e1 existem v\u00e1rios outros poemas e estou vivendo aquele clima e as palavras est\u00e3o imantadas em mim, vi\u00advendo em mim. Depois de elas viverem em mim, v\u00eam \u00e0 baila. Pos\u00adso escrever um poema caminhando pela cal\u00e7ada. Me aconteceu quando, promotor de justi\u00e7a em Caxias do Sul, caminhava para o f\u00f3rum: de repente, o poema come\u00e7ou a se misturar ao ru\u00eddo de meus passos. Escrevi \u201cSelos dos dias\u201d, de <em>Po\u00e7o <\/em><em>do calabou\u00e7o<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dias de ver\u00e3o<br>dias vir\u00e3o<br>a golpes secos de potros no ch\u00e3o<br>N\u00e3o sei se j\u00e1 nasceram<br>N\u00e3o sei onde se encontram<br>os dias que amo tanto<br>No cano do fuzil<br>ou no cano do espanto.<br><br>Dias vir\u00e3o vir\u00e3o<br>lobos de aragem e a todos morder\u00e3o<br>com sua liberdade<br>Que o p\u00e1ssaro se apluma<br>nas penas desses p\u00e1ssaros<br>e ir\u00e3o dias brotando<br>aos ombros de outros ombros<br>at\u00e9 onde houver ombros<br>ir\u00e3o dias brotando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Veja voc\u00ea que \u00e9 um poema com passos. Tenho outro poema que d\u00e1 o mesmo movimento de um cavalgar; \u00e9 o \u00faltimo canto de meu livro <em>O campeador e o vento<\/em>, uma epopeia contempor\u00e2nea do Rio Grande do Sul, em dez cantos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No \u00faltimo, <em>O cam\u00adpeador com as r\u00e9deas do tempo<\/em>, fiz um poema sobre o vento, que se liga ao nosso minuano, vento do Rio Grande. Eu estava subindo de elevador e, na minha mente, o poema come\u00e7ava a cor\u00adrer. Cheguei ao escrit\u00f3rio tamb\u00e9m correndo para anotar:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando os ventos forem caminhos<br>Quando os ventos forem sementes<br>Quando os cavalos forem moinhos<br>E a noite negra for transparente<br>Quando os ventos forem caminhos<br>Quando os barcos forem poentes<br>Quando os cavalos forem moinhos<br>Quando a noite tranquilamente<br>A minha vida cheia de ventos<br>Na tua vida feita semente<br>Quando o jugo com seus dentes<br>Quando os ventos forem caminhos<br>Seremos ventos e moinhos<br>Sombras esguias, ventos, moinhos<br>Moendo a noite nos seus caminhos.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso \u00e9 o movimento de cavalos. Se estou no clima, o poema sai, n\u00e3o como eu quero, mas como ele quer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quando voc\u00ea escreve, domina a vontade ou a neurose, o prazer da intelig\u00eancia, da imagina\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>Muito mais do que neurose, \u00e9 o prazer de estar vivo, \u00e9 uma voca\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel para a vida. O poema atravessa as barreiras, liga-se ao Universo, \u00e9 outra esp\u00e9cie de universo, dentro da linguagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Uma pergunta can\u00f4nica: por que voc\u00ea escreve?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>\u00c9 uma pergunta interessante, que a cada dia me fa\u00e7o. Escrevo porque \u00e9 uma forma de estar vivo, \u00e9 uma forma de pensar a vida e tamb\u00e9m uma forma de consci\u00eancia do universo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o posso aceitar passivamente os acontecimentos, porque n\u00f3s vivemos num mundo autom\u00e1tico, num mundo de coisas que nos s\u00e3o impostas, e o poema \u00e9 um instante de consci\u00eancia neste universo. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel mais aceitarmos as coisas passivamen\u00adte; temos de tentar mud\u00e1-las. No momento em que n\u00f3s usamos a palavra, j\u00e1 estamos sendo a palavra, j\u00e1 estamos mudando o sentido das coisas, porque j\u00e1 estamos nos ligando \u00e0 palavra origin\u00e1ria e \u00e0quele que \u00e9 a Palavra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Onde encontra est\u00edmulos para escrever?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>O est\u00edmulo para escrever, Giovanni, s\u00e3o as coisas exteriores que nos acontecem: uma tristeza, uma alegria, um acontecimento, alguma frustra\u00e7\u00e3o, alguma vit\u00f3ria, a leitura de um poeta. Por sugest\u00e3o, de repente, n\u00f3s sa\u00edmos daquele mundo para o nosso pr\u00f3prio universo, e assim nasce a poesia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Voc\u00ea escreve regularmente ou \u00e9 possu\u00eddo por raptos, improvisos?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>A cria\u00e7\u00e3o inicial do poema \u00e9 uma esp\u00e9cie de rapto seco do esp\u00edrito, usando uma express\u00e3o de algu\u00e9m. \u00c9 um momento de arrebatamento espiritual com a palavra. Escrevo regularmente porque estou sempre trabalhando meus poemas depois de prontos. Nunca estou contente com o poema como ele \u00e9. A exig\u00eancia \u00e9 algo que cresce com o criador, \u00e9 como se a gente estivesse subindo uma alta montanha, o ar ficando rarefeito; cada vez mais estamos descontentes com o que fazemos. O primeiro momento \u00e9 o de explos\u00e3o, e esse eu n\u00e3o toco. Toco depois, no momento de cristaliza\u00e7\u00e3o, em que entra a t\u00e9cnica, entra toda a minha experi\u00eancia com a palavra, todo o conhecimento de arte po\u00e9tica. Mas o mo\u00admento inicial \u00e9 intacto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Qual o papel que o imprevisto desempenha em seu ato criador?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>O acaso, o imprevisto, \u00e9 muito importante porque o poema se alimenta de imprevisto. Eu n\u00e3o sou um poeta que me sento \u00e0 mesa para escrever determinado poema. Sou o poeta que escrevo o poema porque o poema est\u00e1 me escrevendo. O acaso cria versos, aperfei\u00e7oa outros e at\u00e9 corrige a arte ou o erro dos tip\u00f3grafos. Numa prova do <em>Livro dos viventes, <\/em>livro meu de personagens, o verso original dizia: \u201cNingu\u00e9m \u00e9 Ulisses. E o acaso\u201d. Por um erro gr\u00e1fico, veio esta descoberta, altamente po\u00e9tica: \u201cNingu\u00e9m \u00e9 Ulisses por acaso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Em sua vida de poeta, houve um acontecimento extremamente gratificante ou uma grande frustra\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>Sou um homem muito vivido. Tenho conhecido da vida a vertigem, o amor at\u00e9 as suas profundezas, muitas experi\u00eancias, como se eu tivesse vivido muito tempo, como se estivesse viven\u00addo muitos personagens. Num certo sentido, o homem vai envelhecendo, mas o poeta vai se tornando cada vez mais crian\u00e7a, por\u00adque a inf\u00e2ncia \u00e9 uma esp\u00e9cie de hist\u00f3ria do futuro e a \u00e9pica que eu busco \u00e9 a \u00e9pica do futuro, \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o do futuro. Minha grande nostalgia \u00e9 a nostalgia do futuro, e o tempo l\u00f3gico \u00e9 o meu principal personagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Qual o livro dos outros que gostaria de ter escrito?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>Eu te confesso que n\u00e3o tenho essa nostalgia, n\u00e3o. Eu passo toda a vida para ser Carlos Nejar e serei toda a vida Carlos Nejar, mais gordo ou mais magro, alto ou baixo, mas vivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como se sente dentro da literatura brasileira, hoje?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>Eu me sinto com meu espa\u00e7o. Com o dito p\u00f3s-modernismo, a cria\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea brasileira n\u00e3o sabe mais pensar, n\u00e3o sabe mais ver, se perde mais nos enfeites da t\u00e9cnica (at\u00e9 cinematogr\u00e1fica) do que naquilo que permanece. E eu quero a eternidade, eu quero o que dura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o escrevo para ser consumido, escrevo para ser lido por muitas e muitas gera\u00e7\u00f5es, porque acredito no poder da palavra, no poder da Hist\u00f3ria. As palavras obedecem ao grande vento da cria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o vejo limites dentro do universo, embora eu veja limites em mim. A maturidade \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o dos limites, mas eu tento tirar dessas limita\u00e7\u00f5es o ilimitado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 o poeta, acaso, aquele que \u00e9 capaz de conciliar os contr\u00e1rios? A poesia \u00e9 a arte de juntar a \u00e1gua com o fogo, depois tornar o fogo uma esp\u00e9cie de estrela ou uma constela\u00e7\u00e3o. As palavras aprendem a nos obedecer e n\u00f3s tamb\u00e9m aprendemos a amar as palavras. E, de repente, \u00e9 a elas que n\u00f3s obedecemos. \u00c9 dif\u00edcil fazer a separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como o cotidiano influencia seu trabalho criador?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>O cotidiano \u00e9, para mim, um dia completamente novo. Os trabalhos, a vida no lar, o andar na rua. O cotidiano habita a mi\u00adnha poesia, embora aparentemente eu n\u00e3o seja um poeta do cotidiano. Mesmo o cotidiano entra sob outra forma, como perspectiva, como dimens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o posso, por exemplo, falar do homem no tempo se eu n\u00e3o pensar o homem no dia, no ontem, no amanh\u00e3. N\u00e3o posso separar o homem da f\u00e1brica do homem, do escrit\u00f3rio de advocacia, porque o que eu busco \u00e9 o homem, a condi\u00e7\u00e3o humana, aquilo que permanece no homem e que o tempo n\u00e3o pode arrancar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Entre as palavras seguintes, gostaria que voc\u00ea escolhesse tr\u00eas e dissesse algo sobre elas: amor, cidade, poder, povo, solid\u00e3o, solidariedade, prazer, viol\u00eancia, amizade, noite, sil\u00eancio.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong><em>Amor, <\/em>porque \u00e9 a grande h\u00e9lice da minha poesia e da minha vida. <em>Povo, <\/em>porque sou um poeta ligado \u00e0 minha gente e \u00e0 mi\u00adnha terra, sou um poeta ligado ao Rio Grande, ao Brasil. Acho que n\u00f3s, poetas, temos de dar uma identidade nacional \u00e0 nossa gente. O poeta \u00e9 um ser coletivo e, num certo sentido, exprime o inconsciente coletivo porque usa a palavra, que \u00e9 mat\u00e9ria coletiva. \u00c9 como na beira de um lago, quando atiramos uma pedra: refletem-se os c\u00edrculos conc\u00eantricos da pedra caindo. <em>Sil\u00eancio, <\/em>porque h\u00e1 muita precis\u00e3o de sil\u00eancio entre as pa\u00adlavras, e o sil\u00eancio exprime o poema total, absoluto. Acho que a poesia \u2014 ao menos a minha \u2014 tem sede de absoluto, s\u00f3 pode repousar no absoluto, e o absoluto \u00e9 a Palavra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como voc\u00ea apresentaria sociol\u00f3gica e culturalmente seu n\u00facleo familiar, seu meio social?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>Nasci em Porto Alegre em 1939, numa fam\u00edlia de comerciantes. Meu pai, Sadi Nejar, filho de s\u00edrio com libanesa; minha m\u00e3e, dona de casa, filha de italiano com francesa. Meu nome completo \u00e9 Luiz Carlos Verzoni Nejar, mas, no correr da minha vida, o poeta foi absorvendo tudo: eu separava o homem \u2013 advogado, promotor, procurador de justi\u00e7a \u2013 e Car\u00adlos Nejar, o poeta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dia, quando lecionava no interior, me perguntaram: \u201cQuem \u00e9 o tal de Carlos Nejar?\u201d, eu disse que era meu primo-irm\u00e3o. Mas depois o poeta foi absorvendo todas as coisas da minha vida e hoje sou talvez apenas o poeta Nejar, que, em \u00e1rabe, significa carpinteiro, carpinteiro de palavras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meu meio social era at\u00e9 abastado, tive possibilidade de conv\u00edvio com livros. Meu pai, n\u00e3o muito culto, mas muito curio\u00adso, tinha uma biblioteca vast\u00edssima, e eu conheci Shakespeare, Jos\u00e9 de Alencar, os grandes poetas universais. Eu lia desde cedo e ficava maravilhado com o que as palavras escondiam. Vi que as palavras tinham aroma, cor, som. Depois eu comecei a descobrir que havia um mundo todo atr\u00e1s das palavras, que eu queria des\u00adcobrir de qualquer maneira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que me facilitou muito foi o desejo de meu pai de que eu adquirisse cultura. Entretanto, quando ele descobriu que eu era poeta, comecei a ter problema com a fam\u00edlia. Poeta, para eles, era algo completamente fora do pr\u00e1tico. Ele tinha me preparado para ser um homem de neg\u00f3cios. Fui um bom aluno na Faculdade de Direito. Ele come\u00e7ou a ver que eu podia ser poeta e ser alguma outra coisa que fosse meu ganha-p\u00e3o, porque eu n\u00e3o podia viver de poesia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sempre desenvolvi este outro lado da minha personalidade: nunca fui um homem totalmente pr\u00e1tico, mas aprendi a sobreviver como advogado, a ponto de o Direito tamb\u00e9m entrar na mi\u00adnha poesia. Talvez eu seja um dos poucos poetas em l\u00edngua portuguesa a usar a linguagem jur\u00eddica, como na fase dos meus li\u00advros <em>Dana\u00e7\u00f5es<\/em>, <em>Ordena\u00e7\u00f5es,<\/em> e <em>Casa dos arreios. <\/em>\u00c9 que apliquei a teoria de Lavoisier: nada se perde, tudo se transforma. A lin\u00adguagem jur\u00eddica tem o h\u00famus medieval, \u00e9 uma linguagem carregada de sentidos, poucas vezes utilizada na poesia; mas eu a usei, e isso \u00e9 uma das caracter\u00edsticas que marcaram a minha obra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Recebeu uma educa\u00e7\u00e3o religiosa?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>Minha av\u00f3 foi uma pessoa muito marcante na minha vida. Fui formado na religi\u00e3o cat\u00f3lica; tenho um tio que \u00e9 monsenhor. Todavia, no decorrer da vida, tive uma grande experi\u00eancia com o Deus vivo, que mudou completamente a minha exist\u00eancia e que me marcou profundamente. N\u00e3o foi na Igreja cat\u00f3lica, foi numa Igreja evang\u00e9lica. Hoje, se voc\u00ea me perguntar qual \u00e9 a minha re\u00adligi\u00e3o, digo: n\u00e3o tenho religi\u00e3o, tenho uma experi\u00eancia profunda com o Deus vivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Qual foi a grande encruzilhada de sua vida?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>Tive uma encruzilhada muito grande na minha vida, mas vamos falar em tr\u00eas encruzilhadas. A primeira: assim que eu me formei, foi a fal\u00eancia de meu pai, que me marcou muito, porque n\u00f3s \u00e9ramos uma fam\u00edlia de grande prosperidade material e eu tive de lutar pela pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia e ajudar meu pai nessa luta. Foi quando entrei na carreira de promotor de justi\u00e7a, fui pelo interior do Rio Grande e conheci palmo a palmo a minha terra, o pampa brasileiro, os viventes, os seres da terra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A segunda encruzilhada foi a separa\u00e7\u00e3o da minha primeira esposa, de quem vim a me divorciar. Tive uma uni\u00e3o com uma pessoa que vivia no exterior, n\u00e3o est\u00e1vamos casados, e isso fez com que eu abandonasse toda uma estrutura que esta\u00adva montada em minha vida, uma organiza\u00e7\u00e3o, um lar, v\u00e1rias outras coisas a que eu estava ligado, inclusive uma biblioteca maravilhosa que possu\u00eda. Mas eu tive a coragem de, por amor, me ati\u00adrar ao desconhecido, o que me trouxe uma experi\u00eancia comple\u00adtamente nova, po\u00e9tica por um lado; conheci momentos que quase me levaram \u00e0 loucura. Vivendo no exterior, \u00e0s vezes eu tinha de re\u00adtornar \u00e0 terra como uma forma de resist\u00eancia, tal foi a vertigem que eu tive. Aconteceu de 1981 at\u00e9 1984. Depois desse per\u00edodo, retornei ao Brasil e passei um tempo sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 a terceira encru\u00adzilhada. Separei-me daquela pessoa, porque senti que poderia ser destru\u00eddo, e vim para o Rio Grande, a minha terra. Morei sozi\u00adnho num hotel, depois numa casa mobiliada, em torno de tr\u00eas anos. Fui como me restaurando. Passei um tempo de sil\u00eancio necess\u00e1rio, praticamente quatro anos sem publicar livro. Uma necessidade minha, de buscar o fundo da coisa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois de me aposentar como procurador de justi\u00e7a, fui convidado a vir a Vit\u00f3ria para advogar. Aqui tamb\u00e9m me casei; j\u00e1 estou aqui h\u00e1 mais de dois anos. Gosto muito desta terra e deste povo que me acolheu e gosto tamb\u00e9m deste contato com a natureza. Eu sa\u00ed de todo um mundo polu\u00eddo, porque morei um tem\u00adpo no Rio. Aqui \u00e9 diferente, \u00e9 uma cidade em que a gente pode viver com tranquilidade, livre de todos esses problemas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi nesta fase, em Vit\u00f3ria, que enfrentei a luta da Academia Brasileira de Letras, tendo sido eleito no primeiro escrut\u00ednio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Acho esquisito o termo luta: por qu\u00ea?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>Juscelino Kubitschek dizia que sua maior luta n\u00e3o fora pela Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, mas pela Academia Brasileira de Le\u00adtras, onde perdeu. Confesso que postulei a Cadeira n\u00ba 4, que hoje ocupo, sem poder econ\u00f4mico, sem poder pol\u00edtico, apenas com o poder da poesia, e foi uma vit\u00f3ria em que senti que o Deus vi\u00advo pelejou por mim, porque um poeta entrar na Academia, ape\u00adnas pela sua poesia, \u00e9 um ato absolutamente po\u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como, quando e por que come\u00e7ou a escrever? Como e quando nasceu essa voca\u00e7\u00e3o de poeta?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>Eu tinha l\u00e1 os meus 12 anos, lia muito na biblioteca de meu pai, mas n\u00e3o havia descoberto em mim a capacidade de escrever. Tentei homenagear minha primeira namorada (chamava-se Jussara, era uma vizinha, amiga de minha irm\u00e3), fazendo um acr\u00f3stico e, de repente, vi que era capaz de faz\u00ea-lo e que as palavras funcionavam dentro do texto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir da\u00ed, comecei a descobrir que havia um amor muito antigo das palavras comigo e de mim com as palavras, que continua e que vai continuar por toda a eternidade, at\u00e9 aquele que \u00e9 a Palavra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como conseguiu publicar seu primeiro livro?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>Publiquei por minha conta, na Editora Globo, com o dinheiro que meu pai colocava para mim na caderneta de poupan\u00e7a quan\u00addo garoto. Verifiquei que tinha o dinheiro suficiente para publicar o livro. A capa foi feita por um grande artista gr\u00e1fico, grande pintor, Valdeni Elias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meu primeiro livro chama-se <em>S\u00e9lesis, <\/em>uma inven\u00e7\u00e3o que vem da palavra <em>selene<\/em>, acrescida do sufixo grego <em>sis. <\/em>Fala do homem-c\u00e3o, o homem morto na praia do mundo. A poesia nasceu exatamente de elementos m\u00edticos, primitivos: o mar \u00e9 a eternidade; o sol \u00e9 Deus; a praia \u00e9 o mundo; e o c\u00e3o \u00e9 o homem \u2014 o mito do homem-c\u00e3o, querendo o cetim e tendo de contentar-se com a terra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse poema, b\u00e1sico na minha obra e que marcou a minha gera\u00e7\u00e3o de 1960, nasceu quando fui \u00e0 praia de Tramanda\u00ed, perto de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, passar as f\u00e9rias, decepcionado com a separa\u00e7\u00e3o da namorada. Vi na praia um c\u00e3o morto e pensei: o homem \u00e9 um c\u00e3o, eu sou um c\u00e3o. Dessa ideia, parti para uma ideia universal \u2014 o homem \u00e9 um c\u00e3o \u2014 e desenvolvi esse poema em que vejo o mar ir levando o c\u00e3o pela eternidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Voc\u00ea<\/em> <em>aceitaria, com sal\u00e1rio fixo, escrever exclusivamente para uma editora?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>\u00c9 dif\u00edcil responder num sentido geral. Eu, na verdade, sou muito escritor, e s\u00f3 nessa medida \u00e9 que escrevo. N\u00e3o gosto de es\u00adcrever sobre temas determinados; s\u00e3o os temas determinados que me escrevem. N\u00e3o gosto de trabalhos sob encomenda, mas n\u00e3o quero dizer que n\u00e3o fa\u00e7a. Tenho aqui uma coluna de cr\u00edtica, na <em>Gazeta<\/em>, jornal de Vit\u00f3ria, onde semanalmente publico uma cr\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>O que pensa da propaganda? A poesia necessita dela? O que \u00e9 que faz o sucesso de um livro?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>Hoje h\u00e1 uma verdadeira doen\u00e7a infantil da dita comunica\u00e7\u00e3o. H\u00e1 escritores, h\u00e1 poetas que tentam facilitar, para serem alcan\u00e7ados pelo p\u00fablico, para serem consumidos. Eu tento escrever para a eternidade; ent\u00e3o, isso n\u00e3o me preocupa muito. \u00c9 l\u00f3gico que o poeta inventa os seus leitores, e os leitores inventam o seu poeta, mas a poesia, por ser um meio de conhecimento, tem leitores mais exigentes. O leitor n\u00e3o busca na poe\u00adsia um mero entretenimento \u2014 busca uma vis\u00e3o. Hoje, depois de 30 anos de poesia, j\u00e1 tenho o meu p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quando <\/em><em>escreve, <\/em><em>percebe autocensuras, temores <\/em><em>em <\/em><em>se <\/em><em>revelar?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>N\u00e3o. Para mim, escrever \u00e9 um exerc\u00edcio t\u00e3o pleno de liberdade que n\u00e3o vejo porteiras nesse campo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Um autorretrato: quem \u00e9 Carlos Nejar?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C.N.: <\/strong>\u00c9 algu\u00e9m que quer viver intensamente o seu tempo. \u00c9 um homem comum, que quer buscar o que existe de comum dentro da condi\u00e7\u00e3o humana; que ama as palavras, porque as palavras primeiro o amaram; que quer exprimir este tempo, porque o tem\u00adpo pode lev\u00e1-lo para a eternidade e que ama muito o Brasil e quer dar, como outros artistas, um rosto, uma identidade a este pa\u00eds, ao Estado onde nasceu, que \u00e9 o pampa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 um homem que v\u00ea na linguagem uma grande aventura do esp\u00edrito, que tamb\u00e9m sabe que sofre toda a precariedade de ser humano, mas est\u00e1 voltado para o movimento das estrelas, n\u00e3o acredita que o esp\u00edrito do ho\u00admem possa morrer, porque sabe que a eternidade est\u00e1 come\u00e7ando agora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BARCELOS, Carolina Montebelo (2025). Um certo Jaques Netan. Resenha de:NEJAR, Carlos. <em>Um certo Jaques Netan<\/em>. <em>Pra\u00e7a Cl\u00f3vis<\/em>: mapeamento cr\u00edtico da literatura brasileira contempor\u00e2nea, Bras\u00edlia. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4121\">https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4121<\/a>. Acesso em: 16 jan. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FREITAS, Cibele Beirith Figueiredo (2009). Ronald de Carvalho, \u00c9rico Ver\u00edssimo, Carlos Nejar: um olhar sobre a organiza\u00e7\u00e3o de tr\u00eas Hist\u00f3rias da Literatura Brasileira. <em>Letr\u00f4nica<\/em>, Porto Alegre, v. 2, n. 2, p. 181-194, 2009. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/revistaseletronicas.pucrs.br\/letronica\/article\/view\/5721\">https:\/\/revistaseletronicas.pucrs.br\/letronica\/article\/view\/5721<\/a>. Acesso em: 16 jan. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">* Apresenta\u00e7\u00e3o do autor feito por Giovanni Ricciardi na obra <em>O escritor corporal: uma sociologia para a literatura<\/em>, Foz do Igua\u00e7u: EdUnila, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">** Ela foi previamente publicada na obra <em>Biografia e cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Vol. 1: escritores da Academia Brasileira de Letras \u2013 Entrevistas. <\/em>Rio de Janeiro: Nitpress ABL, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"featured_media":8229,"template":"","meta":{"_acf_changed":true},"categories":[586,539],"estado":[119],"autoria":[250,249],"class_list":["post-8228","entrevista","type-entrevista","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-poesia","estado-rio-grande-do-sul","autoria-autoriabranca","autoria-autoriamasculina"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/entrevista\/8228","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/entrevista"}],"about":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/entrevista"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8229"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8228"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8228"},{"taxonomy":"estado","embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Festado&post=8228"},{"taxonomy":"autoria","embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fautoria&post=8228"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}