{"id":8226,"date":"2026-05-27T17:51:28","date_gmt":"2026-05-27T20:51:28","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?post_type=entrevista&#038;p=8226"},"modified":"2026-06-29T12:13:48","modified_gmt":"2026-06-29T15:13:48","slug":"harry-laus","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?entrevista=harry-laus","title":{"rendered":"Harry Laus"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Giovanni Ricciardi: <\/strong><em>Como apresentaria, social e culturalmente, o seu n\u00facleo familiar de origem e o meio em que vive?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Harry Laus: <\/strong>Sou nascido em Tijucas, Santa Catarina, em 11 de dezembro de 1922. A pequena cidade onde nasci tirou o nome do barro preto, tijuco, do fundo do rio Tijucas, que deu nome ao antigo povoado. Fica a 40 quil\u00f4metros ao norte de Florian\u00f3polis, capital de Santa Catarina. Rodolfo Laus, meu pai, era alfaiate. Minha m\u00e3e, Minervina, professora prim\u00e1ria, eu mal conheci porque morreu quando eu tinha cinco anos. Fui o \u00faltimo de doze filhos, dos quais s\u00f3 conheci sete, porque os outros morreram crian\u00e7as. Quem acabou de me criar foi minha irm\u00e3 Celeste, na \u00e9poca ainda mocinha, que passou a dirigir a casa, pois as mais velhas estavam casadas e os homens haviam sa\u00eddo para tentar a vida em cidades maiores. Depois de tantas voltas que o mundo d\u00e1, Celeste hoje tem 79 anos e vive comigo em Florian\u00f3polis, num apartamento cheio de obras de arte e muitos livros, pois sou cr\u00edtico de arte, al\u00e9m de escritor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Lembra algum epis\u00f3dio gostoso ou dram\u00e1tico desse primeiro per\u00edodo da sua vida?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>Vagamente, a morte da m\u00e3e, quando chamou todos os filhos para se despedir. Lembro tamb\u00e9m que, escolhido para recitar no Grupo Escolar Cruz e Sousa, um poema de Castro Alves, esqueci-me dos versos e sa\u00ed chorando. Tive uma inf\u00e2ncia pobre. Lembro-me de que tom\u00e1vamos caf\u00e9 preto com p\u00e3o sem manteiga, de manh\u00e3, antes de ir para o Grupo Escolar Cruz e Sousa, levando como lanche duas bolas de banana cozida e misturada com farinha de mandioca. Era muito gostoso comer aquilo meio escondido, para n\u00e3o ver as coisas boas que os meninos ricos levavam. Andei descal\u00e7o at\u00e9 os 11 anos, quando fiz a primeira comunh\u00e3o. Chorei pela imensid\u00e3o de pecados que julgava ter e aprendi a temer a Deus sem nunca chegar a am\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como foi a rela\u00e7\u00e3o com seus pais e irm\u00e3os? Qual o tipo de educa\u00e7\u00e3o recebida?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>Da m\u00e3e, pouco me lembro. Meu pai era muito carinhoso. A educa\u00e7\u00e3o em casa foi muito conservadora e cat\u00f3lica. Celeste, minha irm\u00e3, que nunca chegaria a se casar, era \u2014 e \u00e9 \u2014 extremamente cat\u00f3lica, rezando ros\u00e1rios infinitos at\u00e9 hoje. Al\u00e9m dela, viviam com meu pai as irm\u00e3s Cora e Ruth. Mas, como ele bebia muito, fomos todos para as casas das irm\u00e3s casadas e, de vez em quando, \u00edamos visit\u00e1-lo. O conto \u201cA visita\u201d foi baseado nessas lembran\u00e7as, assim como \u201cA prociss\u00e3o\u201d nasceu da conviv\u00eancia com minha irm\u00e3 casada Ester, com quem vivi algum tempo. Ruth, dois anos mais velha do que eu, foi minha companheira de inf\u00e2ncia. Pesc\u00e1vamos nos c\u00f3rregos que corriam para o rio Tijucas e procur\u00e1vamos ninhos de passarinho para enfeitar a \u00e1rvore de Natal com as casquinhas coloridas. Ruth, tamb\u00e9m escritora e cr\u00edtica de arte, vive no Rio de Janeiro. Como Celeste e eu, nunca se casou. Vive num apartamento de cobertura em Copacabana, escrevendo seus livros. O \u00faltimo, chamado <em>Presen\u00e7a de Thalia<\/em>, \u00e9 um romance com recorda\u00e7\u00f5es de inf\u00e2ncia misturadas \u00e0 fic\u00e7\u00e3o. Vi\u00favo, meu pai se casou e trouxe uma mulher muito jovem e bonita para morar conosco. Maria lhe deu mais dois filhos, Estela e Og\u00ea. Como meu pai tinha uma filha da primeira mulher que teve antes de minha m\u00e3e, e minha m\u00e3e, tamb\u00e9m vi\u00fava, teve uma filha, somando-se tudo, somos 16 que s\u00e3o (ou foram) o resultado de todos esses casamentos. Hoje, al\u00e9m de mim, existem apenas Celeste, Ruth, Estela e Og\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Qual a biblioteca, as leituras de seus verdes anos?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>Nos tempos de crian\u00e7a houve poucas leituras, quase apenas livros infantis e hist\u00f3rias em quadrinhos, principalmente a cole\u00e7\u00e3o do <em>Almanaque Tico-Tico<\/em>. N\u00e3o havia biblioteca em casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><strong>G.R.: <\/strong><\/em><em>Repassando na mem\u00f3ria esse per\u00edodo de forma\u00e7\u00e3o, encontra a figura de um \u201cmestre\u201d de vida, de um modelo que lhe marcou?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>At\u00e9 os 11 anos, toda a influ\u00eancia foi de minha irm\u00e3 Celeste. A partir da\u00ed, foi a do irm\u00e3o Jaime, com quem fui viver e trabalhar em Passo Fundo, Rio Grande do Sul. A separa\u00e7\u00e3o do pai e das irm\u00e3s Celeste, Cora e Ruth foi muito dolorosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como, quando e por que come\u00e7ou a escrever? Como nasceu a voca\u00e7\u00e3o de escritor?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>Aos onze anos, em 1933, houve uma grande transforma\u00e7\u00e3o em minha vida: meu irm\u00e3o Jayme, comerciante e caixeiro viajante no Rio Grande do Sul, arranca-me do carinho das irm\u00e3s e me leva para Passo Fundo. Fui caixeiro na loja de eletricidade do Jayme, entregava as compras e fazia a cobran\u00e7a das presta\u00e7\u00f5es, com uma bicicleta que ganhei por ter tirado o primeiro lugar ao fim do curso prim\u00e1rio no Gin\u00e1sio Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o, dos Irm\u00e3os Maristas. Foi por essa \u00e9poca que escrevi um pequeno poema dedicado \u00e0 lembran\u00e7a de minha m\u00e3e. Eu estava com 11 anos. Perdeu-se e n\u00e3o tenho not\u00edcia dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A necessidade maior de escrever surgiu a partir de 1943, quando fui posto por Jayme na Escola Preparat\u00f3ria de Cadetes, em Porto Alegre. Era preciso ter uma profiss\u00e3o, e ele decidiu por mim. Acredito que ser escritor nasceu de meu conflito com a carreira militar, da necessidade de autocomunica\u00e7\u00e3o num meio t\u00e3o adverso \u00e0 minha sensibilidade. Isto continuou tamb\u00e9m na Escola Militar das Agulhas Negras, onde me formei, em 1946. Lia muito, me apaixonei por Dostoi\u00e9vski e escrevi alguns contos, tendo publicado, pela primeira vez, o conto \u201cA viagem\u201d, na revista carioca <em>Rio Magazine<\/em>, uma viagem entre Florian\u00f3polis e Tijucas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Considera o seu primeiro livro publicado um sucesso, um insucesso, um marco determinante em sua vida?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>O primeiro livro, <em>Os incoerentes <\/em>(1958),foi um grande sucesso de cr\u00edtica, merecendo o Pr\u00eamio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras. Marcou literariamente minha vida porque me deu mais confian\u00e7a como escritor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><strong>G.R.: <\/strong><\/em><em>Quando considera ter acabado seu per\u00edodo de forma\u00e7\u00e3o? Quando e como tomou consci\u00eancia de que um per\u00edodo da pr\u00f3pria vida acabou?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>N\u00e3o posso precisar quando acabou a mocidade. O per\u00edodo de aprendizagem ainda n\u00e3o acabou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><strong>G.R.: <\/strong><\/em><em>Houve em sua vida uma encruzilhada, um acontecimento (social, hist\u00f3rico, pol\u00edtico) que lhe marcou determinantemente?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>Em 1964, com o golpe militar no Brasil, fui for\u00e7ado a pedir demiss\u00e3o do Ex\u00e9rcito, por ser homossexual e amigo de militantes comunistas. Antes disso, em 1961, comecei a escrever em jornal sobre artes pl\u00e1sticas. S\u00e3o acontecimentos que mudaram o rumo e as preocupa\u00e7\u00f5es de minha vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><strong>G.R.: <\/strong><\/em><em>Hoje voc\u00ea \u00e9 um escritor. Pode viver s\u00f3 do trabalho da escrita? Necessita de outra profiss\u00e3o? Qual \u00e9? Como concilia as duas profiss\u00f5es?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>No Brasil, pode-se contar nos dedos de uma s\u00f3 m\u00e3o quem vive apenas de seus livros. Eu tenho uma aposentadoria do Ex\u00e9rcito, no posto de Tenente-Coronel, o sal\u00e1rio de Diretor do Museu de Arte de Santa Catarina e de redator de arte no jornal <em>O Estado<\/em>, de Florian\u00f3polis. Rendimento liter\u00e1rio, praticamente nenhum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como nasce um texto? Pode dizer como surgiu um de seus contos?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>A fase de elabora\u00e7\u00e3o mental \u00e9 bastante longa para meus contos e novelas. Vou-me deixando tomar pela ideia, converso com meus personagens, tomo nota de di\u00e1logos ou solu\u00e7\u00f5es de cenas que me aparecem de improviso. Sento-me para escrever quando tenho t\u00edtulo, come\u00e7o, meio e fim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, escrevo rapidamente, \u00e0 m\u00e3o, para depois datilografar. Costumo esconder o trabalho de mim mesmo, depois de conclu\u00eddo, para rev\u00ea-lo depois de um m\u00eas, quando descubro uma por\u00e7\u00e3o de erros que corrijo, at\u00e9 julgar que se pode assinar. Como um pintor e seu quadro. No caso da novela <em>O santo m\u00e1gico<\/em>, a compuls\u00e3o foi t\u00e3o grande que deixei a dire\u00e7\u00e3o do Museu de Arte de Joinville para escrev\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Qual \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com a escrita, a palavra?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>Escrevo com muita facilidade. N\u00e3o luto com as palavras, mas fico \u00e0 procura da melhor palavra para me expressar. O estilo foi se formando aos poucos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Por que escreve?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>Escrevo pela necessidade de me comunicar com os outros e de procurar pontos de converg\u00eancia entre os leitores e minha pr\u00f3pria obra, isto \u00e9, comigo mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><strong>G.R.: <\/strong><\/em><em>Em seu trabalho criador espec\u00edfico prevalece a interrup\u00e7\u00e3o ou a continuidade? H\u00e1 crises? Com o que as identificaria?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>H\u00e1 intermit\u00eancia em minha cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria pela interfer\u00eancia da cr\u00edtica de arte, outra de minhas paix\u00f5es. H\u00e1 crises, interrup\u00e7\u00f5es, pelas dificuldades de publica\u00e7\u00f5es no Brasil e, algumas vezes, pela descren\u00e7a em mim pr\u00f3prio, como escritor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>H\u00e1 momentos felizes ou ideais para escrever?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>N\u00e3o creio em momentos felizes, mas em condi\u00e7\u00f5es ideais para escrever: solid\u00e3o e sil\u00eancio. Sou incapaz de escrever com algu\u00e9m junto e mesmo com interfer\u00eancia musical.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quando escreve \u00e9 a vontade que puxa a escrita, \u00e9 a neurose, \u00e9 o prazer da intelig\u00eancia ou da fantasia?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>O prazer da intelig\u00eancia e da fantasia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><strong>G.R.: <\/strong><\/em><em>Houve em sua vida de escritor um acontecimento extremamente gratificante ou de grande frustra\u00e7\u00e3o? Poderia contar?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>Extremamente gratificante foi o pr\u00eamio da Academia. Frustrante foi quando fui descobrir, depois de haver acreditado piamente nele, que meu romance, <em>Tempo ser\u00e1, <\/em>n\u00e3o era bom.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong>O<em>nde encontra est\u00edmulos e pretextos para escrever?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>A partir de 1988, todo o est\u00edmulo vem da tradutora francesa Claire Cayron. Meus \u00faltimos trabalhos, a partir da\u00ed, s\u00f3 foram escritos em fun\u00e7\u00e3o desse est\u00edmulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Escreve regularmente ou \u00e9 tomado por impulsos repentinos?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>N\u00e3o escrevo literatura regularmente, mas estou sempre ocupado com a palavra escrita, atrav\u00e9s do jornal ou de apresenta\u00e7\u00f5es de artistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Qual \u00e9 o papel que o imprevisto desempenha em seu trabalho criador?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>N\u00e3o posso localiz\u00e1-lo, mas percebo que o imprevisto encontra solu\u00e7\u00f5es n\u00e3o imaginadas <em>a priori<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Existe o prazer de escrever?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>O prazer de escrever \u00e9 maior exatamente quando entra o imprevisto, no surgimento de imagens e solu\u00e7\u00f5es inesperadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Qual \u00e9 o livro dos outros que gostaria de ter escrito? Por qu\u00ea?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>N\u00e3o gostaria de escrever nenhum livro j\u00e1 escrito. Gostaria de escrever o livro ainda n\u00e3o escrito por mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como se sente dentro da literatura brasileira de hoje?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>Marginalizado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>O que pensa dessa literatura e qual o futuro dela?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>Penso que h\u00e1 valores universais, como Machado de Assis, Graciliano Ramos e Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa. Apesar desta barreira que se chama l\u00edngua portuguesa, acho que ela chegar\u00e1 onde merece.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><strong>G.R.: <\/strong><\/em><em>O cotidiano (fam\u00edlia, outra profiss\u00e3o) influencia seu trabalho de escritor? Quanto interfere? Causa tranquilidade ou neurose?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>Sou solteiro, vivo com uma irm\u00e3 solteira (eu com 66, ela com 78), com quem me dou muito bem, sem interfer\u00eancias m\u00fatuas. Tenho poucos amigos. N\u00e3o frequento a noite. Pouco me divirto. A interfer\u00eancia com o of\u00edcio de escritor, que s\u00e3o as artes pl\u00e1sticas, eu mesmo a procurei porque tamb\u00e9m me d\u00e1 prazer e porque, pela repercuss\u00e3o de minha atividade cr\u00edtica, satisfaz minha vaidade. Gosto de viajar. Fiz 10 viagens \u00e0 Europa, tr\u00eas delas com passagem pelos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como conseguiu publicar seu primeiro livro?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>Por interm\u00e9dio de uma amiga, Eneida, jornalista e escritora, j\u00e1 falecida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Mudou de editora? Por qu\u00ea?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>N\u00e3o tenho compromisso com nenhuma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Algum editor prop\u00f4s-lhe escrever com exclusividade e com sal\u00e1rio fixo? Aceitaria ou teria aceitado a ideia?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>N\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 o caso, nem aceitaria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quando escreve pensa nos cr\u00edticos, nos leitores, no editor?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>Penso nos leitores, em como prend\u00ea-los. Em cr\u00edticos n\u00e3o penso (ali\u00e1s quase n\u00e3o existem no Brasil). Em editores, quando decido publicar algum livro no Brasil. Na Fran\u00e7a, \u00e9 minha tradutora que faz os contatos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Discute com o editor, aceita conselhos, cortes, sabendo que ele conhece o mercado?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>N\u00e3o tenho intimidade com nenhum editor, nem costumo fazer concess\u00f5es sobre o que escrevo. Minha literatura n\u00e3o \u00e9 de grande p\u00fablico, nem me interessa que seja.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><strong>G.R.: <\/strong><\/em><em>Acredita que a publicidade seja importante para o lan\u00e7amento de um livro, ou acha que um bom livro n\u00e3o precisa dela?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>A divulga\u00e7\u00e3o publicit\u00e1ria \u00e9 muito necess\u00e1ria, bem como a distribui\u00e7\u00e3o. No Brasil, ambas s\u00e3o muito prec\u00e1rias. Ningu\u00e9m poder\u00e1 saber se um livro \u00e9 um bom livro se ele n\u00e3o for divulgado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><strong>G.R.: <\/strong><\/em><em>Acha importante se promover? Participa do lan\u00e7amento de seus livros (noite de aut\u00f3grafos, entrevistas, palestras)?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>Fa\u00e7o lan\u00e7amentos festivos, dou entrevistas, fa\u00e7o palestras, tanto no Brasil como na Fran\u00e7a. Acho um dever do escritor colaborar com o editor na divulga\u00e7\u00e3o do livro. A autopromo\u00e7\u00e3o \u00e9 a promo\u00e7\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o, em termos de venda. No meu caso, como cr\u00edtico de arte, costumo fazer lan\u00e7amentos em galerias de arte, com vistas ao meu p\u00fablico do jornal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quando escreve percebe autocensura, temores em se revelar, la\u00e7os, impedimentos?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>Percebo, ainda, autocensura quando trato da vida militar (fazendo cr\u00edticas) e do meu homossexualismo. Por uma esp\u00e9cie de sentimento de culpa que prefiro n\u00e3o identificar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Fa\u00e7a de conta que nada tenha dito at\u00e9 agora. Poderia tra\u00e7ar o seu autorretrato?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H.L.: <\/strong>Hoje, aos 67 anos, fico imaginando como teria conseguido chegar aqui, aquele menino pobre de Tijucas. N\u00e3o sou rico, mas tenho estabilidade financeira \u2014 n\u00e3o pelo que me tenham dado meus livros. Morreria de fome se dependesse da literatura. O que me vale \u00e9 o dinheiro da aposentadoria do Ex\u00e9rcito, mais o sal\u00e1rio que recebo como diretor do Museu de Arte de Santa Catarina, pois meu prest\u00edgio como cr\u00edtico me conduziu a isto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois de ter escrito nos principais jornais do Rio e de S\u00e3o Paulo, de ter dirigido o Museu de Arte de Joinville, aqui em Santa Catarina, de ter sido membro de j\u00fari de in\u00fameros sal\u00f5es e exposi\u00e7\u00f5es, inclusive da Bienal de S\u00e3o Paulo, com isso se alimenta meu conflito entre escritor e cr\u00edtico de arte. N\u00e3o serei importante em nenhum dos dois campos porque eles se digladiam dentro de mim. Se a literatura me d\u00e1 muito maior prazer e satisfa\u00e7\u00e3o \u00edntima, a cr\u00edtica de arte satisfaz minha vaidade de estar atuando publicamente e, modestamente, estar sendo mais visivelmente \u00fatil e, sem mod\u00e9stia, estar sempre na chamada \u201ccrista da onda\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa luta escritor-cr\u00edtico de arte teve um ponto bastante negativo, em favor da cr\u00edtica. Depois de haver publicado <em>Os incoerentes<\/em>, 1958, e <em>Ao juiz dos ausentes<\/em>, 1961, me afastei da literatura de tal forma que s\u00f3 publiquei meu terceiro livro, <em>De como ser<\/em> \u2014 document\u00e1rio autobiogr\u00e1fico, em 1980. Da\u00ed em diante renasceu o interesse pela literatura, inclusive porque descobri um lugar ideal para escrever: Porto Belo, um pequeno balne\u00e1rio a 55 quil\u00f4metros ao norte de Florian\u00f3polis. Al\u00e9m <em>De como ser<\/em>, escrevi l\u00e1 duas novelas, <em>Mon\u00f3logo de uma<\/em> <em>cachorra sem preconceitos<\/em>, 1981, e <em>O santo m\u00e1gico<\/em>, 1982, e reeditei os dois livros de contos sob o t\u00edtulo de <em>Bis<\/em>, 1982.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda em Porto Belo, escrevi um livro de contos, in\u00e9dito, com 25 hist\u00f3rias homossexuais, sem grande valor liter\u00e1rio, chamado <em>Coisas do amor banido<\/em>. J\u00e1 em Florian\u00f3polis, a partir de 1985, para dirigir o Museu, publiquei <em>As horas de Zen\u00e3o das Chagas<\/em>, em 1987, seguida da tradu\u00e7\u00e3o da mesma novela para o franc\u00eas, por Claire Cayron. Os entendimentos para a tradu\u00e7\u00e3o dessa novela, que consta de <em>Os incoerentes<\/em>, come\u00e7aram em 1984 e disso resultou ainda a publica\u00e7\u00e3o francesa de <em>La premi\u00e8re balle<\/em>, edi\u00e7\u00e3o bil\u00edngue para a <em>Maison des \u00e9crivains<\/em>, de Saint-Nazaire, e uma sele\u00e7\u00e3o de contos chamada <em>Jandira<\/em>, tudo feito por Claire Cayron, a quem devo tamb\u00e9m o interesse em trabalhar no romance <em>Os pap\u00e9is do coronel<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitas vezes penso em deixar de lado minha atividade como cr\u00edtico e animador cultural, me recolher em Porto Belo, onde tenho uma casa de minha irm\u00e3 Ruth para us\u00e1-la at\u00e9 minha morte, para fazer, afinal, minha obra liter\u00e1ria. Talvez acabe fazendo isto. Mas confesso n\u00e3o ter a necess\u00e1ria confian\u00e7a em mim, como escritor, para tal aventura. Mas nada se pode antecipar em rela\u00e7\u00e3o a planos futuros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sou t\u00edmido, apesar das apar\u00eancias, e tenho poucos amigos, levando hoje uma vida sedent\u00e1ria em meu apartamento de Florian\u00f3polis. Aqui, devo fazer um reparo nessa descri\u00e7\u00e3o de vida mon\u00e1stica. Em meus tempos de mocidade, n\u00e3o era assim. N\u00e3o cheguei a ser um alco\u00f3latra, mas bebi muito, a ponto de perder empregos e situa\u00e7\u00f5es invej\u00e1veis, no <em>Jornal do Brasil<\/em>, do Rio, e na revista <em>Veja<\/em>, em S\u00e3o Paulo, por minha vida debochada e escandalosa. O mesmo se repetiu em Santa Catarina, at\u00e9 que a prud\u00eancia da idade e a sa\u00fade em perigo me fizeram deixar a vida bo\u00eamia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse estilo de vida, muito mais do que a cr\u00edtica de arte, foi o grande impedimento para que eu me tornasse o grande escritor que sempre pretendi e com que sonhei \u2014 e sonho. Quantos planos de livro ficaram pelas mesas de bar. Vejo isto ao reler um di\u00e1rio que mantive entre 1947 e 1976. Ali\u00e1s, Claire Cayron, quando esteve no Brasil em 1988, leu este di\u00e1rio e muito me incentivou a continu\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o vejo mais condi\u00e7\u00f5es. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, minha longa vida dissoluta levou essa possibilidade, porque eu troquei a introspec\u00e7\u00e3o pelos prazeres do \u00e1lcool e do sexo. Agora, quando tudo voltou \u00e0 calma, \u00e9 preciso imaginar mais um livro, j\u00e1 que <em>Caixa d\u2019a\u00e7o<\/em>, o mais recente, \u00e9 apenas uma reuni\u00e3o de contos esquecidos que Claire reencontrou nos meus arquivos. Resta a confian\u00e7a em <em>Os<\/em> <em>pap\u00e9is do coronel<\/em>, rec\u00e9m-conclu\u00eddo e in\u00e9dito, e em outros livros que, por certo, n\u00e3o deixarei de escrever.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BRAZ, Eliana Peter (2024). Os pap\u00e9is do coronel. Resenha de: LAUS, Harry. <em>Os pap\u00e9is do coronel<\/em>.<em> Pra\u00e7a Cl\u00f3vis<\/em>: mapeamento cr\u00edtico da literatura brasileira contempor\u00e2nea, Bras\u00edlia. Dispon\u00edvel em: https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2487. Acesso em: 17 jan. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">* Apresenta\u00e7\u00e3o do autor feito por Giovanni Ricciardi na obra <em>Biografia e cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Vol. VII<\/em>: entrevistas com escritores do sul do Brasil. Palho\u00e7a: Ed. Unisul, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">** Ela foi previamente publicada na obra <em>Biografia e cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Vol. VII<\/em>: entrevistas com escritores do sul do Brasil. Palho\u00e7a: Ed. Unisul, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"featured_media":8227,"template":"","meta":{"_acf_changed":true},"categories":[538,586,555],"estado":[132],"autoria":[250,249],"class_list":["post-8226","entrevista","type-entrevista","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category-contos","category-entrevistas","category-romance","estado-santa-catarina","autoria-autoriabranca","autoria-autoriamasculina"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/entrevista\/8226","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/entrevista"}],"about":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/entrevista"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8227"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8226"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8226"},{"taxonomy":"estado","embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Festado&post=8226"},{"taxonomy":"autoria","embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fautoria&post=8226"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}