{"id":8217,"date":"2026-05-27T17:36:57","date_gmt":"2026-05-27T20:36:57","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?post_type=entrevista&#038;p=8217"},"modified":"2026-06-29T12:11:43","modified_gmt":"2026-06-29T15:11:43","slug":"autran-dourado","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?entrevista=autran-dourado","title":{"rendered":"Autran Dourado"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Giovanni Ricciardi: <\/strong><em>Como apresentaria sociol\u00f3gica e culturalmente seu n\u00facleo familiar e seu meio social?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Autran Dourado: <\/strong>Sou mineiro, filho de juiz. Minha m\u00e3e era filha daquela que eu chamo aristocracia rural decadente. Nasci em Patos, fui criado na cidade onde fiz o curso prim\u00e1rio, Monte Santo de Minas. Meu pai tinha uma situa\u00e7\u00e3o suficiente para que eu tivesse uma professora particular em casa. Fiz os 4 anos do prim\u00e1rio assim e me preparei para fazer o exame de admiss\u00e3o num col\u00e9gio interno, em S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Para\u00edso, no sul de Minas, a zona da monocultura do caf\u00e9. Fiz, ent\u00e3o, o curso interno no Gin\u00e1sio Paraisense. Para mim, o internato foi um baque muito grande, porque eu sa\u00ed de uma forma\u00e7\u00e3o de quase uma segunda m\u00e3e \u2014 que era D. Evelina, minha professora \u2014 para cair no mundo selvagem de um internato onde eu era o mais novo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>O col\u00e9gio era de padres?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>N\u00e3o, infelizmente n\u00e3o era de padres. Isso me deu at\u00e9 um pequeno grupo de hist\u00f3rias, \u201cTr\u00eas hist\u00f3rias num internato\u201d, que faz parte do livro <em>Nove hist\u00f3rias em grupos de tr\u00eas. <\/em>Esse livro, hoje, faz parte de um outro, chamado <em>Solid\u00e3o solitude <\/em>(1972)<em>. <\/em>Depois me transferi para Belo Horizonte, onde terminei o colegial, no Col\u00e9gio Marconi. Aqui tive uma influ\u00eancia muito grande do professor Arthur Veloso. Ele era um excelente professor, era da Faculdade de Filosofia, mas era professor de col\u00e9gio apenas para complementar seu sal\u00e1rio. Ele me ajudou muito, me emprestou muitos livros. Eu lia muito na Biblioteca Municipal de Belo Horizonte, de cuja janela eu via passar o M\u00e1rio de Andrade, cercado de pirralhos, rapazinhos e rapazes, os jovens escritores mineiros. Eu naquela \u00e9poca j\u00e1 escrevia, mas tinha muita timidez de me aproximar do M\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como era a rela\u00e7\u00e3o com seus pais?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>Meu pai, por ser juiz, tinha muito livro de Direito, mas tinha tamb\u00e9m umas duas ou tr\u00eas estantes de literatura. Ali comecei a ler Machado de Assis, comecei a ler os livros de literatura brasileira e portuguesa, mesmo os que n\u00e3o eram muito aconselh\u00e1veis, como o naturalista E\u00e7a de Queir\u00f3s. Meu pai era um homem rigoroso. N\u00e3o era mineiro, ele nasceu no ex\u00edlio, no Uruguai, quando meu av\u00f4 se meteu numa revolu\u00e7\u00e3o contra a ditadura de Floriano Peixoto. Era muito rigoroso, mas ao mesmo tempo muito alegre; n\u00e3o tinha aquele car\u00e1ter mineiro, pesado, fechado. Meu pai era um homem exuberante, com muita energia, que talvez tenha me tornado um pouco t\u00edmido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha m\u00e3e era uma mulher muito inteligente, embora n\u00e3o tenha tido curso, mas fez muitas leituras e estudou franc\u00eas por conta pr\u00f3pria com um livro chamado <em>Franc\u00eas sem mestre<\/em>. A educa\u00e7\u00e3o era severa, cat\u00f3lica; eu fui coroinha na Igreja, at\u00e9 que o padre da minha cidade foi assassinado \u2014 ele e uma mo\u00e7a \u2014 pelos dois irm\u00e3os dela. Foi um epis\u00f3dio que me marcou muito e me afastou rapidamente da Igreja. Perdi a f\u00e9, o interesse; nunca mais quis saber de ir \u00e0 igreja. Eu j\u00e1 escrevi essa hist\u00f3ria: o conto se chama \u201cPedro, o imagin\u00e1rio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quando publicou seu primeiro livro?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>Na \u00e9poca do primeiro livro eu j\u00e1 estava agrupado. N\u00f3s est\u00e1vamos vivendo o fim da ditadura. Ent\u00e3o \u2014 hoje eu posso dizer a voc\u00ea, j\u00e1 que n\u00e3o estamos mais na ditadura \u2014, eu entrei para a Juventude Comunista, para derrubar o regime. Pertenci \u00e0 Juventude Comunista porque n\u00e3o me satisfaziam os chamados liberais, que depois deram na UDN brasileira que acabou dando nessa \u201cRevolu\u00e7\u00e3o\u201d de 64. O Partido Comunista era ilegal e eu entrei tamb\u00e9m na ilegalidade. Um professor na escola de Direito dizia assim: \u201cEu gostaria muito de ser comunista, mas n\u00e3o tenho resist\u00eancia f\u00edsica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Faculdade de Direito, conheci S\u00e1bato Magaldi, um jovem muito inteligente. Eu conseguia as coisas modernas atrav\u00e9s dele. O S\u00e1bato era um menino da burguesia, o pai era dono de uma das grandes lojas de ferragens, ele tinha muitos livros. N\u00f3s tivemos uma defici\u00eancia durante a guerra: a de n\u00e3o ter acesso aos livros europeus mais modernos. N\u00f3s s\u00f3 vir\u00edamos a conhec\u00ea-los depois da guerra, tanto que uma das minhas maiores emo\u00e7\u00f5es foi ter lido o Proust em franc\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um amigo meu, Carlos Castelo Branco \u2014 escritor, jornalista, atrav\u00e9s de quem eu comecei a trabalhar no <em>Estado de Minas <\/em>como jornalista, meu primeiro emprego em jornal \u2014, me mostrou o Proust em espanhol: era uma coisa horr\u00edvel! O S\u00e1bato Magaldi me apresentou ao grupo de jovens escritores mineiros. Era um grupo formado por Otto Lara Resende, Fernando Sabino, H\u00e9lio Pelegrino, Jackson de Paiva Brand\u00e3o (poeta), Wilson Figueiredo (poeta), S\u00e1bato Magaldi \u2014 que mexia e continua mexendo com teatro \u2014 e Francisco Iglesias, historiador. N\u00f3s fundamos uma revista liter\u00e1ria chamada <em>Edif\u00edcio <\/em>e publicamos muito. A\u00ed, criou-se um certo conflito com o Partido Comunista. Foi logo depois que publiquei meu primeiro livro, que era uma novela chamada <em>Tela<\/em>, Edi\u00e7\u00f5es Edif\u00edcio, edi\u00e7\u00e3o da revista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Por qu\u00ea?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>Porque comecei a me interessar muito pelo Sartre e pelo existencialismo, e comecei a tomar conhecimento de Adler, Heidegger. Aquilo conflitava com a ortodoxia marxista. Eu frequentava a ortodoxia marxista, mas tinha uma forma\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e n\u00e3o aceitava aquela divis\u00e3o idealismo\/materialismo. Conheci o marxismo, estudava, aplicava aquilo, mas n\u00e3o deixava de ler as minhas coisas. Esse interesse, sobretudo pelo Sartre \u2014 que, na \u00e9poca, era o fim da picada e depois passou a ser o \u201csanto\u201d do Partido Comunista \u2014 foi muito censurado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Houve algum acontecimento que o marcou muito?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>Houve o rompimento com o Partido Comunista. Isso aconteceu quando o Partido j\u00e1 estava na legalidade. O Prestes tinha sa\u00eddo da cadeia, o Jorge Amado era deputado e o Graciliano Ramos, de quem eu gostava muito, era vedete do Partido e figura muito importante. Minha sa\u00edda do Partido foi exatamente quando come\u00e7aram a impor o que se chamava de realismo socialista. Os meus dois primeiros livros tinham uma marca existencialista muito forte. Eu achava o realismo socialista uma bosta. Mas o Partido\u2026 Um dia come\u00e7aram a me analisar. Um secret\u00e1rio do Partido mandou que um livro meu fosse analisado. Fui me despedir dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Al\u00e9m de escrever, voc\u00ea trabalhava?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>Trabalhei durante muito tempo em jornal e era taqu\u00edgrafo profissional \u2014 fiz concurso e passei. Fui taqu\u00edgrafo na C\u00e2mara Municipal de Belo Horizonte, depois na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, e era disso que eu vivia. Foi nessa \u00e9poca que o Juscelino Kubitschek foi eleito governador de Minas. O Juscelino tinha a obsess\u00e3o, a mania por escritor. Todos em seu gabinete de governo eram escritores: o chefe de gabinete era o Murilo Rubi\u00e3o; o secret\u00e1rio particular era Cristiano Martins; os oficiais de gabinete eramos o Alphonsus Guimar\u00e3es Filho; eu; um outro poeta que j\u00e1 morreu, meio passadista, mas uma boa pessoa, Murilo Aparecido Pinto; o cr\u00edtico F\u00e1bio Lucas; e o Afonso \u00c1vila. O Juscelino comunicou ao Cristiano Martins que precisava de um taqu\u00edgrafo que fosse, ao mesmo tempo, escritor. Ent\u00e3o o Cristiano disse: \u201cS\u00f3 tem um, que \u00e9 o Autran Dourado\u201d. Juscelino disse: \u201cEnt\u00e3o traga-o para trabalhar comigo\u201d. Trabalhei quatro anos com ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Acompanhou-o tamb\u00e9m a Bras\u00edlia?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>Em Bras\u00edlia, fui para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Depois de terminar o mandato, o Juscelino me arranjou um emprego na Justi\u00e7a, no cart\u00f3rio da Justi\u00e7a. N\u00e3o era um grande cart\u00f3rio, mas me deu a oportunidade de ter as manh\u00e3s livres, que \u00e9 o que eu tenho para trabalhar. Eu sou um monge. Meu trabalho \u00e9 das 7h ao meio-dia. A parte da tarde, eu passo no Cart\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como nasce o Autran Dourado escritor?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>No col\u00e9gio, havia um professor de Filosofia. Foi o \u00fanico que realmente me marcou, pelos livros que ele me dava. E tinha uma coisa fant\u00e1stica: ele era diretor do col\u00e9gio e professor de Filosofia. Era um homem de grande cultura, sabia muito bem latim, de boa forma\u00e7\u00e3o, escrevia muito bem, apesar de ser um pouco barroco, rebuscado \u2014 mas era a \u00e9poca dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Faltou um professor de Portugu\u00eas e esse professor resolveu, ent\u00e3o, dar aulas de Portugu\u00eas al\u00e9m das de Filosofia. O portugu\u00eas dele foi uma coisa fant\u00e1stica, porque ele dava um pouquinho de aula e dizia: \u201cVoc\u00eas estudam a parte de gram\u00e1tica expositiva \u2014 isso \u00e9 muito cacete, muito chato, vai cair na prova isso. N\u00f3s vamos ler \u00e9 Cam\u00f5es e Gil Vicente\u201d. Na aula botava Cam\u00f5es na ordem direta, interpretava e, depois, uma ou duas vezes por semana, dava aula de gram\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, eu comprava os livros de Cam\u00f5es \u2014 o que, para todo mundo, era um sofrimento. E me estimulou tamb\u00e9m a leitura dos cl\u00e1ssicos portugueses; nisso, tive uma forma\u00e7\u00e3o muito boa, sempre por interm\u00e9dio dele, que me emprestava os livros ou os indicava, e eu os lia na Biblioteca Municipal de Belo Horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A\u00ed foi quando eu publiquei uns contos na <em>Folha de Minas<\/em>. Eu comecei a escrever muito cedo. Aos 16 anos de idade, eu ganhei um concurso numa revista de Belo Horizonte. Para mim, foi fant\u00e1stico competir com adultos; foi uma coisa formid\u00e1vel. Mas com 17 anos, eu publicava contos \u2014 sem fazer parte de nenhum grupo liter\u00e1rio \u2014 no suplemento liter\u00e1rio de <em>O Estado de Minas<\/em> ou na <em>Folha de Minas<\/em>, e j\u00e1 estava com um livro de contos que n\u00e3o publiquei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meu pai era muito amigo do escritor Godofredo Rangel, que \u00e9 um escritor muito primoroso, escreve muito bem, num portugu\u00eas de muito boa qualidade. Ele tinha uns livros de que eu gostava muito: <em>Vida ociosa <\/em>(1920), <em>Falange gloriosa <\/em>(1917)<em>. <\/em>Gostava muito na \u00e9poca, quando era rapazinho, lia e achava formid\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por coincid\u00eancia, ele tinha sido colega de turma de meu pai. Ent\u00e3o, meu pai deu para ele o meu livro de contos, e ele me chamou para conversar e me disse uma frase que est\u00e1 num dos meus contos. Ele me deu uma rela\u00e7\u00e3o de livros para ler, mandou que eu aprendesse mais de uma l\u00edngua, porque a l\u00edngua portuguesa era insuficiente para uma boa forma\u00e7\u00e3o, me disse que meu texto estava perfeito, mas que eu estava escrevendo numa linguagem cl\u00e1ssica e que ele mesmo j\u00e1 estava superado, porque havia o Modernismo e que eu devia tomar conhecimento dele, devia ler o que havia de importante, estudar umas duas l\u00ednguas paralelas ao portugu\u00eas, para ler; que aprendesse franc\u00eas, ingl\u00eas, italiano, se fosse o caso, j\u00e1 que o espanhol era mais f\u00e1cil. Me disse tamb\u00e9m que eu n\u00e3o devia publicar logo o livro. Foi muito ponderado, muito aplicado, disse at\u00e9: \u201cFelizmente voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 precoce, assim, pelo menos, n\u00f3s podemos fazer alguma coisa por voc\u00ea. Continue escrevendo, se atualize\u201d. E foi o que eu fiz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>O processo criativo de seus livros passa por muitas fases de elabora\u00e7\u00e3o? Poderia dizer como escreveu um de seus livros?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>Voc\u00ea vai encontrar como escrevo nesse meu livro <em>Uma po\u00e9tica do romance, mat\u00e9ria de carpintaria <\/em>(2000)<em>. <\/em>L\u00e1 vai encontrar tamb\u00e9m como escrevi a novela <em>Uma vida em segredo<\/em>, que tem, no final, a \u201cHist\u00f3ria de uma est\u00f3ria\u201d. Conto tamb\u00e9m como nasceu <em>Biela<\/em>, que foi o \u00fanico livro que me nasceu em sonho. Esse livro foi escrito muito rapidamente. Eu n\u00e3o gosto muito da palavra \u201cinspira\u00e7\u00e3o\u201d, prefiro usar sempre a express\u00e3o \u201cideia s\u00fabita\u201d. Quando me vem uma ideia s\u00fabita, n\u00e3o me ponho logo a escrever; eu tomo nota, seguro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Mas tem de partir de uma ideia?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>Sempre que essa ideia s\u00fabita vem, eu a deixo amadurecer dentro de mim. Vou tomando notas, fazendo leituras paralelas necess\u00e1rias para o livro, at\u00e9 que a hist\u00f3ria cres\u00e7a dentro de mim e encontre a sua forma. Se voc\u00ea analisar bem a minha obra, vai verificar que n\u00e3o h\u00e1 um livro igual a outro, cada um tem sua forma pr\u00f3pria. Quando eu encontro essa forma e visualizo bem a hist\u00f3ria, tomo notas, fa\u00e7o desenhos dos blocos, a quantidade de p\u00e1ginas, a\u00ed me ponho a escrever e escrevo diariamente. Escrevo das 7h ao meio-dia. Hoje escrevo em taquigrafia, mas \u00e9 porque eu gosto, n\u00e3o porque seja mais r\u00e1pido. O Jo\u00e3o Cabral uma vez me disse: \u201cAh, ent\u00e3o voc\u00ea escreve depressa!\u201d. Eu respondi: \u201c\u00d4 Jo\u00e3o, o dif\u00edcil \u00e9 achar a palavra\u201d. Se n\u00e3o, escrevendo \u00e0 velocidade do taqu\u00edgrafo, fazia um livro em quatro, cinco dias. Em cinco horas de trabalho produzo duas p\u00e1ginas, porque trabalho, depois corrijo, boto na m\u00e1quina, conserto, corrijo, reescrevo, corto aqui, ali. Fazendo uma m\u00e9dia, d\u00e1 para escrever um livro em dois anos, trabalhando todo dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora, fa\u00e7o pesquisa tamb\u00e9m, embora n\u00e3o seja um escritor realista. Acho que o escritor precisa saber das coisas e do nome das coisas; as ideias, a gente sup\u00f5e que ele as tenha. \u00c9 preciso saber. \u00c0s vezes dou um telefonema para quem entende. O que eu li, para fazer, por exemplo, <em>Os sinos da agonia<\/em>, que \u00e9 meu romance mais ambicioso, mais amplo \u2014 embora se passe no s\u00e9culo XVIII, n\u00e3o \u00e9 um romance hist\u00f3rico, n\u00e3o tem uma data sequer. O que eu li sobre o s\u00e9culo XVIII n\u00e3o foi brincadeira! Sobre Minas, a hist\u00f3ria de Minas! Como era uma hist\u00f3ria parodiada do mito de Fedra do Racine, fui \u00e0 fonte, fui ao Eur\u00edpides, fui ler o mito de Fedra na trag\u00e9dia de Eur\u00edpides e fui ler o mesmo mito no S\u00eaneca. Ent\u00e3o, dei um tratamento moderno, passado no s\u00e9culo XVIII.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo, \u00e9 um livro simb\u00f3lico, porque mistura uma s\u00e9rie de coisas que chamo de real simb\u00f3lico: as coisas s\u00e3o o que s\u00e3o e o que significam. O livro \u00e9 tamb\u00e9m uma certa farsa da morte em ef\u00edgie. N\u00f3s est\u00e1vamos na \u00e9poca mais braba desta \u00faltima ditadura, em 1970, depois do AI-5. Ent\u00e3o botei uma epigrafe no livro: \u201cA morte em ef\u00edgie\u201d. A morte em ef\u00edgie era quando a pessoa que se queria matar n\u00e3o era encontrada, ent\u00e3o dizia-se que estava em ef\u00edgie \u2014 um retrato ou um boneco de padre \u2014, que enforcavam. A morte em ef\u00edgie era uma coisa terr\u00edvel, porque quem encontrasse o sujeito podia mat\u00e1-lo que n\u00e3o seria crime, j\u00e1 tinha morrido oficialmente e podia ser morto por qualquer um.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, quando o editor leu o livro falou: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 maluco! N\u00e3o vou publicar esse livro, voc\u00ea fala do momento atual\u201d. Ent\u00e3o, ele disse: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 doido! O dono da editora, que \u00e9 o dono das Listas Telef\u00f4nicas, vai criar problemas\u201d. Eu disse: \u201cO livro vai sair assim\u201d. Ent\u00e3o ele disse: \u201cVoc\u00ea se incomoda se a gente colocar antes uma Nota do Editor dizendo que o livro se passa no s\u00e9culo XVIII, que trata do mito&#8230;?\u201d. Falei: \u201cAbsolutamente! Pode colocar. At\u00e9 ajudo a redigir, se for o medo de voc\u00eas\u201d. Para voc\u00ea ver a paranoia a que n\u00f3s chegamos. As primeiras duas edi\u00e7\u00f5es sa\u00edram com essa nota; depois, no regime democr\u00e1tico, ela desapareceu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Qual \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com a linguagem, com o estilo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>Como voc\u00ea v\u00ea, sou um homem de forma\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica portuguesa. No come\u00e7o, nos dois primeiros livros, eu era muito mais comedido, muito a servi\u00e7o da gram\u00e1tica, de modo que escrevia muito \u00e0 lusitana. A partir de <em>Tempo de amar <\/em>(1952), j\u00e1 nos di\u00e1logos eu mudei alguma coisa, mas ainda era um pouco comportado. Mas, a partir de <em>\u00d3pera dos mortos<\/em>, <em>Uma vida em segredo<\/em>, comecei a incorporar todos os brasileirismos e a escrever coisas gramaticalmente brasileiras (\u201cchegou na janela\u201d e n\u00e3o \u201cchegou-se a janela\u201d, \u201cjogou-se no rio\u201d e n\u00e3o \u201cjogou-se ao rio\u201d), coloca\u00e7\u00e3o de pronomes \u00e0 brasileira, formas de grafar \u00e0 brasileira, passei a colocar a gram\u00e1tica ao meu servi\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Com a linguagem do dia a dia?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>Isso, mas com um tratamento \u00e0s vezes coloquial, que fica muito pr\u00f3prio em livros em que uso o mon\u00f3logo interior. Ent\u00e3o fica f\u00e1cil usar frase el\u00edptica. Vou ao dicion\u00e1rio, sou obcecado por dicion\u00e1rios! Tenho uma bateria de dicion\u00e1rios de todo tipo. Tenho o <em>Moraes <\/em>de 1813, primeira edi\u00e7\u00e3o. Para escrever <em>Os sinos da agonia<\/em>, eu tive o requinte de s\u00f3 usar o <em>Moraes <\/em>de 1813, com seus arca\u00edsmos e tudo \u2014 o livro tem muitos arca\u00edsmos. Tenho dicion\u00e1rios etimol\u00f3gicos de todo tipo. Dicion\u00e1rio \u00e9 uma das minhas manias, eu convivo com a palavra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Por que voc\u00ea escreve?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>A gente come\u00e7a porque tem jeito para escrever e depois termina porque n\u00e3o tem jeito de parar. O prazer de escrever, eu n\u00e3o tenho. O que eu gosto, realmente, \u00e9 de reescrever o material. Alguns n\u00e3o gostam. A p\u00e1gina em branco me d\u00e1 uma grande ang\u00fastia. N\u00e3o sei se a frase seguinte vem, se vou conseguir fazer o segundo cap\u00edtulo. Tenho um sentimento de impot\u00eancia quando termino um livro; acho que n\u00e3o vou conseguir fazer outro nunca mais e fico muito conflitado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As pessoas come\u00e7am a exigir que eu escreva outro livro. Acho que escrevo um livro exatamente porque fracasso. Se fizesse um bom livro, que me satisfizesse plenamente, n\u00e3o precisaria escrever mais. A gente escreve porque fracassa, e fracassa menos quem ambiciona mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>H\u00e1 momentos felizes ou ideais para escrever?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>O que perturba muito o escritor, quando escreve, \u00e9 o ru\u00eddo, essa amea\u00e7a constante em que voc\u00ea vive. Por exemplo, durante os per\u00edodos piores da ditadura, em que ouvia aquilo tudo \u2014 aquela coisa terr\u00edvel, aquela marcha desabalada da infla\u00e7\u00e3o, aquela incompet\u00eancia, aquele terror, aquele medo de tudo que a gente tinha, medo de todos \u2014, voc\u00ea n\u00e3o sabia o que cada um ia ser no dia seguinte. Nesse per\u00edodo, eu olhava para meu caderninho e dizia: \u201cEstou fazendo uma literatura requintada, uma narrativa sofisticada\u201d, isso me parecia uma frescura. O pa\u00eds vivendo nisso e eu fazendo esse tro\u00e7o \u2014 n\u00e3o tinha sentido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quando voc\u00ea escreve, \u00e9 a vontade que puxa a escrita? \u00c9 a neurose, o prazer da intelig\u00eancia?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>\u00c9 muito dif\u00edcil saber o por qu\u00ea. Essa ideia s\u00fabita, de que eu falo, me d\u00e1 muito prazer, voc\u00ea sente uma certa euforia. Eu me preocupo com o contr\u00e1rio. Quando estou escrevendo com muita facilidade, eu paro. Acho que alguma coisa est\u00e1 acontecendo de errado, a coisa babando demais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Onde voc\u00ea encontra est\u00edmulos e pretextos para escrever? Poderia exemplificar?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>\u00c9 dif\u00edcil saber. Lembro-me de uma ideia s\u00fabita: eu ia pelo Largo da Carioca e me veio uma frase que eu tinha lido na <em>Ant\u00edgona <\/em>de S\u00f3focles: \u201cPrecisamos enterrar os nossos mortos\u201d. A partir dessa frase, me veio toda a ideia da <em>\u00d3pera dos mortos<\/em>, em que uma personagem enlouquece, mas at\u00e9 enlouquecer, ela come\u00e7a a enterrar dentro de si os que est\u00e3o vivos, mas n\u00e3o consegue enterrar os que deviam morrer \u2014 o pai, o av\u00f4, que continuavam vivos na mem\u00f3ria dela. Foi da\u00ed que partiu. \u00c0s vezes, a leitura de um ensaio filos\u00f3fico, \u00e0s vezes uma leitura de hist\u00f3ria d\u00e3o uma ideia. <em>Os sinos da agonia <\/em>me veio da releitura do livro <em>A hist\u00f3ria m\u00e9dia de Minas Gerais<\/em>, me veio de uma frase sobre a morte em ef\u00edgie. Eu sou brasileiro, mas pouco brasileiro no sentido folcl\u00f3rico: n\u00e3o vou ao futebol, n\u00e3o gosto de futebol; n\u00e3o vou ao carnaval, n\u00e3o gosto de carnaval. Isso \u00e9 porque n\u00e3o gosto de muita gente \u2014 e n\u00e3o me incomodo que me chamem de elitista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Qual o papel que o imprevisto desempenha em seu trabalho criativo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>O imprevisto desempenha pouco, porque mantenho quase tudo sob controle. Esta ideia de que o personagem persegue o autor, pirandelliana \u2014 <em>Seis personagens em busca de um autor \u2014<\/em>, era uma brincadeira do Pirandello porque o personagem n\u00e3o persegue o autor. Essa hist\u00f3ria \u00e9 porque o personagem do Pirandello \u00e9 muito bem estruturado. Eu sou como o Paul Val\u00e9ry, que n\u00e3o gostava de um livro sem estrutura. Para mim, um romance sem uma estrutura, sem uma composi\u00e7\u00e3o, sem uma arquitetura, n\u00e3o gosto. Dessa coisa que est\u00e1 muito em voga na literatura brasileira, por exemplo, o neonaturalismo, eu n\u00e3o gosto. H\u00e1 facilidade. Nada me aborrece mais do que uma frase bamba, mal constru\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Voc\u00ea falou que n\u00e3o h\u00e1 o prazer de escrever&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>Sim, mas existe o prazer da obra pronta, o depois. Vou contar uma hist\u00f3ria que \u00e9 muito boa. Eu tinha uma vizinha que, ao parir, berrava muito e dizia: \u201cNunca mais, nunca mais!\u201d. Um desespero. Quando acabava o parto, sobravam umas ampolas grandes, que pareciam um ponto de interroga\u00e7\u00e3o, deviam ser de soro, e a parteira perguntava: \u201cO que \u00e9 que eu fa\u00e7o?\u201d. Ela respondia: \u201cGuarda para a outra vez\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Poderia indicar um acontecimento extremamente gratificante ou de grande frustra\u00e7\u00e3o em sua vida de escritor?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>Gratificante foi a primeira tradu\u00e7\u00e3o na Alemanha: <em>A barca dos homens. <\/em>Isso j\u00e1 faz alguns anos. Se n\u00e3o me engano foi em 1961 e teve at\u00e9 bastante \u00eaxito. Os alem\u00e3es s\u00e3o os \u00fanicos, fora um pouco os franceses, ultimamente, que est\u00e3o me mandando alguma coisa. A mesma editora na Alemanha contratou um segundo livro meu, que teve cr\u00edticas muito boas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 pouco tempo, fui \u00e0 Alemanha para receber um pr\u00eamio de literatura. Isso foi muito bom para mim, porque eu estava vivendo uma fase muito ruim. Tinha escrito um romance, <em>A servi\u00e7o d\u2019El Rey <\/em>(1984), em que usei a minha viv\u00eancia, a minha experi\u00eancia do per\u00edodo em que trabalhei na Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. O livro tem at\u00e9 uma ep\u00edgrafe: \u201cA servi\u00e7o d\u2019El Rey, prud\u00eancia: El Rey por perto esquenta e de longe esfria\u201d, que \u00e9 uma ep\u00edgrafe do Padre Antonio Vieira. Eu n\u00e3o podia escrever esse livro enquanto Juscelino estava vivo, porque ia me criar problemas. Depois veio a ditadura, e eu tampouco podia public\u00e1-lo \u2014 esse livro de hist\u00f3rias de generais, de ministros da guerra, essa coisa toda do Brasil. Fui escrevendo. O livro chegou a ter 300 p\u00e1ginas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, \u00e0s v\u00e9speras de ir para a Alemanha \u2014 era pra passar dois meses em Berlim por causa do pr\u00eamio, mas ningu\u00e9m aguenta Berlim por mais de 20 dias \u2014, peguei os marcos e fui para Paris, porque ningu\u00e9m \u00e9 de ferro. Eu estava aqui e verifiquei que tinha escrito um livro que n\u00e3o era meu. Uma coisa estranh\u00edssima! N\u00e3o era nada disso que eu queria. Me deu um desespero e comecei a rasgar alguns cap\u00edtulos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">L\u00e1 fora, verifiquei que eu estava era cansado do Brasil, estava cansado da bagun\u00e7a brasileira e, l\u00e1 na Alemanha, no sil\u00eancio, ignorando o Brasil, reelaborei o personagem, que passou a ser um personagem aut\u00f4nomo \u2014 n\u00e3o era o Juscelino, mas era o Juscelino. Reduzi de 300 p\u00e1ginas para 150. Publiquei assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como se sente dentro<\/em> <em>da literatura brasileira hoje?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>H\u00e1 muitos anos que estou nisso. Honestamente, n\u00e3o sei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Qual a sua opini\u00e3o <\/em><em>sobre<\/em><em> a literatura brasileira contempor\u00e2nea?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>Eu acho a literatura brasileira muito boa, atualmente, de boa qualidade. Mas n\u00e3o leio muito os contempor\u00e2neos quando estou escrevendo. N\u00e3o gosto. Agora, por exemplo, estou fazendo algumas pequenas novelas, uma s\u00e9rie de novelas, ent\u00e3o estou relendo <em>Os<\/em> <em>anos de aprendizagem de Wilhem Meisler<\/em>, do Goethe. Prefiro ler essas coisas. Reli este ano o Stendhal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Algum editor prop\u00f4s-lhe escrever com sal\u00e1rio fixo? Aceitaria a ideia?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>N\u00e3o, ningu\u00e9m nunca prop\u00f4s, e eu n\u00e3o aceitaria. Eu trabalhei tantos anos na pol\u00edtica, arranjei um meio para viver que n\u00e3o precisasse escrever para viver. Acho mesmo que n\u00e3o gostaria de precisar escrever para poder ter a liberdade de fazer o que eu quero, como quero. Eu n\u00e3o quero agradar ningu\u00e9m, n\u00e3o quero aplauso de ningu\u00e9m, aplauso n\u00e3o me interessa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quando escreve, voc\u00ea pensa nos leitores, nos cr\u00edticos, no editor?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>N\u00e3o penso em ningu\u00e9m. Nem em editor nem nos cr\u00edticos. Quando estou escrevendo, estou preocupado com problemas muito objetivos: com palavras, ritmos, personagens, volumes. Estou muito preocupado com essas coisas objetivas para pensar em algu\u00e9m. Se eu pensar em como \u00e9 que algu\u00e9m vai ler essa coisa, n\u00e3o fa\u00e7o o que quero, me prejudica, fico com olho castrador, me impede. Assim, come\u00e7ar a fabricar livros para agradar cr\u00edtica, agradar o povo, vender muitos livros. Tenho horror!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>\u00c9 importante a publicidade para o sucesso de um livro?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>\u00c9 necess\u00e1ria, mas deve ser papel do editor. O livro necessita de publicidade. Eu costumo dizer que sou artista at\u00e9 o momento em que estou escrevendo; depois que o livro est\u00e1 pronto, ele passa a ser um produto de consumo como outro qualquer. Eu gostaria de ganhar dinheiro com isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quando escreve, percebe v\u00ednculos, impedimentos, la\u00e7os de qualquer esp\u00e9cie?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>H\u00e1 certos bloqueios. Certos assuntos, certas \u00e1reas, que, se voc\u00ea tocar, perturba um pouco. A viol\u00eancia, por exemplo, me perturba um pouco, bloqueia um pouco. Sexo, \u00e0s vezes, tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Por que a viol\u00eancia o bloqueia?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>N\u00e3o sei, talvez porque haja aquilo que o Edgar Alan Poe chama de \u201cdem\u00f4nio da perversidade\u201d. Talvez haja dentro de mim esse dem\u00f4nio da perversidade. Tenho medo de que meus personagens extravasem a viol\u00eancia e passem para a perversidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quem \u00e9 Autran Dourado?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.D.: <\/strong>Ao poeta mineiro Em\u00edlio Moura \u2014 que foi muito meu amigo \u2014 pediram uma biografia resumid\u00edssima. Ele disse: \u201cEu me chamo Em\u00edlio Guimar\u00e3es Moura, nasci no ano de 1913 e tenho vivido at\u00e9 hoje, Deus sabe com que dificuldade!\u201d. Eu n\u00e3o passei tanta dificuldade, passei alguns apertos. A minha vida tem sido muito mansa, mas de uns tempos para c\u00e1 n\u00e3o tenho muito do que me queixar, n\u00e3o me tem acontecido nenhum desastre. Tenho 4 filhos e 5 netos e vivo uma vida relativamente tranquila, o quanto permite o meu pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LIMA, Susana (2011). Identidades nas fronteiras: espa\u00e7os poss\u00edveis em <em>Os sinos da agonia<\/em>, de Autran Dourado.&nbsp;<em>Estudos de Literatura Brasileira Contempor\u00e2nea<\/em>, Bras\u00edlia, n. 23, p. 67-87.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">OLIVEIRA, Marcus Rodolfo Bringel de (2024). O risco do bordado. Resenha de: DOURADO, Autran. <em>O risco do bordado<\/em>. <em>Pra\u00e7a Cl\u00f3vis<\/em>: mapeamento cr\u00edtico da literatura brasileira contempor\u00e2nea, Bras\u00edlia. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=945\">https:\/\/pracaclovis.com\/?p=945<\/a>. Acesso em: 15 jan. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SACRAMENTO, Adriana (2011). A magia da palavra e da mem\u00f3ria em <em>O risco do bordado<\/em>, de Autran Dourado: o poder de constituir o mundo.&nbsp;<em>Estudos de Literatura Brasileira Contempor\u00e2nea<\/em>, Bras\u00edlia, n. 21, p. 143-158.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">TELAROLLI, Sylvia (2007). Entre a chuva e o estio ou como narrar a dor na inf\u00e2ncia. <em>Itiner\u00e1rios<\/em>, Araraquara, n. 25, p. 197-206. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.fclar.unesp.br\/itinerarios\/article\/view\/2363\">https:\/\/periodicos.fclar.unesp.br\/itinerarios\/article\/view\/2363<\/a>. Acesso em: 15 jan. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">VITAL, Selma (2024). Os sinos da agonia. Resenha de: DOURADO, Autran. <em>Os sinos da agonia<\/em>. Pra\u00e7a<em> Cl\u00f3vis<\/em>: mapeamento cr\u00edtico da literatura brasileira contempor\u00e2nea, Bras\u00edlia. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2494\">https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2494<\/a>. Acesso em: 15 jan. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">* Apresenta\u00e7\u00e3o do autor feito por Giovanni Ricciardi na obra <em>O escritor corporal<\/em>: uma sociologia para a literatura. Foz do Igua\u00e7u: EdUnila, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">** Ela foi previamente publicada na obra <em>Biografia e cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Vol. 3<\/em>: entrevistas com escritores de Minas Gerais. Ouro Preto: Editora da UFOP, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"featured_media":8218,"template":"","meta":{"_acf_changed":true},"categories":[586,555],"estado":[214],"autoria":[250,249],"class_list":["post-8217","entrevista","type-entrevista","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-romance","estado-minas-gerais","autoria-autoriabranca","autoria-autoriamasculina"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/entrevista\/8217","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/entrevista"}],"about":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/entrevista"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8218"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8217"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8217"},{"taxonomy":"estado","embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Festado&post=8217"},{"taxonomy":"autoria","embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fautoria&post=8217"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}