{"id":8215,"date":"2026-05-27T17:33:05","date_gmt":"2026-05-27T20:33:05","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?post_type=entrevista&#038;p=8215"},"modified":"2026-06-29T12:10:58","modified_gmt":"2026-06-29T15:10:58","slug":"assis-brasil","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?entrevista=assis-brasil","title":{"rendered":"Assis Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Giovanni Ricciardi: <\/strong><em>Como apresentaria sociol\u00f3gica e culturalmente seu n\u00facleo familiar de origem e o meio ambiente?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Assis Brasil: <\/strong>Eu sou do Piau\u00ed, da cidade de Parna\u00edba, onde fiquei at\u00e9 os 14 anos. Acho que j\u00e1 dessa fase vem o meu interesse pela literatura, devido \u00e0 influ\u00eancia dos meus pais. Minha m\u00e3e gostava de escrever e meu pai gostava de ler. Tive uma inf\u00e2ncia muito livre, \u00e0s margens do rio Parna\u00edba e l\u00e1 observei muitas coisas, principalmente a pobreza do beira-rio, a prostitui\u00e7\u00e3o nos cais, os meninos soltos tomando banho. Tudo isso me inspirou a fazer o meu primeiro romance, <em>Beira Rio Beira Vida.<\/em> De Parna\u00edba, me transferi para Fortaleza, onde continuei os estudos. L\u00e1, aos 16 anos, comecei a colaborar em jornais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Foi sozinho para Fortaleza?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>Primeiro fui com um irm\u00e3o para estudar num col\u00e9gio interno, particular, n\u00e3o religioso. Depois, toda minha fam\u00edlia se transferiu pra l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como foi sua inf\u00e2ncia em Parna\u00edba?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>Estive l\u00e1 h\u00e1 pouco tempo, depois de muitos anos, n\u00e3o mudou nada! Minha m\u00e3e era um tanto liberal e, ent\u00e3o, n\u00f3s fomos criados soltos, com uma vida meio aventureira. \u00c9ramos tr\u00eas irm\u00e3os e uma irm\u00e3. Esta, por causa do velho preconceito de n\u00e3o deixar mo\u00e7a sair, n\u00e3o sa\u00eda muito. J\u00e1 os meninos podiam. Eu tinha um irm\u00e3o mais velho e n\u00f3s ganhamos uma bicicleta e \u00edamos tomar banho de rio \u00e0s escondidas. Minha inf\u00e2ncia foi muito agitada, muito cheia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quando foi para Fortaleza, continuou os estudos?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>Sim, fiz o 2\u00b0 grau e aos 18 anos eu j\u00e1 estava escrevendo no jornal. Eu morava na praia de Iracema e me impressionei com a vida dos jangadeiros e ent\u00e3o comecei a elaborar uma novela juvenil. Eu tinha pensado em fazer Direito, mas como j\u00e1 trabalhava no jornal fazendo cr\u00f4nicas (comecei a publicar aos 16 anos), fui para o Rio em 1950 e cursei jornalismo na Escola de Comunica\u00e7\u00f5es da PUC. Da\u00ed, me aproximei do <em>Jornal do Brasil<\/em> que estava lan\u00e7ando um suplemento que durou de 1956 a 1961, com o qual colaborei e de onde partiu todo meu aprendizado liter\u00e1rio. Comecei a fazer cr\u00edticas de fic\u00e7\u00e3o. Eu j\u00e1 era profissional, porque vivia da literatura, embora trabalhasse em jornal. Al\u00e9m das cr\u00edticas liter\u00e1rias, fazia tradu\u00e7\u00f5es, ensaios, comecei a estudar a obra do Faulkner e depois escrevi um ensaio sobre ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Seu primeiro livro publicado, considera um sucesso, um insucesso, um marco determinante?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>Meu primeiro livro foi a novela a que me referi, sobre os jangadeiros, <em>Verdes mares bravios<\/em>. Foi editada no Rio. Eu n\u00e3o o considero como um livro definitivo, mas eu sempre gostei da hist\u00f3ria. N\u00e3o gostava da linguagem porque eu era imaturo, estava aprendendo ainda. \u00c9 uma mistura de romantismo com realismo. Muitos anos depois, fiz uma s\u00edntese desse livro, conservei a hist\u00f3ria e mudei a linguagem e foi publicado pela editora Melhoramentos com o t\u00edtulo <em>Aventuras no mar<\/em>, mas na minha bibliografia consta: <em>Verdes mares<\/em> <em>b<\/em><em>ravios<\/em> (a partir da edi\u00e7\u00e3o com o t\u00edtulo <em>Aventuras no mar<\/em>). Isto prova que eu n\u00e3o repudiei a estr\u00e9ia. O que eu considero como primeiro romance \u00e9 <em>Beira rio beira vida<\/em>, de 1965, mas entre <em>Verdes mares bravios <\/em>e <em>Beira rio beira vida<\/em> h\u00e1 o ensaio sobre Faulkner e um livro de contos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Houve em sua vida uma encruzilhada, um acontecimento que o marcou determinantemente?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a><\/a> <strong>A. B.: <\/strong>N\u00e3o. Eu costumo dizer que sou religioso sem religi\u00e3o. Sempre tive um certo sentimento religioso das coisas. Li muita coisa sobre orientalismo, zen, e aquela coisa da ina\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o-a\u00e7\u00e3o total, budista. Acho muito interessante como um comportamento para enfrentar determinados problemas. Comecei a aprender a ser equilibrado, a n\u00e3o fazer dum probleminha um problem\u00e3o. O zen diz que quando estamos numa encruzilhada, indecisos entre dois caminhos, podemos tomar qualquer um, porque ser\u00e1 o nosso destino. Em 65, quando ganhei o pr\u00eamio Walmap com o <em>Beira rio beira vida<\/em> e no fim do ano sofri um acidente e fiquei desempregado, minha vida ficou um pouco complicada, com duas opera\u00e7\u00f5es sofridas nas pernas, enfrentei a coisa com muita fleuma. O que me tirou dessa situa\u00e7\u00e3o foi o livro que, atrav\u00e9s de Fausto Cunha e Adonias Filho, vendi ao INL e com o dinheiro paguei minhas d\u00edvidas e retomei a encruzilhada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Voc\u00ea nunca trabalhou para um patr\u00e3o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>N\u00e3o, eu sou muito folgado! O meu livro <em>A filha do meio-quilo<\/em> escrevi na reda\u00e7\u00e3o do JB, no meio do barulho. Nunca liguei para patr\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Descreva um pouco a sua vida de profissional da literatura brasileira.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>Em 1969, quando deixei a <em>Tribuna da Imprensa<\/em>, o \u00faltimo jornal em que trabalhei, eu era solteiro e podia levar a vida mais facilmente, ent\u00e3o, decidi me dedicar \u00e0 literatura. Realmente, foi uma aud\u00e1cia, muitos amigos me aconselharam a n\u00e3o fazer isso. Eu j\u00e1 tinha publicado a <em>Tetralogia piauiense,<\/em> os livros estavam vendendo, principalmente o <em>Beira rio<\/em>, que ainda hoje est\u00e1 me dando dinheiro. Eu comecei a me preparar financiera e psicologicamente para parar. Resolvi trocar o patr\u00e3o pela liberdade. Da\u00ed em diante nunca mais pa\u00adrei de publicar livro. No come\u00e7o foi um pouco dif\u00edcil. Eu fazia, al\u00e9m dos meus, alguns encomendados, principalmente para as Edi\u00e7\u00f5es de Ouro, mas sempre fazia como eu queria. Como a editora era grande, me dava uma margem econ\u00f4mica melhor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como se origina um texto?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>Vejamos <em>Beira rio beira vida<\/em>, uma das minhas primeiras experi\u00eancias, escrito em 1964 e editado em 1965. A ideia de faz\u00ea-lo me surgiu no Rio de Janeiro, embora a hist\u00f3ria se passe em minha terra. Comecei a lembrar coisas da minha inf\u00e2ncia, mas eu n\u00e3o queria fazer um livro de mem\u00f3rias, e sim de fic\u00e7\u00e3o. A hist\u00f3ria que eu queria fazer era a de gera\u00e7\u00f5es de prostitutas na beira do rio, que viviam dos marinheiros, dos navios-gaiolas que faziam a viagem entre Parna\u00edba e outros portos<em>, <\/em>desembarcando arroz, algod\u00e3o, e que j\u00e1 n\u00e3o existem mais. Eu sentei para escrever a hist\u00f3ria de tr\u00eas mulheres, de tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es \u2013 a m\u00e3e, a filha e a neta. Na \u00e9poca, eu estava muito impregnado de teorias liter\u00e1rias, eu tinha lido muita coisa sobre t\u00e9cnica narrativa e n\u00e3o pensava muito no leitor \u2013 ainda hoje n\u00e3o penso muito, mas fa\u00e7o uma concess\u00e3o. A primeira vers\u00e3o do <em>Beira rio beira vida<\/em> foi um texto \u00fanico, sem cap\u00edtulos. De prop\u00f3sito, eu misturava as tr\u00eas personagens: para o leitor era dif\u00edcil identificar quem era quem. O que eu queria mostrar era o ambiente e o tipo de pessoas que viviam ali. Quando fiz a primeira vers\u00e3o, Guimar\u00e3es Rosa ainda estava vivo. Atrav\u00e9s de um amigo comum, eu levei para ele ler e ele disse que estava uma beleza, porque ele gostava muito de rios, mas me aconselhou a n\u00e3o o publicar como estava. Ent\u00e3o, eu resolvi refazer o texto. Cada livro de fic\u00e7\u00e3o se apresenta de uma maneira diferente para o escritor. Certa vez, eu estava caminhando pela rua, sem pensar em coisa alguma e, de repente, me veio uma hist\u00f3ria na cabe\u00e7a, uma f\u00e1bula. Era uma hist\u00f3ria de uma nitidez incr\u00edvel, me surgiu do come\u00e7o ao fim, se desenvolveu come se fosse um carretel. Eu voltei para casa e escrevi como me surgiu. Publiquei como livro juvenil, mas, no fundo, \u00e9 para todo mundo: chama-se <em>Nen\u00ea russo<\/em>, <em>o<\/em> <em>mensageiro<\/em>, \u00e9 uma cr\u00edtica aos meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Qual \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com a escrita, com a palavra, com o estilo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>Pelo fato de eu ter lido muito, acho que \u00e9 importante a linguagem e acho que o escritor deve saber escrever, ele s\u00f3 deve romper com a norma da l\u00edngua quando sabe o que est\u00e1 fazendo. Tenho um romance chamado <em>O destino da carne<\/em>, o primeiro de uma tetralogia, onde fiz um rompimento com a norma da l\u00edngua, sem exagerar, s\u00f3 naquilo que eu achava que era funcional para dizer determinadas coisas. A linguagem liter\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 l\u00edngua normativa, ent\u00e3o, quando o escritor domina a l\u00edngua, ele pode revolv\u00ea-la, como \u00e9 o caso de Guimar\u00e3es Rosa. Neste livro, <em>O destino da carne<\/em>, eu fiz a maior experi\u00eancia em termos de linguagem liter\u00e1ria. A linguagem \u00e9 importante, mas n\u00e3o sozinha, ela \u00e9 um dos elementos: conte\u00fado e forma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Por que escreve?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>J\u00e1 ouvi muitos escritores dizerem que escrevem porque n\u00e3o saberiam fazer outra coisa. Eu gosto muito de carpintaria e poderia ser um carpinteiro. Escrever talvez seja um acidente, como uma profiss\u00e3o qualquer, ou talvez, o escritor tenha uma emo\u00e7\u00e3o mais sens\u00edvel, mais \u00e0 flor da pele, tenha necessidade de dizer alguma coisa para algu\u00e9m. Para mim, escrever \u00e9 um ato que me d\u00e1 imenso prazer. Uma das maiores alegrias da minha vida \u00e9 ser escritor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Em seu trabalho criativo espec\u00edfico prevalece a interrup\u00e7\u00e3o ou a continuidade? H\u00e1 crises? Com o qu\u00ea as identificaria?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>H\u00e1 interrup\u00e7\u00f5es, crises. Para o livro <em>Os que bebem como c\u00e3es<\/em> pensei muitos anos. \u00c9 um livro baseado nas experi\u00ean\u00adcias de tortura que algumas pessoas me contaram. Mas eu gosto mui\u00adto de distinguir literatura de jornalismo e n\u00e3o queria fazer um livro de depoimentos, mas um romance. Passei cinco anos pensando em escrev\u00ea-los e, quando me sentei, escrevi-o de um jato. Ganhei o pr\u00eamio Walmap de 75.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong>H\u00e1 momentos felizes ou ideais para escrever?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>H\u00e1 sim. Certos escritores dizem que sentem dores de parto. Comigo n\u00e3o acontece isso, tenho o maior prazer, \u00e0s vezes eu at\u00e9 vibro. Tenho um romance chamado <em>Deus, o sol, Shakespeare<\/em>, experimental, \u00e9 um romance-ensaio, renovador na t\u00e9cnica narrativa. Eu vibrei muito escrevendo-o, \u00e0s vezes eu me levantava para gozar aquilo que tinha me aparecido no momento do ato criador. Achava muita gra\u00e7a, pois \u00e9 uma s\u00e1tira sobre a vida agitada de hoje. Me d\u00e1 muito prazer escrever.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Houve em sua vida de escritor um acontecimento bastante gratif\u00adicante ou de grande frustra\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>Os pr\u00eamios que eu ganhei foram sempre motivos de alegria. Eu tenho 60 livros publicados, mas cada livro que sai \u00e9 como se fosse o primeiro. Eu continuo ainda virgem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de livros. \u00c9 aquela hist\u00f3ria de lamber a cria. Grandes frustra\u00e7\u00f5es n\u00e3o tive, devido \u00e0 minha prepara\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, ao estudo do zen. As coisas n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o importantes como a gente quer. O segredo est\u00e1 a\u00ed. H\u00e1 uma sabedoria nisso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Onde encontra est\u00edmulos e pretextos para escrever?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>J\u00e1 pensei muito nisso. Quando eu era jovem, gostava de fazer sonetos para as namoradas e acho que elas eram um est\u00edmulo, mas no fundo, eu queria conquist\u00e1-las e usava isso como artimanha, fazia acr\u00f3sticos com seus nomes. Hoje eu n\u00e3o sei. Talvez seja pelo fato de eu gostar muito de escrever e de ler.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Escreve regularmente todos os dias ou \u00e9 possu\u00eddo por raptus?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>Escrevo regularmente. N\u00e3o tenho patr\u00e3o, mas tenho o meu escrit\u00f3rio, onde vou todos os dias e escrevo, recebo os editores, etc. Mas n\u00e3o tenho obriga\u00e7\u00e3o de ir, tiro f\u00e9rias quando minha mulher tira. Interrompo quando aparece algum trabalho de encomenda, uma introdu\u00e7\u00e3o, uma orelha e quando volto a escrever, n\u00e3o tenho crises.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong>Qual \u00e9 o papel que o imprevisto desempenha em seu trabalho criador?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>O ato de criar j\u00e1 \u00e9 um imprevisto. Recentemente, escrevi uma hist\u00f3ria aproveitando um personagem meu de uma s\u00e9rie juvenil e tive vontade de mandar o texto para um concurso, mas como o personagem j\u00e1 era conhecido, deixei de lado e fiz uma nova vers\u00e3o. O livro cresceu mais cem p\u00e1ginas. Mudei o nome dos personagens, dividi o livro em tr\u00eas epis\u00f3dios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Qual \u00e9 o livro dos outros que gostaria de ter escrito e por qu\u00ea?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>Livros eu n\u00e3o sei, mas gostaria de ter alguns t\u00edtulos na minha bibliografia. O Adonias Filho tem um livro que eu gosto muito do t\u00edtulo, <em>Os servos da morte<\/em>. Claro que eu n\u00e3o me sinto um grande escritor por n\u00e3o querer ter escrito livros de outros. H\u00e1 o <em>Absal\u00e3o<\/em>! <em>Absal\u00e3o<\/em>! do Faulkner que eu gosto muito, \u00e9 uma f\u00e1bula.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como se sente dentro da literatura brasileira?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>Eu, como cr\u00edtico, estudioso e historiador da literatura, fiz uma s\u00e9rie de ensaios que se chama <em>A nova<\/em> <em>literatura<\/em> e que abrange o romance, o conto, a cr\u00edtica e a poesia, onde eu tento me situar e situar a minha gera\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 mais modernista porque os autores de antologias consideram o Modernismo at\u00e9 os nossos dias. Uma das minhas teses nesses ensaios \u00e9 que o Modernismo encerra-se em 1956, uma data simb\u00f3lica, com o concretismo, com <em>Grande Sert\u00e3o: veredas<\/em>, com Samuel Rawet no conto. Esta seria uma nova literatura, n\u00e3o mais o Modernismo que, na verdade, teve seu final com a Gera\u00e7\u00e3o de 45. Na cr\u00edtica tamb\u00e9m, depois de 56, militaram os pr\u00f3prios vanguardistas, como Augusto e Haroldo de Campos, com uma cr\u00edtica mais para-cient\u00edfica, mais em cima do texto, mais objetiva. Procuro mostrar tudo isso no meu <em>Livro de ouro da literatura brasileira<\/em>. Eu me considero dessa gera\u00e7\u00e3o de 56.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>O que pensa da literatura brasileira dos anos 1970 para c\u00e1?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>Acho que depois da vanguarda em poesia, houve urna esp\u00e9cie de volta \u00e0quela liberdade de linguagem do Modernismo, talvez ainda mais prosaica. Em literatura, todos n\u00f3s sabemos, sempre h\u00e1 uma rea\u00e7\u00e3o a um ciclo anterior, porque ela n\u00e3o evolui linearmente, mas em c\u00edrculos, pois o escritor est\u00e1 sempre reapanhando a tradi\u00e7\u00e3o. Acho que estes escritores nov\u00edssimos, com o conto, romperam a tradi\u00e7\u00e3o da novela, do enredo longo e fazem o conto de flagrante \u2013 experi\u00eancia feita por Machado de Assis \u2013 como o Luiz Vilela, por exemplo, que faz contos impressionantes!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>O cotidiano, a fam\u00edlia, os filhos, como influenciam em seu trabalho?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>N\u00e3o interferem, porque eu me isolo para escrever. Minha mulher gosta muito do meu trabalho e interfere positivamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Entre as palavras seguintes: amor, cidade, poder, povo, solid\u00e3o, solidariedade, prazer, amizade, viol\u00eancia, noite e sil\u00eancio, escolha tr\u00eas e diga o que pensa sobre elas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>Amor \u00e9 a coisa mais importante e se exercemos esse poder maior, que \u00e9 divino, estamos, ao mesmo tempo sendo solid\u00e1rios, exercemos a solidariedade e, talvez, no recesso da noite, possamos fazer esse contato maior com o divino atrav\u00e9s dos nossos sentimentos de amor. O homem tem esse privil\u00e9gio de se comunicar e de se salvar atrav\u00e9s do amor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Voc\u00ea acha que a publicidade seja importante para o sucesso de um livro?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>Sim, \u00e9 importante. Infelizmente, no Brasil, as edi\u00e7\u00f5es s\u00e3o pequenas, os custos car\u00edssimos e esse produto, o livro, n\u00e3o ag\u00fcenta uma publicidade por esta ser muito cara. Uma das desculpas dos editores para n\u00e3o investir muito dinheiro num livro \u00e9 esta, do alto pre\u00e7o da publicidade que elevaria o pre\u00e7o do livro, repassado ao comprador. Eu aceito essa desculpa porque as tiragens s\u00e3o pequenas. No caso de <em>O perfume<\/em> foi feito um trabalho de marketing em cima dele. O livro de autor brasileiro recebe notinhas nos jornais, gratuitas, que conseguimos atrav\u00e9s dos amigos e, ainda assim, \u00e9 dificil, porque certos colunistas s\u00f3 publicam se mandarmos a notinha j\u00e1 pronta. Eles n\u00e3o t\u00eam sequer o trabalho de escrev\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quando escreve, percebe autocensuras, temores em se revelar, la\u00e7os, impedimentos?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>N\u00e3o. Acho que o ato de cria\u00e7\u00e3o \u00e9 uma coisa meio esot\u00e9rica, quando criamos estamos em outra dimens\u00e3o, e eu n\u00e3o saio dela para pensar no resultado. Raramente penso no leitor, embora seja ele quem vai comprar o livro. Tenho liberdade na cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>O sucesso de uma obra depende de quem?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>No Brasil, depende do acaso. A cr\u00edtica brasileira n\u00e3o exerce influ\u00eancia sobre a venda de um livro. No caso do <em>best-seller<\/em>, sim. O primeiro livro de M\u00e1rcio Souza, <em>Galvez<\/em>, que foi lan\u00e7ado na prov\u00edncia, ainda \u00e9 mais dif\u00edcil: por acaso, dois cr\u00edticos, um do Rio e ou\u00adtro de S\u00e3o Paulo, falaram nele e, coincidentemente, os dois disseram que era um dos raros livros alegres da literatura brasileira, que \u00e9 muito s\u00e9ria, cheia de problemas, enfadonha. Mas o livro s\u00f3 veio come\u00e7ar a vender bem, alguns anos depois. Talvez, a cr\u00edtica tenha exercido alguma influ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quem \u00e9 Assis Brasil?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A. B.: <\/strong>Como escritor, igual ao homem Assis Brasil. A literatura est\u00e1 muito ligada a mim em termos de exist\u00eancia, de sobreviv\u00eancia. Acho que me realizo \u2013 se \u00e9 que me realizo \u2013 atrav\u00e9s da literatura. Se sou pessoa, ser humano, \u00e9 por causa da literatura, da arte. A arte e a literatura moldaram o meu car\u00e1ter para eu ser uma pessoa mais acess\u00edvel, mais condescendente, mais solid\u00e1ria, ter mais amor, mais respeito \u00e0 vida, seja de quem for.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BONAVINA, Rafael (2025). <em>Os que bebem como c\u00e3es<\/em>. Pra\u00e7a Cl\u00f3vis: mapeamento cr\u00edtico da literatura brasileira contempor\u00e2nea, Bras\u00edlia. 13 abr. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4774\">https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4774<\/a>. Acesso em: 14 jan. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FONTINELES, Claudia Cristina da Silva; FONTINELES FILHO, Pedro Pio (2020). Resist\u00eancia \u00e0s morda\u00e7as: hist\u00f3ria e luta contra a opress\u00e3o na literatura de Assis Brasil. <em>Topoi (Rio J.)<\/em>, Rio de Janeiro, v. 21, n. 43, p. 45-67. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/2237-101X02104303\">https:\/\/doi.org\/10.1590\/2237-101X02104303<\/a>. Acesso em: 14 jan. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LIMA, Tiago Caminha de; VIANA, Bartira Ara\u00fajo da Silva (2021). O sentido do lugar geogr\u00e1fico: experi\u00eancias e viv\u00eancias dos personagens de <em>Beira Rio Beira Vida<\/em> (1965), de Francisco de Assis Almeida Brasil. <em>Geografia, Literatura e Arte<\/em>, v.3, n.1, p. 184-203, jan.\/jun. Dispon\u00edvel: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.11606\/issn.2594-9632.geoliterart.2021.176848\">https:\/\/doi.org\/10.11606\/issn.2594-9632.geoliterart.2021.176848<\/a>. Acesso em: 14 jan. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">* Entrevista previamente publicada na obra <em>Biografia e cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Vol.VI: escritores do Norte e Nordeste \u2013 Entrevistas. <\/em>Lauro de Freitas, BA: Livro.com, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"featured_media":8216,"template":"","meta":{"_acf_changed":true},"categories":[586,555],"estado":[509],"autoria":[250,249],"class_list":["post-8215","entrevista","type-entrevista","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-romance","estado-piaui","autoria-autoriabranca","autoria-autoriamasculina"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/entrevista\/8215","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/entrevista"}],"about":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/entrevista"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8216"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8215"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8215"},{"taxonomy":"estado","embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Festado&post=8215"},{"taxonomy":"autoria","embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fautoria&post=8215"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}