{"id":8213,"date":"2026-05-27T17:27:45","date_gmt":"2026-05-27T20:27:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?post_type=entrevista&#038;p=8213"},"modified":"2026-06-29T12:10:35","modified_gmt":"2026-06-29T15:10:35","slug":"antonio-torres","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?entrevista=antonio-torres","title":{"rendered":"Ant\u00f4nio Torres"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Giovanni Ricciardi: <\/strong><em>Quem \u00e9 Ant\u00f4nio Torres?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ant\u00f4nio Torres:<\/strong> Nasci no dia 13 de setembro de 1940, num lugar chamado Junco e que hoje se chama S\u00e1tiro Dias, no sert\u00e3o da Bahia. Meu pai era lavrador \u2013&nbsp;e ainda \u00e9; minha m\u00e3e era \u2013&nbsp;e \u00e9 \u2013 costureira. Toda nossa experi\u00eancia de vida, toda minha experi\u00eancia de inf\u00e2ncia \u00e9 uma experi\u00eancia ligada \u00e0 terra. Plant\u00e1vamos para comer; o excedente da safra era vendido para comprar roupas e coisas assim. Estava acostumado \u00e0quele mundo, \u00e0quele mundo tel\u00farico, \u00e0quele mundo rural. Quando eu fui para a escola \u2013&nbsp;escola rural \u2013, eu j\u00e1 sabia ler e escrever um pouco, pois minha m\u00e3e j\u00e1 tinha me ensinado. Na pr\u00f3pria escola rural, interessei-me por literatura, porque entre os livros adotados havia sempre um livro de leitura, que trazia poemas e trechos de romances. Chamava-se <em>Seleta Escolar<\/em>, e isso me entusiasmou muito. Comecei a descobrir a poesia. Os primeiros poetas que marcaram minha vida foram Gon\u00e7alves Dias (um poeta maranhense) e Castro Alves (um poeta baiano). Lia trechos de Jos\u00e9 de Alencar e ficava empolgad\u00edssimo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao lado disso, houve como que uma complementa\u00e7\u00e3o da minha forma\u00e7\u00e3o: a literatura de cordel. Talvez tenha sido mesmo o tra\u00e7o mais importante, mais forte da minha forma\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. N\u00f3s a cham\u00e1vamos de \u201crimance\u201d, porque para o sertanejo \u00e9 um romance com rima. O cordel \u00e9 aquele livreto que conta uma hist\u00f3ria em versos; como essa hist\u00f3ria \u00e9 rimada, eles a chamam de \u201crimance\u201d. N\u00f3s t\u00ednhamos uma vizinha que tocava viol\u00e3o. \u00c0 noite, ela ia \u00e0 minha casa e cantava aquelas hist\u00f3rias de cordel. Enquanto isso, minha cabe\u00e7a voava, viajava; a minha imagina\u00e7\u00e3o se soltava naquelas hist\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como me alfabetizei muito rapidamente, fui escolhido para escrever as cartas para os analfabetos do lugar. Havia um rapaz que estava apaixonado por uma mo\u00e7a que morava longe. Como ele n\u00e3o sabia declarar sua pr\u00f3pria paix\u00e3o \u2013&nbsp;pois n\u00e3o sabia escrever \u2013, todas as segundas-feiras (dia de feira) ele me chamava secretamente, contava-me tudo o que sentia, e eu passava sua paix\u00e3o para o papel. Depois, a mo\u00e7a me chamava para ler a carta que eu mesmo havia escrito e tamb\u00e9m para escrever a resposta. Eu sei que, nesses dias de feira, eu levava um vid\u00e3o, porque recebia \u00f3timos direitos autorais, j\u00e1 que essas cartas eram pagas com guloseimas, arroz doce, p\u00e3o de l\u00f3, ros\u00e1rio de Ouricuri. Foi nesse mesmo tempo \u2013&nbsp;final dos anos 1940, come\u00e7o dos anos 1950 \u2013&nbsp;que come\u00e7aram as migra\u00e7\u00f5es para o sul; n\u00e3o ainda para o \u201cSul-Maravilha\u201d do Rio e de S\u00e3o Paulo, mas para o sul rico da pr\u00f3pria Bahia, da regi\u00e3o do cacau. Como n\u00e3o havia estradas, esses homens levavam dias para ir do nordeste da Bahia ao sul da Bahia, e as mulheres ficavam \u00e0 espera de que esses homens lhes escrevessem. O correio chegava \u00e0s segundas-feiras, no lombo de um burro, trazido pelo famoso estafeta \u2013&nbsp;um grande personagem nacional. E quando o estafeta chegava com o correio, na portinha da loja que o distribu\u00eda, fazia-se uma enorme fila de mulheres, verdadeiras vi\u00favas de homens vivos, \u00e0 espera das cartas dos seus maridos. Quando chegava alguma, eu era convocado a ler, para tentar entender aqueles garranchos todos. Enquanto eu lia, aquelas mulheres choravam, choravam, choravam. Depois eu escrevia a resposta. Como dentro dos envelopes que chegavam sempre havia algum dinheiro para aquelas mulheres, eu tamb\u00e9m recebia \u00f3timos direitos autorais. Os melhores direitos autorais de toda minha vida s\u00e3o todos da minha inf\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois houve a professora, que era minha maior incentivadora. Obrigava-me quase todos os dias a escrever uma composi\u00e7\u00e3o. Essa composi\u00e7\u00e3o escolar quase di\u00e1ria foi excelente treinamento para mim. Ela mesma se entusiasmou com meu desenvolvimento na escola. E no dia 7 de setembro, no dia da parada de 7 de setembro, na pra\u00e7a empoeirada, l\u00e1 estava eu, vestido de azul e branco, com uma fita amarela no peito; a bandeira do Brasil numa m\u00e3o e Castro Alves na outra: \u201cAuriverde pend\u00e3o da minha terra\/ Que a brisa do Brasil beija e balan\u00e7a\/ Estandarte que \u00e0 luz do sol encerra\/ As divinas promessas de esperan\u00e7a\u201d. E aquele povo em volta de mim chorava, chorava. A minha forma\u00e7\u00e3o foi essa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Estou gostando. Continue, por favor.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.: <\/strong>Minha m\u00e3e era um pouco mais alfabetizada, e muito por esfor\u00e7o pr\u00f3prio. Naquela regi\u00e3o, bastava voc\u00ea aprender a assinar o nome para votar nas elei\u00e7\u00f5es, que j\u00e1 era considerado um cidad\u00e3o \u00fatil do ponto de vista civil. N\u00e3o havia, pois, um incentivo ao aprendizado, \u00e0 escolaridade. Minha m\u00e3e, por esfor\u00e7o pr\u00f3prio, conseguiu aprender um pouco mais do que as outras pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meu pai, muito ligado \u00e0 terra, n\u00e3o ligava para essas coisas. Meu pai, inclusive, tinha uma estranha teoria de que escola n\u00e3o enche barriga de ningu\u00e9m. Ele acreditava mesmo era na terra, no homem da terra, na planta\u00e7\u00e3o nascendo, crescendo. O que, diga-se de passagem, \u00e9 uma beleza. Eu tamb\u00e9m acordava muito cedo para ver o milho crescer, para ver o feij\u00e3o crescer; com isso, meu pai gostaria que eu fosse o seu sucessor na ro\u00e7a, no trabalho da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acontece que, com todo esse meu assanhamento \u2013&nbsp;essas bravatas de escrever cartas, de recitar poesias \u2013, todo aquele povo come\u00e7ou a fazer press\u00e3o sobre minha fam\u00edlia para que eu fosse estudar num outro lugar. E eu fui para uma cidade mais adiante, fui morar com meus tios, para fazer o gin\u00e1sio. A cidade se chama Alagoinhas, fica a 108 km de Salvador e \u00e9 uma cidade de que eu gosto muito. \u00c9 muito linda e, naquela \u00e9poca, j\u00e1 tinha gin\u00e1sio. Minha m\u00e3e hoje mora l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o eu fiz o gin\u00e1sio em Alagoinhas e foi l\u00e1 que eu comecei a descobrir mais livros. O diretor do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica) era meu amigo e deixava eu ir l\u00e1 pegar livros para ler. Na prefeitura tinha uma biblioteca e eu tamb\u00e9m ia l\u00e1 pegar livros para ler. No pr\u00f3prio gin\u00e1sio havia uma pequena biblioteca. Comecei a ler Monteiro Lobato. Comecei a descobrir Monteiro Lobato. Chegou um professor de fora e come\u00e7ou a me emprestar livros: Graciliano Ramos, Jorge Amado. Comecei a descobrir as maravilhas do conto russo, as maravilhas do conto norte-americano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Comecei a ler Machado de Assis; aqueles textos de Machado de Assis que se liam mais pelo enredo, como<em> Helena<\/em>,<em> A m\u00e3o e a luva<\/em>. Ainda n\u00e3o era a grande fase de Machado de Assis, mas j\u00e1 era uma entrada em Machado de Assis. Comecei a descobrir Tolst\u00f3i, com <em>Ressurrei\u00e7\u00e3o<\/em>. Isso no tempo do gin\u00e1sio, com 14, 15 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois fui para Salvador fazer o curso cient\u00edfico, como se chamava antigamente. Ent\u00e3o fui para a cidade e, em Salvador, consegui entrar num jornal. Como o jornal pagava pouco, comecei a trabalhar num banco e n\u00e3o deu mais para estudar. Larguei de estudar e enfiei a cara no jornal, pois o que eu queria era aprender a escrever. De Salvador, fui para S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Em Salvador, n\u00e3o chegou nem a terminar o cient\u00edfico?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.:<\/strong> N\u00e3o acabei nem o 1<sup><u>o<\/u><\/sup> ano cient\u00edfico. Interrompi e fui para S\u00e3o Paulo. Enfiei a cara no jornal, depois passei para a propaganda. Nos jornais de S\u00e3o Paulo, fui colega de Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o, que \u00e9 meu amigo at\u00e9 hoje. De S\u00e3o Paulo fui para Portugal, onde, por sorte, conheci logo de cara um grande poeta, Alexandre O\u2019Neill, que, como eu, trabalhava em publicidade; era redator publicit\u00e1rio. Ali\u00e1s, em Portugal, muitos eram os redatores publicit\u00e1rios, como, por exemplo, o romancista Jos\u00e9 Cardoso Pires. Em Portugal eu li de tudo, porque morei na casa de Alexandre O\u2019Neill. Ele uma vez me disse: \u201cEscreva!\u201d. E eu: \u201cComo \u00e9 que voc\u00ea sabe que eu quero escrever?\u201d. Ele respondeu: \u201cOuvindo suas hist\u00f3rias\u201d. A\u00ed, eu disse: \u201cVoc\u00ea acaba de me dar a maior alegria do mundo: descobrir que eu quero escrever\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Portugal descobri muita coisa. Naquela \u00e9poca, Portugal publicava mais literatura estrangeira do que no Brasil. Ent\u00e3o voc\u00ea conseguia descobrir quase tudo que era norte-americano, descobrir os ingleses, os <em>young angry men<\/em>; descobrir o neorrealismo italiano que se divulgava muito em Portugal e que tinha grande influ\u00eancia sobre os portugueses. Voc\u00ea tinha Pavese, Pratolini, Vittorini. Outro que tinha grande influ\u00eancia l\u00e1 era o grande escritor \u00cdtalo Calvino. Descobri um escritor por quem fiquei apaixonad\u00edssimo e que me fez ter uma vontade louca de viajar pela It\u00e1lia, principalmente pelo sul da It\u00e1lia. \u00c9 um escritor chamado Carlo Levi. Li <em>Cristo si \u00e9 fermato a Eboli<\/em> e um outro texto de reportagem que \u00e9 sensacional: \u201cAs palavras s\u00e3o de pedra\u201d. Basicamente foi essa minha forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dia cheguei a Paris para tentar encontrar Fitzgerald e Hemingway, para ver se eles ainda estavam l\u00e1, frequentando os caf\u00e9s. Chegando l\u00e1, n\u00e3o havia mais nem Fitzgerald nem Hemingway. E descobri que o que existia mesmo era eu com a minha terra; quer dizer, me deu vontade de escrever sobre o mundo de onde eu tinha vindo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se olho para tr\u00e1s, acho que tive uma boa inf\u00e2ncia. N\u00e3o sei&#8230; Imagine uma pessoa que sai de casa muito cedo, ganha o mundo e at\u00e9 hoje n\u00e3o ficou maluca. Eu n\u00e3o me transformei num marginal nem em outra coisa qualquer. Canalizei todas as minhas buscas, ang\u00fastias, loucuras, insatisfa\u00e7\u00f5es, enfim, tudo para a escrita. Logo, s\u00f3 posso deduzir que tive uma boa inf\u00e2ncia. O que \u00e9 uma coisa dif\u00edcil de se ter na cidade. Na cidade \u00e9 muito dif\u00edcil ter pais <em>full-time<\/em>. Eu tinha pai e m\u00e3e 24 horas por dia. Eu aprendi um grande sentido de vida comunit\u00e1ria: meu pai contratava trabalhadores para trabalhar na lavoura. Ele e n\u00f3s trabalh\u00e1vamos junto com os trabalhadores. Eles tinham que se sentar na nossa mesa e comer a nossa comida. Se dormiam em casa, dormiam usando os mesmos espa\u00e7os das pessoas da casa. Isso me deixou com alguns problemas para a vida urbana. Vim para a cidade e moro num apartamento amplo. Entretanto, o quarto de empregada \u00e9 min\u00fasculo. Para mim, essa conviv\u00eancia com as divis\u00f5es de classe da vida urbana \u00e9 muito complicada; \u00e9 uma coisa muito radical essa diferen\u00e7a de classes na vida urbana. Ent\u00e3o, eu tenho uma boa lembran\u00e7a da inf\u00e2ncia; a lembran\u00e7a de uma coisa ligada \u00e0 terra, a pais de tempo integral. Eu gostaria de ser esse pai para os meus filhos, mas n\u00e3o posso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quem foi o teu \u201cmestre\u201d, Ant\u00f4nio?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.:<\/strong> Acho que tive v\u00e1rios mestres. Come\u00e7ou com aquela professora na escola rural. No gin\u00e1sio, eu tamb\u00e9m encontrei um professor de portugu\u00eas que dava muita aten\u00e7\u00e3o para essa minha inclina\u00e7\u00e3o para escrever. Esses primeiros professores foram os primeiros grandes est\u00edmulos que tive. Mas o primeiro grande est\u00edmulo foi o povo mesmo; depois, foram os professores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Por que escreve?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.:<\/strong> Por causa das manifesta\u00e7\u00f5es daquele povo que chorava quando me ouvia recitar poesias. Esse povo que ia me chamar para ler livro de rezas quando algu\u00e9m estava morrendo. Esse povo que me chamava para escrever suas cartas. Tudo isso me dava est\u00edmulo, de uma maneira ou de outra. Acho que j\u00e1 comecei sentindo dentro de mim a necessidade de escrever como uma coisa socialmente \u00fatil, como um servi\u00e7o. Num pa\u00eds com os \u00edndices t\u00e3o alarmantes de analfabetismo como o nosso, as pessoas, \u00e0s vezes, dizem: \u201cPoxa, escrever aqui \u00e9 um elitismo\u201d. Eu acho que n\u00e3o. Pela minha experi\u00eancia pessoal, n\u00e3o. Escrever \u00e9 um servi\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, eu acho que devo tudo \u00e0 minha inf\u00e2ncia. Todo o meu trabalho est\u00e1 plasmado na minha inf\u00e2ncia. Eu sempre quis sair daquele mundo, mas sa\u00ed daquele mundo para servir um pouco melhor \u00e0quele mundo. O Brasil est\u00e1 cheio de mundos em volta. \u00c9 um mundo muito mais representativo desse tipo de experi\u00eancia do que esses n\u00facleos urbanos brasileiros de fei\u00e7\u00e3o \u201ceuro-norte-americana\u201d e que tamb\u00e9m \u00e9 uma realidade do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s temos, por exemplo, aqui no Rio de Janeiro, bares sofisticad\u00edssimos, como os de Saint Germain-des-Pr\u00e8s, de Via Veneto, de Nova York, sei l\u00e1 de onde, mas voc\u00ea tem todo o Nordeste em volta, pendurado nos morros ou nas pr\u00f3prias ruas. Voc\u00ea encontra esse Nordeste, esse choque do s\u00e9culo XVII com o s\u00e9culo XX, e eu estou dentro, vivendo todo esse entrechoque, o conflito dessas realidades a partir da minha pr\u00f3pria experi\u00eancia individual, pessoal. Eu sou este homem de cidade, mas trago dentro de mim toda essa experi\u00eancia anterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quando pensa ter acabado seu per\u00edodo de forma\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.:<\/strong> Continuo aprendendo, at\u00e9 me comporto mesmo como aprendiz. Isso na esperan\u00e7a de que seja um caminho para uma evolu\u00e7\u00e3o permanente. Eu tenho a impress\u00e3o de que, se olhar para tr\u00e1s, tudo na minha vida foi marcante; como era aquela professora na escola, como era aquele escritor da Bahia, chamado Ariovaldo Matos, que era o redator-chefe do jornal onde eu trabalhei, como aquele poeta chamado Jo\u00e3o Carlos Teixeira Gomes, que foi meu chefe de reportagem, como todas as pessoas com quem eu viria a me ligar em S\u00e3o Paulo. O escritor Marcos Rey, por exemplo, era redator de propaganda como eu; Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o era meu colega de jornal, como o Alexandre O\u2019Neill em Portugal. Encontrar essas pessoas, viajar, mudar de lugar foram etapas muito marcantes na minha vida. Evidentemente, o Brasil teve um corte em 1964. Para a contemporaneidade do Brasil, a hist\u00f3ria est\u00e1 dividida assim: antes e depois de 1964; ou, mais marcadamente dividida, antes e depois de 1968, o ano em que as coisas realmente arrocharam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quando come\u00e7ou a escrever?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.:<\/strong> A sensa\u00e7\u00e3o que eu tenho \u00e9 de que, quando eu vim ao mundo, j\u00e1 estava querendo uma folha de papel. \u00c9 aquela coisa que eu descobri cedo, por todo um tra\u00e7o biogr\u00e1fico que eu j\u00e1 lhe dei, por causa da minha inf\u00e2ncia. Aos 8 anos de idade, eu j\u00e1 escrevia meus poemas e os guardava debaixo do colch\u00e3o, com vergonha que os adultos descobrissem aquilo. Eu estava apaixonado por uma garota e estava fazendo uns poemas para ela. Mais tarde, descobri que o meu neg\u00f3cio n\u00e3o era poesia; meu neg\u00f3cio era prosa. Mas eu sa\u00ed por a\u00ed, pelo mundo, procurando meu texto. Tive pouca escola, ent\u00e3o tive que partir para as escolas da rua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como foi seu primeiro livro?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.:<\/strong> Eu o escrevi aqui no Rio de Janeiro em oito meses. Escrevi-o de um jato. Esse romance foi motivado por uma visita que fiz a um amigo, que estava internado numa cl\u00ednica psiqui\u00e1trica no Rio de Janeiro. Tinha todo aquele quadro dos anos 1970, 1971, 1972, a \u00e9poca mais dura do regime militar. A nossa juventude tinha duas sa\u00eddas: de um lado, a luta armada; do outro, as drogas. Eu fui visitar esse amigo que estava internado. Ele estava sofrendo, sendo submetido a eletrochoques; davam muitas drogas para ele, e as drogas o deixavam muito excitado. Fiquei duas horas conversando com ele e fiquei muito impressionado. Comecei a ligar para alguns amigos m\u00e9dicos, e todo mundo dizia que n\u00e3o tinha jeito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A\u00ed eu comecei, a princ\u00edpio, a escrever um conto, porque, em toda minha vida, eu escrevia, escrevia, e eu era o melhor escritor para mim mesmo at\u00e9 a segunda p\u00e1gina, depois eu n\u00e3o sabia continuar. Fiquei muito tocado com aquela visita e comecei a criar uma situa\u00e7\u00e3o de um louco batendo um papo com ele mesmo. Meu projeto inicial era um conto. A\u00ed eu cheguei \u00e0 3<sup><u>a<\/u><\/sup> p\u00e1gina, esfreguei as m\u00e3os, feliz da vida (\u201cagora \u00e9 um romance\u201d), e fui em frente. O romance foi publicado em 1972, e o escrevi rapidamente. Eu n\u00e3o conhecia ningu\u00e9m no meio liter\u00e1rio, e o romance foi um sucesso extraordin\u00e1rio. Fui tido pela cr\u00edtica como a revela\u00e7\u00e3o do ano. Chegaram a escrever nos jornais: \u201cNingu\u00e9m sabia quem era esse cara, embora seja uma das maiores revela\u00e7\u00f5es de escritor de todos os tempos no Brasil\u201d. Mas, quando eles estavam dizendo isso, eu achava que n\u00e3o era comigo aquele papo, porque eu j\u00e1 tinha escrito os cap\u00edtulos iniciais de <em>Os homens dos p\u00e9s redondos<\/em>, que nunca avan\u00e7avam, e peguei da 1<sup><u>a<\/u><\/sup> p\u00e1gina e fui embora: menos de um ano depois terminei <em>Os homens dos p\u00e9s redondos<\/em> que, basicamente, reflete a minha experi\u00eancia portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Por que o primeiro romance se chamou <\/em>Um c\u00e3o uivando para a lua<em>?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.:<\/strong> Esta foi uma ideia que guardei de uma madrugada paulista na casa de uma amiga, \u00e0s 4 horas da manh\u00e3. Com aquele frio todo de S\u00e3o Paulo, a gente estava bebendo e ouvindo um trompete americano, Miles Davis, que tocava <em>My Funny Valentine<\/em>. Ouvindo aquele trompete, t\u00e3o rasgado, t\u00e3o dilacerado, eu dizia a ela: \u201cParece um c\u00e3o uivando para a lua\u201d; e ela dizia: \u201cMas hoje n\u00e3o tem lua, parece um boi berrando para o sol\u201d. Assim, num papo de doido, eu dizia: \u201cMas hoje n\u00e3o tem sol&#8230;\u201d. Guardei essa imagem, e o t\u00edtulo pegou de uma maneira extraordin\u00e1ria, porque as pessoas o associaram ao clima pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Talvez mais do que com o conte\u00fado do texto.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.:<\/strong> Exato. Foi muito associado ao clima pol\u00edtico da \u00e9poca, com a imagem de uma solid\u00e3o desgra\u00e7ada. Um sujeito querendo algo imposs\u00edvel, que era uivar para a lua, sabendo que a lua est\u00e1 muito distante. O livro vendeu que foi uma beleza. De repente, eu come\u00e7ava a receber convites para lan\u00e7ar o livro em Recife, e eu n\u00e3o conhecia ningu\u00e9m em Recife.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro foi lan\u00e7ado no mesmo dia em que <em>Teresa Batista, cansada de guerra<\/em>, de Jorge Amado, foi lan\u00e7ado (em S\u00e3o Paulo, no mesmo hor\u00e1rio, a um quarteir\u00e3o de dist\u00e2ncia). O Jorge Amado foi o primeiro a passar na livraria onde eu estava: comprou um exemplar, deixou um embrulho e um bilhete para eu autografar o livro para ele. Bel\u00edssimo isso!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E eu, que pensava que meu lan\u00e7amento ia ser um fracasso! No entanto, n\u00e3o foi. Minha estreia foi j\u00e1 autografando duzentos livros (o que \u00e9 muito bom, mesmo hoje). Fant\u00e1stico para uma noite de aut\u00f3grafos! Ainda mais para um estreante (hoje eu j\u00e1 autografo quatrocentos). Cheguei ao Recife e li nos jornais: <em>Um c\u00e3o uivando para a lua<\/em>, 1<sup><u>o<\/u><\/sup> lugar; <em>Teresa Batista, cansada de guerra<\/em>, 2<sup><u>o<\/u><\/sup> lugar, na lista de vendas. Vou confessar a voc\u00ea uma coisa que \u00e9 muito dif\u00edcil de confessar: eu tenho muita saudade desse tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Por que era a estreia?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.:<\/strong> Sim, porque era o primeiro livro. Eu achava que n\u00e3o sabia nada. N\u00e3o que hoje eu saiba alguma coisa, mas acho que j\u00e1 sei mais um pouco do que sabia naquele tempo. Hoje eu j\u00e1 sei da cr\u00edtica, j\u00e1 sei disso e de uma s\u00e9rie de coisas, j\u00e1 tenho temor da cr\u00edtica. Naquele tempo, eu n\u00e3o tinha temor de nada, n\u00e3o sabia de nada. Estava que nem um c\u00e3o solto, doido no mundo. Ent\u00e3o, o efeito disso tudo me deixou muito feliz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Um pouco como se fosse a inf\u00e2ncia, a inf\u00e2ncia da escrita?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.:<\/strong> Exatamente. Dei sorte no primeiro livro. Acho que isso \u00e9 definitivo para um escritor, porque, a partir da\u00ed, eu n\u00e3o tive nenhum problema editorial, nem problema de espa\u00e7o na imprensa. N\u00e3o tive mais problema algum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Pode viver s\u00f3 de literatura?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.:<\/strong> Eu trabalho com publicidade. N\u00e3o ganho ainda o bastante para viver dos meus livros, apesar de venderem muito bem. O fato de trabalhar com publicidade \u00e9 um jogo muito duro, muito pesado. Tamb\u00e9m me instiga muito para escrever romance. Depois, a publicidade tem uma coisa que, para mim, \u00e9 fascinante: a t\u00e9cnica. Aprendi muito com a t\u00e9cnica publicit\u00e1ria. Voc\u00ea v\u00ea que meus livros s\u00e3o magrinhos; quase todos, fora <em>Os homens de p\u00e9s redondos<\/em>. N\u00e3o \u00e9 que eu escreva pouco; ao contr\u00e1rio, escrevo muito para chegar a pouco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como surge um texto? Como nasceu <\/em>Essa Terra<em>?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.:<\/strong> A ideia do livro surgiu numa tarde paulistana, em 1973. Eu estava trabalhando como redator numa das maiores ag\u00eancias de publicidade do Brasil, na avenida Paulista. Eu ficava numa sala no 12<sup><u>o<\/u><\/sup> andar e l\u00e1 de baixo vinha um barulho infernal, das obras do metr\u00f4. E eu na m\u00e1quina de escrever: mais um volks, mais um torno, mais um forno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquela tarde, n\u00e3o estava dando para prosseguir com uma campanha para a Volkswagen do Brasil, por causa da barulheira. Resolvi parar um pouco e descer ao bar na galeria do edif\u00edcio, para espairecer. Quando desci, deu vontade de me aproximar dos oper\u00e1rios com suas m\u00e1quinas barulhentas e de tentar conversar com alguns deles. Ao me aproximar, percebi que eram todos das minhas bandas; logo, como eu, tinham vindo dos fund\u00f5es do pa\u00eds. E sobre os rostos desses homens, eu via a imagem de um outro, que eu havia visto pela \u00faltima vez num sub\u00farbio chamado S\u00e3o Miguel Paulista, \u00e0 \u00e9poca uma esp\u00e9cie de gueto de \u201cbaianos\u201d, como todos os nordestinos, baianos ou n\u00e3o, s\u00e3o chamados em S\u00e3o Paulo. O homem em quest\u00e3o era da minha terra. Estava b\u00eabado e queria beber mais. Quando me viu, disse aos berros: \u201cPrimo, conta para ele quem \u00e9 a nossa fam\u00edlia na Bahia\u201d. Senti o drama: esse <em>ele <\/em>era o portugu\u00eas dono do botequim, e o b\u00eabado queria mais e fiado, com o aval de uma fam\u00edlia a uns 2 mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Para encurtar a hist\u00f3ria, paguei-lhe uma cacha\u00e7a e fui embora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns anos depois, fiquei sabendo que aquele homem havia voltado para a sua terra \u2013&nbsp;a nossa terra \u2013&nbsp;e havia se matado, do jeito que descrevo no livro. Ao tomar o elevador de volta ao escrit\u00f3rio, muitas imagens se cruzaram na minha mente: o homem em S\u00e3o Miguel Paulista e depois, com o pesco\u00e7o numa corda, no interior da Bahia; os oper\u00e1rios do metr\u00f4; outros baianos em S\u00e3o Bernardo do Campo fabricando os carros da Volkswagen; e eu numa ag\u00eancia de propaganda, para vend\u00ea-los. O louco motor do parque industrial movido pelos migrantes \u2013&nbsp;n\u00e3o s\u00f3 por eles, claro, mas tamb\u00e9m por eles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao voltar \u00e0 m\u00e1quina de escrever, bati o seguinte di\u00e1logo: \u201cSe estiver vivo, um dia ele aparece, foi o que eu sempre disse\u201d. Pronto. Estava come\u00e7ado o <em>Essa Terra<\/em>. \u00c9 um romance com muita hist\u00f3ria por tr\u00e1s dele. Assim como o <em>Um t\u00e1xi para Viena d\u2019\u00c1ustria<\/em>. Este nasceu de um sonho. Uma noite sonhei que havia matado um homem, num apartamento em Ipanema, e depois fugia de t\u00e1xi, para n\u00e3o ser apanhado pela pol\u00edcia. Tudo parecia t\u00e3o real, que acordei apavorado e me perguntando que viol\u00eancia era aquela que eu carregava dentro de mim. At\u00e9 perceber que aquilo dava um romance, com o r\u00e1dio do t\u00e1xi tocando a \u201cMissa em d\u00f3 maior\u201d (a \u201cMissa da Coroa\u00e7\u00e3o\u201d), de Mozart, uma trilha e tanto para uma viagem imagin\u00e1ria, em contraponto com a viol\u00eancia do Rio de Janeiro. E assim, <em>la nave va<\/em>. Minha nave romanesca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Qual \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com a escrita, com a linguagem?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.: <\/strong>Eu sou um desses escritores para quem o texto \u00e9 mais importante do que o contexto. \u00c9 claro que a hist\u00f3ria tem import\u00e2ncia, evidentemente, voc\u00ea est\u00e1 contando uma hist\u00f3ria. Mas, para mim, por uma quest\u00e3o de temperamento, o que interessa mais \u00e9 a maneira de contar, e isso remete ao estilo. Trabalho muito a linguagem. Reescrevo mais do que escrevo. Na verdade, \u00e9 uma coisa compulsiva, \u00e9 uma coisa at\u00e9 neur\u00f3tica, uma necessidade. No fim do livro, eu fico morrendo de ansiedade, achando que podia ter escrito, reescrito mais vezes as coisas. Mas tamb\u00e9m fica aquele medo de voc\u00ea reescrever tanto que acabe perdendo a subst\u00e2ncia original, o impulso original.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>A emo\u00e7\u00e3o do texto.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.:<\/strong> Sim, a emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>A escrita \u00e9 tamb\u00e9m testemunho, den\u00fancia, comunica\u00e7\u00e3o, express\u00e3o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.:<\/strong> Acho que \u00e9 tudo isso. Mas tem que ser aquela combina\u00e7\u00e3o de arte e beleza. Por meio da arte e da beleza, voc\u00ea deve passar muita emo\u00e7\u00e3o. Acho que n\u00f3s estamos chegando a um fim de s\u00e9culo com muitas perguntas na cabe\u00e7a. Aqui no Brasil, n\u00f3s somos uma gera\u00e7\u00e3o que conhece muito a fundo a crise do pa\u00eds e a nossa pr\u00f3pria crise diante das coisas que acredit\u00e1vamos e que n\u00e3o deram certo; de promessas que n\u00e3o se cumpriram, de destinos que n\u00e3o se realizaram. Acho que o escritor brasileiro est\u00e1 muito empenhado tamb\u00e9m num aprofundamento dessa crise nacional, no que diz respeito \u00e0s quest\u00f5es \u00e9ticas da sociedade, assistindo, por exemplo, a todo esse processo hist\u00f3rico nacional que nos fez perder uma identidade, uma identidade de na\u00e7\u00e3o, uma identidade cultural. Acho que \u00e9 o romancista, o poeta, o contista, o ensa\u00edsta, enfim, o escritor, que est\u00e1 empenhado no resgate dessas perdas, dessa identidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>H\u00e1 momentos ideais para escrever?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.: <\/strong>O momento mais feliz \u00e9 quando voc\u00ea bate no teclado e as teclas respondem. Sim, porque elas nem sempre respondem; nem sempre s\u00e3o suas camaradas. \u00c0s vezes, voc\u00ea fica batendo, batendo, batendo, e o que vem \u00e9 nada. Mas aquele momento em que voc\u00ea bate e sente a resposta, em que vem uma frase que te surpreende \u2013 esse momento, pode crer, \u00e9 o momento mais glorioso da vida de um escritor! Mas o momento ideal \u2013&nbsp;que me perdoem os que acham que vou falar uma besteira \u2013, o momento ideal \u00e9 quando voc\u00ea est\u00e1 inspirado. Eu sou um dos \u00faltimos escritores que ainda acredita na inspira\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sei explicar o que \u00e9 que \u00e9 isso, mas \u00e9 um momento em que parece que voc\u00ea est\u00e1 com a \u201ccachorra\u201d. Naquele momento, realmente, tudo flui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Onde voc\u00ea encontra est\u00edmulos para escrever?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.:<\/strong> Os est\u00edmulos n\u00e3o s\u00e3o tantos nesse tipo de sociedade em que a gente vive, mas existem. Existem na pr\u00f3pria cobran\u00e7a do p\u00fablico. Voc\u00ea se mexe de um lado para o outro, e as pessoas cobram: \u201cO que \u00e9 que voc\u00ea est\u00e1 escrevendo?\u201d, \u201cO que \u00e9 que voc\u00ea vai escrever?\u201d. Isso \u00e9 um est\u00edmulo, claro. N\u00e3o h\u00e1 escritor sem leitor. A gente escreve para ser lido e, sobretudo, para ser amado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Qual \u00e9 o papel do imprevisto no seu processo criativo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.: <\/strong>\u00c9 tudo imprevisto. O imprevisto \u00e9 que te tira da normalidade e te acorda, te desperta. Muitas vezes, desperta num acontecimento doloroso. Contei, por exemplo, a visita que fiz \u00e0quele meu amigo que estava internado e que tem sido fundamental para todo o meu trabalho at\u00e9 hoje. Isso porque, por um processo qualquer, aquele choque que eu senti com aquele meu amigo de cabe\u00e7a raspada, espumando de tanto choque que levava, desencadeou em mim todos os textos que eu tinha dispersado no meio do caminho, toda a minha necessidade de escrever.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Existe o prazer de escrever?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.:<\/strong> Claro! \u00c9 um jogo l\u00fadico. \u00c9 como um brinquedo. \u00c9 o brinquedo de adulto. Ele fica brincando de encontrar palavras para descrever situa\u00e7\u00f5es, brincando de inventar pessoas ou reinvent\u00e1-las. Eu n\u00e3o sei te explicar, mas \u00e9 gostoso escrever. Eu adoro escrever. Principalmente quando o teclado responde.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como o cotidiano influencia seu trabalho criador?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.: <\/strong>A vida implica momentos de tens\u00e3o, momentos de muita paz, conflitos ou harmonia. Minha esposa \u00e9 professora e estudante: S\u00f4nia Regina Aguiar Torres da Cruz. Devo confessar que s\u00f3 consegui escrever decentemente depois que me casei com a S\u00f4nia. Enquanto andei pelo mundo, arrebanhei muito material, mas n\u00e3o conseguia lhe dar forma. A partir do casamento, eu me estruturei. Acho que alguma coisa se organizou, n\u00e3o no sentido de ter uma casa, n\u00e3o; \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o mental, uma organiza\u00e7\u00e3o espiritual. A S\u00f4nia, inclusive, \u00e9 uma \u00f3tima cr\u00edtica. Ela est\u00e1 fazendo um curso de Letras, estou aprendendo muito com ela, acompanho os trabalhos que ela faz na universidade (na PUC do Rio). Atrav\u00e9s dela, estou fazendo o curso que n\u00e3o fiz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como se sente dentro da literatura brasileira?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.: <\/strong>Ela \u00e9 muito vasta: vai de Antonio Callado, J. J. Veiga, Autran Dourado, Lygia Fagundes Telles a J\u00falio C\u00e9sar Monteiro Martins, que \u00e9 o mais novo da turma e o mais garoto. Fisicamente, por um problema de gera\u00e7\u00e3o, de enturma\u00e7\u00e3o e de trabalho realizado, estive muito ligado, nos anos 1970, principalmente ao Jo\u00e3o Ant\u00f4nio e ao Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o. N\u00f3s tr\u00eas, depois de um debate que fizemos em 1975, aqui no Teatro Casa Grande, sa\u00edmos pelo Brasil inteiro fazendo palestras em teatros, universidades, escolas, criando uma sensibiliza\u00e7\u00e3o maior para o fato de que existe no Brasil uma literatura que n\u00e3o \u00e9 boa s\u00f3 agora, uma literatura que j\u00e1 era boa cem anos atr\u00e1s. O brasileiro j\u00e1 andava muito esquecido disso. \u00c9 um pa\u00eds muito invadido culturalmente, muito tomado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quem organizou esse<\/em> tour<em> de confer\u00eancias?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.: <\/strong>O do Rio, quem organizou foi o Jo\u00e3o Ant\u00f4nio. Dele participaram, al\u00e9m do Loyola, Jo\u00e3o Ant\u00f4nio e de mim, Jos\u00e9 Louzeiro, Ant\u00f4nio Houaiss (como moderador), Wander Piroli (de Belo Horizonte) e o finado Juarez Barreto, um escritor cearense que morava no Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Aceitaria trabalhar com sal\u00e1rio fixo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.: <\/strong>N\u00e3o, n\u00e3o aceitaria, porque seria o mesmo que trabalhar em publicidade. Escrever, para mim, tem outro significado, entendeu? Eu tenho muito medo de assinar um contrato para escrever um livro em um ano, pois, de qualquer maneira, voc\u00ea tem que escrever o livro simplesmente porque voc\u00ea assinou um contrato. O tempo do livro \u00e9 um tempo meu, interno. Vou escrev\u00ea-lo quando tiver um assunto, uma boa motiva\u00e7\u00e3o, quando a inspira\u00e7\u00e3o descer, no tempo que der.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quando escreve, pensa nos cr\u00edticos, nos leitores?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.:<\/strong> Conscientemente, n\u00e3o. Talvez eu pense neles depois que o livro fica pronto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>N\u00e3o tem uma imagem do leitor ideal?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.:<\/strong> N\u00e3o, n\u00e3o tenho. Em princ\u00edpio a coisa \u00e9 comigo mesmo, \u00e9 o \u201ccorpo a corpo\u201d entre mim e o texto. Depois, claro, vem a ansiedade de saber se o cr\u00edtico vai gostar, o que o editor vai dizer, o que \u00e9 que o leitor vai achar, se vai gostar. Eu acho que \u00e9 depois que a gente fica com essa paranoia na cabe\u00e7a. Enquanto escrevo, estou numa outra dire\u00e7\u00e3o, buscando outro tipo de resposta; para mim mesmo, ali. Quando acabo o livro, e ele j\u00e1 n\u00e3o me pertence, a\u00ed v\u00eam as perguntas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>\u00c9 importante a publicidade para o sucesso de um livro?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.: <\/strong>Vivemos numa sociedade movida \u00e0 propaganda. <em>O nome da rosa<\/em> \u00e9 um sucesso mundial por causa da publicidade, independente do livro que \u00e9. Claro que a publicidade, por si s\u00f3, n\u00e3o faz tudo; evidentemente, o livro tem que corresponder \u00e0s expectativas do leitor. Mas, sem publicidade, voc\u00ea corre o risco de ficar completamente ignorado, de passar completamente despercebido. No Brasil, ent\u00e3o, essa hist\u00f3ria \u00e9 dram\u00e1tica. Boa parte dos escritores brasileiros n\u00e3o tem boa divulga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem boa publicidade, e isso tem atrapalhado enormemente o desenvolvimento desses autores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>O sucesso de uma obra, ent\u00e3o, depende de que ou de quem?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.: <\/strong>De v\u00e1rios fatores. Primeiro, deve ter uma boa divulga\u00e7\u00e3o, uma boa aceita\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica para levar o p\u00fablico a tomar conhecimento da exist\u00eancia dessa obra. Depois, depende da obra em si mesma. A\u00ed \u00e9 com ela, porque acho que a melhor propaganda do livro ainda \u00e9 o boca a boca. Mas, para uma pessoa ler um livro, \u00e9 preciso que saiba que esse livro existe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quando escreve, sente algum v\u00ednculo, algum impedimento, algum temor, alguma autocensura em se revelar?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.:<\/strong> Acho que a autocensura \u00e9 algo incontrol\u00e1vel. Acredito que, em todo o per\u00edodo da ditadura, todos n\u00f3s, de uma maneira ou de outra, nos autocensuramos um pouco. Outros, colegas meus, discordam de mim; acham que isso n\u00e3o se passou, etc. Acho que \u00e9 humanamente imposs\u00edvel que, num regime totalit\u00e1rio, de censura pesada, um indiv\u00edduo n\u00e3o se autocensure. Acho que isso atinge a todos n\u00f3s. Por mais que a gente se esforce para dar uma volta na autocensura, alguma coisa permanece l\u00e1 dentro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Um autorretrato rel\u00e2mpago?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.T.:<\/strong> Ant\u00f4nio Torres, baiano, moreno, brasileiro, meio \u00edndio, meio portugu\u00eas, meio ib\u00e9rico. Paulista e estrangeiro; uma pessoa que gosta muito de escrever, que adora escrever e que, como dizia Ernest Hemingway, tudo o que gostaria de ser \u00e9 um bom escritor e um bom sujeito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">COELHO, Lilian Reichert (2024). O cachorro e o lobo. Resenha de: TORRES, Ant\u00f4nio. <em>O cachorro e o lobo<\/em>.<em> Pra\u00e7a Cl\u00f3vis<\/em>: mapeamento cr\u00edtico da literatura brasileira contempor\u00e2nea, Bras\u00edlia. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2453.\">https:\/\/pracaclovis.com\/?p=2453.<\/a> Acesso em: 14 jan. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GON\u00c7ALVES, Rog\u00e9rio Gustavo (2016). Entre experi\u00eancia e inven\u00e7\u00e3o: incid\u00eancias autobiogr\u00e1ficas em Ant\u00f4nio Torres.<em> Estudos de Literatura Brasileira Contempor\u00e2nea<\/em>, n. 47, p. 287-302. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/2316-40184714\">https:\/\/doi.org\/10.1590\/2316-40184714<\/a>. Acesso em: 14 jan. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GON\u00c7ALVES, Rog\u00e9rio Gustavo (2017). O n\u00e3o-lugar do retirante nordestino em <em>Essa terra<\/em>, de Ant\u00f4nio Torres. <em>Itiner\u00e1rios<\/em>, Araraquara, n. 44, p. 43-52. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.fclar.unesp.br\/itinerarios\/article\/view\/8858\">https:\/\/periodicos.fclar.unesp.br\/itinerarios\/article\/view\/8858<\/a>. Acesso em: 14 jan. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MUNHOZ, Estella Maria Bortoncello; CECCAGNO, Douglas (2025). A recria\u00e7\u00e3o do mito de origem no conto brasileiro \u201cPor um p\u00e9 de feij\u00e3o\u201d. <em>O Eixo e a Roda<\/em>, Belo Horizonte, v. 34, n. 1, p. 38-48. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.ufmg.br\/index.php\/o_eixo_ea_roda\/article\/view\/58206\">https:\/\/periodicos.ufmg.br\/index.php\/o_eixo_ea_roda\/article\/view\/58206<\/a>. Acesso em: 14 jan. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">OLIVIERI-GODET, Rita (2025). Essa terra. Resenha de: TORRES, Ant\u00f4nio. <em>Essa terra<\/em>. <em>Pra\u00e7a Cl\u00f3vis<\/em>: mapeamento cr\u00edtico da literatura brasileira contempor\u00e2nea, Bras\u00edlia. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4707\">https:\/\/pracaclovis.com\/?p=<\/a><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4707\">4707<\/a>. Acesso em: 14 jan. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">OLIVIERI-GODET, Rita (2025). Meu querido canibal. Resenha de: TORRES, Ant\u00f4nio. <em>Meu querido canibal<\/em>.<em> Pra\u00e7a Cl\u00f3vis<\/em>: mapeamento cr\u00edtico da literatura brasileira contempor\u00e2nea, Bras\u00edlia. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4741\">https:\/\/pracaclovis.com\/?p=4741<\/a>. Acesso em: 14 jan. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PELINSER, Andr\u00e9 Tessaro; ALVES, M\u00e1rcio Miranda (2020). A perman\u00eancia do Regionalismo na literatura brasileira contempor\u00e2nea. <em>Estudos de Literatura Brasileira Contempor\u00e2nea<\/em>, Bras\u00edlia, n. 59, e593. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/2316-4018593\">https:\/\/doi.org\/10.1590\/2316-4018593<\/a>. Acesso em: 14 jan. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">* Apresenta\u00e7\u00e3o do autor feito por Giovanni Ricciardi na obra <em>O escritor corporal. Uma sociologia para a literatura<\/em>, Foz do Igua\u00e7u: EdUnila, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">** Ela foi previamente publicada na obra <em>Biografia e cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Vol. VI: escritores do Norte e Nordeste \u2013 Entrevistas. <\/em>Lauro de Freitas, BA: Livro.com, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"featured_media":8214,"template":"","meta":{"_acf_changed":true},"categories":[586,555],"estado":[169],"autoria":[250,249],"class_list":["post-8213","entrevista","type-entrevista","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-romance","estado-bahia","autoria-autoriabranca","autoria-autoriamasculina"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/entrevista\/8213","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/entrevista"}],"about":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/entrevista"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8214"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8213"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8213"},{"taxonomy":"estado","embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Festado&post=8213"},{"taxonomy":"autoria","embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fautoria&post=8213"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}