{"id":8211,"date":"2026-05-27T17:21:45","date_gmt":"2026-05-27T20:21:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?post_type=entrevista&#038;p=8211"},"modified":"2026-06-29T12:09:02","modified_gmt":"2026-06-29T15:09:02","slug":"adelia-prado","status":"publish","type":"entrevista","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?entrevista=adelia-prado","title":{"rendered":"Ad\u00e9lia Prado"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Giovanni Ricciardi: <\/strong><em>Ad\u00e9lia Prado, voc\u00ea \u00e9 conhecida em todo o Brasil, mas n\u00e3o vive no eixo Rio-S\u00e3o Paulo. H\u00e1 possibilidade de fazer poesia e de ser conhecida fora do eixo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ad\u00e9lia Prado:<\/strong> Sim. Eu acredito que no caso da literatura, j\u00e1 que escrever \u00e9 um exerc\u00edcio solit\u00e1rio, eu n\u00e3o precise de um local de exposi\u00e7\u00f5es, como se eu fosse um pintor que necessitasse de um centro maior para levar as coisas. Aqui, a \u00fanica coisa que eu tenho a fazer \u00e9 escrever e depois enviar os originais. E, como tudo o que acontece em qualquer lugar do mundo, acontece em Divin\u00f3polis (as paix\u00f5es humanas, as boas e as m\u00e1s est\u00e3o todas aqui representadas, vividas); ent\u00e3o eu n\u00e3o preciso sair do meu quintal pra fazer literatura. Tanto faz eu estar aqui ou no centro do mundo, o que acontece aqui, acontece no mundo. Eu fui descoberta por aquilo que eu fazia aqui; simplesmente descobriu-se que eu, aqui no interior, fazia literatura. E continuei fazendo no mesmo lugar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>A senhora nasceu aqui em Divin\u00f3polis?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Nasci aqui, na conflu\u00eancia de duas estradas de ferro, praticamente dentro das oficinas da rede onde meu pai era ferrovi\u00e1rio. Toda a vida, desde pequena, todo meu imagin\u00e1rio, toda a minha paisagem \u00e9 ferro, \u00e9 locomotiva, \u00e9 apito, \u00e9 graxa; essa foi a minha primeira experi\u00eancia feliz do mundo. Eu achava, e toda a vida achei, que o mundo era de ferro. Eu tive a oportunidade de falar isso em poemas. Quando eu quis me casar, quando eu comecei a ter sonhos matrimoniais, eu queria que tudo da minha casa fosse de ferro. Desde quando eu era bem menina isso me dava solidez. Meu pai fazia para n\u00f3s colheres de ferro. Eu tenho at\u00e9 hoje colheres de amassar feij\u00e3o de ferro, coadores de caf\u00e9, ou suporte de fazer caf\u00e9, de ferro; ent\u00e3o tudo na minha casa era de ferro e aquilo me dava uma solidez, aquilo era indestrut\u00edvel. Eu achava que meu pai tamb\u00e9m era indestrut\u00edvel, que ele tamb\u00e9m era de ferro. A inf\u00e2ncia tinha todo esse contexto para mim: as m\u00e1quinas, as locomotivas, o ferro do qual as coisas eram feitas. Esse era um lugar, para mim, apraz\u00edvel de viver e \u00e9 at\u00e9 hoje. A casa do meu pai \u00e9 um lugar para o qual eu sempre volto, para recuperar essa solidez, essa seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quando voc\u00ea nasceu? E como foram os seus primeiros anos, o seu curr\u00edculo de estudos?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Eu nasci aqui \u00e0 beira da linha, no dia 13 de dezembro de 1935, no dia de Santa Luzia, por isso eu me chamo Ad\u00e9lia Luzia. Tive uma inf\u00e2ncia corriqueira, normal, pai ferrovi\u00e1rio, m\u00e3e dom\u00e9stica, fam\u00edlia extremamente religiosa, dessa religiosidade tamb\u00e9m um pouco diferente, porque mineira, acentuada, para dentro. No grupo escolar ganhei um pr\u00eamio, ent\u00e3o pude estudar de gra\u00e7a; foi a oportunidade que eu tive de fazer o curso ginasial e depois o curso de professora, que era o m\u00e1ximo que eu podia fazer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Era o m\u00e1ximo para Divin\u00f3polis?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Sim, o m\u00e1ximo para Divin\u00f3polis, na \u00e9poca. Tinha aqui um gin\u00e1sio, onde as meninas estudavam junto com os meninos, que era muita novidade para mim. O meu destino era fazer um curso de professora. Filosofia eu fiz mais tarde, j\u00e1 estava casada, com filhos. Fui inclusive filha de Maria e pertenci a todas essas irmandades religiosas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Eu queria que voc\u00ea falasse mais um pouco sobre esse tipo de educa\u00e7\u00e3o mineira. O que \u00e9 \u201cmineiridade\u201d?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>A coisa que mais me salta para dizer sobre mineiridade \u00e9 a religiosidade da qual eu sou uma tribut\u00e1ria fervorosa. Tive essa educa\u00e7\u00e3o religiosa r\u00edgida, uma doutrina severa me cercou desde que eu nasci, mas, ao mesmo tempo que a religi\u00e3o era severa, eu fui salva, acredito, pela beleza do culto. Eu ainda aproveitei demais de uma liturgia muito romanizada, \u00e9 claro, mas muito bela tamb\u00e9m, muito r\u00edgida, mas muito bela. Aquilo me salvava; eu pensava que Deus era cruel, mas era belo tamb\u00e9m. Aquilo me segurou, me salvou: a beleza, o po\u00e9tico do culto religioso, da celebra\u00e7\u00e3o religiosa. A religi\u00e3o, para mim, at\u00e9 hoje, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma heran\u00e7a feliz, \u00e9 uma coisa que eu redescubro a cada dia e reassumo. Os rigores da doutrina foram apaziguados com a beleza da poesia, a pr\u00f3pria poesia \u00e9 que me devolveu a f\u00e9 de uma maneira nova. Pela via po\u00e9tica, eu recuperei o vigor e a beleza original at\u00e9 da pr\u00f3pria doutrina. Mas, da experi\u00eancia religiosa, que eu descobri mais tarde, fiz uma experi\u00eancia po\u00e9tica. Quando as duas coisas se encontram, eu fui completamente salva de tudo que a doutrina podia trazer para mim de opress\u00e3o, isso porque eu tive uma via nova de entendimento do fen\u00f4meno religioso e da pr\u00f3pria pr\u00e1tica religiosa. A poesia na sua qualidade libertadora me mostrou tamb\u00e9m onde \u00e9 que estavam os equ\u00edvocos da minha doutrina, da minha pr\u00e1tica religiosa. Uma coisa salvou a outra, e salvou-a de maneira feliz e definitiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quais foram os livros de Ad\u00e9lia menina?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Eu lia muito na biblioteca dos freis franciscanos, que se chamava Pia Biblioteca das Filhas de Maria. Eu tinha uma tia, filha de Maria, e eu funcionava como sombra dela, aonde ela ia eu ia atr\u00e1s. Ent\u00e3o eu me aproveitei imensamente dessa biblioteca. L\u00e1, eu lia a vida dos santos: Santa Teresinha do Menino Jesus, Santa Maria Madalena; livros, como se dizia, edificantes para a forma\u00e7\u00e3o da gente. Santa Gema Galgan, aquela que tinha vis\u00f5es pavorosas sobre o inferno. Aquilo tudo era pavoroso, mas era t\u00e3o bonito tamb\u00e9m, e eu me saciava dessas coisas, era um alimento mesmo, era uma esp\u00e9cie de convite a uma ceia. Eu, toda vida, desde menina, tive essa pretens\u00e3o de ser santa, igual Santa Teresinha, queria morrer tuberculosa e fazia aqueles ensaios para uma tuberculose bem dram\u00e1tica, bem bonita, coisas de cabe\u00e7a de crian\u00e7a. O amor ao livro, aquele cheiro de biblioteca, de livro velho, misturado com a batina dos freis, o religioso. Eu li mais tarde os livros de uma vizinha, pois l\u00e1 em casa n\u00e3o tinha livro nenhum. Quando meu pai comprou um dicion\u00e1rio, eu j\u00e1 era casada. Os \u00fanicos livros eram aqueles escolares, mas eu tinha uma vizinha que tinha uma pequena biblioteca dentro de um guarda-lou\u00e7a, ela guardava aqueles livros para as mocinhas. Ent\u00e3o eu lia tudo e observava rigorosamente as proibi\u00e7\u00f5es a que a gente estava sujeita, por exemplo, eu n\u00e3o lia a revista <em>O Cruzeiro<\/em> daquele tempo, porque o frei dizia que era imoral e eu realmente obedecia, dava umas folheadas assim, mas com muita culpa. Foi esse o tipo de educa\u00e7\u00e3o que eu tive.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como era a sua rela\u00e7\u00e3o com seus pais?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Eu tive um presente divino que foi uma inf\u00e2ncia feliz, muito pobre do ponto de vista material. A gente era paup\u00e9rrimo, porque meu pai \u00e0s vezes ficava quatro meses sem receber pagamento. E, desde cedo, tamb\u00e9m tive muito contato com as greves dos ferrovi\u00e1rios. Tinha um av\u00f4 e uma av\u00f3 que ajudavam os filhos todos e ajudavam a gente tamb\u00e9m com o aluguel da casa, com a alimenta\u00e7\u00e3o, comprando muitas coisas para eu poder estudar, o meu uniforme, esse tipo de coisa. Mas, uma coisa era indubit\u00e1vel, era o amor dos meus pais, a gente tinha certeza disso. O meu pai era extremamente severo, \u00e0s vezes at\u00e9 injusto com rela\u00e7\u00e3o a castigos, mas, como a gente n\u00e3o duvidava do amor dele, aquilo n\u00e3o nos fez mal, isto \u00e9, ele estava sendo injusto, mas ele me amava. Eu tive pouco relacionamento com a minha m\u00e3e porque ela morreu quando eu tinha 14 anos. A lembran\u00e7a dela \u00e9 a lembran\u00e7a de uma mulher triste, melanc\u00f3lica, religiosa, severa. Era uma pessoa assim, mas eu n\u00e3o duvidava do amor dela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Repassando na mem\u00f3ria esses primeiros anos, voc\u00ea encontra a figura de um \u201cmestre\u201d, de um guia, de uma personalidade que a tenha marcado?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>N\u00e3o, professor, n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como e quando come\u00e7ou a escrever?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Eu me lembro da primeira poesia; o primeiro poema foi quando minha m\u00e3e morreu. Eu fiquei numa situa\u00e7\u00e3o muito prec\u00e1ria, tomando conta dos meus irm\u00e3os; eu s\u00f3 tinha 14 anos e fazia toda a lida da casa e ainda ia para a escola. Nessa \u00e9poca, eu j\u00e1 estava no gin\u00e1sio, cursando a 4\u00aa s\u00e9rie ginasial; era uma coisa assim muito pesada para mim. Lembro que eu tinha muito medo, meu pai sa\u00eda, \u00e0s vezes, \u00e0 noite. Quando ele come\u00e7ou a querer se casar de novo, eu fiquei apavorada; queria que os meninos ficassem acordados comigo, porque eu tinha medo, inclusive medo da minha m\u00e3e morta. Lembro que nessa situa\u00e7\u00e3o eu fiz uma poesia sobre a minha m\u00e3e, uma poesia horr\u00edvel falando da saudade da minha m\u00e3e. Fiz ainda um poema sobre um sineiro, um cara que tocava um sino para a apaixonada dele; eram aquelas irrup\u00e7\u00f5es rom\u00e2nticas, eu era adolescente, descobrindo tamb\u00e9m o corpo, a vida. Eu tinha um irm\u00e3o no semin\u00e1rio que me mandava recortes de jornal com poesias; ele tamb\u00e9m gostava de faz\u00ea-las. Ent\u00e3o a gente come\u00e7ou a fazer aquilo, achava bonito. Ele me mandou alguns poemas de Alphonsus Guimaraens, eu adorava aquela melancolia. Comecei a imitar aquilo, comecei a fazer sonetos na escola e a fazer um sucesso danado, porque tinha facilidade em rimar, em compor. Fazia sonetos moralistas, tal e qual ouvia nas prega\u00e7\u00f5es. Eu recitava nas festas de escola, gostava de falar, de recitar, gostava de ouvir a palavra, de ouvir a mim mesma falando um texto e, por a\u00ed afora, eu fui escrevendo. Depois escrevi num jornalzinho que tinha aqui, chamado <em>A Semana<\/em>, jornalzinho paroquiano, e num jornaleco pequeno que era da Juventude Franciscana. Entrei na Ordem Terceira de S\u00e3o Francisco e comecei a escrever poesias neste jornalzinho. Eu assinava Franciscana. Achava fant\u00e1stico. A \u00f3tica franciscana, a mundivid\u00eancia franciscana para mim \u00e9 um alimento at\u00e9 hoje. Eu bebia tudo de S\u00e3o Francisco e no franciscanismo. Ent\u00e3o comecei a fazer sucesso na minha rodinha. Quem vai fazer um texto sobre n\u00e3o sei o qu\u00ea? Quem vai fazer uma poesia sobre n\u00e3o sei o qu\u00ea? Era a Ad\u00e9lia, a Franciscana. Um belo dia eu fiz um poema. Frei Mateus, que na \u00e9poca era o diretor espiritual da Juventude Franciscana, um holand\u00eas sever\u00edssimo que vigiava tudo, viu o texto e falou para mim: \u201cVoc\u00ea sabe que \u00e9 poeta?\u201d. Aquilo me deu uma felicidade, eu sa\u00ed pulando de um p\u00e9 s\u00f3 de tanta alegria! E ele era uma pessoa que eu amava demais, que eu respeitava. Era como um pai que a gente tinha, e eu pensei: \u201cNossa Senhora, frei Mateus falou que eu sou poeta!\u201d. Fiquei toda entusiasmada, ele me deu um aval para eu continuar escrevendo. Mas hoje vejo que aquilo que eu fazia era mais uma imita\u00e7\u00e3o, eu n\u00e3o tinha ainda uma dic\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, uma voz pr\u00f3pria, eu imitava outros autores. Mas, depois de muito tempo, depois da morte do meu pai em 1972, \u00e9 que eu comecei a escrever. Em 1973, acredito que foi por a\u00ed, eu fiz um texto diferente de tudo aquilo que tinha feito; n\u00e3o era salmo, n\u00e3o estava imitando Guimar\u00e3es Rosa, nem Alphonsus Guimaraens, nem Manuel Bandeira. Era uma l\u00edrica, era a l\u00edrica que eu queria. Eu nunca publiquei esse poema, mas ele \u00e9 o marco do dia em que comecei a escrever com uma voz que eu reconheci como a minha. A fala, boa ou m\u00e1, era minha. Ent\u00e3o, da\u00ed por diante eu comecei a fazer poemas, um atr\u00e1s do outro, era <em>Bagagem<\/em> que eu estava escrevendo, e eu n\u00e3o sabia ainda. Aqui havia pessoas que liam, que diziam que estava muito bom, que eu precisava publicar. Mas foi talvez em 1974 ou 1975 que eu mandei os textos para o Affonso Romano, que fazia cr\u00edtica liter\u00e1ria na revista <em>Veja<\/em>. Ele gostou imensamente e falou para o Carlos Drummond que tinha recebido uns textos, aqui e ali, aquela hist\u00f3ria toda. Depois eu mandei para o pr\u00f3prio Drummond, sem falar nada, para ver o que acontecia, e ele foi extremamente generoso. Em uma das cr\u00f4nicas do <em>Jornal do Brasil<\/em>, ele falou que tinha uma pessoa em Divin\u00f3polis, que ele n\u00e3o conhecia, que estava fazendo versos, etc. A\u00ed um editor se interessou. Eu devo a ele ter sido descoberta, mas primeiro eu devo a S\u00e3o Francisco de Assis. Me lembro que, quando estava com o volume prontinho, falei: \u201cOh, meu Deus do c\u00e9u, S\u00e3o Francisco pode ajudar, se isto aqui for poesia mesmo, a encontrar um caminho\u201d. E achou, n\u00e9? Eu at\u00e9 botei na ep\u00edgrafe de <em>Bagagem<\/em> uma parafrasezinha do <em>C\u00e2ntico das Criaturas<\/em>: \u201cLouvado seja o Meu Senhor por essas letras e palavras, etc\u201d. Foi uma homenagem. Foi uma promessa que eu cumpri. A\u00ed as coisas seguiram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre o trabalho de cria\u00e7\u00e3o e a carreira paralela? Voc\u00ea disse que era professora; continua sendo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>N\u00e3o, fui professora de modo muito espor\u00e1dico, porque custei a descobrir que n\u00e3o tinha voca\u00e7\u00e3o para ser professora. Tenho cinco filhos e, quando eles eram pequenos, eu n\u00e3o trabalhava. Quando me casei, deixei de dar aulas, achei aquilo uma felicidade, uma riqueza; me senti a rainha do Sab\u00e1 n\u00e3o precisando trabalhar fora de casa. Dar aulas me cansava, toda vida me cansou extremamente, mas me sentia culpada de n\u00e3o estar trabalhando. Ent\u00e3o sa\u00eda e dizia assim: bom, agora eu dou conta. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, todo mundo d\u00e1 conta, eu tenho que dar conta tamb\u00e9m. E come\u00e7ava a trabalhar mais dois anos, mais tr\u00eas&#8230; Eu nem me aposentei, porque o tempo de trabalho n\u00e3o deu pra isso. Ent\u00e3o, nunca aconteceu de ter uma carreira paralela. Eu encaro a literatura como uma voca\u00e7\u00e3o, um dom do qual eu n\u00e3o posso dispor na hora que eu quero; acontece na hora que Deus quer, ent\u00e3o eu fico \u00e0 merc\u00ea disso. Quando descobri que podia parar de dar aulas, ficar sossegada, sem culpa, foi uma felicidade. Posso ficar em casa cuidando da vida e de outras coisas, mas gostava muito de dar aula, sou at\u00e9 uma pessoa com muita did\u00e1tica. Dar aulas por 40 minutos \u00e9 uma coisa, mas eu tinha cinco classes&#8230; era uma coisa infernal!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como surge um poema?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Eu acho que n\u00e3o dou conta de responder a isso n\u00e3o. Eu sempre escrevo assim que alguma coisa precisa ser expressa e isso nunca, jamais, \u00e9 uma decis\u00e3o minha. Eu nunca falo que hoje vou escrever, porque n\u00e3o acontece. Nesse sentido, sempre afirmo, e com toda a convic\u00e7\u00e3o, que, rigorosamente falando, o texto n\u00e3o \u00e9 meu. Isso pra mim \u00e9 tranquilo, \u00e9 de uma tranquilidade solar, porque, se ele fosse meu, eu j\u00e1 teria acabado <em>O homem da m\u00e3o seca<\/em>, que \u00e9 um romance que comecei com muita f\u00faria. Ent\u00e3o, a coisa pede para ser escrita e isso \u00e9 uma feliz experi\u00eancia, uma felicidade da qual tenho a maior saudade, porque eu escrevia, \u00e0s vezes, quatro poemas em um dia s\u00f3, quatro poemas bons, que depois publicava; achava-me uma fonte inesgot\u00e1vel. Agora, por\u00e9m, estou tendo outra experi\u00eancia: n\u00e3o sou dona e nem dou ordens \u00e0 poesia, sou serva dela e ela simplesmente se escondeu. Outro dia escrevi uma poesiazinha, fiquei de uma felicidade, mas foi uma colherzinha de ch\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Voc\u00ea quer um poema grande?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>N\u00e3o, n\u00e3o quero grande. Quero muitos poemas. O poema pode ser um haikai, mas quero muitos, e agora estou no deserto com uma bilhazinha d\u2019\u00e1gua deste tamanhinho assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Mas voc\u00ea poderia contar como surgiu um de seus textos?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Pois \u00e9, \u00e9 isso que estou dizendo, eu escrevo e n\u00e3o sei como \u00e9 que surge n\u00e3o. Desejo expressar aquilo. Quando vou fazer um texto, a minha \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 a fidelidade absoluta ao que eu estou sentindo. \u00c9 uma coisa t\u00e3o natural nesse sentido, \u00e9 uma natureza, \u00e9 como um sonho, como um fen\u00f4meno corporal, ps\u00edquico, ent\u00e3o eu n\u00e3o dou conta de ver, por exemplo, a elabora\u00e7\u00e3o do texto, porque parece que ele fica se fazendo, \u00e9 ele que se faz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Qual \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com a palavra?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>A palavra para mim \u00e9 a coisa mais \u00fatil que existe. Palavra \u00e9 coisa. Eu sou ruim, Giovanni, para dizer essas coisas. Eu vou frustrar a sua expectativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quando voc\u00ea fala em palavra como \u201ccoisa\u201d, quer dizer que voc\u00ea usa palavras concretas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>\u00c0s vezes a palavra entra no poema n\u00e3o pelo que ela significa, mas pelo puro som dela: <em>aranha<\/em>,<em> corti\u00e7a<\/em>,<em> p\u00e9rola<\/em> s\u00e3o belas coisas ou palavras belas? No poema <em>Em portugu\u00eas<\/em>, eu respondo exatamente ao que voc\u00ea est\u00e1 perguntando sobre as palavras. Palavra \u00e9 sentido. Por exemplo, se eu falo \u201cpapel\u201d, isso n\u00e3o significa nada; \u201ccadeira\u201d, \u201cgravador\u201d, \u201cx\u00edcara\u201d, \u201ccaf\u00e9\u201d s\u00e3o sons. Agora, as palavras \u201cpapel\u201d, \u201ccaf\u00e9\u201d ganham consist\u00eancia quando elas est\u00e3o poetizadas. No poema elas ganham densidade, concretude, sentido. Ent\u00e3o quando eu digo a palavra, eu estou dizendo o sentido. Eu entendi isso atrav\u00e9s de outra via. Quando voc\u00ea diz: \u201cO filho de Deus \u00e9 Verbo, Jesus Cristo \u00e9 Logos divino, palavra eterna\u201d. O que \u00e9 isso? Para mim \u00e9 sentido, o sentido, o sentido do ser, o sentido da exist\u00eancia. Ent\u00e3o, essa palavrinha corriqueira \u00e9 uma coisa que interessa pouco, s\u00f3 que eu tenho que me servir dela para atingir o <em>logos<\/em>. Eu digo esse mont\u00e3o de palavras s\u00f3 para voc\u00ea falar: \u201cAh, entendi!\u201d. Palavra \u00e9 quando voc\u00ea chega ao sentido, \u00e9 quando voc\u00ea entende. Escrevi em <em>Antes do nome<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cN\u00e3o me importa a palavra, esta corriqueira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quero \u00e9 o espl\u00eandido caos de onde emerge a sintaxe,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[&#8230;]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A palavra \u00e9 disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">foi inventada para ser calada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em momentos de gra\u00e7a, infreq\u00fcent\u00edssimos,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">se poder\u00e1 apanh\u00e1-la: um peixe vivo com a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Puro susto e terror.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Em seu espec\u00edfico trabalho criativo, prevalece a interrup\u00e7\u00e3o ou a continuidade?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>A continuidade. Eu fa\u00e7o quase tudo de uma vez s\u00f3. O poema sai inteiro, o texto vem inteiro, depois eu s\u00f3 fa\u00e7o cortes. Quando eu come\u00e7o a interromper demais, posso largar, porque o poema n\u00e3o presta, \u00e9 mau, \u00e9 ruim. Isso \u00e9 um processo muito pessoal, comigo acontece assim, h\u00e1 pessoas que fazem de outra forma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Existem momentos felizes ou ideais para escrever?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>O momento feliz \u00e9 quando a inspira\u00e7\u00e3o est\u00e1 cutucando a gente, como um aguilh\u00e3o num boi, essa \u00e9 a felicidade plena. Quando voc\u00ea est\u00e1 louco para escrever, \u00e9 a pura felicidade. Quando a coisa pede para ser dita, \u00e9 o Esp\u00edrito Santo querendo ser adorado, soprando no meu ouvido um hino lit\u00fargico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Por que voc\u00ea escreve?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Boa pergunta. \u00c9 necess\u00e1rio que eu escreva, acho que \u00e9 uma necessidade divina de mostrar a Sua face, o Esp\u00edrito quer ser adorado, ele quer ser visto. Deus precisa fatalmente mostrar a Sua face. A arte \u00e9 uma media\u00e7\u00e3o para a divindade. Ent\u00e3o, nesse caso, tenho que ser d\u00f3cil a esse desejo divino. N\u00e3o obedecer a isso \u00e9 pecar, \u00e9 um pecado capital, eu n\u00e3o sou dona disso, n\u00e3o posso falar: \u201cN\u00e3o escrevo mais\u201d. Isso seria o m\u00e1ximo do orgulho, ent\u00e3o tenho que escrever.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong>O<em>nde encontra est\u00edmulos para escrever?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Na vida. No absurdo e na maravilha da vida. \u00c9 t\u00e3o absurda, t\u00e3o pesada a vida, t\u00e3o maravilhosa, que n\u00e3o precisa sair de casa. \u00c9 s\u00f3 ficar quieto que voc\u00ea tem todos os est\u00edmulos. O pr\u00f3prio fato de existir j\u00e1 \u00e9 um absurdo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Voc\u00ea prefere escrever em situa\u00e7\u00f5es de alegria, de satisfa\u00e7\u00e3o, ou em situa\u00e7\u00f5es de intranquilidade, de tristeza?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Escrever \u00e9 uma alegria. Mesmo na maior tristeza, na maior melancolia. Se voc\u00ea pega o seu lapisinho, \u00e9 porque j\u00e1 est\u00e1 saindo da tristeza. Ningu\u00e9m, estando no inferno, \u00e9 capaz de pedir um l\u00e1pis e um papel, mas quando voc\u00ea come\u00e7a a escrever quer dizer que j\u00e1 est\u00e1 saindo do inferno, at\u00e9 para express\u00e1-lo. N\u00e3o tem import\u00e2ncia se voc\u00ea est\u00e1 feliz ou alegre, escrever \u00e9 sempre uma alegria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Qual \u00e9 o papel que o imprevisto desempenha no seu trabalho criativo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>N\u00e3o acredito no imprevisto, no acaso, n\u00e3o. Acredito numa ordena\u00e7\u00e3o inconsciente das coisas. Falar em inconsciente significa falar em uma ordena\u00e7\u00e3o divina de todo o conjunto do cosmos, eu inclu\u00edda, principalmente eu, que sou filha de Deus, sou humana. Ent\u00e3o, n\u00e3o acredito em acaso, porque se existir o acaso, independente da divindade, o acaso \u00e9 Deus e, ent\u00e3o, poderia ador\u00e1-lo tamb\u00e9m. N\u00e3o acredito em acaso. O que existe s\u00e3o coincid\u00eancias significativas, sincronicidade. S\u00e3o coisas que eu n\u00e3o explico pela l\u00f3gica, pois t\u00eam no seu substrato profundo uma liga\u00e7\u00e3o, uma explica\u00e7\u00e3o no sentido do mist\u00e9rio divino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>O cotidiano, Ad\u00e9lia, como influencia o seu trabalho de poeta?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Ele n\u00e3o influencia, ele \u00e9 o pr\u00f3prio trabalho. Porque a \u00fanica coisa que todo mundo tem \u00e9 s\u00f3 o cotidiano. N\u00f3s s\u00f3 temos isso. O meu dia s\u00f3 tem 24 horas e nessas 24 horas tenho que viver a minha condi\u00e7\u00e3o humana. Ent\u00e3o, \u00e9 s\u00f3 isso que tenho, e que acho que todo mundo tem, e isso \u00e9 a mis\u00e9ria, mas \u00e9 tamb\u00e9m o tesouro. Acho que a metaf\u00edsica mora aqui no cotidiano, esse \u00e9 o material da minha experi\u00eancia, esse \u00e9 o material da minha descoberta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>A profiss\u00e3o de escrever a ajudou ou a ajuda na descoberta de si pr\u00f3pria como mulher?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Sim, n\u00e3o tenho d\u00favida, porque \u00e0 medida que a gente vai escrevendo h\u00e1 realmente um desdobramento e um autoconhecimento. Decorre do escrever, um melhor conhecimento. Tanto que, quando eu estava escrevendo <em>Os componentes da banda<\/em>,num determinado cap\u00edtulo, eu falei: \u201cMeu Deus, n\u00e3o \u00e9 isso que eu ia falar, n\u00e3o\u201d. Eu mesma fiquei assustada com o que precisava ser dito, mas depois eu pensei: \u201cBom, ent\u00e3o \u00e9 assim que eu sou\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quando escreve, voc\u00ea percebe autocensuras, temores em se revelar, obst\u00e1culos?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>N\u00e3o, eu n\u00e3o gosto do que vejo, mas a fidelidade ao texto me obriga a falar a palavra certa, a dizer aquilo que deve ser dito, segundo o meu crit\u00e9rio, \u00e9 claro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Como foi o seu primeiro livro?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Foi um acontecimento, assim como um casamento na fam\u00edlia, um batizado, um nascimento. Para mim, teve o mesmo peso e tem at\u00e9 hoje a mesma densidade, porque foi uma coisa muito feliz, a cidade inteira ficou sabendo que o Drummond tinha falado na Ad\u00e9lia, que eu era conhecida, que todo mundo me conhecia e tudo. O Drummond falou no jornal que a poesia da Ad\u00e9lia \u00e9 boa, etc. O editor veio aqui, foi uma festa com doces, no clube, todos os parentes, as comadres, os conhecidos; foi, como estou dizendo a voc\u00ea, como um casamento. <em>Bagagem<\/em>, o primeiro, foi cercado de afetos, de afetos felizes, de alegria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Houve em sua vida uma encruzilhada, um acontecimento que a tenha marcado profundamente?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Houve sim, houve\u2026, mas eu n\u00e3o posso falar disso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Voc\u00ea, Ad\u00e9lia, n\u00e3o quer especificar e eu n\u00e3o vou insistir. Quero somente que responda a essa pergunta: quanto a essa mudan\u00e7a, essa op\u00e7\u00e3o, marcou a sua poesia?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Deixa eu ver. Nem quero que isso saia agora n\u00e3o. Tem muito tempo que eu n\u00e3o escrevo uma poesia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Voc\u00ea n\u00e3o escreve poesias, por qu\u00ea?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>\u00c9 isso. Eu n\u00e3o sei o que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Esta poesia que chega&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>N\u00e3o, ela nem chega, ficou no deserto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Houve, na sua vida de escritora, um acontecimento gratificante ou de grande frustra\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>A coisa mais gratificante que existe \u00e9 eu ter encontrado o caminho, desde o primeiro livro. Escrevo para ser lida, ent\u00e3o essa \u00e9 a primeira felicidade. E porque fui muito bem acolhida pela cr\u00edtica e pelos leitores. Tive uma frustra\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 bem uma frustra\u00e7\u00e3o, mas sim um sofrimento: publiquei doze poemas infelizes que n\u00e3o devia ter publicado. Nunca tinha me acontecido isso, eu achava que tinha muito faro, muita compet\u00eancia para ver a qualidade dos meus textos e a qualidade de textos alheios. Quando publiquei <em>A faca no peito<\/em>, um cr\u00edtico me chamou aten\u00e7\u00e3o. Sofri muito, durante mais de um ano, at\u00e9 perceber que ele tinha raz\u00e3o. Agora, foi publicada minha obra reunida de poesias, expurgada dos doze poemas. Passei vergonha!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quem \u00e9 que criticou os poemas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Felipe Fortuna, que faz cr\u00edtica liter\u00e1ria no <em>Jornal do Brasil<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>E voc\u00ea se convenceu?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Plenamente. Demorei, porque toca na sua vaidade. Pensava que n\u00e3o era poss\u00edvel, que tinha algum engano, mas, gra\u00e7as a Deus, fui capaz de perceber isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Qual \u00e9 o livro de outro autor que gostaria de ter escrito?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Eu queria ter escrito <em>Os Salmos<\/em>,<em> O livro de J\u00f3<\/em>,<em> Isa\u00edas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>A <\/em>B\u00edblia<em> toda?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>\u00c9, voc\u00ea sabe que \u00e9. N\u00e3o sou pretensiosa n\u00e3o, mas eu queria ter escrito <em>Isa\u00edas. <\/em>Oh! Que maravilha que \u00e9 <em>Isa\u00edas<\/em>, n\u00e3o \u00e9? Eu queria escrever como Guimar\u00e3es Rosa, Clarice, eu tenho inveja desse pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Dentre as palavras seguintes, escolha tr\u00eas e diga alguma coisa sobre elas: amor, cidade, poder, solid\u00e3o, solidariedade, prazer, viol\u00eancia, amizade, noite, sil\u00eancio.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong><em>Amor<\/em>, <em>noite<\/em>, <em>poder<\/em>. <em>Amor<\/em> \u00e9 a \u00fanica coisa que eu quero para mim e para todo mundo, sem amor n\u00e3o tem jeito, n\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o. Amor significa, em primeiro lugar, o amor de si, o amor que me convida ao autoconhecimento. Sem amor de si mesmo, n\u00e3o d\u00e1 pra amar ningu\u00e9m. Eu s\u00f3 posso oferecer para algu\u00e9m, coisa que eu tenho, se eu n\u00e3o me tenho a mim mesmo, n\u00e3o posso me relacionar com ningu\u00e9m. Ent\u00e3o eu descobri que o amor \u00e9, em primeiro lugar, isso, e a via pra isso \u00e9 o autoconhecimento. Amor \u00e9 o que eu quero, \u00e9 o que eu desejo, \u00e9 o que eu espero. <em>Poder<\/em> \u00e9 o que a gente precisa abrir m\u00e3o, mas abrir m\u00e3o de maneira mais radical poss\u00edvel. O poder at\u00e9 sobre as pr\u00f3prias ideias, deixar de segurar at\u00e9 os pr\u00f3prios pecados que a gente ama. A gente ama, \u00e0s vezes, de modo especial alguns pecados, alguns v\u00edcios. Ent\u00e3o, radicalmente, abrir m\u00e3o do poder quer dizer cair em uma entrega para um poder maior, que, no caso, continua sendo amor. E a outra coisa que eu escolho \u00e9<em> noite<\/em>. Gosto da noite, quando eu era adolescentezinha, comecei a fazer um poeminha, lembro at\u00e9 de um pedacinho dele: \u201cnoite, noite, (n\u00e3o sei o que l\u00e1), se n\u00e3o houvesse noite eu morreria\u201d. Lembro s\u00f3 desse verso. Naquele tempo, eu estava falando da noite, estava falando da noite mesmo. Hoje, eu tenho uma vis\u00e3o acrescentada: noite \u00e9 voltar ao inconsciente, ao escuro, \u00e0s origens, etc. A noite \u00e9 muito fascinante. Eu adoro o sol, mas sem noite n\u00e3o d\u00e1 n\u00e3o, tem que ter noite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Se algum editor lhe propusesse escrever com sal\u00e1rio fixo, voc\u00ea aceitaria?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Jamais, nunca! Porque eu teria que produzir. \u00c9 como fazer tijolo sem barro: teria que produzir o qu\u00ea e como?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quando escreve, voc\u00ea pensa nos leitores, nos cr\u00edticos?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>N\u00e3o, de jeito nenhum, n\u00e3o penso em nada. Eu quero s\u00f3 gozar aquela felicidade de estar escrevendo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Quanto pesa a publicidade no destino de um texto?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Acho que pesa imensamente, porque o autor hoje aparece em televis\u00e3o, \u00e9 entrevistado em televis\u00e3o, \u00e9 visto e conhecido. Hoje, os meios de comunica\u00e7\u00e3o facilitam a divulga\u00e7\u00e3o da imagem do autor e do seu livro. Acredito que isso pese, pode pesar mal e pode pesar bem: voc\u00ea pode promover mediocridades e pode tamb\u00e9m promover autores bons. Ela tem dois lados, e a gente tamb\u00e9m n\u00e3o deve se deixar empolgar e ser manipulado por essa coisa n\u00e3o; a gl\u00f3ria \u00e9 muito prec\u00e1ria tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Para finalizar essa entrevista, eu pe\u00e7o a Ad\u00e9lia Prado um autorretrato. Quem \u00e9 Ad\u00e9lia Prado?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Eu sou uma pessoa \u00e0 procura da pr\u00f3pria identidade, quero cada dia mais o autoconhecimento. Eu sou uma pessoa que come\u00e7o a experimentar a viver sem alguns medos que me oprimiram durante a minha vida, uma pessoa mais calma, mais tranquila, mais paciente. Quero isso, quero o autoconhecimento, quero fazer essa viagem pra dentro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>\u00c9 uma viagem po\u00e9tica tamb\u00e9m?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Essa a\u00ed est\u00e1 suposta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Voc\u00ea falou em temores que a oprimiram at\u00e9 agora, quais seriam?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Eu tive medo de tudo que voc\u00ea pode imaginar. Eu sou diplomada em medo. Desde medo de cobra, eletricidade, etc. Quando eu fiquei adolescente, tive fobias terr\u00edveis que me tiravam o prazer de viagens, de encontros, de passeios e de tudo quanto existe. Descubro mais tarde, \u00e0 medida que esse autoconhecimento avan\u00e7a. Por isso que eu falei para voc\u00ea que \u00e9 a coisa que mais desejo. Descubro que o meu medo de cobra, medo de eletricidade, medo de chuva, era medo de viver. E \u00e9 uma coisa misturada com uma intensa fome de viver. Era um inferno, um inferno vivo, Deus me livre! Era uma coisa terr\u00edvel, foi uma coisa terr\u00edvel durante muito tempo. Eu n\u00e3o sou uma pessoa melanc\u00f3lica, uma pessoa triste, mas permanentemente tive que lutar contra essas limita\u00e7\u00f5es. Mas, agora, eu descubro que alguns medos est\u00e3o indo embora, a maturidade tem essas vantagens. Uma velha medrosa fica muito feia tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>G.R.: <\/strong><em>Muito obrigado, Ad\u00e9lia Prado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A.P.: <\/strong>Eu \u00e9 que agrade\u00e7o a voc\u00ea demais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BINGEMER, Maria Clara Lucchetti (2003). Transcend\u00eancia e corporeidade: a experi\u00eancia de Deus segundo Ad\u00e9lia Prado. <em>Gragoat\u00e1<\/em>, Niter\u00f3i, n. 14, p. 89-107, jan.\/jun. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.uff.br\/gragoata\/article\/view\/33448\/19435\">https:\/\/periodicos.uff.br\/gragoata\/article\/view\/33448\/19435<\/a>. Acessado em: 19 dez. 2025<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CABA\u00d1AS, Teresa. (2011). As estrat\u00e9gias discursivas e a evolu\u00e7\u00e3o do sujeito po\u00e9tico feminino: de Ad\u00e9lia Prado a Maria L\u00facia Dal Farra.&nbsp;<em>Estudos De Literatura Brasileira Contempor\u00e2nea<\/em>, n. 36, p. 191-210. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.unb.br\/index.php\/estudos\/article\/view\/9718\">https:\/\/periodicos.unb.br\/index.php\/estudos\/article\/view\/9718<\/a>. Acessado em: 19 dez. 2025<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">OLIVEIRA, Cleide Maria de (2012). O poeta ficou cansado. <em>IpotesI<\/em>, Juiz de Fora, v. 16, n. 2, p. 183-200, jul.\/dez. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.ufjf.br\/index.php\/ipotesi\/article\/view\/25773\/14689\">https:\/\/periodicos.ufjf.br\/index.php\/ipotesi\/article\/view\/25773\/14689<\/a>. Acessado em: 19 dez. 2025<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SOUZA, Marina Maximiano Ferreira de (2025). <em>Cacos para um vitral<\/em>. <em>Pra\u00e7a Cl\u00f3vis:<\/em> mapeamento cr\u00edtico da literatura&nbsp;brasileira contempor\u00e2nea, Bras\u00edlia. 23 jan. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3647\">https:\/\/pracaclovis.com\/?p=3647<\/a>. Acessado em: 19 dez. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">* Apresenta\u00e7\u00e3o da autora feita por Giovanni Ricciardi na obra <em>Scrittori brasiliani. Testi e traduzioni<\/em>, N\u00e1poles: Tullio Pironti Editore, 2003.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">** Ela foi previamente publicada na obra <em>Biografia e cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Vol. 3: entrevistas com escritores de Minas Gerais. <\/em>Ouro Preto: UFOP, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"featured_media":8212,"template":"","meta":{"_acf_changed":true},"categories":[586,539,555],"estado":[214],"autoria":[250,248],"class_list":["post-8211","entrevista","type-entrevista","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-poesia","category-romance","estado-minas-gerais","autoria-autoriabranca","autoria-autoriafeminina"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/entrevista\/8211","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/entrevista"}],"about":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/entrevista"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8212"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8211"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8211"},{"taxonomy":"estado","embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Festado&post=8211"},{"taxonomy":"autoria","embeddable":true,"href":"https:\/\/pracaclovis.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fautoria&post=8211"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}