Uma questão do ENEM 2024 sobre A resistência, de Júlian Fuks — e o que acontece quando o próprio autor “erra” a pergunta sobre o próprio livro
Sobre esta proposta
Esta proposta parte de uma questão real do ENEM 2024 sobre o romance A resistência, de Júlian Fuks. O fato que abre a discussão é simples e surpreendente: o próprio autor do livro respondeu à questão e errou. Ele escolheu uma alternativa diferente do gabarito oficial — e depois escreveu publicamente sobre isso.
O objetivo não é resolver quem tem razão. É usar esse episódio para fazer os estudantes lerem o texto com mais atenção, perceberem como as escolhas de leitura se apoiam (ou não) nas palavras do texto e refletirem sobre uma pergunta que vale para qualquer obra: quem pode dizer o que um texto significa?
A proposta serve também como preparação para o ENEM: treina a habilidade de apoiar a leitura no texto, justificar escolhas e reconhecer pontos de vista — e vai além disso.
| PARA O PROFESSOR O segredo desta proposta é a ordem: não revele o erro do autor antes da hora. Deixe que os alunos respondam ao item sem saber da polêmica. A surpresa da revelação é o que abre a discussão.Não existe resposta certa para a pergunta final desta proposta. O que importa é que cada aluno sustente a posição com evidência do texto. Evite encerrar o debate com uma síntese sua — deixe a tensão em aberto.Atenção: confirme o gabarito oficial da questão no site do INEP antes de aplicar, pois gabaritos extraoficiais divulgados por cursinhos divergiram na época da prova. |
Experiência de leitura
A entrada é uma leitura silenciosa individual: cada aluno lê o trecho do ENEM e responde à questão como se estivesse fazendo a prova — sem comentário prévio do professor, sem discussão em grupo. O único pedido adicional é que o aluno escreva, ao lado da alternativa escolhida, uma frase explicando qual palavra ou trecho do texto sustenta a sua escolha.
Esse registro inicial é importante: ele vai ser retomado nas etapas seguintes e é o ponto de partida para a reflexão.
Percurso
Aula 1
Momento 1: Ler, responder e justificar
- Distribua o trecho do ENEM e peça leitura silenciosa (5 a 8 minutos).
- Cada aluno responde ao item e escreve a justificativa: qual palavra ou trecho do texto me fez escolher esta alternativa?
- Abra para a turma: quem escolheu A? Quem escolheu D? Registre no quadro as alternativas marcadas e os trechos citados — sem dizer qual está certa.
- Pergunte: o texto sustenta mais de uma leitura? Há palavras que apontam para alternativas diferentes ao mesmo tempo?
- Encerre a primeira aula sem revelar o gabarito. Peça que releiam o trecho em casa.
Momento 2: A revelação e o que fazemos com ela
- Abra revelando o gabarito oficial: A. Pergunte como a turma reagiu.
- Revele o segundo dado: gabaritos extraoficiais de diferentes cursinhos divergiram — alguns indicavam C.
- Revele o terceiro dado: Júlian Fuks respondeu ao item quando a questão circulou nas redes. Ele escolheu D — e depois escreveu um texto dizendo que havia errado uma pergunta sobre o próprio livro.
- Distribua ou projete o comentário de Fuks. Leitura compartilhada em voz alta.
- Conduza a conversa pelas quatro chaves abaixo.
- Registro final: cada aluno escreve um parágrafo de posicionamento (ver Chave D).
Chaves de leitura
As quatro chaves organizam a conversa interpretativa. Use-as como roteiro flexível — a ordem pode variar conforme o andamento da turma.
| A. AS PALAVRAS DO TEXTOO que o texto diz, exatamente?Peça que os alunos voltem ao trecho e sublinhem as palavras que sustentam a alternativa A e as palavras que sustentam a alternativa D. O objetivo é mostrar que as duas leituras têm apoio no texto.Perguntas para conduzir:— O narrador usa a expressão “tecnicidade no termo”. O que essa escolha de palavra faz? Que leituras ela autoriza?— Há alguma parte do trecho que só sustenta A? Alguma que só sustenta D? Ou as mesmas palavras abrem as duas ao mesmo tempo?O foco não é análise formal pela análise formal: é mostrar como as escolhas de linguagem produzem efeitos de sentido — e como esses efeitos é que permitem ou barram certas leituras. |
| B. POR QUE TRÊS FONTES CHEGARAM A RESPOSTAS DIFERENTES?A dúvida pode não ser erro — pode estar no próprio texto.Retome os três resultados: gabarito A, gabarito extraoficial C, autor em D. Pergunte: se o texto fosse simples de ler, por que fontes sérias chegaram a respostas diferentes?Perguntas para conduzir:— O texto deixa essa ambiguidade aberta de propósito, ou é um problema de imprecisão?— Fuks escreveu que não saberia explicar, com toda a convicção, o que há por detrás das convicções do narrador. O que isso diz sobre como textos literários funcionam?— Uma prova de múltipla escolha consegue capturar essa abertura — ou precisa fechá-la para funcionar? |
| C. O QUE ACONTECE QUANDO VOCÊ É CORRIGIDO?A experiência de ser marcado como errado também é material de análise.Retome os registros iniciais dos alunos. Pergunte: quem escolheu D e se sentiu errado quando o gabarito foi revelado? O que muda quando você descobre que o autor também escolheu D?Perguntas para conduzir:— O gabarito diz que A é a resposta certa. O autor diz que escolheu D. Isso significa que a prova errou? Que o autor não entende o próprio livro? Ou as duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo?— O que uma questão de múltipla escolha consegue testar sobre leitura literária? O que ela não consegue?Cuidado: o objetivo não é que os alunos concluam que a prova está sempre errada. É que percebam como diferentes situações de leitura produzem respostas diferentes. |
| D. QUEM PODE DIZER O QUE UM TEXTO SIGNIFICA? (obrigatória)Esta é a pergunta central — e não tem resposta fechada.Apresente as três vozes em disputa: o gabarito oficial (INEP), o autor (Fuks), os gabaritos alternativos. Inclua uma quarta: a dos próprios alunos.Pergunta para o registro final:”Na sua opinião, quem tem mais autoridade para dizer o que este trecho significa — o autor do livro, a banca do ENEM, outra fonte, ou o leitor? Justifique com pelo menos uma evidência do texto.”O que avaliar: não se a posição coincide com o gabarito, mas se está sustentada por evidência. Posições diferentes e bem fundamentadas são igualmente válidas.Esta chave é obrigatória: é ela que transforma a aula de treino de prova em discussão sobre leitura. Sem ela, as chaves anteriores ficam presas na análise do item. |
Condições de aplicação
A proposta é de natureza simples. Pode ser conduzida em sala de aula a partir de material impresso, com recorte da questão.
Conexão com a BNCC
Nesta proposta, são exploradas as seguintes competências específicas da BNCC da Área de Linguagens e suas tecnologias.
(EM13LGG101) Compreender e analisar processos de produção e circulação de discursos, nas diferentes linguagens, para fazer escolhas fundamentadas em função de interesses pessoais e coletivos.
(EM13LGG102) Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos discursos veiculados nas diferentes mídias, ampliando suas possibilidades de explicação, interpretação e intervenção crítica da/na realidade.
(EM13LGG303) Debater questões polêmicas de relevância social, analisando diferentes argumentos e opiniões, para formular, negociar e sustentar posições, frente à análise de perspectivas distintas.
Esta proposta treina diretamente as habilidades de Linguagens mais cobradas: identificar o ponto de vista do narrador, apoiar a leitura no texto e reconhecer como escolhas linguísticas produzem sentido. A diferença é que aqui o aluno entende por que essas habilidades importam — e não apenas pratica o movimento mecânico de resolver itens.
O mesmo desenho pode ser aplicado a outras questões de vestibular com textos literários contemporâneos, mantendo sempre a etapa de justificativa textual obrigatória.
Ampliação — se a turma quiser ir além
O caso de Fuks não é único. Em 2023, Caetano Veloso não soube responder a uma questão do ENEM sobre as próprias músicas. Vale comparar os dois episódios: por que isso acontece? O que revela sobre a diferença entre criar algo e analisá-lo?
Outra ampliação possível: trazer outros trechos de A resistência para ver como o narrador constrói a relação com o irmão adotado. A questão do ENEM recorta um fragmento; a obra inteira pode mudar (ou confirmar) a leitura do trecho.
Curadoria e repertório
- Prova do ENEM 2024, 1º dia, Linguagens — disponível em inep.gov.br.
- FUKS, Júlian. Lição de incerteza: errei no Enem uma pergunta sobre meu próprio livro. UOL/Ecoa, 9 nov. 2024.
- Para conhecer mais o livro: FUKS, Júlian. A resistência. Companhia das Letras, 2015. Romance em que o narrador reflete sobre o irmão adotado no contexto da ditadura argentina.
- Caso Caetano/ENEM 2023: buscar cobertura jornalística para a atividade de ampliação.
Referências
FUKS, Júlian. Lição de incerteza: errei no Enem uma pergunta sobre meu próprio livro. UOL/Ecoa, 9 nov. 2024.
FUKS, Júlian. A resistência. Companhia das Letras, 2015.